Botox ou Xeomin: formulação, armazenamento e escolha
Botox e Xeomin entregam a mesma neurotoxina de 150 kDa ao terminal nervoso; a diferença está no que acompanha essa molécula dentro do frasco. No Botox, a toxina vem purificada até o complexo com as proteínas da hemaglutinina; no Xeomin, essas proteínas foram retiradas. Dessa escolha de fabricação saem as três perguntas que o injetor realmente faz: a dose de um vale a dose do outro, o frasco fechado precisa de geladeira e a formulação muda o risco de anticorpo. As respostas abaixo separam o que está na bula, o que os estudos mediram e o que é só argumento comercial.
O que vem dentro de cada frasco
Pelas bulas brasileiras e pelo registro de cada produto:
- Botox — onabotulinumtoxinA, da Allergan (empresa AbbVie). Cepa Hall, purificada até o complexo cristalino de proteína ativa com hemaglutinina. Excipientes: albumina humana e cloreto de sódio.
- Xeomin — incobotulinumtoxinA, da Merz (Alemanha). Toxina tipo A de 150 kDa, também de cepa Hall, isenta de complexos proteicos. Excipientes: sacarose e albumina humana.
As proteínas complexantes não participam do bloqueio. Numa revisão sobre a fabricação do Xeomin, Kerscher e colaboradores (2019, J Drugs Dermatol) — com autor ligado à Merz — lembram que, em condições fisiológicas, essas proteínas se separam da neurotoxina com meia-vida inferior a um minuto. O que age no músculo, nos dois frascos, é a mesma cadeia de 150 kDa.
O que muda é quanto dela cabe em cada unidade rotulada. Field e colaboradores (2018, Toxins), num estudo laboratorial assinado em parte por funcionários da Ipsen, mediram por ELISA a neurotoxina de 150 kDa por frasco: 0,90 ng no frasco de 100 U de Botox e 0,40 ng no frasco de 100 U de Xeomin. A mesma etiqueta de “100 U” carrega massas diferentes de toxina, porque cada fabricante define a sua unidade pelo próprio ensaio de potência. É o primeiro motivo pelo qual o número impresso no frasco não se transfere sozinho de uma marca para a outra.

Armazenamento: antes e depois de abrir
Esta é a diferença que mais pesa na logística do consultório.
Frasco fechado. A revisão de Bigalke, Frevert e Dressler (2026, J Neural Transm, com coautor ligado à Merz) resume que a guarda habitual das toxinas comerciais é de 2 a 8 °C e que incobotulinumtoxinA e daxibotulinumtoxinA admitem temperatura ambiente. Prager (2013, Clin Pharmacol) descreve o Xeomin como produto de prazo de validade longo, estável sem necessidade de refrigeração. O Botox fechado segue a regra da geladeira. Faixa exata de temperatura e validade: as da bula brasileira vigente de cada produto, lidas no frasco que você recebeu.
Frasco reconstituído. Aqui os dois se aproximam. A bula americana do Botox Cosmetic pede uso em até 24 horas, guardado entre 2 e 8 °C; a do Xeomin também fala em uso em até 24 horas. Ou seja, a vantagem do Xeomin é do estoque, não do frasco aberto: depois de entrar o soro, os dois têm o mesmo relógio curto.
Na rotina, isso se traduz em perguntas práticas. Quem atende em mais de um endereço, recebe por transportadora ou tem geladeira pequena ganha folga com um produto que não depende de cadeia fria até a abertura. Quem já trabalha com geladeira dedicada, termômetro e registro de temperatura pouco ganha com essa diferença. Em qualquer caso, o rótulo do frasco reconstituído leva data, hora e concentração.
Reconstituição: uma concentração ou uma tabela
A bula americana do Botox Cosmetic declara uma única concentração para uso estético, 4 U por 0,1 mL: frasco de 100 U com 2,5 mL, ou de 50 U com 1,25 mL, de cloreto de sódio a 0,9% sem conservante. A do Xeomin traz uma tabela de 0,25 a 8 mL, conforme o frasco (50, 100 ou 200 U), com concentrações de 40 U a 1 U por 0,1 mL — e a linha de 4 U por 0,1 mL aparece em três frascos diferentes. Para quem troca de um para o outro na mesma diluição, a coincidência ajuda: a 4 U por 0,1 mL, cada ponto de 4 U ocupa 0,1 mL nos dois. Os passos de cada frasco estão em diluição do Botox e em diluição do Xeomin.
A dose de um vale a dose do outro?
As duas bulas respondem que não. A brasileira do Botox afirma que “as unidades da atividade biológica de BOTOX® não podem ser comparadas ou convertidas em unidades de quaisquer outras toxinas botulínicas”; a do Xeomin, que “as unidades são específicas para o XEOMIN® e não são intercambiáveis”.
Na prática, quem troca de marca precisa de um ponto de partida, e a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência Botox : Xeomin = 1 : 1: na troca, a primeira sessão fica na dose equivalente ou levemente abaixo, e a revisão faz o ajuste. As duas coisas convivem — a bula proíbe tratar a unidade como moeda única; a prática precisa de um ponto de partida.
Os ensaios lado a lado sustentam o ponto de partida 1 : 1:
- Sattler e colaboradores (2010, Dermatol Surg) — 381 pacientes randomizados 3 : 1 para 24 U de cada produto na glabela. Quatro semanas depois, a resposta em contração máxima foi de 96,4% com incobotulinumtoxinA e 95,7% com onabotulinumtoxinA, pelos avaliadores independentes; não inferioridade confirmada.
- Kane e colaboradores (2015, Dermatol Surg) — 250 mulheres de 18 a 50 anos, 20 U de cada, duplo-cego. No primeiro mês, os dois produtos foram equivalentes dentro da margem de ±15% definida no protocolo, com eficácia semelhante até o quarto mês e satisfação acima de 90% nos dois grupos.
- Yeilding e Fezza (2015, Plast Reconstr Surg) — 45 pacientes em hemiface, mesma dose dos dois lados, tratando glabela, pés de galinha e fronte. Os dois reduziram as rugas; a redução dinâmica combinada foi estatisticamente maior do lado da onabotulinumtoxinA aos 3 dias, 2 semanas, 3 e 4 meses.
Leitura honesta do conjunto: na glabela, em ensaios grandes, a razão 1 : 1 entrega resultados equivalentes. No terço superior inteiro, um estudo em hemiface encontrou vantagem para a onabotulinumtoxinA na mesma dose. É exatamente por isso que a conversão abre a troca e a revisão fecha: o paciente que respondeu menos do lado novo recebe o ajuste no retorno, que no consultório do Dr. Thiago acontece entre 15 e 30 dias.
Formulação e anticorpo: o que se pode afirmar
Este é o ponto em que o marketing mais se adianta aos dados. Comecemos pela bula: a do Xeomin não promete menos anticorpos, maior duração nem proteção contra resistência. Ela adverte, como as outras, que doses muito frequentes de toxina botulínica podem resultar na formação de anticorpos. A bula do Botox é explícita sobre a mitigação: menor dose eficaz e intervalo maior entre aplicações. Quanto ao intervalo, a do Xeomin manda não retratar com frequência maior que a cada três meses, e a do Botox registra que aplicações mais frequentes que isso não foram avaliadas clinicamente.
Os estudos que compararam formulações apontam numa direção, com ressalvas importantes:
- Hefter e colaboradores (2023, J Neurol) testaram anticorpos neutralizantes em 645 pacientes neurológicos, com o ensaio de hemidiafragma de camundongo. Nenhum dos tratados exclusivamente com a preparação sem complexos desenvolveu anticorpo; entre os que começaram com preparação com complexos, 5,9% dos que mantiveram o mesmo produto (subgrupo com até 10 anos de tratamento) e 33,3% dos que trocaram de produto ao longo do tratamento eram positivos. É um estudo transversal, em doses e frequências de neurologia, muito acima das estéticas.
- Rahman e colaboradores (2025, Plast Reconstr Surg) analisaram 14 ensaios com 8.190 participantes tratados na glabela. Dose e frequência de tratamento foram os fatores-chave para o surgimento de anticorpos neutralizantes; entre os produtos, a incobotulinumtoxinA mostrou a menor probabilidade e a abobotulinumtoxinA a maior. É uma análise de modelagem sobre ensaios publicados, não um ensaio novo.

O que o injetor estético leva daí: a variável que ele controla é dose e intervalo, em qualquer marca. E, quando um paciente diz que “o efeito durou pouco”, a primeira hipótese é dose subdimensionada ou ponto fora do músculo; anticorpo neutralizante entra na conversa depois que dose, ponto e plano foram revisados. Escolher a marca não substitui usar a menor dose eficaz e respeitar os 3 meses.
Como escolher entre os dois
Modelo · Botox ou Xeomin — cinco perguntas antes de abrir o frasco
- O paciente já tem histórico? Resposta boa e duração esperada com um produto pedem que ele seja mantido; a troca se justifica por motivo concreto, não por novidade.
- Como é o estoque? Sem geladeira dedicada, com vários endereços ou recebimento irregular, o frasco que dispensa refrigeração antes de abrir reduz perda.
- Que concentração a área pede? Para o terço superior em pontos de 4 U, os dois resolvem com 4 U por 0,1 mL; para microdoses ou concentrações fora disso, a tabela do Xeomin oferece mais linhas prontas.
- A troca vai ser registrada? Marca, lote, diluição, unidades por ponto e mapa no prontuário — sem isso, a revisão não compara nada.
- O plano respeita dose e intervalo? Menor dose eficaz e reaplicação não antes de 3 meses valem para os dois e pesam mais no risco de anticorpo do que a marca.
Erros que se repetem nessa escolha
- Vender a formulação sem complexos como garantia contra resistência — a bula não faz essa promessa.
- Estender o prazo do reconstituído porque o frasco fechado aguentava temperatura ambiente — depois do soro, o relógio é o mesmo para os dois.
- Tratar o 1 : 1 como identidade — é ponto de partida; o estudo em hemiface mostra que a resposta pode diferir na mesma dose.
- Culpar anticorpo quando a dose foi pequena — revisar ponto, plano e unidades antes de qualquer hipótese imunológica.
- Encurtar o intervalo para “segurar” o efeito — dose frequente é o fator de risco que as bulas e os estudos apontam.
Sem conflito a declarar: o Dr. Thiago Perfeito não tem vínculo comercial com a Allergan/AbbVie, com a Merz nem com qualquer outro fabricante de toxina.
Onde a escolha se treina
Ler bula e ensaio dá o critério; saber se a troca funcionou exige ver o paciente antes, durante e na revisão. Na Pós Prática, coordenada pelo Dr. Thiago Perfeito — médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa —, as marcas do mercado brasileiro, a conversão entre elas, o início de ação, a duração e a diluição entram no módulo de Toxina e Preenchimento. O pré-work gravado vem antes; no sábado presencial, a parte teórica é a demonstração comentada e a parte prática é o aluno aplicando em paciente modelo, supervisionado, em grupo de no máximo 8 médicos. Os demais módulos estão em /cursos/ e outros textos para médicos em /cursos/blog/.

Perguntas frequentes
Botox e Xeomin têm a mesma toxina?
A neurotoxina que age no músculo é a mesma, tipo A, de 150 kDa e da cepa Hall. No Botox (Allergan/AbbVie) ela vem em complexo com a hemaglutinina, com albumina e cloreto de sódio; no Xeomin (Merz) chega sem as proteínas complexantes, tendo sacarose e albumina como excipientes.
1 unidade de Botox equivale a 1 de Xeomin?
Como referência de partida, sim: a formação do Dr. Thiago usa Botox : Xeomin = 1 : 1, iniciando na dose equivalente ou levemente abaixo e ajustando na revisão. As bulas dos dois declaram que as unidades não são intercambiáveis, e um estudo em hemiface encontrou resposta diferente na mesma dose — por isso a conversão é ponto de partida, não identidade.
O Xeomin pode ficar fora da geladeira?
Antes da abertura, sim: revisões descrevem o incobotulinumtoxinA como uma das poucas toxinas que dispensam a guarda de 2 a 8 °C — a faixa e a validade a seguir são as da bula brasileira do seu frasco. Com o soro dentro, a bula americana pede uso em até 24 horas, o mesmo prazo do Botox reconstituído.
Xeomin dá menos resistência que Botox?
A bula do Xeomin não faz essa promessa. Um estudo em pacientes neurológicos (Hefter, 2023) e uma modelagem de ensaios em glabela (Rahman, 2025) associaram a formulação sem complexos a menos anticorpos neutralizantes; a mesma modelagem apontou dose e frequência como os fatores-chave. Menor dose eficaz e intervalo mínimo de 3 meses valem para qualquer marca.
Qual dura mais, Botox ou Xeomin?
No ensaio de Kane e colaboradores (2015), com 20 U de cada produto na glabela de 250 mulheres, a eficácia foi semelhante até o quarto mês. Num estudo em hemiface do terço superior (Yeilding e Fezza, 2015), a onabotulinumtoxinA teve redução maior na mesma dose aos 3 e 4 meses. No consultório do Dr. Thiago, o efeito da toxina na face dura de 3 a 4 meses, com revisão entre 15 e 30 dias.
Dá para trabalhar com a mesma concentração nos dois?
Pode chegar à mesma concentração. A bula americana do Botox Cosmetic declara 4 U por 0,1 mL (100 U com 2,5 mL); a do Xeomin tem essa mesma concentração na tabela, entre outras. O volume de soro depende do tamanho do frasco.
Referências
- Sattler G, Callander MJ, Grablowitz D, et al. Noninferiority of incobotulinumtoxinA, free from complexing proteins, compared with another botulinum toxin type A in the treatment of glabellar frown lines. Dermatol Surg. 2010;36 Suppl 4:2146-2154. · PMID 21134045 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2010.01706.x
- Kane MA, Gold MH, Coleman WP 3rd, et al. A Randomized, Double-Blind Trial to Investigate the Equivalence of IncobotulinumtoxinA and OnabotulinumtoxinA for Glabellar Frown Lines. Dermatol Surg. 2015;41(11):1310-1319. · PMID 26509943 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000531
- Yeilding RH, Fezza JP. A Prospective, Split-Face, Randomized, Double-Blind Study Comparing OnabotulinumtoxinA to IncobotulinumtoxinA for Upper Face Wrinkles. Plast Reconstr Surg. 2015;135(5):1328-1335. · PMID 25919246 · DOI 10.1097/PRS.0000000000001255
- Field M, Splevins A, Picaut P, et al. AbobotulinumtoxinA (Dysport), OnabotulinumtoxinA (Botox), and IncobotulinumtoxinA (Xeomin) Neurotoxin Content and Potential Implications for Duration of Response in Patients. Toxins (Basel). 2018;10(12):535. · PMID 30551641 · DOI 10.3390/toxins10120535
- Kerscher M, Wanitphakdeedecha R, Trindade de Almeida A, Maas C, Frevert J. IncobotulinumtoxinA: A Highly Purified and Precisely Manufactured Botulinum Neurotoxin Type A. J Drugs Dermatol. 2019;18(1):52-57. · PMID 30681794
- Hefter H, Rosenthal D, Jansen A, et al. Significantly lower antigenicity of incobotulinumtoxin than abo- or onabotulinumtoxin. J Neurol. 2023;270(2):788-796. · PMID 36195775 · DOI 10.1007/s00415-022-11395-2
- Rahman E, Carruthers JDA, Rao P, et al. Predictive Modeling of Immunogenicity to Botulinum Toxin A Treatments for Glabellar Lines. Plast Reconstr Surg. 2025;155(4):676e-688e. · PMID 39287793 · DOI 10.1097/PRS.0000000000011748
- Prager W. Differential characteristics of incobotulinumtoxinA and its use in the management of glabellar frown lines. Clin Pharmacol. 2013;5:39-52. · PMID 23516136 · DOI 10.2147/CPAA.S37582
- Bigalke H, Frevert J, Dressler D. Therapeutic botulinum toxin preparations: an update. J Neural Transm (Vienna). 2026;133(6):965-969. · PMID 42084637 · DOI 10.1007/s00702-026-03121-3
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