Ligamentos de retenção da face e preenchimento
Preenchimento com ácido hialurônico

Ligamentos de retenção da face e preenchimento

Todo sulco que a paciente aponta no espelho tem uma âncora embaixo. Os ligamentos de retenção prendem a pele ao osso, separam os compartimentos de gordura e decidem onde o gel fica contido e onde a cânula trava. Esta página mostra quais ligamentos importam para o preenchimento, o que os estudos de dissecção e de força medem neles e por que sustentar a âncora rende mais que encher o degrau.

O esqueleto mole da face

Os ligamentos de retenção são as âncoras fibrosas que prendem a pele e o SMAS ao osso em pontos constantes da face. Eles dividem a face em espaços e compartimentos, desenham os sulcos que aparecem com a idade e, para o injetor, funcionam de duas formas: como mapa (onde o gel fica contido e onde a cânula encontra resistência) e como alvo (depósitos junto a eles sustentam o tecido com pouco volume).

A revisão de Alghoul e Codner (2013, Aesthet Surg J) resume o papel deles: ficam em localizações anatômicas constantes, separam espaços e compartimentos faciais, e suas extensões superficiais formam os septos subcutâneos que separam os compartimentos de gordura. A cirurgia os libera para mobilizar o tecido; o preenchimento faz o caminho inverso — apoia o tecido onde a âncora perdeu força. Entender os dois sentidos é o que transforma “encher o sulco” em “sustentar a face”.

Ligamentos de retenção da face — retentor do orbicular, zigomático e mandibular — Dr. Thiago Perfeito
Cabeça em três quartos, sem pele, com três ligamentos em destaque: o retentor do orbicular, como uma linha ao longo do rebordo orbital inferior; o zigomático, como um tufo sobre o corpo do zigoma; e o mandibular, como um tufo na mandíbula anterior. Os compartimentos de gordura entre eles aparecem em cinza — é sobre essas âncoras que se desenham os sulcos que a paciente enxerga.

Verdadeiros e falsos: uma nota de nomenclatura

A literatura chama de “ligamento” estruturas de natureza diferente, e isso confunde quem lê. Os ligamentos osteocutâneos — chamados de verdadeiros — saem do periósteo e atravessam as camadas até a derme: o zigomático e os mandibulares são os exemplos clássicos. Os chamados falsos são condensações fasciais entre camadas de tecido mole, como as que prendem o SMAS e o platisma à derme. Furnas (1989, Plast Reconstr Surg) já separava os dois comportamentos: os ligamentos zigomáticos e mandibulares ancoram a pele ao osso, enquanto os platisma-cutâneos anteriores são condensações variáveis que podem levar a dissecção para falsos planos.

Estudos recentes refinam a ideia. Com dissecção e microtomografia, Hong et al. (2026, J Craniofac Surg) mostraram que esses “ligamentos” formam uma rede fibrosa em teia de aranha, mais densa e espessa que o retináculo cutâneo comum, e propõem tratá-los como sistemas fibrosos de ancoragem, não como ligamentos no sentido ortopédico. Para a mão do injetor, a consequência é prática: a âncora não é um cordão isolado, é uma zona de tecido mais denso em que o gel se comporta de forma diferente.

Os ligamentos que mais importam para o preenchimento

Ligamento zigomático

Furnas descreveu os ligamentos zigomáticos — o “McGregor's patch” — ancorando a pele da bochecha à borda inferior do zigoma, logo atrás da origem do zigomático menor. Duan et al. (2022, Plast Reconstr Surg), em 36 hemifaces de cadáver, deram o trajeto completo do ligamento zigomático-cutâneo: é um ligamento osteocutâneo em forma de septo, que nasce do periósteo da maxila e do zigoma, começa na origem do levantador do lábio superior, segue lateralmente a curvatura da borda óssea inferior, funde-se à porção ligamentar na origem dos zigomáticos menor e maior e continua como ligamento retentor zigomático sobre o arco. Os autores relacionam esse trajeto ao aparecimento do sulco médio da bochecha.

Ligamento retentor do orbicular e ligamento do sulco lacrimal

Na borda inferior da órbita, Wong et al. (2012, Plast Reconstr Surg) isolaram em 48 hemifaces um ligamento osteocutâneo verdadeiro na maxila, entre as porções palpebral e orbital do orbicular: o ligamento do sulco lacrimal (“tear trough ligament”). Ele começa medialmente, na altura da inserção do tendão cantal medial, segue até cerca da linha mediopupilar e continua lateralmente como o ligamento retentor do orbicular, de dupla camada. A histologia foi idêntica à do ligamento zigomático. Para os autores, é a origem anatômica da proeminência do sulco nasojugal — por isso a correção se planeja a partir do ligamento, com apoio abaixo dele, e não como volume em cima do degrau.

O espaço prezigomático entre os dois

Mendelson et al. (2002, Plast Reconstr Surg) descreveram, sobre o corpo do zigoma, um espaço de deslizamento entre a gordura suborbicular e a gordura pré-periosteal, de forma triangular, limitado por ligamentos: embaixo, os ligamentos zigomáticos, mais rígidos; em cima, o ligamento retentor do orbicular, mais móvel. Essa diferença de rigidez explica o envelhecimento típico da região e as bolsas malares (“malar mounds”). Os ramos zigomáticos do nervo facial para o orbicular não cruzam o espaço: correm nas paredes e na gordura suborbicular do teto. Para o preenchimento, vale saber que o espaço prezigomático é um compartimento fechado por duas âncoras de rigidez diferente — e que os ramos nervosos correm nas bordas dele, não no meio.

Ligamentos mandibulares

Kang et al. (2016, J Craniomaxillofac Surg) dissecaram 20 hemifaces e descreveram três ligamentos verdadeiros na mandíbula — os dois menos conhecidos confirmados como tal por histologia —, todos a cerca de 8 a 9 mm acima da borda inferior: o mentual, a 9,1 mm da linha média; o mandibular medial, a 28,5 mm; e o osteocutâneo mandibular, a 51,1 mm. Para os autores, o “jowl” se forma sobretudo pela descida dos compartimentos de gordura da bochecha, não pela frouxidão do ligamento mandibular — que segue como borda anterior do jowl, como já dizia Furnas.

Camadas da face com a camada musculoaponeurótica em destaque entre gordura superficial e profunda — Dr. Thiago Perfeito
Bloco das camadas da face: pele e gordura superficial em cima, a camada musculoaponeurótica (SMAS) em destaque, gordura profunda e base óssea embaixo. Os ligamentos verdadeiros atravessam essa pilha do osso até a derme; os falsos ligam camadas moles entre si.

A resistência que a cânula sente

Ligamento não é só desenho: ele tem força mensurável, e a ponta da cânula percebe. Hong et al. (2025, Aesthetic Plast Surg) mediram, em dois cadáveres frescos, a força para atravessar os principais ligamentos com cânula de 21G presa a um dinamômetro motorizado. O ligamento zigomático propriamente dito exigiu a maior força, 9,16 N em média; o retentor zigomático, 8,01 N; o mandibular, 3,64 N; a adesão ligamentar temporal, 3,16 N; e o espessamento orbital lateral, 2,90 N.

Duas consequências práticas:

Por que tratar o ligamento muda o resultado

O efeito de elevação do preenchimento não vem só do volume — vem do reforço das âncoras. Hong et al. (2026, J Craniofac Surg), combinando dissecção e ultrassom de alta frequência dos ligamentos zigomático, mandibular e platisma-auricular, descreveram os ligamentos como condensações ricas em colágeno e proteoglicanos que oferecem resistência à tração e enfraquecem com a idade. O depósito sub-SMAS dirigido aumentou a densidade fibrosa local e a tensão do SMAS, transmitindo elevação à pele pelas inserções ligamentares; reforçar zonas densas de ancoragem produziu elevação de contorno com volume mínimo de preenchedor.

Cong et al. (2021, Aesthet Surg J) transformaram essa lógica em mapa: seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros, confirmados por dissecção e reconstrução tridimensional para evitar trajetos vasculares perigosos, e aplicados em 5 pacientes com fotografia 3D antes e depois:

  1. Adesão ligamentar temporal: elevar a cauda da sobrancelha.
  2. Espessamento orbital lateral: elevar o canto lateral do olho.
  3. Ligamento retentor zigomático e
  4. ligamento zigomático-cutâneo: aumentar o tecido do terço médio.
  5. Ligamento maxilar: suavizar o sulco nasolabial.
  6. Ligamento mandibular: reduzir a linha de marionete.

A leitura clínica é a de sustentar antes de preencher. A paciente entre 45 e 60 anos que chega pedindo para “encher o bigode chinês” muitas vezes tem, na verdade, âncoras do terço médio enfraquecidas e compartimentos que desceram. Gel no sulco trata a sombra; apoio junto ao ligamento zigomático e na base profunda trata a causa, com menos volume total — e menos risco de chegar à face sobrepreenchida, descrita em síndrome da face sobrepreenchida.

Compartimentos de gordura da face separados por septos, com a região malar em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Compartimentos de gordura separados por septos, com a região malar em destaque. As linhas entre os compartimentos são, em boa parte, as extensões superficiais dos ligamentos de retenção: é nelas que a pele fica presa e que os sulcos se formam quando o volume de cada lado muda.

Do ligamento ao plano de tratamento

Roteiro · Ligamentos no planejamento

  1. Ler o sulco como ligamento: sulco médio da bochecha = ligamento zigomático-cutâneo; sulco nasojugal = ligamento do sulco lacrimal e retentor do orbicular; borda anterior do jowl = ligamento mandibular.
  2. Tratar abaixo e ao lado da âncora, no plano profundo, antes de qualquer gel superficial no degrau.
  3. Respeitar a resistência: cânula que trava na linha do zigoma não se força.
  4. Conhecer o compartimento: o espaço prezigomático é delimitado por uma âncora rígida embaixo e uma móvel em cima.
  5. Volume da bula do produto em uso, aspiração antes de cada depósito e hialuronidase na sala.

Volume por região sai sempre da bula do gel em uso, com mediana separada de teto; as marcas entram por dado de bula e indicação, e o Dr. Thiago não tem relação comercial com qualquer fabricante. Com preenchedor, a rotina dele é aspirar antes de injetar. A anatomia vascular que corre perto dessas âncoras está em anatomia vascular da face para injetáveis; branqueamento ou livedo durante a aplicação seguem o protocolo de oclusão vascular por ácido hialurônico, com a enzima dosada conforme dose de hialuronidase por cenário. A malar, onde estão as âncoras mais fortes, é detalhada em anatomia da região malar para preenchimento.

Onde a âncora se sente com a mão

Ligamento se lê no atlas, mas se reconhece pela resistência na ponta da cânula e pelo jeito como o tecido sobe quando o depósito é feito no lugar certo. Na formação do Dr. Thiago Perfeito, esse raciocínio do terço médio está no Módulo B1, Toxina e Preenchimento Essencial, que trabalha compartimentos de gordura, reabsorção óssea e projeção malar a partir do pré-work gravado. No sábado presencial em Brasília, depois da demonstração comentada, cada médico executa sob supervisão em paciente modelo, em turma limitada a 8. Os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

O que são ligamentos de retenção da face?

São âncoras fibrosas que prendem pele e SMAS ao osso em pontos constantes. Separam espaços e compartimentos, e suas extensões superficiais formam os septos entre os compartimentos de gordura (Alghoul e Codner, 2013). Quando o volume de cada lado muda com a idade, a âncora vira sulco.

Quais ligamentos importam mais para o preenchimento facial?

O zigomático-cutâneo e o retentor zigomático no terço médio; o ligamento do sulco lacrimal e o retentor do orbicular na borda da órbita; e os mandibulares no terço inferior. Kang et al. (2016) localizaram três ligamentos mandibulares verdadeiros, a 9,1 mm, 28,5 mm e 51,1 mm da linha média, cerca de 8 a 9 mm acima da borda da mandíbula.

Por que a cânula trava na região do zigoma?

Porque encontra o ligamento zigomático, o mais resistente entre os ligamentos medidos. Hong et al. (2025) mediram 9,16 N para atravessá-lo com cânula 21G, contra 3,64 N no ligamento mandibular. Como princípio de técnica, não se vence a resistência na força: recua-se e redireciona-se, ou usa-se outro ponto de entrada.

Preencher perto do ligamento dá efeito de lifting?

É o mecanismo descrito em dissecção e ultrassom: depósito sub-SMAS junto às zonas de ancoragem aumentou a densidade fibrosa local e a tensão do SMAS, transmitindo elevação à pele com pouco volume (Hong et al., 2026). Cong et al. (2021) propuseram seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros com esse objetivo.

O jowl é causado por frouxidão do ligamento mandibular?

Segundo Kang et al. (2016), sobretudo pela descida dos compartimentos de gordura da bochecha, não pela frouxidão do ligamento osteocutâneo mandibular. O ligamento segue como a borda anterior do jowl, o que explica o degrau que se forma à frente dele.

Qual a diferença entre ligamento verdadeiro e falso?

O verdadeiro, ou osteocutâneo, sai do periósteo e chega à derme — como o zigomático e os mandibulares. O falso é uma condensação fascial entre camadas moles. Um estudo recente com microtomografia (Hong et al., 2026) descreve essas estruturas como redes fibrosas de ancoragem, não como cordões isolados.

Referências

  1. Alghoul M, Codner MA. Retaining ligaments of the face: review of anatomy and clinical applications. Aesthet Surg J. 2013 — revisão; localizações constantes, separam espaços e compartimentos, extensões superficiais formam os septos entre compartimentos de gordura. · PMID 23855010 · DOI 10.1177/1090820X13495405
  2. Furnas DW. The retaining ligaments of the cheek. Plast Reconstr Surg. 1989 — ligamentos zigomáticos (McGregor's patch) na borda inferior do zigoma, atrás da origem do zigomático menor; ligamentos mandibulares na mandíbula anterior, borda anterior do jowl; platisma-auricular e platisma-cutâneos anteriores. · PMID 2909050 · DOI 10.1097/00006534-198901000-00003
  3. Mendelson BC, Muzaffar AR, Adams WP Jr. Surgical anatomy of the midcheek and malar mounds. Plast Reconstr Surg. 2002 — espaço prezigomático triangular entre SOOF e gordura pré-periosteal; limite inferior pelos ligamentos zigomáticos (rígidos), superior pelo retentor do orbicular (móvel); ramos zigomáticos do facial nas paredes e no teto. · PMID 12172155 · DOI 10.1097/00006534-200209010-00026
  4. Wong CH, Hsieh MKH, Mendelson B. The tear trough ligament: anatomical basis for the tear trough deformity. Plast Reconstr Surg. 2012 — 48 hemifaces; ligamento osteocutâneo verdadeiro na maxila, do tendão cantal medial à linha mediopupilar, continuando como retentor do orbicular; histologia idêntica à do zigomático. · PMID 22634656 · DOI 10.1097/PRS.0b013e31824ecd77
  5. Duan J, Cong LY, Luo CE, Luo SK. Clarifying the Anatomy of the Zygomatic Cutaneous Ligament: Its Application in Midface Rejuvenation. Plast Reconstr Surg. 2022 — 36 hemifaces; ligamento osteocutâneo em septo, da origem do levantador do lábio superior seguindo a borda óssea inferior, continuando como retentor zigomático no arco. · PMID 35077411 · DOI 10.1097/PRS.0000000000008716
  6. Kang MS, Kang HG, Nam YS, Kim IB. Detailed anatomy of the retaining ligaments of the mandible for facial rejuvenation. J Craniomaxillofac Surg. 2016 — 20 hemifaces; ligamentos mentual (9,1 mm da linha média), mandibular medial (28,5 mm) e osteocutâneo mandibular (51,1 mm), 8,4–9,1 mm acima da borda inferior; jowl por descida da gordura, não por frouxidão ligamentar. · PMID 27427339 · DOI 10.1016/j.jcms.2016.06.018
  7. Hong GW, Kim SB, Chua D, et al. Quantifying the Strength of the Facial Ligaments and Its Clinical Implications. Aesthetic Plast Surg. 2025 — 2 cadáveres frescos, cânula 21G; força de penetração: zigomático propriamente dito 9,16 N, retentor zigomático 8,01 N, mandibular 3,64 N, adesão temporal 3,16 N, espessamento orbital lateral 2,90 N. · PMID 40624370 · DOI 10.1007/s00266-025-05060-y
  8. Hong GW, Swift A, Corrêa MC, Liang BC, Yi KH. How Does Injecting Filler Into Facial Ligaments Result in Facial Lifting? J Craniofac Surg. 2026 — dissecção e ultrassom; depósito sub-SMAS aumentou densidade fibrosa e tensão do SMAS, com elevação de contorno e volume mínimo. · PMID 41532639 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012336
  9. Hong GW, Jitaree B, Song JK, et al. Facial Retaining Structures are Not True Ligaments: Clinical Application. J Craniofac Surg. 2026 — dissecção e micro-TC; rede fibrosa em teia de aranha, mais densa que o retináculo cutâneo; sistemas fibrosos de ancoragem. · PMID 41855112 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012568
  10. Cong LY, Duan J, Luo CE, Luo SK. Injectable Filler Technique for Face Lifting Based on Dissection of True Facial Ligaments. Aesthet Surg J. 2021 — seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros, confirmados por dissecção e reconstrução 3D; 5 pacientes. · PMID 33300562 · DOI 10.1093/asj/sjaa348
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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