Dimpling (covinha) após fios: prevenção e correção
Fios de sustentação

Dimpling (covinha) após fios: prevenção e correção

A covinha é a complicação mais lembrada do fio e a mais previsível: nasce de um plano raso, de uma tensão a mais ou de um vetor que passa por um ponto fixo. Abaixo, quanto ela acontece segundo as meta-análises, o mecanismo de cada causa, a prevenção no plano e no vetor e a correção por fase — da espera à subcisão.

O dimpling é a covinha que aparece quando o fio puxa a pele para dentro em vez de levar o tecido junto: a espícula prende a derme, um septo ou um ligamento, e a tração que deveria reposicionar o coxim afunda um ponto da superfície. As três causas que se repetem nos estudos são o plano superficial demais, a tensão excessiva e o vetor que cruza um ponto fixo. A maioria regride em dias ou cede à massagem; o que persiste pede liberação por subcisão ou retirada do fio.

Quanto acontece

Duas meta-análises dão a ordem de grandeza. Niu e colaboradores (2021, Aesthetic Plast Surg), com 26 estudos, encontraram dimpling em 10% dos pacientes — a segunda complicação mais relatada, atrás só do edema —, e mais que o dobro nos mais velhos: 16% acima dos 50 anos contra 5,6% abaixo. Zhou e Zhuang (2026, Front Surg), com outros 26 estudos e 2.827 pacientes, chegaram a 7%, com heterogeneidade alta entre as séries (I² de 76%), e classificaram o dimpling que persiste além de quatro semanas entre as complicações tardias, de maior peso clínico.

Gráfico de floresta da proporção de dimpling ou assimetria após fios de sustentação em 16 estudos — Dr. Thiago Perfeito
Gráfico de floresta que os autores intitulam "dimpling ou assimetria", com a proporção em cada um dos 16 estudos incluídos: os valores impressos vão de 1% a 34% conforme a série, e o modelo de efeitos aleatórios resume em 7% (intervalo de 4% a 12%), com heterogeneidade de 76%. A dispersão mostra quanto a taxa muda de uma série para outra. Figure 4 de Zhou X et al., Front Surg 2026 (PMID 41988336), reproduzida sob licença CC BY.

As séries individuais mostram o mesmo intervalo. Na de Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J), com 160 pacientes que receberam fio espiculado de PDO para a região malar, o sulco nasogeniano e o contorno mandibular, 6,2% tiveram dimpling, dentro de uma taxa de complicação precoce de 34% (55 pacientes); diante desse número e de uma melhora que desaparecia em um ano, os autores recomendam o fio só para quem tem contraindicação a cirurgia facial mais invasiva. Sarigul Guduk e Karaca (2018, J Cosmet Dermatol), com 148 pacientes tratados com fio absorvível de PLLA com cones, registraram dimpling e irregularidade em 11,4% — e, exceto em um paciente, tudo regrediu sozinho em 3 a 7 dias.

Por que a pele afunda

Plano superficial demais. A margem é pequena. Lee e colaboradores (2021, Clin Anat) mediram em 30 cadáveres, com escâner tridimensional, a espessura da pele e da gordura superficial ao longo de 11 trajetos de fio: 2,1 mm de pele e 5,2 mm de gordura superficial em média, com a pele mais grossa em direção ao terço inferior e a maior variação de gordura junto à linha de marionete. Um fio que sobe poucos milímetros sai da gordura e passa a correr rente à derme, e cada espícula vira um gancho na face profunda da pele.

Fio espiculado na gordura subcutânea entre a pele e o SMAS, em bloco de camadas — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de camadas da face com o fio espiculado no meio da gordura subcutânea, acima do SMAS. Quando o trajeto sobe e encosta na face profunda da derme, as espículas prendem a pele em vez dos septos da gordura, e a tração passa a afundar a superfície.

Tensão excessiva. Mesmo no plano certo, tracionar além do que o tecido acompanha concentra a força nos poucos septos que seguram cada espícula. O ponto onde a força se concentra cede para dentro. Park e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) incluem o dimpling, a protrusão e a perfuração da pele por tecido fisgado entre as complicações de causa anatômica e defendem que o fio acompanhe a direção em que o tecido se move, paralelo ao SMAS.

Vetor que cruza um ponto fixo. É a causa menos lembrada. Li e colaboradores (2021, Plast Reconstr Surg Glob Open) trataram num hospital de Pequim 190 pacientes que chegaram com problemas de fio feito em outro serviço; o dimpling foi a complicação mais frequente — 77 casos, 40,5% —, com as depressões na bochecha, no meio da face e nas laterais. No texto completo, os autores ilustram o mecanismo com um caso: o fio de PDO atravessou o ligamento zigomático-bucal e o puxou obliquamente; o tecido em volta desceu, e o sulco se aprofundou. Por ser uma série de quem procurou tratamento, os percentuais descrevem o perfil do encaminhamento, não a incidência.

Ligamentos de retenção da face — orbicular, zigomático e mandibular — em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Cabeça em três quartos com os ligamentos de retenção em destaque: o do orbicular, ao longo do rebordo orbital inferior; o zigomático, no corpo do zigoma; e o mandibular, na mandíbula anterior. Esses pontos não acompanham a tração: o fio que passa por eles, ou espicula logo abaixo deles, puxa a pele presa ao ligamento e cria a depressão.

Há ainda uma variável de desenho. A revisão de Hong e colaboradores (2025, Life (Basel)) descreve os fios em U, de suspensão, ancorados na região temporal, com efeito de elevação mais forte e mais complicações — dimpling relatado entre 12% e 18% —, enquanto os fios em I, retos, ficam abaixo de 5% de complicação, com elevação menos dramática.

Prevenção pelo plano

O plano se confirma várias vezes ao longo do mesmo trajeto. A pinça suave da pele ao redor da cânula mostra se o tecido acima tem espessura de gordura ou só de pele; a resistência da cânula deve ser uniforme do início ao fim, e um ponto em que ela "raspa" sob a pele indica que subiu. No mesmo trabalho, Park e colaboradores apontam o pinçamento da pele e a técnica de reunir a derme reticular ("reticular cutis gathering") como as manobras que mantêm o fio na camada pretendida.

Lee e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg), em 43 pacientes, colocaram fios mais grossos na parte profunda do subcutâneo e fios mais finos na parte rasa, mediram a profundidade com ultrassom logo depois do procedimento e, ao final, colocaram cada paciente sentada para procurar covinhas ou irregularidades, com observação também pelo lado de dentro da boca. Essa conferência na posição sentada é o momento de corrigir: a covinha vista ali ainda pode ser desfeita antes de o tecido se acomodar sobre as espículas.

Prevenção pelo vetor e pela tensão

Correção: o que fazer em cada fase

A conduta depende de quando a covinha apareceu e de se ela melhora com o tempo. Na série de Li, parte das covinhas leves regrediu sem tratamento e outra parte desapareceu com manobra manual. O texto completo descreve a manobra feita pelo lado de dentro da boca: com luvas, o médico apoia o indicador na mucosa sob a covinha e o polegar sobre a pele, fixa o tecido junto ao arco zigomático com a outra mão e traciona o tecido para dentro e para baixo, em direção ao canto da boca, num movimento rápido. A depressão leve que sobra depois da manobra tende a se acomodar com o tempo.

Quando a espícula ou a ancoragem fisgou a própria derme, a massagem não solta a pele: o degrau seguinte é a liberação mecânica, com subcisão por agulha sob a covinha, ou a retirada do fio. Yi e Park (2025, J Cosmet Dermatol), numa revisão das complicações do fio, reúnem as opções em ordem de invasividade: massagem; soro ou preenchedor injetados no ponto; toxina botulínica; e cirurgia quando a covinha persiste ou é grave.

Quando e como apareceCausa provávelConduta
Imediata, discreta, some na conferência sentadaTensão momentânea, tecido ainda acomodandoReduzir a tensão do fio antes de cortar; observar
Primeiros dias, leveEspícula segurando septo, sem derme presaObservar; nas séries, a covinha leve costuma regredir em dias
Primeiras semanas, que não melhoraEspículas presas, vetor sobre ligamentoManobra manual no sentido oposto à inserção ou pela boca
Intensa, fixa, que resiste à massagemDerme fisgada pela espícula ou pela ancoragemSubcisão com agulha para liberar a pele; retirada do fio
Depressão residual após o fio liberadoPerda de contorno localPreenchedor pontual, após a acomodação

A retirada do fio é o último degrau e tem técnica própria; o caminho de saída, o instrumental e o que fazer com o fio exposto estão na página sobre complicações dos fios de sustentação.

Quando a covinha vira sequela

Fios repetidos deixam marcas que duram mais que o próprio fio. Yordanov (2025, Aesthetic Plast Surg) revisou dez facelifts que ele mesmo fez feitos em pacientes que tinham passado por dois ou mais procedimentos com fio absorvível: encontrou fibrose, distorção do tecido, aderência entre as camadas e menos mobilidade do SMAS, e em sete pacientes havia redistribuição insatisfatória da pele e dimpling visível. Para a paciente que repete fio com frequência, o dado entra no consentimento: a covinha tardia e a fibrose também são parte do risco, e a decisão entre mais um fio e outra ferramenta merece ser revista a cada ciclo.

Modelo · Antes de cortar o excedente

  1. Paciente sentada, luz lateral, procurando depressões em repouso.
  2. Sorriso e boca aberta, porque a mímica revela a covinha que o repouso esconde.
  3. Palpar o trajeto e conferir se a cânula correu em gordura do início ao fim.
  4. Olhar pela boca nos fios do terço médio e do jowl.
  5. Afrouxar a tensão do fio que afundou a pele antes de cortar — a correção mais simples é a que se faz agora.
  6. Registrar em foto a face sentada ao fim do procedimento, para comparar no retorno.
  7. Orientação escrita: a covinha leve dos primeiros dias tende a regredir; a que persiste pede retorno, não massagem caseira sem orientação.

Onde a conduta do dimpling é treinada

Ler o dimpling exige ter visto onde o fio passou e por que puxou a pele. No Módulo A1, Face Avançada, da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o dimpling e a extrusão estão no conteúdo do bloco de fios, junto com a inserção, o tensionamento e o vetor oposto à queda, e o sábado reserva um tempo para simular a conduta diante da covinha e do fio exposto — além do treino de oclusão vascular, que é fixo no dia. O pré-work gravado prepara o dia; no sábado presencial em Brasília, a demonstração comentada é a parte teórica, e na parte prática cada médico executa o fio sob supervisão, em paciente modelo, numa turma de até oito. Para comparar formações por critério, veja o guia para escolher um curso de fios; o plano e os vetores, em como aplicar fios de PDO na face; os quatro módulos, em Cursos.

Perguntas frequentes

O que causa o dimpling depois do fio?

A espícula prende a pele em vez de levar o tecido. As causas que se repetem são o fio superficial demais, a tensão excessiva e o vetor que cruza ou espicula logo abaixo de um ligamento de retenção.

Com que frequência o fio causa covinha?

Em torno de 7% a 10% nas meta-análises. Niu encontrou 10%, com 16% acima dos 50 anos; Zhou e Zhuang chegaram a 7%, com grande variação entre as séries.

O dimpling do fio some sozinho?

O leve, dos primeiros dias, costuma sumir. Na série de Sarigul Guduk e Karaca, a covinha e a irregularidade regrediram sozinhas em 3 a 7 dias em todos os pacientes, exceto um.

Como corrigir o dimpling que não melhora?

Em escalada: manobra manual, subcisão e, por último, retirada do fio. A manobra traciona o tecido no sentido oposto ao da inserção, por fora ou pelo lado de dentro da boca; quando a derme está fisgada, a pele precisa ser liberada mecanicamente, e o fio que segue puxando sai.

Preenchedor resolve a covinha do fio?

Resolve a depressão residual, depois que o fio deixou de puxar a pele. Yi e Park incluem o preenchedor no repertório, ao lado de massagem, soro, toxina e cirurgia; preencher sobre uma espícula ainda presa não desfaz a tração.

Como prevenir o dimpling na hora do procedimento?

Plano confirmado no trajeto inteiro, tensão progressiva e conferência sentada antes de cortar. Lee e colaboradores colocavam a paciente sentada ao final para procurar covinhas e olhavam também pelo lado de dentro da boca.

Fio repetido aumenta o risco de covinha?

Pode deixar sequela. Yordanov operou de facelift dez pacientes que tinham feito dois ou mais procedimentos com fio: encontrou fibrose e camadas aderidas, e em sete havia redistribuição insatisfatória da pele e dimpling visível.

Referências

  1. Niu Z, Zhang K, Yao W, et al. A Meta-Analysis and Systematic Review of the Incidences of Complications Following Facial Thread-Lifting. Aesthetic Plast Surg. 2021;45(5):2148-2158. · PMID 33821308 · DOI 10.1007/s00266-021-02256-w
  2. Zhou X, Zhuang S. A meta-analysis of complications of thread lifting. Front Surg. 2026;13:1769458. · PMID 41988336 · DOI 10.3389/fsurg.2026.1769458
  3. Bertossi D, Botti G, Gualdi A, et al. Effectiveness, Longevity, and Complications of Facelift by Barbed Suture Insertion. Aesthet Surg J. 2019;39(3):241-247. · PMID 29474522 · DOI 10.1093/asj/sjy042
  4. Sarigul Guduk S, Karaca N. Safety and complications of absorbable threads made of poly-L-lactic acid and poly lactide/glycolide: Experience with 148 consecutive patients. J Cosmet Dermatol. 2018;17(6):1189-1193. · PMID 29607627 · DOI 10.1111/jocd.12519
  5. Lee KW, Yoon JH, Kim JS, Hu KS, Kim HJ. Three-dimensional topography of facial soft tissues for the safer and effective threading procedures. Clin Anat. 2021;34(7):1050-1058. · PMID 33583088 · DOI 10.1002/ca.23726
  6. Park SY, Wan J, Yoon SE, Kim SB, Yi KH. Facial Thread Lifting Complications: Underlying Causes. J Craniofac Surg. 2025;36(2):547-552. · PMID 39787499 · DOI 10.1097/SCS.0000000000011064
  7. Li YL, Li ZH, Chen XY, Xing WS, Hu JT. Facial Thread Lifting Complications in China: Analysis and Treatment. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2021;9(9):e3820. · PMID 34549008 · DOI 10.1097/GOX.0000000000003820
  8. Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Pre- and Post-Procedural Considerations and Thread Types for Thread Lifting. Life (Basel). 2025;15(1):85. · PMID 39860025 · DOI 10.3390/life15010085
  9. Lee W, Jung KH, Kim JS, Kim KH, Kim SH. Double-Layer Cogged Thread Lifting Technique: A Superficial- and Deep-Layer Lifting Method. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(7):1814-1822. · PMID 39516420 · DOI 10.1007/s00266-024-04452-w
  10. Yi KH, Park SY. Facial Thread Lifting Complications. J Cosmet Dermatol. 2025;24(1):e16745. · PMID 39760325 · DOI 10.1111/jocd.16745
  11. Yordanov YP. The Facelift After Thread Lifting: Surgical and Aesthetic Complications. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(22):6234-6239. · PMID 40775188 · DOI 10.1007/s00266-025-05091-5
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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