Laser CO2 em pálpebra
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Laser CO2 em pálpebra

Na pálpebra, o CO2 trabalha a poucos milímetros do olho e sobre uma pele que sustenta a margem palpebral. O parâmetro importa, mas o que mais separa um bom resultado de uma complicação é o que se faz antes da primeira passada: o protetor no lugar, a pálpebra inferior examinada e a energia ajustada à zona.

Na pálpebra, o laser de CO2 (10.600 nm) aparece de três formas: como resurfacing fracionado da pele palpebral e periorbital, como complemento de uma blefaroplastia e como instrumento de corte na própria cirurgia. Nas três, o que decide a segurança é o que está em volta da pele tratada: o globo ocular, que exige protetor metálico, e a lamela anterior da pálpebra inferior, que pode retrair se a pele perder elasticidade ou se a energia for excessiva. As complicações que as séries publicadas registram são hiperpigmentação pós-inflamatória, infecção, cicatriz, retração com ectrópio e lesão ocular. Esta página reúne o que os estudos usaram e o que eles mostraram para cada um desses pontos.

Por que a pálpebra pede outra régua de energia

O CO2 tem a água como alvo e não escolhe estrutura: a profundidade da coluna depende da energia, e a fração da superfície atingida, da densidade. O que muda na pálpebra é o que existe logo abaixo. A pele é fina, apoiada sobre o orbicular, e por trás dele estão o septo orbital, a gordura da órbita e, na pálpebra superior, a aponeurose do levantador chegando ao tarso. Um erro de energia que no malar viraria só um eritema mais longo, na pálpebra inferior pode virar uma retração que puxa a margem para baixo.

A série de Fife e colaboradores (2009, Lasers Surg Med) foi escrita justamente para mostrar onde o fracionado erra. Entre os quatro casos de cicatriz ou ectrópio que os autores revisaram, uma paciente teve erosões e edema da pálpebra inferior direita no segundo dia, que evoluíram para cicatriz e ectrópio. A conclusão deles nomeia as causas prováveis — tratamento agressivo demais em áreas sensíveis (excesso de energia, de densidade ou dos dois), falta de refinamento técnico, infecção — e pede energia e densidade mais baixas nas pálpebras, na parte alta do pescoço e, sobretudo, na parte baixa do pescoço e no colo.

Pálpebra superior em corte sagital — levantador da pálpebra até o tarso — Dr. Thiago Perfeito
Corte sagital da pálpebra superior e da órbita: o levantador da pálpebra, em destaque, corre sob o teto da órbita até a aponeurose no tarso; o globo, a gordura orbital e o orbicular aparecem em cinza. A pele que o CO2 trata é a lâmina fina por cima de tudo isso.

Três usos do CO2 na pálpebra

1. Resurfacing fracionado da região periorbital. É o uso não cirúrgico, voltado a rugas estáticas e textura. No estudo prospectivo de Gao e colaboradores (2025, Lasers Med Sci), 30 pacientes asiáticos de 30 a 65 anos receberam uma sessão de CO2 fracionado ultrapulsado. Os parâmetros foram diferentes por zona: 10 mJ com 10% de densidade na região periorbital e 17,5 mJ com 5% na testa e na raiz nasal. Antes de disparar, a pele recebeu anestésico tópico por 1 hora e um protetor intraocular metálico foi colocado sobre a córnea. A dor média foi 5,67 numa escala de 10, 93% ficaram satisfeitos, e a profundidade média das rugas caiu de forma significativa aos 3 meses, sem reação adversa importante. Em outro ensaio em hemiface, Gao e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) compararam, em 30 pacientes, modos de emissão do CO2 fracionado na região periocular: o modo que combina disparo profundo e superficial superou cada um deles isolado em rugas e textura aos 3 meses.

2. Resurfacing junto da blefaroplastia. A cirurgia trata o excesso de pele e as bolsas; o laser trata a qualidade da pele que sobra. Em 16 mulheres com dermatocálase, de Filippi Sartori e colaboradores (2022, Aesthet Surg J) aplicaram CO2 fracionado num lado só, 30 dias antes da blefaroplastia superior, e compararam a pele retirada na cirurgia: o lado tratado tinha mais colágeno tipo I e tipo III na coloração de picrosírius. As rugas periorbitais melhoraram 23% em 1 mês depois do laser e 43,67% aos 6 meses, já somando laser e cirurgia.

3. O CO2 como bisturi. Na blefaroplastia transconjuntival, o CO2 corta e coagula. É um uso diferente do resurfacing, e com risco próprio: Choi e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) relatam uma mulher de 56 anos que, depois da retirada de gordura da pálpebra inferior por via transconjuntival com CO2, ficou com diplopia vertical; na exploração, o músculo reto inferior estava desinserido por lesão térmica, e a limitação do olhar para baixo ficou permanente mesmo depois da cirurgia de estrabismo.

Os parâmetros publicados, lado a lado

Cada linha da tabela é de um aparelho, de uma população e de um desenho de estudo. O que se leva dela é o padrão — na pálpebra, a energia publicada é menor do que na testa —, e não um número para transferir a uma máquina diferente. A página sobre parâmetros e cuidados do CO2 fracionado explica o que cada parâmetro controla.

EstudoQuem e o quêParâmetro ou modo no resumoAchado principal
Gao N, 202530 asiáticos, rugas periorbitais estáticas, 1 sessão10 mJ e 10% na região periorbital; 17,5 mJ e 5% na testa e raiz nasalProfundidade das rugas menor aos 3 meses; dor média 5,67/10
Gao L, 202230 pacientes, hemiface periocularModo profundo ou médio × modo combinadoModo combinado melhor aos 3 meses
de Filippi Sartori, 202216 mulheres, 30 dias antes da blefaroplastia superiorCO2 fracionado num ladoMais colágeno I e III no lado tratado
Kim, 2021424 pacientes, pálpebra inferior, 6 anos76,4% fracionado; 21,5% tradicionalHiperpigmentação em 9,4%; nenhum ectrópio persistente
Watson, 202259 pacientes, adjuvante da blefaroplastia inferiorParâmetros descritos como robustos1 retração da pálpebra inferior com correção cirúrgica
Laser CO2 em pálpebra — fibras de colágeno passando de desorganizadas a organizadas — Dr. Thiago Perfeito
Fibras de colágeno em três etapas, de um emaranhado sem direção a feixes alinhados. É essa remodelação que o estudo em hemiface mediu na pele retirada na blefaroplastia, com mais colágeno tipo I e tipo III do lado que recebeu o CO2.

Proteção ocular: protetor metálico dentro do campo

A revisão sistemática de Juhasz e colaboradores (2021, Dermatol Surg), com 36 artigos sobre complicações oculares de lasers e luz em procedimentos de pele e estética, encontrou o CO2 como o laser mais associado a dano ocular, e o ectrópio temporário como a complicação oftalmológica mais comum. Uma parte grande dos artigos não registrava o uso de proteção ocular adequada no momento da lesão. Os autores pedem que o consentimento descreva o risco ocular e que o consultório tenha plano de emergência e equipamento de proteção para paciente e equipe.

O consenso de Kesty e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), escrito por um painel de cirurgiões de laser cutâneo e de oftalmologistas com atuação em córnea e oculoplástica, organiza a rotina em três tempos:

Laser em pálpebra — dois protetores oculares metálicos sobre campo cirúrgico — Dr. Thiago Perfeito
Dois protetores oculares metálicos, de superfície espelhada e haste para manuseio, sobre campo cirúrgico. FIGURE 1 de Kesty K et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 40635643), reproduzida sob licença CC BY.

Uma dúvida comum é se o próprio protetor metálico esquenta e queima. Nguyen e colaboradores (2023, Lasers Med Sci) testaram isso em pálpebras suínas, com vários lasers de uso em pele e energia crescente, medindo a temperatura das duas faces do protetor. O maior aumento na face externa foi de 8,9 °C, com o laser de alexandrita de pulso longo. A conclusão é que o protetor metálico dá proteção térmica suficiente com os parâmetros de uso clínico, e que continuam essenciais o protetor de superfície não refletora, o conhecimento da física do laser e da anatomia ocular e periocular. Uma das autoras declara honorários de palestra da Lutronic.

Ectrópio e retração: a pálpebra inferior que já está frouxa

A pálpebra inferior é onde a retração aparece. Na série de Watson e colaboradores (2022, Dermatol Surg), 59 pacientes fizeram blefaroplastia inferior com CO2 fracionado nas pálpebras superior e inferior em parâmetros que os autores chamam de robustos; houve 1 caso de retração da pálpebra inferior que precisou de cirurgia de recessão. Na série maior, de Kim e colaboradores (2021, Ophthalmic Plast Reconstr Surg), com 424 pacientes de um único cirurgião oculoplástico, nenhum desenvolveu cicatriz persistente nem ectrópio, e as 4 cicatrizes pequenas (0,9%) resolveram com corticoide injetado no local.

A leitura prática junta essas séries ao rastreio que o consenso pede: frouxidão palpebral é avaliada antes, com o exame de tração e retorno da pálpebra inferior, e uma pálpebra que já volta devagar recebe menos energia, menos densidade ou outra indicação. O mesmo exame aparece na página sobre toxina na pálpebra inferior, em que o risco também é o de uma margem que perde suporte.

Mancha, infecção e herpes

A série de Kim é a mais numerosa desta página para o pós da pálpebra inferior, com uma ressalva: 95,3% dos pacientes eram brancos, quase 90% de fototipos II e III.

Um dos autores da série de Kim declara consultoria para empresas de injetáveis e dermocosméticos. A satisfação foi alta: 85,6% muito satisfeitos e 11,3% satisfeitos.

Olho seco

Quem trata pálpebra precisa perguntar por olho seco antes e acompanhá-lo depois. Em 16 pacientes que fizeram blefaroplastia superior combinada com CO2 fracionado, de Filippi Sartori e colaboradores (2026, Photobiomodul Photomed Laser Surg) mediram menisco lacrimal, tempo de ruptura do filme lacrimal, teste de Schirmer e o questionário de doença da superfície ocular: todos os valores voltaram ao basal em 150 dias, com melhora do tempo de ruptura, sem piora significativa depois do procedimento combinado. Dois dos autores são funcionários do El.En. Group, grupo que fabrica lasers.

Modelo · Antes de disparar na pálpebra

  1. Indicação. Ruga estática e textura (resurfacing), pele que sobra da cirurgia (adjuvante) ou corte cirúrgico — são três decisões diferentes.
  2. Olho. História ocular, doença de córnea, olho seco e cirurgia ocular prévia perguntados e registrados.
  3. Pálpebra inferior. Teste de tração e retorno; frouxidão muda energia, densidade ou a própria indicação.
  4. Pele. Fototipo, bronzeado recente, história de mancha e de herpes.
  5. Protetor. Metálico, lubrificado, não refletor, colocado antes da primeira passada; proteção ocular para todos na sala.
  6. Energia por zona. Na região periorbital, menos energia do que na testa, como no estudo de Gao e colaboradores.
  7. Pós. Retorno marcado para olhar a pele e o olho; dor ocular ou mudança visual é retorno no mesmo dia.

A região dos olhos na formação do Dr. Thiago

O Dr. Thiago Perfeito (CRM-DF 23199) atua em Medicina Estética e Regenerativa e ensina na Pós Prática: quatro módulos independentes, cada um num sábado presencial com no máximo 8 médicos, precedido de aulas gravadas obrigatórias. O que esta página discute de olho e pálpebra aparece, do lado dos injetáveis, no Módulo B1: a ptose palpebral entre as intercorrências da toxina e, no bloco de segurança vascular, a conduta diante de comprometimento visual. No sábado, a demonstração comentada compõe a parte teórica, e a parte prática é o aluno executando, sob supervisão, em paciente modelo. A lista dos módulos está em /cursos/, e o guia dos cursos de tecnologias traz critérios objetivos para comparar formações em aparelhos.

Transparência: o Dr. Thiago Perfeito não tem relação comercial com nenhum fabricante de laser.

Perguntas frequentes

Pode usar laser CO2 na pálpebra?

Pode, como resurfacing fracionado da região periorbital, como complemento da blefaroplastia ou como instrumento de corte na cirurgia. Em todos os usos, o protetor ocular metálico é obrigatório e a pálpebra inferior é examinada antes, porque frouxidão aumenta o risco de retração.

Qual energia os estudos usaram no CO2 periorbital?

Num estudo com 30 pacientes asiáticos, uma sessão de CO2 fracionado ultrapulsado usou 10 mJ com 10% de densidade na região periorbital e 17,5 mJ com 5% na testa e na raiz nasal. O número vale para aquele aparelho e aquela pele; a lógica que fica é usar menos energia na pálpebra do que na testa.

Que protetor ocular usar no laser perto do olho?

O consenso de cirurgiões de laser e oftalmologistas de 2025 considera obrigatório o protetor de aço inoxidável, lubrificado, durante laser ao redor dos olhos. Em teste com pálpebras suínas, o protetor metálico deu proteção térmica suficiente nos parâmetros clínicos, e os autores recomendam superfície não refletora.

O CO2 na pálpebra pode causar ectrópio?

Pode. Há relato de cicatriz e ectrópio da pálpebra inferior depois de CO2 fracionado agressivo, e, numa série de 59 pacientes, 1 retração exigiu correção cirúrgica. Numa série de 424 pacientes, nenhum teve ectrópio persistente. Frouxidão palpebral prévia, energia e densidade são o que se controla.

Qual a chance de mancha depois do CO2 na pálpebra inferior?

Numa série de 424 pacientes, quase todos de fototipos II e III, a hiperpigmentação pós-inflamatória apareceu em 9,4%, mesmo com profilaxia tópica, e todos foram tratados com cremes, com ou sem ácido tranexâmico oral. Em fototipos mais altos, o cuidado com densidade e intervalo pesa mais.

O CO2 junto da blefaroplastia piora o olho seco?

Num estudo com 16 pacientes que fizeram blefaroplastia superior com CO2 fracionado, os testes de filme lacrimal voltaram ao basal em 150 dias, sem piora significativa. Olho seco prévio continua sendo pergunta obrigatória antes de qualquer procedimento na pálpebra.

O CO2 usado como bisturi na blefaroplastia tem risco próprio?

Tem. Há relato de lesão térmica do músculo reto inferior depois de blefaroplastia transconjuntival com CO2, com diplopia e limitação permanente do olhar para baixo. O controle do feixe junto às estruturas da órbita é parte da técnica cirúrgica.

Referências

  1. Kesty K, Kesty C, Benson J, Kesty K, Kesty C. Expert Consensus on Ocular Safety During Laser Procedures: A Practical Guide to Eye Safety by a Panel of Dermatologist Laser Surgeons and Ophthalmologists. J Cosmet Dermatol. 2025;24(7):e70339. · PMID 40635643 · DOI 10.1111/jocd.70339
  2. Juhasz M, Zachary C, Cohen JL. Ocular Complications After Laser or Light-Based Therapy-Dangers Dermatologists Should Know. Dermatol Surg. 2021;47(5):624-629. · PMID 33731574 · DOI 10.1097/DSS.0000000000002974
  3. Nguyen L, Seeber N, Schneider SW, Herberger K. Thermal eye injuries from dermatologic laser treatments-an experimental study. Lasers Med Sci. 2023;38(1):110. · PMID 37086295 · DOI 10.1007/s10103-023-03769-3
  4. Kim JS, Ginter A, Ranjit-Reeves R, Woodward JA. Patient Satisfaction and Management of Postoperative Complications Following Ablative Carbon Dioxide Laser Resurfacing of the Lower Eyelids. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2021;37(5):450-456. · PMID 33481534 · DOI 10.1097/IOP.0000000000001902
  5. Watson AH, Van Brummen A, Somogyi MB, Homer N, Nakra T. Potent Periorbital Fractionated CO2 Laser Resurfacing. Dermatol Surg. 2022;48(10):1089-1091. · PMID 35947796 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003533
  6. Fife DJ, Fitzpatrick RE, Zachary CB. Complications of fractional CO2 laser resurfacing: four cases. Lasers Surg Med. 2009;41(3):179-184. · PMID 19291745 · DOI 10.1002/lsm.20753
  7. Gao N, Gao L, Wang Y, et al. Efficacy and safety of ultra-pulsed CO2 fractional laser (UP) for the treatment of periorbital static wrinkles. Lasers Med Sci. 2025;40(1):94. · PMID 39954149 · DOI 10.1007/s10103-025-04342-w
  8. Gao L, Song W, Qian L, et al. Clinical efficacy of different therapeutic modes of CO2 fractional laser for treatment of static periocular wrinkles in Asian skin. J Cosmet Dermatol. 2022;21(3):1045-1050. · PMID 34889041 · DOI 10.1111/jocd.14640
  9. de Filippi Sartori J, Osaki TH, Osaki MH, de Souza RB, Allemann N. "Split-Face" Evaluation of Collagen Changes Induced by Periorbital Fractional CO2 Laser Resurfacing. Aesthet Surg J. 2022;42(3):239-248. · PMID 34618888 · DOI 10.1093/asj/sjab357
  10. de Filippi Sartori J, Fusco I, Osaki TH, et al. Tear-Film Stability After Upper Blepharoplasty with Fractional CO2 Laser: A Retrospective 5-Month Series. Photobiomodul Photomed Laser Surg. 2026;44(1):55-58. · PMID 41467254 · DOI 10.1177/25785478251404840
  11. Choi HY, Yang SA, Ahn JH. Inferior Rectus Muscle Thermal Injury Following Transconjunctival Blepharoplasty Using Carbon Dioxide Laser. J Craniofac Surg. 2025;36(1):e43-e45. · PMID 39360962 · DOI 10.1097/SCS.0000000000010734
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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