Ligamentos de retenção da face e preenchimento
O esqueleto mole da face
Os ligamentos de retenção são as âncoras fibrosas que prendem a pele e o SMAS ao osso em pontos constantes da face. Eles dividem a face em espaços e compartimentos, desenham os sulcos que aparecem com a idade e, para o injetor, funcionam de duas formas: como mapa (onde o gel fica contido e onde a cânula encontra resistência) e como alvo (depósitos junto a eles sustentam o tecido com pouco volume).
A revisão de Alghoul e Codner (2013, Aesthet Surg J) resume o papel deles: ficam em localizações anatômicas constantes, separam espaços e compartimentos faciais, e suas extensões superficiais formam os septos subcutâneos que separam os compartimentos de gordura. A cirurgia os libera para mobilizar o tecido; o preenchimento faz o caminho inverso — apoia o tecido onde a âncora perdeu força. Entender os dois sentidos é o que transforma “encher o sulco” em “sustentar a face”.

Verdadeiros e falsos: uma nota de nomenclatura
A literatura chama de “ligamento” estruturas de natureza diferente, e isso confunde quem lê. Os ligamentos osteocutâneos — chamados de verdadeiros — saem do periósteo e atravessam as camadas até a derme: o zigomático e os mandibulares são os exemplos clássicos. Os chamados falsos são condensações fasciais entre camadas de tecido mole, como as que prendem o SMAS e o platisma à derme. Furnas (1989, Plast Reconstr Surg) já separava os dois comportamentos: os ligamentos zigomáticos e mandibulares ancoram a pele ao osso, enquanto os platisma-cutâneos anteriores são condensações variáveis que podem levar a dissecção para falsos planos.
Estudos recentes refinam a ideia. Com dissecção e microtomografia, Hong et al. (2026, J Craniofac Surg) mostraram que esses “ligamentos” formam uma rede fibrosa em teia de aranha, mais densa e espessa que o retináculo cutâneo comum, e propõem tratá-los como sistemas fibrosos de ancoragem, não como ligamentos no sentido ortopédico. Para a mão do injetor, a consequência é prática: a âncora não é um cordão isolado, é uma zona de tecido mais denso em que o gel se comporta de forma diferente.
Os ligamentos que mais importam para o preenchimento
Ligamento zigomático
Furnas descreveu os ligamentos zigomáticos — o “McGregor's patch” — ancorando a pele da bochecha à borda inferior do zigoma, logo atrás da origem do zigomático menor. Duan et al. (2022, Plast Reconstr Surg), em 36 hemifaces de cadáver, deram o trajeto completo do ligamento zigomático-cutâneo: é um ligamento osteocutâneo em forma de septo, que nasce do periósteo da maxila e do zigoma, começa na origem do levantador do lábio superior, segue lateralmente a curvatura da borda óssea inferior, funde-se à porção ligamentar na origem dos zigomáticos menor e maior e continua como ligamento retentor zigomático sobre o arco. Os autores relacionam esse trajeto ao aparecimento do sulco médio da bochecha.
Ligamento retentor do orbicular e ligamento do sulco lacrimal
Na borda inferior da órbita, Wong et al. (2012, Plast Reconstr Surg) isolaram em 48 hemifaces um ligamento osteocutâneo verdadeiro na maxila, entre as porções palpebral e orbital do orbicular: o ligamento do sulco lacrimal (“tear trough ligament”). Ele começa medialmente, na altura da inserção do tendão cantal medial, segue até cerca da linha mediopupilar e continua lateralmente como o ligamento retentor do orbicular, de dupla camada. A histologia foi idêntica à do ligamento zigomático. Para os autores, é a origem anatômica da proeminência do sulco nasojugal — por isso a correção se planeja a partir do ligamento, com apoio abaixo dele, e não como volume em cima do degrau.
O espaço prezigomático entre os dois
Mendelson et al. (2002, Plast Reconstr Surg) descreveram, sobre o corpo do zigoma, um espaço de deslizamento entre a gordura suborbicular e a gordura pré-periosteal, de forma triangular, limitado por ligamentos: embaixo, os ligamentos zigomáticos, mais rígidos; em cima, o ligamento retentor do orbicular, mais móvel. Essa diferença de rigidez explica o envelhecimento típico da região e as bolsas malares (“malar mounds”). Os ramos zigomáticos do nervo facial para o orbicular não cruzam o espaço: correm nas paredes e na gordura suborbicular do teto. Para o preenchimento, vale saber que o espaço prezigomático é um compartimento fechado por duas âncoras de rigidez diferente — e que os ramos nervosos correm nas bordas dele, não no meio.
Ligamentos mandibulares
Kang et al. (2016, J Craniomaxillofac Surg) dissecaram 20 hemifaces e descreveram três ligamentos verdadeiros na mandíbula — os dois menos conhecidos confirmados como tal por histologia —, todos a cerca de 8 a 9 mm acima da borda inferior: o mentual, a 9,1 mm da linha média; o mandibular medial, a 28,5 mm; e o osteocutâneo mandibular, a 51,1 mm. Para os autores, o “jowl” se forma sobretudo pela descida dos compartimentos de gordura da bochecha, não pela frouxidão do ligamento mandibular — que segue como borda anterior do jowl, como já dizia Furnas.

A resistência que a cânula sente
Ligamento não é só desenho: ele tem força mensurável, e a ponta da cânula percebe. Hong et al. (2025, Aesthetic Plast Surg) mediram, em dois cadáveres frescos, a força para atravessar os principais ligamentos com cânula de 21G presa a um dinamômetro motorizado. O ligamento zigomático propriamente dito exigiu a maior força, 9,16 N em média; o retentor zigomático, 8,01 N; o mandibular, 3,64 N; a adesão ligamentar temporal, 3,16 N; e o espessamento orbital lateral, 2,90 N.
Duas consequências práticas:
- Resistência na linha do zigoma é o ligamento, não o caminho. Os números mostram que as âncoras do zigoma resistem mais que as outras medidas. Como princípio de técnica, a resistência não se vence na força: recua-se, redireciona-se ou planeja-se um segundo ponto de entrada do outro lado da âncora.
- A linha de ligamentos separa territórios. Se os ligamentos separam espaços e compartimentos, como resume a revisão de Alghoul e Codner, o plano de tratamento se desenha por território — de um lado e do outro de cada âncora — e não como uma área contínua.
Por que tratar o ligamento muda o resultado
O efeito de elevação do preenchimento não vem só do volume — vem do reforço das âncoras. Hong et al. (2026, J Craniofac Surg), combinando dissecção e ultrassom de alta frequência dos ligamentos zigomático, mandibular e platisma-auricular, descreveram os ligamentos como condensações ricas em colágeno e proteoglicanos que oferecem resistência à tração e enfraquecem com a idade. O depósito sub-SMAS dirigido aumentou a densidade fibrosa local e a tensão do SMAS, transmitindo elevação à pele pelas inserções ligamentares; reforçar zonas densas de ancoragem produziu elevação de contorno com volume mínimo de preenchedor.
Cong et al. (2021, Aesthet Surg J) transformaram essa lógica em mapa: seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros, confirmados por dissecção e reconstrução tridimensional para evitar trajetos vasculares perigosos, e aplicados em 5 pacientes com fotografia 3D antes e depois:
- Adesão ligamentar temporal: elevar a cauda da sobrancelha.
- Espessamento orbital lateral: elevar o canto lateral do olho.
- Ligamento retentor zigomático e
- ligamento zigomático-cutâneo: aumentar o tecido do terço médio.
- Ligamento maxilar: suavizar o sulco nasolabial.
- Ligamento mandibular: reduzir a linha de marionete.
A leitura clínica é a de sustentar antes de preencher. A paciente entre 45 e 60 anos que chega pedindo para “encher o bigode chinês” muitas vezes tem, na verdade, âncoras do terço médio enfraquecidas e compartimentos que desceram. Gel no sulco trata a sombra; apoio junto ao ligamento zigomático e na base profunda trata a causa, com menos volume total — e menos risco de chegar à face sobrepreenchida, descrita em síndrome da face sobrepreenchida.

Do ligamento ao plano de tratamento
Roteiro · Ligamentos no planejamento
- Ler o sulco como ligamento: sulco médio da bochecha = ligamento zigomático-cutâneo; sulco nasojugal = ligamento do sulco lacrimal e retentor do orbicular; borda anterior do jowl = ligamento mandibular.
- Tratar abaixo e ao lado da âncora, no plano profundo, antes de qualquer gel superficial no degrau.
- Respeitar a resistência: cânula que trava na linha do zigoma não se força.
- Conhecer o compartimento: o espaço prezigomático é delimitado por uma âncora rígida embaixo e uma móvel em cima.
- Volume da bula do produto em uso, aspiração antes de cada depósito e hialuronidase na sala.
Volume por região sai sempre da bula do gel em uso, com mediana separada de teto; as marcas entram por dado de bula e indicação, e o Dr. Thiago não tem relação comercial com qualquer fabricante. Com preenchedor, a rotina dele é aspirar antes de injetar. A anatomia vascular que corre perto dessas âncoras está em anatomia vascular da face para injetáveis; branqueamento ou livedo durante a aplicação seguem o protocolo de oclusão vascular por ácido hialurônico, com a enzima dosada conforme dose de hialuronidase por cenário. A malar, onde estão as âncoras mais fortes, é detalhada em anatomia da região malar para preenchimento.
Onde a âncora se sente com a mão
Ligamento se lê no atlas, mas se reconhece pela resistência na ponta da cânula e pelo jeito como o tecido sobe quando o depósito é feito no lugar certo. Na formação do Dr. Thiago Perfeito, esse raciocínio do terço médio está no Módulo B1, Toxina e Preenchimento Essencial, que trabalha compartimentos de gordura, reabsorção óssea e projeção malar a partir do pré-work gravado. No sábado presencial em Brasília, depois da demonstração comentada, cada médico executa sob supervisão em paciente modelo, em turma limitada a 8. Os outros módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
O que são ligamentos de retenção da face?
São âncoras fibrosas que prendem pele e SMAS ao osso em pontos constantes. Separam espaços e compartimentos, e suas extensões superficiais formam os septos entre os compartimentos de gordura (Alghoul e Codner, 2013). Quando o volume de cada lado muda com a idade, a âncora vira sulco.
Quais ligamentos importam mais para o preenchimento facial?
O zigomático-cutâneo e o retentor zigomático no terço médio; o ligamento do sulco lacrimal e o retentor do orbicular na borda da órbita; e os mandibulares no terço inferior. Kang et al. (2016) localizaram três ligamentos mandibulares verdadeiros, a 9,1 mm, 28,5 mm e 51,1 mm da linha média, cerca de 8 a 9 mm acima da borda da mandíbula.
Por que a cânula trava na região do zigoma?
Porque encontra o ligamento zigomático, o mais resistente entre os ligamentos medidos. Hong et al. (2025) mediram 9,16 N para atravessá-lo com cânula 21G, contra 3,64 N no ligamento mandibular. Como princípio de técnica, não se vence a resistência na força: recua-se e redireciona-se, ou usa-se outro ponto de entrada.
Preencher perto do ligamento dá efeito de lifting?
É o mecanismo descrito em dissecção e ultrassom: depósito sub-SMAS junto às zonas de ancoragem aumentou a densidade fibrosa local e a tensão do SMAS, transmitindo elevação à pele com pouco volume (Hong et al., 2026). Cong et al. (2021) propuseram seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros com esse objetivo.
O jowl é causado por frouxidão do ligamento mandibular?
Segundo Kang et al. (2016), sobretudo pela descida dos compartimentos de gordura da bochecha, não pela frouxidão do ligamento osteocutâneo mandibular. O ligamento segue como a borda anterior do jowl, o que explica o degrau que se forma à frente dele.
Qual a diferença entre ligamento verdadeiro e falso?
O verdadeiro, ou osteocutâneo, sai do periósteo e chega à derme — como o zigomático e os mandibulares. O falso é uma condensação fascial entre camadas moles. Um estudo recente com microtomografia (Hong et al., 2026) descreve essas estruturas como redes fibrosas de ancoragem, não como cordões isolados.
Referências
- Alghoul M, Codner MA. Retaining ligaments of the face: review of anatomy and clinical applications. Aesthet Surg J. 2013 — revisão; localizações constantes, separam espaços e compartimentos, extensões superficiais formam os septos entre compartimentos de gordura. · PMID 23855010 · DOI 10.1177/1090820X13495405
- Furnas DW. The retaining ligaments of the cheek. Plast Reconstr Surg. 1989 — ligamentos zigomáticos (McGregor's patch) na borda inferior do zigoma, atrás da origem do zigomático menor; ligamentos mandibulares na mandíbula anterior, borda anterior do jowl; platisma-auricular e platisma-cutâneos anteriores. · PMID 2909050 · DOI 10.1097/00006534-198901000-00003
- Mendelson BC, Muzaffar AR, Adams WP Jr. Surgical anatomy of the midcheek and malar mounds. Plast Reconstr Surg. 2002 — espaço prezigomático triangular entre SOOF e gordura pré-periosteal; limite inferior pelos ligamentos zigomáticos (rígidos), superior pelo retentor do orbicular (móvel); ramos zigomáticos do facial nas paredes e no teto. · PMID 12172155 · DOI 10.1097/00006534-200209010-00026
- Wong CH, Hsieh MKH, Mendelson B. The tear trough ligament: anatomical basis for the tear trough deformity. Plast Reconstr Surg. 2012 — 48 hemifaces; ligamento osteocutâneo verdadeiro na maxila, do tendão cantal medial à linha mediopupilar, continuando como retentor do orbicular; histologia idêntica à do zigomático. · PMID 22634656 · DOI 10.1097/PRS.0b013e31824ecd77
- Duan J, Cong LY, Luo CE, Luo SK. Clarifying the Anatomy of the Zygomatic Cutaneous Ligament: Its Application in Midface Rejuvenation. Plast Reconstr Surg. 2022 — 36 hemifaces; ligamento osteocutâneo em septo, da origem do levantador do lábio superior seguindo a borda óssea inferior, continuando como retentor zigomático no arco. · PMID 35077411 · DOI 10.1097/PRS.0000000000008716
- Kang MS, Kang HG, Nam YS, Kim IB. Detailed anatomy of the retaining ligaments of the mandible for facial rejuvenation. J Craniomaxillofac Surg. 2016 — 20 hemifaces; ligamentos mentual (9,1 mm da linha média), mandibular medial (28,5 mm) e osteocutâneo mandibular (51,1 mm), 8,4–9,1 mm acima da borda inferior; jowl por descida da gordura, não por frouxidão ligamentar. · PMID 27427339 · DOI 10.1016/j.jcms.2016.06.018
- Hong GW, Kim SB, Chua D, et al. Quantifying the Strength of the Facial Ligaments and Its Clinical Implications. Aesthetic Plast Surg. 2025 — 2 cadáveres frescos, cânula 21G; força de penetração: zigomático propriamente dito 9,16 N, retentor zigomático 8,01 N, mandibular 3,64 N, adesão temporal 3,16 N, espessamento orbital lateral 2,90 N. · PMID 40624370 · DOI 10.1007/s00266-025-05060-y
- Hong GW, Swift A, Corrêa MC, Liang BC, Yi KH. How Does Injecting Filler Into Facial Ligaments Result in Facial Lifting? J Craniofac Surg. 2026 — dissecção e ultrassom; depósito sub-SMAS aumentou densidade fibrosa e tensão do SMAS, com elevação de contorno e volume mínimo. · PMID 41532639 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012336
- Hong GW, Jitaree B, Song JK, et al. Facial Retaining Structures are Not True Ligaments: Clinical Application. J Craniofac Surg. 2026 — dissecção e micro-TC; rede fibrosa em teia de aranha, mais densa que o retináculo cutâneo; sistemas fibrosos de ancoragem. · PMID 41855112 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012568
- Cong LY, Duan J, Luo CE, Luo SK. Injectable Filler Technique for Face Lifting Based on Dissection of True Facial Ligaments. Aesthet Surg J. 2021 — seis sítios dirigidos a ligamentos verdadeiros, confirmados por dissecção e reconstrução 3D; 5 pacientes. · PMID 33300562 · DOI 10.1093/asj/sjaa348
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