Botox no platisma (Nefertiti lift): como aplicar no pescoço
A toxina no platisma trata dois sinais do mesmo músculo: as bandas verticais do pescoço e a tração que ele exerce sobre a borda da mandíbula, apagando o contorno. A técnica é intramuscular superficial, a seleção é feita com o músculo em contração e o risco que precisa ser evitado é a toxina chegar à musculatura profunda do pescoço. O nome “Nefertiti lift” vem da segunda parte do tratamento: pontos ao longo da borda mandibular para devolver definição à linha do queixo até o ângulo.
O que é a proeminência do platisma
A literatura recente agrupa os dois sinais sob o nome platysma prominence. Na revisão de Trindade de Almeida e colaboradores (2025, Plastic and Reconstructive Surgery Global Open), ela é descrita como um sinal de envelhecimento do terço inferior e do pescoço, caracterizado sobretudo pelo embotamento da linha da mandíbula e por bandas verticais ao longo das margens anterior e posterior do músculo, de um lado ou dos dois. Os autores reúnem os dados sobre o incômodo que isso causa e o efeito na qualidade de vida, e defendem que o resultado consistente depende de três coisas: conhecer a anatomia do músculo, avaliar bem o paciente e dosar com cuidado.
A técnica de contorno mandibular foi descrita por Levy (2007, Journal of Cosmetic and Laser Therapy) com o nome de “Nefertiti lift”: toxina aplicada para que a pele da linha mandibular fique mais assentada, com o efeito visual de um “mini lifting”. O relato reúne 130 pacientes tratados com doses de até 20 U de onabotulinumtoxinA nessa região.
Anatomia que decide onde a agulha entra
O platisma é uma lâmina muscular fina, logo abaixo da pele e do tecido subcutâneo, que sobe do tórax, cruza a mandíbula e se mistura à musculatura do terço inferior da face. Por baixo dele, no pescoço, ficam músculos que participam da deglutição e da sustentação da cabeça. Essa relação explica a regra central da técnica: o alvo é raso.

Onde estão os pontos motores também importa. Yi e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) usaram coloração de Sihler em dissecções para separar a inervação motora da sensitiva: as placas motoras se concentram na porção superior do platisma, e o terço inferior é inervado sobretudo por ramos sensitivos. Com injeções guiadas por ultrassom em 40 pacientes, concentradas nos dois terços superiores do músculo e ao longo da borda mandibular, 92,5% tiveram redução de pelo menos dois graus das bandas dinâmicas na quarta semana, mantida até a 12ª. O consumo médio de toxina caiu 35% em relação aos protocolos históricos de músculo inteiro, os hematomas ficaram em 5% e não houve disfagia nem fraqueza do terço inferior.
Um estudo do mesmo grupo (Yi e colaboradores, 2026, J Cosmet Dermatol) comparou os dois desenhos no mesmo paciente: em 15 pacientes, um lado do pescoço recebeu a técnica convencional de 30 pontos e o outro, 15 pontos na porção superior. A melhora das bandas foi comparável, com metade dos pontos no lado direcionado.
Quem é candidato: o exame dinâmico vem antes do mapa
O exame é feito com o paciente sentado, em repouso e em contração máxima do platisma (careta mostrando os dentes inferiores, com o pescoço tenso). Registre a posição das bandas, a espessura de cada uma, a direção em que a pele se move e se a linha mandibular perde definição durante a contração.
Yi (2026, Journal of Craniofacial Surgery), num comentário clínico, propõe que o padrão de contração decide se o lifting com toxina funciona. No padrão reto, de vetor vertical, o platisma age como depressor sobre a borda mandibular, a comissura e o jowl, e enfraquecer esse vetor reequilibra os elevadores e melhora o contorno. No padrão curvo, de vetor posterior, as fibras podem estar ajudando a sustentar o tecido para trás; bloqueá-las sem critério pode render pouco efeito de lifting, colapso anterior de partes moles, mais volume submentual ou flacidez mais visível. A conclusão prática do autor: começar pelo exame dinâmico, não por uma grade fixa de pontos, e usar o ultrassom para confirmar o músculo superficial e a espessura das bandas quando houver dúvida.
Fica fora do alcance da toxina o que não é músculo: excesso de pele, gordura submentual e perda de suporte ósseo. Nesses casos, a toxina pode ter papel acessório, mas não resolve a queixa principal, e o paciente precisa ouvir isso antes da primeira aplicação.
Dose: o que a bula declara e o que os estudos usaram
Entre Botox, Dysport e Xeomin, só a bula americana do Botox Cosmetic traz dose declarada para bandas platismais, definida pelo número de bandas:
- uma banda de cada lado: 26 U, em 0,65 mL;
- uma banda de um lado e duas do outro: 31 U, em 0,78 mL;
- duas bandas de cada lado: 36 U, em 0,9 mL.
Os volumes correspondem à reconstituição única que essa bula declara, de 4 U por 0,1 mL (frasco de 100 U com 2,5 mL de soro fisiológico sem conservante). O detalhe da reconstituição está em diluição do Botox: volumes de soro e concentração por unidade. As bulas americanas do Dysport e do Xeomin não trazem indicação para o pescoço.
Fora da indicação de bula, com abobotulinumtoxinA, Joseph e colaboradores (2024, J Drugs Dermatol) testaram uma técnica em dois tempos em 20 mulheres com bandas moderadas a graves: 120 U ou 180 U de Dysport, com retoque opcional de 90 U, reconstituído na concentração mais alta prevista em bula (1,5 mL por frasco de 300 U) justamente para reduzir o volume injetado e o risco de difusão para os músculos vizinhos. As taxas de resposta no primeiro mês foram de 100% e 90%, e 3 pacientes tiveram fraqueza cervical posicional transitória.
Esses números mostram por que a marca precisa estar escrita no prontuário. As bulas declaram que as unidades de Botox, Dysport e Xeomin não são intercambiáveis entre si. Na prática, a formação do Dr. Thiago ensina uma conversão de referência — Botox para Dysport na razão de 1 para 2,5 e Botox para Xeomin na razão de 1 para 1 — e, na troca de marca, começar na dose equivalente ou um pouco abaixo e ajustar pela resposta do paciente. Por que a comparação entre marcas é tão discutida está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.
Técnica passo a passo
- Marque com o músculo contraído. Cada banda é marcada de cima para baixo enquanto o paciente sustenta a careta. Na linha da mandíbula, marque a borda óssea do mento até perto do ângulo.
- Pince a banda. Segurar a banda entre o polegar e o indicador afasta o músculo das estruturas profundas e ajuda a manter a agulha no plano certo.
- Injete raso. Os ensaios de fase 3 descrevem injeções intramusculares superficiais. A agulha entra pouco, no corpo da banda, e o depósito é pequeno; quanto maior o volume por ponto, maior a chance de a toxina se espalhar.
- Concentre os pontos onde o músculo é motor. As bandas são tratadas na porção alta, mais rica em placas motoras, e a linha mandibular recebe pontos superficiais ao longo da borda, sem avançar para a região do depressor do lábio inferior, perto do mento.
- Use o instrumento da toxina. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar — em toxina não é necessário — e nunca com microcânula.
- Registre. Marca, lote, reconstituição, número de bandas, pontos e unidades, com foto em repouso e em contração antes da aplicação.

O que esperar: os ensaios de fase 3
Dois ensaios randomizados com placebo usaram as doses da bula (26, 31 ou 36 U, conforme a gravidade de cada lado):
- Fabi e colaboradores (2025, J Am Acad Dermatol): no 14º dia, 32,3% dos tratados chegaram a grau mínimo ou leve com melhora de pelo menos dois graus, na avaliação do investigador e do participante, contra 1,9% no placebo; 56,9% (investigador) e 51,7% (participante) chegaram a grau mínimo ou leve. A incidência de eventos adversos foi semelhante à do placebo, e não houve disfagia nem fraqueza muscular.
- Shridharani e colaboradores (2025, Aesthetic Surgery Journal): na população com impacto psicossocial, 76,7% melhoraram pelo menos um grau na avaliação do investigador no 14º dia, contra 21,2% no placebo, e 41,0% melhoraram dois graus, contra 2,2%. A resposta continuou acima do placebo até o 120º dia, caindo aos poucos.
O estudo aberto de repetição de Mraz e colaboradores (2026, Plastic and Reconstructive Surgery) aplicou até 4 tratamentos com intervalo mínimo de 3 meses. A proporção de participantes com melhora de pelo menos um grau no 14º dia de cada ciclo foi de 83,6%, 92,0%, 90,0% e 98,0% na avaliação clínica.

Complicações: disfagia, fraqueza cervical e assimetria do lábio
A bula do Botox Cosmetic descreve a fraqueza do músculo injetado como o efeito esperado e alerta que músculos vizinhos também podem enfraquecer pela difusão da toxina. No pescoço, os vizinhos que importam são três grupos:
- Músculos da deglutição. Phothong e colaboradores (2017, J Cosmet Dermatol) relataram um caso de disfagia depois de toxina para bandas platismais. No estudo de repetição de Mraz, 4 participantes tiveram 6 eventos de interesse especial — 4 de disfagia e 2 de paresia facial —, todos leves, sem sinal de disseminação à distância e quase todos resolvidos até o fim do estudo.
- Músculos de sustentação da cabeça. No estudo de fase 2 de Rohrich e colaboradores (2025, Plastic and Reconstructive Surgery), o evento adverso relacionado à toxina mais frequente foi fraqueza da musculatura do pescoço, registrada no grupo de dose alta. No estudo com Dysport de Joseph, ela apareceu como fraqueza posicional transitória.
- Depressores do lábio inferior. Pontos baixos e mediais demais na linha mandibular, perto do mento, podem alcançar o depressor do lábio inferior e deixar o lábio assimétrico ao falar e sorrir.
A prevenção é a mesma em todos: injeção rasa, banda pinçada, volume pequeno por ponto, dose proporcional ao número de bandas e respeito ao padrão de contração. Paciente com queixa prévia de engolir, com fraqueza cervical ou com doença neuromuscular não deve receber a dose do pescoço antes de uma avaliação cuidadosa.
Retorno e repetição
O retorno de revisão entre 15 e 30 dias é o momento de comparar as fotos em contração e decidir sobre um retoque pontual, de dose pequena, só na banda em que ficou atividade. Novas aplicações respeitam o intervalo mínimo de 3 meses das bulas, o mesmo usado nos ciclos do estudo de Mraz. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Treino do pescoço na formação do Dr. Thiago
Ler o padrão do platisma em contração, pinçar a banda e calibrar a profundidade de um músculo de poucos milímetros são habilidades que se aprendem com a seringa na mão e alguém conferindo o plano. No módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a toxina é ensinada nos três terços da face e na região cervical. O sábado presencial tem demonstração comentada na parte teórica e, na parte prática, execução supervisionada pelo próprio aluno em paciente modelo, numa turma de até oito médicos, depois de um pré-work gravado obrigatório. O panorama do que separa a toxina básica da avançada está em melhor curso de toxina botulínica avançada; os outros módulos, em /cursos/.
Perguntas frequentes
Quantas unidades de botox vão no platisma?
A bula americana do Botox Cosmetic define a dose pelo número de bandas: 26 U com uma banda de cada lado, 31 U com uma banda de um lado e duas do outro, e 36 U com duas bandas de cada lado, na reconstituição de 4 U por 0,1 mL. As bulas americanas do Dysport e do Xeomin não trazem indicação para o pescoço.
O que é o Nefertiti lift?
É a técnica descrita por Levy em 2007 de aplicar toxina botulínica ao longo da borda da mandíbula para reduzir a tração do platisma sobre a linha do queixo e devolver definição ao contorno, com efeito visual de “mini lifting”. O relato original reúne 130 pacientes tratados com até 20 U de onabotulinumtoxinA nessa região.
Em que profundidade aplicar toxina no platisma?
Intramuscular superficial, como descrito nos ensaios de fase 3. O platisma é uma lâmina fina logo abaixo do subcutâneo; pinçar a banda entre os dedos afasta o músculo das estruturas profundas e ajuda a manter a agulha rasa.
Botox no pescoço pode causar dificuldade para engolir?
Pode, quando a toxina alcança a musculatura profunda do pescoço. Há relato de caso de disfagia após tratamento de bandas platismais e, no estudo de repetição de Mraz e colaboradores (2026), 4 participantes tiveram 6 eventos de interesse especial — 4 deles de disfagia —, todos leves e sem sinal de disseminação à distância. Injeção rasa, volume pequeno por ponto e dose proporcional ao número de bandas reduzem o risco.
Toda banda no pescoço responde à toxina?
Responde a banda muscular que aparece em contração. Excesso de pele, gordura submentual e perda de suporte ósseo não melhoram com toxina. O padrão de contração também pesa: no padrão curvo, de vetor posterior, o bloqueio indiscriminado pode piorar o contorno, segundo a proposta de um comentário clínico de Yi (2026) — o que reforça começar pelo exame dinâmico, e não por uma grade fixa.
De quanto em quanto tempo repetir a toxina no pescoço?
Não antes de 3 meses, intervalo mínimo das bulas. No estudo de Mraz e colaboradores, até 4 ciclos com pelo menos 3 meses entre eles mantiveram a melhora, com a proporção de respondedores no 14º dia entre 83,6% e 98,0% na avaliação clínica.
Referências
- Fabi S, Humphrey S, Biesman B, et al. Improvement of platysma prominence with onabotulinumtoxinA: Safety and efficacy results from a randomized, double-blinded, placebo-controlled phase 3 trial. J Am Acad Dermatol. 2025;92(2):285-291. · PMID 39442886 · DOI 10.1016/j.jaad.2024.10.027
- Shridharani SM, Ogilvie P, Couvillion M, et al. Improving Neck and Jawline Aesthetics With OnabotulinumtoxinA by Minimizing Platysma Muscle Contraction Effects: Efficacy and Safety Results in a Phase 3 Randomized, Placebo-Controlled Study. Aesthet Surg J. 2025;45(2):194-201. · PMID 39475141 · DOI 10.1093/asj/sjae220
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- Mraz D, Hanke CW, Papel I, et al. OnabotulinumtoxinA for Platysma Prominence: Safety and Efficacy Results from a Phase 3 Open-Label Repeat Treatment Study. Plast Reconstr Surg. 2026;158(1):78-87. · PMID 41329600 · DOI 10.1097/PRS.0000000000012629
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- Yi KH, Wong IKJ, Junawanto I, et al. Neural Distribution-Guided Botulinum Toxin Injection for Platysma muscle: A Split-Neck Comparison With Conventional Technique. J Cosmet Dermatol. 2026;25(1):e70645. · PMID 41517836 · DOI 10.1111/jocd.70645
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- Joseph JH, Foulad A, Hsue VB, et al. A Two-Stage Injection Technique and Dose-Ranging Study Using High-Dose AbobotulinumtoxinA for Treating Platysmal Bands. J Drugs Dermatol. 2024;23(1):1311-1318. · PMID 38206150 · DOI 10.36849/JDD.7537
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