Extrusão e infecção de fios
Fios de sustentação

Extrusão e infecção de fios

O fio que aparece na pele e o trajeto que fica vermelho e quente costumam ser a mesma história contada em dois tempos. Abaixo, quanto cada complicação acontece, por onde o fio sai, de onde vem a infecção — ponto de entrada, mucosa, assepsia, biofilme —, os casos tardios e atípicos e a conduta por cenário, da extração com agulha à retirada guiada por ultrassom.

Extrusão é o fio que encontra a saída — pelo ponto de entrada, pela pele sobre um trajeto raso ou pela mucosa — e infecção é a complicação que mais vezes vem atrás dela: o fio exposto vira uma via direta da flora da pele ou da boca para um corpo estranho implantado. As duas são incomuns nas meta-análises, mas não se resolvem sozinhas. A conduta tem um eixo comum: localizar o fio, retirar o segmento exposto ou infectado, colher material quando há coleção e tratar a infecção, sabendo que o biofilme sobre o fio explica por que o antibiótico sozinho costuma não bastar.

Quanto acontece

Na meta-análise de Niu e colaboradores (2021, Aesthetic Plast Surg), com 26 estudos, a infecção e a extrusão tiveram incidência combinada de 2% cada. O material e a idade mudam esses números: fios não absorvíveis extruíram em 7,6%, contra 1,6% dos absorvíveis, e a infecção foi de 5,9% acima dos 50 anos, contra 0,7% abaixo. A revisão sistemática de Ojha e colaboradores (2025, Dermatol Surg), restrita a fios absorvíveis — 19 estudos, 1.406 pacientes —, encontrou infecção em 2,49%, entre as complicações menos frequentes.

Gráfico de floresta da exposição do fio após fios de sustentação em oito estudos — Dr. Thiago Perfeito
Gráfico de floresta da exposição do fio em oito estudos de uma meta-análise de complicações: a proporção vai de 2% a 14% conforme a série, e o modelo de efeitos aleatórios resume em 5% (intervalo de 3% a 8%). Figure 9 de Zhou X et al., Front Surg 2026 (PMID 41988336), reproduzida sob licença CC BY.

Séries individuais podem ficar bem acima da média. Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J), revendo 160 pacientes consecutivos com fio espiculado de PDO, registraram infecção em 6,2% e deslocamento superficial do fio em 11,2%, num total de 34% de complicações no pós-procedimento precoce; com esse total e um benefício que não passava de um ano, os autores limitam a indicação a quem não pode fazer uma cirurgia facial mais invasiva. A revisão de Pham e colaboradores (2021, Dermatol Surg), com 59 artigos e 14.222 pacientes, separa o que passa sozinho do que não passa: a maior parte dos efeitos adversos regride, e as exceções incluem justamente as infecções e as reações inflamatórias.

Extrusão: por onde o fio sai

Li e colaboradores (2021, Plast Reconstr Surg Glob Open) reuniram 190 pessoas atendidas em Pequim por complicação de fio aplicado em outros serviços; 10 delas tinham extrusão (5,3%) — percentual de uma série de encaminhamento, não de incidência. No texto completo, descrevem os dois caminhos de saída: o próprio ponto de entrada e a perfuração da pele por um fio que tinha ficado raso. O tratamento foi a retirada parcial ou total do fio, pelo orifício original ou por uma pequena incisão.

Três fatores se repetem nos relatos:

O material pesa no tempo de exposição. Silva-Siwady e colaboradores (2005, Dermatol Surg) relataram a migração e a expulsão parcial, 28 dias depois, de um entre dez fios Aptos de polipropileno — linha não absorvível —; o fio foi retirado com facilidade e a paciente recebeu antibiótico, sem outra complicação.

Fio espiculado no meio da gordura subcutânea, longe da derme e acima do SMAS — Dr. Thiago Perfeito
Esquema em camadas: pele, gordura subcutânea com o fio espiculado no meio dela e SMAS abaixo. A distância entre o fio e a derme é a margem contra a extrusão: quando o trajeto sobe, ou quando a ponta fica sob tensão perto do ponto de entrada, o fio passa a pressionar a pele de dentro para fora.

Mucosa: a extrusão que contamina mais

Nos vetores do terço médio e do jowl, a cânula passa perto da mucosa jugal. Fio que perfura a mucosa fica em contato com a flora da boca, e nessa situação a retirada é a conduta natural. Por isso a conferência pelo lado de dentro da boca faz parte do fim do procedimento: Lee e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) incluíram a observação intraoral na checagem final de 43 pacientes tratados com fio em duas camadas, ao lado da inspeção com a paciente sentada.

Como retirar sem empurrar o fio

A revisão de Yi e Park traz, no texto completo, três manobras práticas. Quando o fio está prestes a sair, uma pequena abertura com agulha permite extraí-lo com cuidado. Quando ele só aparece com uma expressão, a paciente repete a expressão, e a ponta é localizada e retirada com pinça fina de Castroviejo. E quando a ponta é só palpável, pinçá-la além da extremidade distal tende a fazê-la escorregar mais fundo; os autores preferem uma pequena incisão logo proximal à ponta e, no fio muito fino, que pode romper se puxado direto, achar o segmento médio com a pinça e tracionar em direção proximal, retirando o máximo possível do fio.

Infecção: de onde vem

A série de Li descreve a ligação com a extrusão: entre as 17 infecções (8,9% dos encaminhados), há casos que começaram depois de o fio extruir e outros que surgiram sem ferida. Os outros fatores são os de qualquer implante colocado por punção:

O próprio instrumento é superfície para bactéria. De Oliveira Rabelo e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) publicaram, em carta, uma avaliação de laboratório da aderência e da formação de biofilme bacteriano em cânulas de fio de PDO — o achado está no título do trabalho. Na prática, é mais um argumento para que cânula e fio só toquem campo estéril.

Tubo de ensaio com crescimento bacteriano ao redor de fragmento de cânula de fio de PDO em ágar semissólido — Dr. Thiago Perfeito
Ensaio de aderência em ágar semissólido: a nuvem esbranquiçada no fundo do tubo é o crescimento bacteriano ao redor do fragmento de cânula de fio de PDO, a confirmação visual de que as bactérias permaneceram aderidas ao material. Figure 1 de de Oliveira Rabelo H et al., J Cosmet Dermatol 2026 (PMID 41923298), reproduzida sob licença CC BY.

Precoce, tardia e atípica

Precoce. Vermelhidão, calor e edema ao longo do trajeto, dor que cresce em vez de diminuir, secreção pelo ponto de entrada. Surowiak (2022, Plast Reconstr Surg Glob Open) relatou uma mulher de 52 anos que chegou um mês depois de quatro fios de PDO aplicados em outro serviço, com abscessos que perfuravam a pele ao longo do trajeto e sem tratamento até então. Ela recebeu antibiótico oral e depois teve os fios retirados cirurgicamente, por causa da ondulação da pele; os fios estavam frágeis e exigiram várias incisões, e ficaram deformidades persistentes atribuídas à demora no tratamento.

Com coleção. Setúbal e colaboradores (2026, POCUS J) descreveram uma mulher de 42 anos, com diabetes, que teve edema, dor e drenagem purulenta logo depois de rinomodelação com ácido hialurônico e fios de PDO. O ultrassom à beira do leito mostrou um abscesso em volta do nó do fio e outras coleções no dorso, guiou a retirada em tempo real e ajudou a garantir a extração completa; a histologia mostrou inflamação granulomatosa.

Tardia e atípica. Jia e colaboradores (2023, J Craniofac Surg) relataram infecção por Nocardiopsis dassonvillei após fio facial, com sintomas locais leves e sistêmicos graves, como febre; a cura veio com a retirada do fio e injeção local de 5-fluorouracil e triancinolona. E a complicação pode aparecer anos depois: Xu e Chu (2026, J Stomatol Oral Maxillofac Surg) trataram uma parotidite supurativa com cálculo salivar três anos após o fio, com restos de fio dentro dos cálculos — lembrete de que o trajeto pela região da parótida tem consequência tardia. Para o raciocínio de nódulo inflamatório e biofilme em preenchedor, que compartilha a mesma lógica, veja nódulos após preenchimento e biofilme.

Conduta por cenário

CenárioO que fazerDe onde vem
Ponta palpável ou prestes a sair, sem inflamaçãoAbertura com agulha e extração; incisão logo proximal à ponta; no fio fino, segmento médio tracionado em direção proximalYi e Park, texto completo
Fio exposto pela pele ou pelo ponto de entradaRetirada pelo orifício original ou por pequena incisãoLi e colaboradores, texto completo
Fio exposto na mucosaRetirada do segmento exposto; reavaliação do vetorPrincípio: contato com a flora oral
Celulite ao longo do trajeto, sem coleçãoAntibiótico e reavaliação próxima; retirada do fio se a inflamação persistirSurowiak: antibiótico seguido de retirada
Abscesso ou coleçãoUltrassom para localizar a coleção e o fio, retirada guiada pela imagem; material para cultura quando houverSetúbal e colaboradores (ultrassom e retirada); cultura: princípio
Nódulo inflamatório persistente ou granulomaRetirada do fio; no relato de Jia, associada a injeção local de 5-fluorouracil e triancinolonaJia e colaboradores; Pham e colaboradores (inflamação que não regride sozinha)

Sobre antibiótico, a literatura do fio traz esquemas pontuais, não um protocolo único. No caso de Surowiak, antibiótico oral antes da retirada; na série de Li, as infecções mais extensas receberam antibiótico intravenoso e tópico; no relato de Silva-Siwady, antibiótico após a retirada do fio exposto. Profilaxia, droga, dose e duração são decisão do médico assistente, guiadas pela cultura quando há material para colher; a base da prevenção continua sendo a técnica asséptica.

O ponto que muda a conduta é o biofilme. Bactéria aderida a um corpo estranho fica protegida do sistema imune e do antibiótico, e por isso a infecção que volta depois de cada ciclo de antibiótico costuma pedir a retirada do fio — o que exige saber onde ele está. O ultrassom localiza o fio e a coleção antes da abordagem, e treinar a retirada antes de precisar dela faz parte do preparo de quem aplica fio.

Modelo · Prevenção de extrusão e infecção

  1. Antissepsia ampla da pele, incluindo o ponto de entrada na linha do cabelo; campo e luvas estéreis; fio e cânula sem contato com superfície não estéril.
  2. Plano confirmado no trajeto inteiro, com a ponta terminando em gordura, longe da derme.
  3. Corte do excedente com a pele relaxada e a extremidade acomodada abaixo do ponto de entrada.
  4. Conferência intraoral nos vetores do terço médio e do jowl.
  5. Orientação escrita dos sinais de alarme: dor que cresce, calor, secreção, ponta aparecendo, febre.
  6. Retorno programado e canal direto para reavaliação no mesmo dia.
  7. Instrumental de retirada no consultório — pinça fina, lâmina, ultrassom quando disponível.

Onde a retirada do fio é treinada

Retirar um fio exposto sem empurrá-lo mais fundo é habilidade de mão, e a hora de aprender não é diante da primeira paciente com secreção. No Módulo A1, Face Avançada, da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a extrusão e o dimpling fazem parte do bloco de fios — com PDO, PLA/PCL e Aptos, vetor oposto à queda e anatomia de risco do ramo temporal, do marginal mandibular e do ducto parotídeo —, e o sábado inclui simulação de conduta para essas duas complicações, além da simulação de oclusão vascular. Depois do pré-work gravado, o dia presencial em Brasília combina a demonstração comentada, na parte teórica, com a execução supervisionada do fio em paciente modelo, na parte prática, numa turma de até oito médicos. As outras complicações do fio estão em complicações dos fios de sustentação, com a anatomia de risco de cada região; os quatro módulos, em Cursos.

Perguntas frequentes

Com que frequência o fio extrui ou infecciona?

Em torno de 2% cada, na meta-análise de Niu. A extrusão sobe para 7,6% com fios não absorvíveis, e a infecção para 5,9% acima dos 50 anos; algumas séries individuais registram taxas maiores.

Por onde o fio costuma extruir?

Pelo próprio ponto de entrada ou pela pele sobre um fio raso. São os dois caminhos descritos na série de Li; a mucosa é o terceiro, quando o vetor passa perto dela.

Fio exposto precisa ser retirado?

Sim, o segmento exposto sai. Fio exposto é via de entrada de bactérias, e a série de Li descreve infecções que começaram depois de uma extrusão. A retirada é feita pelo orifício original ou por pequena incisão.

Infecção de fio se trata só com antibiótico?

Às vezes, mas o fio infectado costuma precisar sair. A bactéria aderida ao fio forma biofilme, que protege do antibiótico; coleção pede ultrassom, drenagem com cultura e retirada do fio.

Precisa de antibiótico profilático depois do fio?

A literatura do fio não traz um esquema único. Os relatos usaram antibiótico para tratar a infecção, junto com a retirada do fio; profilaxia, droga, dose e duração são decisão do médico assistente, e a base da prevenção é a técnica asséptica.

Infecção pode aparecer muito tempo depois do fio?

Pode. Há relatos de infecção por germe atípico com sintomas sistêmicos e de parotidite supurativa três anos depois, com restos de fio dentro de cálculos salivares.

Como retirar uma ponta de fio palpável sem empurrá-la?

Não puxar além da extremidade distal. Yi e Park recomendam uma pequena incisão logo proximal à ponta e, no fio muito fino, achar o segmento médio com pinça fina e tracionar em direção proximal; se o fio está prestes a sair, uma pequena abertura com agulha permite a extração.

Referências

  1. Niu Z, Zhang K, Yao W, et al. A Meta-Analysis and Systematic Review of the Incidences of Complications Following Facial Thread-Lifting. Aesthetic Plast Surg. 2021;45(5):2148-2158. · PMID 33821308 · DOI 10.1007/s00266-021-02256-w
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  7. Yi KH, Park SY. Facial Thread Lifting Complications. J Cosmet Dermatol. 2025;24(1):e16745. · PMID 39760325 · DOI 10.1111/jocd.16745
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  10. de Oliveira Rabelo H, de Andrade Cunha L, Pereira HMD, et al. Adhesion and Formation of Bacterial Biofilm on Polydioxanone (PDO) Thread Cannulas: An In Vitro Evaluation. J Cosmet Dermatol. 2026;25(4):e70829. · PMID 41923298 · DOI 10.1111/jocd.70829
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  12. Setúbal RA, Solidonio RB, Martins LFB, et al. POCUS in the Management of Complications with Barbed Polydioxanone (PDO) Threads in Aesthetic Medicine: Case Report. POCUS J. 2026;11(1):82-85. · PMID 42131552 · DOI 10.24908/pocusj.v11i01.19968
  13. Jia X, Huang L, Hu J. A Rare Symptom of Secondary Infection After Facial Thread Lift and Its Treatment. J Craniofac Surg. 2023;34(2):e204-e205. · PMID 36735451 · DOI 10.1097/SCS.0000000000009175
  14. Xu F, Chu H. Suture remnant-induced sialolithiasis and suppurative parotitis: A delayed complication following facial thread lifting. J Stomatol Oral Maxillofac Surg. 2026;127(5):102823. · PMID 42105917 · DOI 10.1016/j.jormas.2026.102823
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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