Botox para bruxismo: indicação, pontos e acompanhamento
Toxina botulínica

Botox para bruxismo: indicação, pontos e acompanhamento

O paciente chega dizendo que range os dentes e quer botox. A toxina ajuda — mas não do jeito que ele imagina. Os ensaios com polissonografia mostram que ela reduz a força de cada aperto, não o número de episódios. Saber isso muda a triagem, a escolha dos músculos, a conversa sobre expectativa e o plano de acompanhamento, que no bruxismo dura anos e passa pelo dentista.

No bruxismo, a toxina botulínica reduz a força com que o masseter (e, quando incluído, o temporal) contrai durante os episódios — e é isso que alivia dor, cansaço e sobrecarga dentária. Ela não impede o episódio de acontecer. Por isso o tratamento começa por um diagnóstico que não é do injetor estético sozinho: o bruxismo é avaliado por dentista e, no do sono, pela medicina do sono, e a toxina entra como adjuvante. É uso fora da bula nas três marcas, com unidades que vêm de ensaio clínico.

O que se está tratando: as definições atuais

O consenso internacional separa duas atividades dos músculos mastigatórios: o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília, que é o apertar ou ranger durante o dia. Na atualização de Verhoeff e colaboradores (2025, J Oral Rehabil), feita em reunião de especialistas convidados, o adendo "em indivíduos de resto saudáveis" foi retirado das duas definições, e o sistema de graduação passou a combinar três fontes: relato do paciente, exame clínico e avaliação por aparelho (eletromiografia ou polissonografia).

Para quem aplica toxina, a consequência prática é uma só: "ranger os dentes" dito na consulta é o primeiro degrau, não o diagnóstico. A queixa estética de rosto quadrado e a queixa funcional de bruxismo podem estar na mesma paciente, mas pedem raciocínios diferentes. A técnica estética de afinamento do terço inferior tem página própria; aqui o foco é a indicação funcional.

Antes da agulha: triagem e encaminhamento

O roteiro da primeira consulta:

  1. Relato. Ranger ou apertar, de dia ou à noite, se o parceiro ouve, se acorda com dor na face, nas têmporas ou com a mandíbula cansada.
  2. Exame. Masseter e temporal palpados em repouso e em apertamento, desgaste dentário, marcas de língua e bochecha, abertura de boca, estalos e dor na articulação.
  3. Sinais que pedem dentista antes da toxina. Dor articular, travamento, limitação de abertura, desgaste importante, dente fraturado ou restauração quebrando. Toxina não trata articulação nem oclusão.
  4. Sinais que pedem avaliação do sono. Ronco, pausas respiratórias relatadas, sonolência diurna. Na revisão guarda-chuva de Pereira e colaboradores (2026, Sleep Med), que reuniu oito revisões sistemáticas em adultos, a maioria descreveu coexistência frequente de bruxismo do sono e apneia obstrutiva do sono, possivelmente por mecanismos compartilhados como microdespertares e ativação autonômica. Paciente com bruxismo e sinais de apneia vai para a medicina do sono antes ou junto com a toxina.
  5. Registro. Foto em repouso e em apertamento, sorriso, abertura de boca e um registro simples de dor para comparar no retorno.

O encaminhamento não é burocracia. A revisão sistemática de Val e colaboradores (2026, J Clin Med) conclui que a toxina pode ser considerada terapia adjuvante, sobretudo para quem não respondeu às medidas conservadoras — e as medidas conservadoras, como a placa oclusal, estão nas mãos do dentista.

O que a toxina faz no bruxismo, segundo os ensaios

A pergunta certa não é "a toxina funciona?", e sim "o que ela muda?". Três estudos respondem:

Gráficos de amplitude da eletromiografia do masseter em bruxismo do sono após toxina e placebo — Dr. Thiago Perfeito
Amplitude da eletromiografia do masseter no apertamento voluntário máximo (A) e na atividade muscular mastigatória rítmica do sono (B), antes, com 4 e com 12 semanas: queda no grupo tratado com toxina (vermelho) e pouca mudança no placebo (azul). Figure 2 de Shim YJ et al., Toxins (Basel) 2020 (PMID 32182879), reproduzida sob licença CC BY.

Traduzindo para a conversa com o paciente: a toxina diminui a força do aperto e, com ela, a carga sobre dentes, músculos e articulação. O hábito continua, e quem promete "curar o bruxismo" com toxina vai ter um paciente frustrado no terceiro mês.

Onde aplicar: masseter, com ou sem temporal

Masseter e temporal, músculos do apertamento, em vista lateral — Dr. Thiago Perfeito
Os dois músculos que fecham a mandíbula e carregam a força do bruxismo: o masseter, na face lateral do ramo, e o temporal, em leque sobre a têmpora. Os ensaios de bruxismo tratam o primeiro sempre e o segundo quando ele participa da queixa.

O alvo principal é o masseter, com as mesmas regras de segurança do uso estético: pontos dentro da borda anterior palpada em apertamento, na metade inferior e posterior do músculo, intramusculares profundos, longe do risório, do zigomático maior e da parótida.

O temporal entra quando ele participa da queixa: dor ou cansaço nas têmporas ao acordar, temporal que salta no apertamento, ou quando o masseter isolado já foi tratado e a queixa persiste. O estudo de Lee (2010) mostra por que isso importa — o músculo que não recebe toxina continua trabalhando.

Para os dois músculos juntos, a referência é o estudo-piloto de Ondo e colaboradores (2018, Neurology), controlado por placebo, em bruxismo do sono confirmado por polissonografia (23 randomizados): onabotulinumtoxinA 200 U por paciente, divididas em 60 U por masseter e 40 U por temporal. O desfecho primário, a impressão clínica global, favoreceu a toxina. O dado de segurança que interessa aqui: dois pacientes tratados notaram mudança estética no sorriso — o mesmo risco do uso estético no masseter —, sem disfagia nem queixa mastigatória. As unidades valem para aquele produto e aquele protocolo.

Se o paciente usa outra marca, vale lembrar o que dizem as próprias bulas: unidade de uma toxina não equivale à de outra. Mesmo assim, a troca precisa de um ponto de partida, e o que a formação do Dr. Thiago ensina é a referência Botox : Dysport de 1 : 2,5 e Botox : Xeomin de 1 : 1, abrindo na dose correspondente ou um pouco menor e corrigindo no retorno conforme a resposta. Para entender por que as marcas se comportam diferente, veja Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor; o preparo do frasco está em volumes de soro e concentração por unidade.

Junção neuromuscular com bloqueio da liberação de acetilcolina pela toxina botulínica — Dr. Thiago Perfeito
A toxina age na placa motora: impede a liberação de acetilcolina e o músculo contrai menos onde ela chega. No bruxismo isso explica o achado dos ensaios — a salva de contração continua acontecendo, mas com menos força.

Acompanhamento

O bruxismo é crônico; o seguimento é que faz o tratamento.

Uso repetido e osso mandibular

O masseter e o temporal carregam a mandíbula; menos carga muscular por tempo prolongado levanta a pergunta sobre o osso. Os dados em humanos apontam em direções diferentes, e o injetor precisa conhecer os dois lados:

A leitura prática: em seguimento de até um ano, o ensaio controlado não mostrou dano ósseo; em uso repetido por mais tempo, há sinais em estudos menores que justificam prudência. Isso reforça três hábitos — menor dose eficaz, intervalo guiado por sintoma e histórico de sessões anotado —, além de manter o dentista informado de quantas aplicações o paciente já recebeu.

Erros comuns

  1. Aplicar sem diagnóstico. Dor de articulação, travamento ou desgaste importante precisam de avaliação odontológica antes.
  2. Prometer o fim do ranger. Os ensaios mostram queda da força, não do número de episódios.
  3. Tratar só o masseter quando a dor está na têmpora. O músculo sem toxina continua ativo.
  4. Usar o ponto estético anterior "para aproveitar". A borda anterior é a zona do sorriso.
  5. Reaplicar por calendário curto. Contraria o intervalo das bulas e acumula dose sem necessidade.
  6. Não registrar quantas sessões o paciente já fez. É essa conta que pesa na discussão sobre osso.

Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Formação

Ler o masseter pela palpação em apertamento e marcar a zona segura antes de pensar em dose é treino de mão. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o masseter está no conteúdo de toxina do módulo de Toxina e Preenchimento: anatomia funcional e farmacologia no pré-work gravado e, no sábado presencial na clínica INTI, demonstração comentada seguida de execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, com até 8 médicos por turma. Os critérios para avaliar qualquer curso de toxina além do terço superior estão em como escolher um curso de toxina avançada.

Médicas em aula prática de injetáveis — Dr. Thiago Perfeito
Médicas acompanhando de perto um caso em aula prática da Pós Prática, em turma pequena.

Perguntas frequentes

Botox cura o bruxismo?

Não. No ensaio de Shim e colaboradores (2020), com polissonografia, a toxina no masseter reduziu a amplitude da contração por 12 semanas, mas não reduziu os episódios de bruxismo do sono. Ela diminui a força do aperto e a carga sobre dentes e músculos; o hábito continua e precisa de acompanhamento odontológico.

Botox para bruxismo é uso aprovado em bula?

Não. Nenhuma das bulas do Botox, do Dysport ou do Xeomin traz o bruxismo entre as indicações; é uso fora da bula, com unidades vindas de ensaios clínicos. A toxina entra como adjuvante, sobretudo para quem não respondeu às medidas conservadoras, como a placa oclusal.

Em quais músculos se aplica toxina no bruxismo?

No masseter, sempre, dentro da zona segura. O temporal entra quando participa da queixa, com dor nas têmporas ou contração visível. No ensaio de Ondo e colaboradores (2018), o esquema foi de 200 U de onabotulinumtoxinA: 60 U em cada masseter e 40 U em cada temporal.

Quando encaminhar o paciente com bruxismo ao dentista?

Sempre que houver dor ou estalo na articulação, travamento, limitação de abertura, desgaste importante ou fratura de dente ou restauração. Ronco, pausas respiratórias e sonolência diurna pedem avaliação do sono, porque bruxismo do sono e apneia obstrutiva coexistem com frequência (Pereira e colaboradores, 2026). A toxina não trata articulação nem oclusão.

Aplicar botox no masseter por anos enfraquece o osso da mandíbula?

Os estudos divergem. Um ensaio controlado de um ano (Kostenuik e colaboradores, 2025) não mostrou mudança clinicamente significativa na densidade da mandíbula com uma ou duas aplicações. Já um estudo-piloto em pacientes com várias sessões (Raphael e colaboradores, 2014) e uma revisão sistemática (Wojtovicz e colaboradores, 2024) trazem sinais de alteração óssea com uso repetido. A prudência é usar a menor dose eficaz e registrar as sessões.

De quanto em quanto tempo se reaplica a toxina no bruxismo?

Pela volta dos sintomas, respeitando o intervalo mínimo de 3 meses das bulas. No ensaio de Shim e colaboradores (2020), a redução da atividade elétrica do masseter durou as 12 semanas de seguimento. A revisão de cada aplicação é feita entre 15 e 30 dias depois.

Referências

  1. Verhoeff MC, Lobbezoo F, Ahlberg J, et al. Updating the Bruxism Definitions: Report of an International Consensus Meeting. J Oral Rehabil. 2025;52(9):1335-1342. · PMID 40312776 · DOI 10.1111/joor.13985
  2. Shim YJ, Lee HJ, Park KJ, et al. Botulinum Toxin Therapy for Managing Sleep Bruxism: A Randomized and Placebo-Controlled Trial. Toxins (Basel). 2020;12(3):168. · PMID 32182879 · DOI 10.3390/toxins12030168
  3. Lee SJ, McCall WD Jr, Kim YK, et al. Effect of botulinum toxin injection on nocturnal bruxism: a randomized controlled trial. Am J Phys Med Rehabil. 2010;89(1):16-23. · PMID 19855255 · DOI 10.1097/PHM.0b013e3181bc0c78
  4. Val M, Colonna A, Nykänen L, et al. Effects of Botulinum Toxin Injection on Masticatory Muscle Activity in Sleep Bruxism: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med. 2026;15(18):7179. · PMID 42795952 · DOI 10.3390/jcm15187179
  5. Ondo WG, Simmons JH, Shahid MH, et al. Onabotulinum toxin-A injections for sleep bruxism: A double-blind, placebo-controlled study. Neurology. 2018;90(7):e559-e564. · PMID 29343468 · DOI 10.1212/WNL.0000000000004951
  6. Raphael KG, Tadinada A, Bradshaw JM, et al. Osteopenic consequences of botulinum toxin injections in the masticatory muscles: a pilot study. J Oral Rehabil. 2014;41(8):555-63. · PMID 24836732 · DOI 10.1111/joor.12180
  7. Wojtovicz EL, Alvarez OM, Lopez-Davis A, et al. Botulinum toxin type A injection into the masticatory muscles and its effects on mandibular bone resorption and density. A systematic review. Clin Oral Investig. 2024;28(9):477. · PMID 39123075 · DOI 10.1007/s00784-024-05838-5
  8. Kostenuik P, Mallya SM, Hopfinger R, et al. Longitudinal Computed Tomography Indicates No Negative Impact of OnabotulinumtoxinA on Mandibular Bone Density in a 12-Month, Double-Blind, Randomized, Repeat Treatment, Placebo-Controlled Study in Healthy Adults With Masseter Muscle Prominence. Aesthet Surg J. 2025;46(1):76-85. · PMID 40843518 · DOI 10.1093/asj/sjaf167
  9. Pereira KK, Pereira IF, Machado Júnior AJ. Possible association between obstructive sleep apnea syndrome and sleep bruxism in adults: an umbrella review. Sleep Med. 2026;147:109129. · PMID 42447651 · DOI 10.1016/j.sleep.2026.109129
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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