Diluição do Xeomin: reconstituição e armazenamento
Toxina botulínica

Diluição do Xeomin: reconstituição e armazenamento

O Xeomin é a toxina cuja bula americana mais ajuda na diluição: em vez de um volume de soro, ela traz uma tabela inteira, frasco por frasco, com a concentração que cada volume produz. Isso não deixa a escolha livre — deixa explícita. O injetor escolhe a concentração que a área pede, encontra a linha certa e registra o resultado; o que não pode é decorar um volume e aplicá-lo a qualquer frasco.

Das três toxinas cujas bulas americanas comparamos nesta biblioteca — Botox, Dysport e Xeomin —, o Xeomin é a única que publica um leque completo de concentrações. A bula americana do Xeomin traz uma tabela inteira de reconstituição, com volumes de soro de 0,25 a 8 mL e concentrações de 40 U a 1 U por 0,1 mL, conforme o frasco. A pergunta deixa de ser “qual diluição se usa” e passa a ser “qual concentração esta área pede, e qual linha da tabela me leva até ela”.

O que é o Xeomin, pela bula brasileira

O Xeomin é toxina botulínica tipo A (incobotulinumtoxinA) de 150 kDa, isenta de complexos proteicos. Os excipientes são sacarose e albumina humana. É fabricado pela Merz Pharma GmbH & Co. KGaA, na Alemanha, e registrado no Brasil pela Merz Farmacêutica Comercial, com registro MS 1.8802.0001 e bula aprovada pela Anvisa em 05/02/2025.

A ausência de complexos proteicos é um fato de composição declarado em bula — e só isso. A bula do Xeomin não promete menos anticorpos, maior duração nem proteção contra resistência; ao contrário, adverte, como as outras, que doses muito frequentes de toxina botulínica podem resultar na formação de anticorpos. O que reduz esse risco é usar a menor dose eficaz e respeitar o intervalo entre aplicações, não escolher a marca.

Junção neuromuscular — local de ação da toxina botulínica tipo A — Dr. Thiago Perfeito
Terminal nervoso sobre a placa motora, com a vesícula de acetilcolina em destaque. É aí que qualquer toxina tipo A age, incluindo a incobotulinumtoxinA; a diluição não muda o mecanismo, muda o volume em que a dose chega ao músculo.

A tabela de reconstituição da bula americana

Os números abaixo vêm da tabela de volumes de diluente da bula americana do Xeomin (Prescribing Information da Merz), sempre com cloreto de sódio 0,9% sem conservante. Para o frasco comprado aqui, quem manda é a bula brasileira vigente: é nela que se confere a apresentação registrada e o volume de soro antes da primeira punção. Cada célula mostra quantas unidades ficam em 0,1 mL; o traço indica volume que a bula não lista para aquele frasco.

Soro adicionadoFrasco de 50 UFrasco de 100 UFrasco de 200 U
0,25 mL20 U / 0,1 mL——
0,5 mL10 U / 0,1 mL20 U / 0,1 mL40 U / 0,1 mL
1 mL5 U / 0,1 mL10 U / 0,1 mL20 U / 0,1 mL
1,25 mL4 U / 0,1 mL8 U / 0,1 mL16 U / 0,1 mL
2 mL2,5 U / 0,1 mL5 U / 0,1 mL10 U / 0,1 mL
2,5 mL2 U / 0,1 mL4 U / 0,1 mL8 U / 0,1 mL
4 mL1,25 U / 0,1 mL2,5 U / 0,1 mL5 U / 0,1 mL
5 mL1 U / 0,1 mL2 U / 0,1 mL4 U / 0,1 mL
8 mL—1,25 U / 0,1 mL2,5 U / 0,1 mL

A tabela é só a mesma conta repetida: unidades do frasco ÷ mL de soro = unidades por mL; dividido por dez, unidades por 0,1 mL. Ela existe para que ninguém precise fazer a conta de cabeça com o paciente deitado.

Como ler a tabela sem errar

Escolha primeiro a concentração; o volume de soro sai do tamanho do frasco. A concentração de 4 U por 0,1 mL — em que cada ponto de 4 U descrito na bula ocupa exatamente 0,1 mL — aparece em três linhas diferentes: 1,25 mL no frasco de 50 U, 2,5 mL no de 100 U e 5 mL no de 200 U. Quem decora “Xeomin se dilui em 2,5 mL” e pega um frasco de 50 U entrega metade das unidades que acha que está entregando (2 U por 0,1 mL); com um frasco de 200 U, o dobro (8 U por 0,1 mL).

A concentração também define quanto pesa cada marca da seringa. Na de tuberculina, a menor marca costuma ser 0,01 mL, e o valor dela em unidades muda bastante ao longo da tabela:

Concentrações altas pedem pouco volume e leitura muito cuidadosa; concentrações baixas toleram melhor o erro de leitura, mas levam mais líquido a cada ponto, e o volume influencia até onde a toxina se espalha.

Doses estéticas da bula e o volume que elas ocupam

A bula americana do Xeomin descreve o terço superior em pontos de 4 U, com dose máxima de 64 U quando glabela, fronte e linhas cantais laterais são tratadas no mesmo dia. Na concentração de 4 U por 0,1 mL, cada ponto ocupa 0,1 mL e a conta do volume é imediata:

ÁreaPontos (bula americana)DoseVolume a 4 U / 0,1 mL
Glabela5 pontos de 4 U: 2 em cada corrugador, 1 no prócero20 U (dose máxima recomendada)0,5 mL
Fronte, sempre com a glabela5 pontos de 4 U no frontal, em linha horizontal, a pelo menos 2 cm da borda orbital20 U (40 U com a glabela)0,5 mL (1 mL com a glabela)
Linhas cantais laterais3 pontos de 4 U por lado no orbicular lateral24 U (12 U por lado)0,6 mL
Terço superior completoas três áreas no mesmo diaaté 64 U1,6 mL

O texto da bula acrescenta a técnica. Fronte só junto com glabela: é a forma que o fabricante descreve para diminuir o risco de a sobrancelha cair. Nas cantais laterais, o primeiro ponto fica na extensão horizontal do canto lateral, cerca de 1 cm lateral à borda orbital óssea, e os outros dois cerca de 1 cm acima e abaixo dele, sempre com o bisel voltado para cima e apontado para fora do olho; a bula pede evitar a injeção muito perto do zigomático maior, para não provocar ptose do lábio. O retratamento não deve ser mais frequente que a cada três meses.

Músculo frontal e depressores da glabela — anatomia para aplicação de Xeomin — Dr. Thiago Perfeito
O frontal, em destaque, eleva a sobrancelha; corrugador, prócero e orbicular, em cinza, a abaixam. Os pontos frontais a pelo menos 2 cm da borda orbital e o tratamento junto com a glabela protegem esse equilíbrio.

Esses esquemas foram testados em ensaios controlados. No estudo de fase III de Carruthers e colaboradores (2013, Dermatol Surg), 276 pacientes com linhas glabelares moderadas a graves foram randomizados 2:1 para 20 U de incobotulinumtoxinA ou placebo, com superioridade significativa no dia 30. No ensaio de Kerscher e colaboradores (2015, Dermatol Surg), 105 pacientes receberam de 54 a 64 U no terço superior (20 U na glabela, 10 a 20 U na fronte, 24 U nas cantais laterais) e 51 receberam placebo; no dia 30, a resposta na glabela foi de 84,5% contra 0,0%. Houve dois casos de ptose palpebral leve no grupo tratado.

A diluição muda o resultado?

Com a mesma dose em unidades, os estudos com Xeomin mostram eficácia semelhante em diluições muito diferentes. Muti e Basso (2017, J Clin Aesthet Dermatol) trataram linhas cantais laterais em 40 mulheres de 40 a 50 anos: num grupo, o frasco de 50 U foi reconstituído com 1,60 mL de soro; no outro, com 0,55 mL. A melhora média no primeiro mês foi de 2,0 e 1,8 pontos na escala da Merz, sem diferença significativa de eficácia nem de tolerabilidade em nenhum momento. Os dois volumes do estudo não estão na tabela da bula, e o primeiro autor declara ter sido investigador e palestrante da Merz.

Barbarino e colaboradores (2021, J Clin Aesthet Dermatol) testaram o outro extremo: Xeomin em alta diluição, com doses menores que as da bula — 15 U na glabela em 4 pontos, 10 U no restante da fronte em 10 pontos e 5 U nas cantais laterais em 3 pontos por olho —, em 15 mulheres. No primeiro mês, 91,2% foram avaliadas pelo médico como muito melhoradas; 57,6% continuavam ao menos melhoradas aos seis meses, sem eventos adversos relacionados ao tratamento. Os autores declaram vínculo de consultoria com a Merz. É um esquema fora da bula, útil para entender o raciocínio de quem busca relaxar sem paralisar.

Reconstituição passo a passo

  1. Identifique o frasco: 50, 100 ou 200 U, lote e validade. O tamanho do frasco decide o volume de soro.
  2. Escolha a concentração pela área a tratar e localize a linha correspondente na tabela da bula.
  3. Use o diluente da bula: cloreto de sódio 0,9% sem conservante. Qualquer outro líquido fica fora da bula.
  4. Carregue o volume exato em seringa graduada, conferindo com o olho na altura do êmbolo.
  5. Faça a antissepsia da rolha e espere secar.
  6. Injete o soro devagar pela parede do frasco, sem jato direto sobre o pó.
  7. Dissolva com movimento circular suave até a solução ficar sem resíduo.
  8. Carregue as seringas de aplicação com a dose de cada ponto e elimine as bolhas.
  9. Rotule o frasco com data, hora, volume de soro e concentração final.
Reconstituição do Xeomin — soro escorrendo pela parede do frasco de toxina liofilizada — Dr. Thiago Perfeito
O soro desce pela parede interna até o pó liofilizado. No frasco de 100 U, 2,5 mL de soro resultam em 4 U por 0,1 mL: cada ponto de 4 U descrito na bula americana ocupa, então, 0,1 mL.

Armazenamento: antes e depois de reconstituir

Pela bula americana, o Xeomin reconstituído deve ser usado em até 24 horas. A condição de guarda nesse intervalo, e a do frasco ainda fechado, estão descritas na bula; no Brasil, valem as da bula vigente, que o injetor deve ler para o produto que tem na mão. O que não muda de uma bula para outra é a regra de rastreabilidade: frasco reconstituído sem data e hora no rótulo é frasco de prazo desconhecido.

A literatura testou cenários além da bula. Soares e colaboradores (2015, Dermatol Surg) fizeram um estudo randomizado, duplo-cego, em hemiface: 21 participantes receberam 10 U em cada canto lateral, de um lado com Xeomin recém-reconstituído e do outro com Xeomin reconstituído e guardado a 25 °C por uma semana. Em nenhuma das visitas, de 2 semanas a 4 meses, houve diferença estatística na taxa de resposta nem na duração do efeito. Na revisão de Trindade de Almeida, Secco e Carruthers (2011, Dermatol Surg), a literatura sugere que as toxinas são mais resistentes à degradação do que se imaginava, e várias precauções de manuseio são descritas como restritivas demais.

Esses dados não mudam a rotina, que segue a bula. Eles têm uso em outro momento: diante de um frasco esquecido fora da geladeira ou de um paciente com efeito aquém do esperado, ajudam a ordenar as hipóteses — dose, ponto, plano e técnica costumam pesar mais do que a guarda.

Por que não existe conversão de Xeomin para outra marca

A bula brasileira do Xeomin declara que as unidades são específicas para o produto e não são intercambiáveis. As bulas do Botox e do Dysport dizem o mesmo das unidades delas. Trocar de marca é prescrever de novo, em unidades da marca nova e pela bula dela. A reconstituição do Dysport está em Diluição do Dysport: como reconstituir conforme a bula, e as diferenças entre toxinas que importam para quem injeta, em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

Erros comuns na diluição do Xeomin

O Dr. Thiago Perfeito declara não ter relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde a conta vira técnica

A tabela se aprende no papel; a mão que lê a seringa a 20 U por 0,1 mL sem errar uma marca se treina com paciente. Na Pós Prática, conduzida pelo Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o aluno chega ao sábado presencial depois de um pré-work gravado obrigatório e aplica em paciente modelo sob supervisão, numa turma que não passa de 8 médicos. Toxina — farmacologia, diluição e mapa de pontos — fica no módulo de Toxina e Preenchimento; os demais estão em /cursos/, e outros textos da biblioteca para médicos em /cursos/blog/.

Aula prática de injetáveis com paciente modelo — Pós Prática — Dr. Thiago Perfeito
Aula prática da Pós Prática: aplicação de toxina na glabela de paciente modelo, com as alunas acompanhando de perto o ponto de entrada da agulha.

Perguntas frequentes

Qual a diluição do Xeomin conforme a bula?

A bula americana do Xeomin traz uma tabela completa: com cloreto de sódio 0,9% sem conservante, o frasco de 100 U reconstituído com 2,5 mL fica com 4 U por 0,1 mL; com 1 mL, 10 U por 0,1 mL; com 5 mL, 2 U por 0,1 mL, entre outras opções. No Brasil, o volume que vale é o da bula brasileira vigente (registro MS 1.8802.0001).

Quantas unidades de Xeomin há em 0,1 mL?

Depende do frasco e do volume de soro: unidades do frasco ÷ mL de soro, dividido por dez. Na tabela da bula americana, vai de 40 U por 0,1 mL (frasco de 200 U com 0,5 mL) a 1 U por 0,1 mL (frasco de 50 U com 5 mL).

Por quanto tempo o Xeomin reconstituído pode ser usado?

Pela bula americana, em até 24 horas após a reconstituição. A condição de guarda nesse intervalo e a do frasco fechado são as descritas na bula vigente do produto.

Diluir mais o Xeomin diminui o efeito?

Não, se a dose em unidades for mantida. No estudo de Muti e Basso (2017), o frasco de 50 U reconstituído com 1,60 mL ou com 0,55 mL produziu melhora semelhante nas linhas cantais laterais, sem diferença significativa. O que muda com mais volume é o espaço que a solução ocupa a cada ponto.

O Xeomin forma menos anticorpos por não ter complexos proteicos?

A bula não faz essa promessa. Ela declara a ausência de complexos proteicos como dado de composição e adverte que doses muito frequentes de toxina botulínica podem resultar na formação de anticorpos. A prevenção é dose eficaz mínima e intervalo de pelo menos três meses.

Qual a dose máxima de Xeomin no terço superior?

Pela bula americana, 64 U quando glabela (20 U), fronte (20 U) e linhas cantais laterais (24 U) são tratadas no mesmo dia. Na concentração de 4 U por 0,1 mL, isso corresponde a 1,6 mL.

Dá para converter a dose de Botox ou Dysport em Xeomin?

Não. A bula do Xeomin declara que suas unidades são específicas do produto e não intercambiáveis, e as bulas das outras toxinas dizem o mesmo. Trocar de marca é prescrever de novo, pela bula da marca nova.

Referências

  1. Carruthers A, Carruthers J, Coleman WP 3rd, et al. Multicenter, randomized, phase III study of a single dose of incobotulinumtoxinA, free from complexing proteins, in the treatment of glabellar frown lines. Dermatol Surg. 2013;39(4):551-558. · PMID 23379292 · DOI 10.1111/dsu.12100
  2. Kerscher M, Rzany B, Prager W, et al. Efficacy and Safety of IncobotulinumtoxinA in the Treatment of Upper Facial Lines: Results From a Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Phase III Study. Dermatol Surg. 2015;41(10):1149-1157. · PMID 26359996 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000450
  3. Muti GF, Basso M. Treatment of Lateral Periorbital Lines with Different Dilutions of IncobotulinumtoxinA. J Clin Aesthet Dermatol. 2017;10(9):27-29. · PMID 29344324
  4. Barbarino SC, van Loghem JAJ, Burgess CM, Corduff N. Evaluating the Effect of Incobotulinumtoxin A for Glabellar, Forehead, and Crow's Feet Lines Using A High Dilution. J Clin Aesthet Dermatol. 2021;14(8):34-40. · PMID 34840655
  5. Soares DJ, Dejoseph LM, Zuliani GF, et al. Impact of Postreconstitution Room Temperature Storage on the Efficacy of IncobotulinumtoxinA Treatment of Dynamic Lateral Canthus Lines. Dermatol Surg. 2015;41(6):712-717. · PMID 25973563 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000365
  6. Trindade De Almeida AR, Secco LC, Carruthers A. Handling botulinum toxins: an updated literature review. Dermatol Surg. 2011;37(11):1553-1565. · PMID 21777338 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2011.02087.x
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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