Por que não há conversão entre Botox, Dysport e Xeomin
Toxina botulínica

Por que não existe tabela de conversão entre Botox, Dysport e Xeomin

Toda turma de toxina pede a mesma coisa: uma tabelinha que diga quantas unidades de uma marca valem uma da outra. A tabela circula em slide, em grupo de mensagem e até em material de curso — e nenhuma bula a sustenta. Entender por quê não é preciosismo regulatório: é saber o que o número impresso no frasco mede, e o que ele não mede.

Não existe tabela de conversão entre Botox, Dysport e Xeomin porque a unidade de toxina botulínica não mede quantidade de substância: mede atividade biológica num ensaio que cada fabricante calibra com o próprio padrão de referência. Somam-se a isso formulações diferentes, tecidos-alvo diferentes, volumes diferentes e curvas de efeito que mudam com o tempo. Por isso as três bulas proíbem a conversão — e nenhuma razão fixa sobrevive à prática clínica.

A comparação clínica entre as marcas — reconstituição, difusão, início e duração — está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor. Esta página trata da pergunta anterior: por que a régua de uma marca não serve para medir a outra.

O que é, de fato, uma "unidade"

Historicamente, a unidade de toxina botulínica foi definida em camundongos. Sesardic e colaboradores (2003, Biologicals) descrevem a definição clássica: a dose letal mediana por via intraperitoneal em camundongos, lida em 72 horas — a DL50. No mesmo trabalho, dez laboratórios de cinco países compararam três formulações de toxina tipo A. O resultado é a raiz do problema: expressar a atividade como potência relativa a um padrão de referência deu resultados muito mais consistentes, entre laboratórios e dentro de cada um, do que a unidade DL50 em si.

Em outras palavras, a unidade só é estável quando presa a um padrão — e cada fabricante tem o seu. Brin e colaboradores (2024, Toxins) resumem: os processos de fabricação e de formulação de cada toxina são proprietários, incluindo a determinação da potência dos padrões de referência e os detalhes dos ensaios usados para medir a unidade; por isso, as unidades não são intercambiáveis nem conversíveis por razões de dose. Quatro dos cinco autores são funcionários da AbbVie, fabricante do Botox, e o quinto é consultor da empresa — e o argumento é o mesmo que está nas bulas das outras marcas.

O método também muda dentro de uma mesma empresa. Fernández-Salas e colaboradores (2012, PLoS One), da Allergan, descreveram um ensaio celular — neuroblastoma humano diferenciado, com medida da SNAP25 clivada por ELISA — com sensibilidade semelhante à do ensaio em camundongo. Validado, ele foi aprovado pela FDA, pela Health Canada e pela União Europeia para o teste de potência do Botox, do Botox Cosmetic e do Vistabel. É um ensaio desenvolvido para um produto, validado para aquele produto.

Esquema das etapas de fabricação da toxina botulínica, da cepa bacteriana ao frasco final — Dr. Thiago Perfeito
Da cepa de Clostridium botulinum ao frasco: fermentação, purificação, substância ativa, teste de unidade, formulação com excipientes, acabamento e novo teste de unidade. Diferenças entre produtos podem surgir em cada etapa — inclusive nas duas em que a unidade é medida. Figure 4 de Brin MF et al., Toxins (Basel) 2024 (PMID 38922160), reproduzida sob licença CC BY.

O mesmo frasco, medido com outra régua

O exemplo mais direto de que a unidade depende do ensaio vem de Hunt e Clarke (2009, Clin Neuropharmacol). Eles testaram três lotes de Xeomin, rotulados com 100 U por frasco, no ensaio de potência aprovado para liberar lotes de Botox, usando o padrão de referência do Botox. A potência medida ficou substancialmente abaixo das 100 U do rótulo.

A leitura correta não é "o Xeomin é mais fraco". Os autores eram funcionários da Allergan, e o que o experimento mostra é outra coisa: o número de unidades de um frasco só tem sentido no ensaio do próprio fabricante. A bula americana do Xeomin diz isso com todas as letras: as unidades de potência do Xeomin são específicas da preparação e do método de ensaio utilizado.

O que as bulas dizem — todas

A vedação não é de uma marca contra outra. Está em todas as bulas:

Na regulação, isso aparece de outro jeito: cada produto tem as próprias indicações aprovadas. No rótulo americano, o Dysport tem só a glabela como indicação estética; o Botox Cosmetic tem glabela, linhas cantais laterais, fronte e platisma; o Xeomin tem as linhas faciais superiores. A hiperidrose axilar aparece na bula do Botox terapêutico, enquanto a bula americana do Dysport afirma que a segurança dele para hiperidrose não foi estabelecida e que o produto é aprovado apenas para injeção intramuscular. Brin e colaboradores (2014, Biologics) chamam isso de diferenciação por aprovação regulatória: ela dá confiança de segurança e eficácia nas doses especificadas de cada indicação aprovada — e só nelas.

Por que nem uma "razão média" resolve

A tentação é aceitar que não existe razão exata e usar uma aproximada. O problema é que a diferença entre produtos não está num ponto só; ela se acumula em camadas.

  1. Formulação. Segundo as bulas, o Botox é onabotulinumtoxinA com albumina humana e cloreto de sódio; o Dysport é um complexo toxina-hemaglutinina com albumina humana e lactose, medido em unidades Speywood; o Xeomin é a neurotoxina de 150 kDa isenta de complexos proteicos, com sacarose e albumina humana. Moléculas-alvo iguais, produtos diferentes.
  2. Ensaio de potência. Cada unidade é calibrada pelo padrão de quem fabrica — o ponto que Sesardic e Hunt tornam visível.
  3. Tecido tratado. Brin e colaboradores (2024) apontam que as diferenças intrínsecas dos produtos se somam às dos tecidos injetados, inervados por fibras motoras, sensitivas ou autonômicas, que pedem doses e pontos próprios. A relação entre duas marcas medida num músculo não precisa valer numa glândula sudorípara.
  4. Volume. Kutschenko e colaboradores (2016, Neurosci Lett), num modelo de paresia de pata em camundongos medida pela corrida em roda, mostraram que a mesma dose de toxina produziu paresia mais intensa quando diluída em volume maior. E o mesmo número de unidades de camundongo das três marcas, no mesmo volume, produziu graus diferentes de paresia. A conclusão dos autores é que incobotulinumtoxinA e onabotulinumtoxinA não são prontamente intercambiáveis e que a abobotulinumtoxinA precisa de outra dose para produzir o mesmo efeito — um modelo animal, mas que isola variáveis que no consultório andam misturadas.
  5. Tempo. A equivalência calculada entre produtos muda ao longo das semanas, porque início, pico e queda do efeito seguem curvas próprias — é o achado do modelo farmacodinâmico de Rahman e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg), discutido na página sobre Botox e Dysport.

Cada camada sozinha já desloca a relação entre duas marcas. Juntas, elas explicam por que estudos diferentes chegam a relações diferentes conforme a indicação, a diluição, o desfecho escolhido e o momento da medida. Brin e colaboradores registram essa dificuldade: populações e métodos de estudo diferentes tornam difícil comparar resultados entre ensaios. Nenhum desses números vira regra de uso — por isso esta biblioteca não publica nenhum deles.

Esquema da divergência entre produtos de toxina botulínica da fabricação aos ensaios clínicos — Dr. Thiago Perfeito
Cada produto de toxina segue um caminho próprio: diferenças de fabricação (cepa, proteínas acessórias, purificação, excipientes), de metodologia do teste de potência (padrões de referência, linhagem de camundongo ou célula, diluentes) e de desenho dos ensaios clínicos (doses, população, escalas, tempos de avaliação). O resultado é um perfil clínico próprio de segurança, início, pico, duração, difusão e dose. Figure 7 de Brin MF et al., Toxins (Basel) 2024 (PMID 38922160), reproduzida sob licença CC BY.

Como trocar de marca sem tabela

A ausência de conversão não impede a troca de marca; muda o jeito de fazer. O raciocínio é tratar a primeira sessão com o produto novo como uma sessão de calibração, não como continuação da anterior.

Modelo · Troca de marca em 5 passos

  1. Ponto de partida na bula do produto novo. Para a área tratada, use a dose e a diluição declaradas para aquele produto. Se a área não está no rótulo dele, a decisão é sua — e a responsabilidade técnica também.
  2. Reconstitua pela bula do frasco novo. Volume de diluente e concentração são declarados por produto: a bula americana do Botox Cosmetic declara uma concentração única de 4 U por 0,1 mL; a do Dysport, duas reconstituições licenciadas para o frasco de 300 U; a do Xeomin, uma tabela de volumes. O detalhe do Dysport está em Diluição do Dysport: como reconstituir conforme a bula.
  3. Uma variável por vez. Mantenha mapa de pontos e técnica; troque só o produto.
  4. Revise no tempo certo. Na conduta do Dr. Thiago, a revisão de toxina é feita entre 15 e 30 dias. É ali que a resposta ao produto novo é lida e o retoque, decidido.
  5. Registre como se fosse o primeiro tratamento. Marca, lote, diluição, pontos, unidades por ponto, resposta na revisão e duração. A próxima sessão com aquele produto parte desse registro, não de uma conta.
Seringa injetando diluente em frasco de toxina botulínica liofilizada — Dr. Thiago Perfeito
Reconstituição de toxina liofilizada: o volume de diluente, a concentração final e o prazo de uso depois de reconstituir são declarados na bula de cada produto e não se transferem de uma marca para outra.

Erros comuns

  1. Usar uma razão de conversão "de curso" como regra. Nenhuma bula a sustenta, e a literatura mostra que a relação muda com tecido, volume e tempo.
  2. Achar que unidade é peso. É atividade biológica medida no ensaio de quem fabrica.
  3. Ler resultado de ensaio de outra empresa como verdade sobre o concorrente. O estudo de Hunt mede o Xeomin com a régua do Botox; o que ele prova é que a régua importa.
  4. Levar a dose da face para outro tecido. A axila, por exemplo, tem bula, diluição e plano próprios no Botox terapêutico.
  5. Trocar marca e diluição na mesma sessão. Se o resultado mudar, não haverá como saber por quê.
  6. Não registrar. Sem registro, a troca de marca vira palpite repetido a cada sessão.

Transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica. Quando um estudo citado aqui foi assinado por funcionários de fabricante, o texto diz de qual empresa.

Onde isso se treina

Saber o que a unidade mede é teoria; decidir a dose do produto novo diante de um paciente que vinha de outra marca é prática. Na formação do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), as duas coisas ficam separadas de propósito: farmacologia, marcas e diluição chegam pelo pré-work gravado e obrigatório, e o sábado presencial em Brasília, com no máximo 8 médicos, é dedicado a marcar e aplicar em paciente modelo. A toxina está no módulo de Toxina e Preenchimento; os demais módulos, em /cursos/.

Perguntas frequentes

Existe uma conversão segura entre Botox e Dysport?

Não. Cada bula declara que suas unidades valem só para o próprio produto, e a bula brasileira do Dysport acrescenta que o fator fixo adotado no passado talvez não sirva. Além disso, a relação entre dois produtos muda com o tecido, o volume e o tempo decorrido desde a aplicação.

O que é a unidade de toxina botulínica?

É uma medida de atividade biológica, não de massa. Classicamente foi definida como a dose letal mediana intraperitoneal em camundongos em 72 horas (DL50), e hoje cada fabricante a mede com o próprio ensaio e o próprio padrão de referência. Por isso o número só tem sentido dentro do produto.

Por que um estudo mediu o Xeomin com menos unidades do que o rótulo?

Porque mediu com a régua de outro fabricante. Hunt e Clarke (2009), funcionários da Allergan, testaram o Xeomin no ensaio aprovado para o Botox e encontraram potência abaixo das 100 U do rótulo. O que o estudo demonstra é que a unidade depende do ensaio — a bula do Xeomin diz que suas unidades são específicas da preparação e do método de ensaio.

O Xeomin e o Botox não têm as mesmas doses na bula?

Em algumas áreas, as bulas americanas dos dois declaram o mesmo número de unidades — nos pés de galinha, por exemplo. Isso é coincidência de rótulo, não equivalência: cada bula afirma que suas unidades não se comparam nem se convertem em unidades de outra toxina.

Posso usar uma tabela de conversão publicada em artigo?

Como regra de uso, não. Estudos chegaram a relações diferentes conforme indicação, diluição, desfecho e momento da medida, e nenhuma bula sustenta razão fixa. A dose de cada produto parte da bula dele e do registro clínico do paciente com aquele produto.

Como trocar a marca de toxina de um paciente?

Trate a primeira sessão com o produto novo como calibração: dose e diluição pela bula do produto novo, mesmo mapa de pontos, revisão entre 15 e 30 dias e registro completo de marca, lote, diluição, pontos e unidades.

Referências

  1. Brin MF, Nelson M, Ashourian N, et al. Update on Non-Interchangeability of Botulinum Neurotoxin Products. Toxins (Basel). 2024;16(6):266. · PMID 38922160 · DOI 10.3390/toxins16060266
  2. Brin MF, James C, Maltman J. Botulinum toxin type A products are not interchangeable: a review of the evidence. Biologics. 2014;8:227-241. · PMID 25336912 · DOI 10.2147/BTT.S65603
  3. Sesardic D, Leung T, Gaines Das R. Role for standards in assays of botulinum toxins: international collaborative study of three preparations of botulinum type A toxin. Biologicals. 2003;31(4):265-276. · PMID 14624797 · DOI 10.1016/j.biologicals.2003.08.001
  4. Fernández-Salas E, Wang J, Molina Y, et al. Botulinum neurotoxin serotype A specific cell-based potency assay to replace the mouse bioassay. PLoS One. 2012;7(11):e49516. · PMID 23185348 · DOI 10.1371/journal.pone.0049516
  5. Hunt T, Clarke K. Potency evaluation of a formulated drug product containing 150-kd botulinum neurotoxin type A. Clin Neuropharmacol. 2009;32(1):28-31. · PMID 18978494 · DOI 10.1097/WNF.0B013E3181692735
  6. Kutschenko A, Manig A, Reinert MC, et al. In-vivo comparison of the neurotoxic potencies of incobotulinumtoxinA, onabotulinumtoxinA, and abobotulinumtoxinA. Neurosci Lett. 2016;627:216-221. · PMID 27268041 · DOI 10.1016/j.neulet.2016.06.001
  7. Rahman E, Rao P, Sayed K, et al. Challenging Interchangeability: Dynamic Dose-Response Modelling of Botulinum Toxin A Products. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4275-4291. · PMID 41709018 · DOI 10.1007/s00266-026-05700-x
  8. BOTOX® Cosmetic (onabotulinumtoxinA) — Prescribing Information. AbbVie/Allergan, revisão 10/2024; BOTOX® — Prescribing Information, revisão 11/2023.
  9. DYSPORT® (abobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Ipsen, revisão 9/2017; bula brasileira aprovada pela Anvisa em 18/03/2025.
  10. XEOMIN® (incobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Merz, revisão 06/2026; bula brasileira aprovada pela Anvisa em 05/02/2025.
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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