Seleção do paciente para fios: quem não deve fazer
Fios de sustentação

Seleção do paciente para fios: quem não deve fazer

Boa parte do resultado de um fio de sustentação se decide antes da primeira punção. Abaixo, o perfil que mais se beneficia segundo o consenso publicado, como pele, ptose, gordura e idade mudam o risco, as condições clínicas que adiam o procedimento e os pedidos em que a melhor indicação é outro método.

O paciente bom para fio tem descida leve a moderada do tecido, pele de espessura razoável que acompanha a tração, gordura subcutânea suficiente para as espículas prenderem e uma expectativa compatível com efeito temporário. Não deve fazer fio quem tem pele muito fina sobre uma face esvaziada, flacidez com sobra de pele, infecção ou inflamação ativa no trajeto, ou espera um resultado de cirurgia. Doença autoimune, anticoagulante, tabagismo e gestação não entram como "sim ou não" automático: adiam o procedimento ou mudam o plano. E, quando o problema é outro, a resposta é outro método.

O que a seleção decide

O fio espiculado é uma ferramenta mecânica: prende o subcutâneo e o desloca contra a queda. Quanto do resultado vem dessa ferramenta e quanto vem de quem foi escolhido para recebê-la? A revisão de Hong e colaboradores (2025, Life (Basel)) responde no resumo: o resultado depende mais de seleção cuidadosa e de combinações personalizadas do que de qualquer tipo de fio isolado. Escolher bem o paciente é, portanto, a primeira etapa da técnica.

A seleção também define o que se promete. Tavares e colaboradores (2017, Braz J Otorhinolaryngol), da Universidade de Brasília, revisaram a literatura sobre durabilidade, eficácia e segurança dos fios e concluíram que o procedimento não deve ser apresentado como alternativa à ritidoplastia. No texto completo da revisão de Hong, o argumento aparece pelo outro lado: a regra antiga indicava cirurgia a partir de certa quantidade de pele sobrando quando ela era tracionada em direção à orelha; para os autores, fios mais novos vêm encurtando a distância em relação à cirurgia, e cada vez mais pacientes escolhem o fio depois de informados das limitações dele. As duas leituras convergem num ponto: o paciente que espera o resultado de um lifting cirúrgico é o primeiro a ser filtrado — ou a ser bem informado.

O perfil que mais se beneficia

O consenso do grupo BALI, publicado por Fundaro e colaboradores (2021, J Cutan Aesthet Surg) para fios absorvíveis de agulha dupla de copolímero de caprolactona e ácido L-láctico, descreve no texto completo o paciente "ideal": pele trófica, gordura facial compacta e sinais de envelhecimento não graves. Boa projeção óssea e gordura facial normo ou hipertrófica costumam render resultados melhores; o desempenho cai na pele fina, hipoelástica, fibrótica e seca, com compartimentos de gordura superficial muito atróficos e ligamentos muito frouxos. Os autores usam uma escala de tipo de envelhecimento para classificar a aptidão e receberam honorários da A. Menarini Asia Pacific para participar da reunião.

Traduzido para o consultório, são três substratos a examinar — pele, gordura e grau de descida —, e um quarto, que não aparece no exame físico: a expectativa.

Camadas da pele em corte com a derme em destaque sobre a gordura subcutânea — Dr. Thiago Perfeito
Bloco em corte com epiderme, derme em destaque, gordura subcutânea e músculo. O fio corre na gordura, abaixo da derme: quanto mais fina a derme e mais escassa a gordura acima do trajeto, mais perto da superfície fica cada espícula — e mais fácil ela se vê ou se palpa.

Pele: espessura e elasticidade

A pele precisa cobrir o fio e acompanhar a tração. Fundaro e colaboradores observam que, em pele normal ou espessa, uma inserção mais profunda, perto do SMAS, reduz a interação do fio com as traves da gordura e diminui a chance de ele ficar visível ou palpável. Na pele fina, essa margem encolhe.

A pele fina traz um segundo problema, anatômico. No texto completo da revisão de Hong, os autores alertam que muitas pacientes têm hoje pele muito fina, com pouco tecido mole e pouca gordura, e que nelas nervos, ducto parotídeo e glândulas ficam mais perto da superfície do que se espera — o risco de lesão pela agulha é maior justamente na paciente magra. A paciente de rosto fino e pele delgada pode até ter descida de tecido, mas o fio nela pede calibre, plano e número escolhidos com mais cuidado, ou outra ferramenta.

A elasticidade decide o resto. Pele que se dobra em excesso quando o tecido é levado ao vetor não vai se reacomodar com o fio: ela sobra, e sobra de pele é território cirúrgico.

Ptose: quanto desceu

A descida leve a moderada é o território do fio. Hong e colaboradores descrevem a escolha do produto pelo grau de queda: descida discreta aceita fios mais leves, com menos sensação de corpo estranho; queda importante exige produto de maior resistência à tração, desenho de fio diferente ou mais fios — e, ainda assim, nenhum tipo é superior em todos os casos.

Quanto mais acentuada a ptose, mais o resultado depende de uma força que o fio sustenta por pouco tempo. No levantamento retrospectivo de Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J), com 160 pacientes consecutivos tratados com fios espiculados de PDO no terço médio e na linha da mandíbula, o ganho apareceu logo após a inserção, perdeu força visivelmente ao longo de seis meses e já não existia aos doze, e 34% dos pacientes tiveram alguma complicação no pós-operatório precoce. Com um benefício que passa e essa frequência de intercorrências, os autores recomendam limitar o procedimento aos pacientes para quem uma cirurgia de face mais invasiva está contraindicada. Para a seleção, a leitura é direta: quem tem indicação cirúrgica clara e pode operar deve ouvir isso na consulta antes de escolher o fio.

Gordura e volume: o que as espículas seguram

As espículas prendem nos septos que dividem a gordura subcutânea em compartimentos. Sem gordura, não há o que prender, e a tração passa direto para a pele — é daí que vêm a depressão e o contorno irregular na face muito magra. No extremo oposto, a face pesada tem tecido de sobra para ser sustentado: a revisão de Hong indica fios mais grossos, de espículas maiores, para levantar tecido pesado e caído no terço inferior, e a expectativa nesse rosto precisa considerar o peso que o fio vai carregar.

Cortes comparando gordura e osso da face jovem e da face envelhecida — Dr. Thiago Perfeito
Dois cortes lado a lado: à esquerda, compartimentos de gordura cheios sobre um osso com boa projeção; à direita, gordura reduzida e deslocada sobre um osso que recuou, com a superfície afundando. A face da direita pede suporte antes de vetor — fio sobre esse substrato desloca tecido sem apoio.

A face que esvaziou — por idade, por perda de peso ou pelo uso de medicamentos para emagrecer — costuma precisar primeiro de suporte e volume. O plano para esse rosto está em bioestimulador em pacientes magros e pós-emagrecimento; a anatomia dos coxins que o fio desloca é revista na página sobre os compartimentos de gordura facial.

Idade e número de fios

Idade não é contraindicação, mas muda o risco. Okumura e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg) sortearam 2.000 casos de fio de PDO de 105 clínicas e encontraram complicação em 12,4% deles, à frente a retração da pele (6,35%), a assimetria (2,9%) e a dor (1,75%). Número de fios e idade foram os preditores independentes — o risco subiu a cada fio a mais e a cada faixa de idade a partir dos 40 anos —, e os autores montaram com eles um escore de risco. No ponto de corte de 9 pontos, o escore teve sensibilidade de 90,3% e especificidade de 46,9%: deixa escapar poucos dos pacientes que terão complicação, mas também marca muitos que não terão. Na prática, serve como triagem que pede cautela — menos fios, plano mais conservador, combinação com outras ferramentas —, e não como veto.

Na paciente mais velha, a consequência é indicar o fio pelo diagnóstico, limitar o número ao que o vetor exige e deixar escrito quanto tempo o efeito costuma durar.

Condições clínicas que adiam ou mudam o plano

Esquema do fio de sustentação inserido por cânula na gordura subcutânea e ancorado na fáscia — Dr. Thiago Perfeito
Esquema em quatro tempos: (A) cânula com o fio entrando pela pele até a gordura subcutânea; (B) o fio ancorado na fáscia; (C) fios introduzidos na têmpora e conduzidos pelo subcutâneo até bochecha, boca e linha da mandíbula; (D) o tecido levado no sentido desejado enquanto a cânula sai. Todo o trabalho depende de pele e gordura que acompanhem a tração. Figure 2 de Adamczyk K et al., Medicina (Kaunas) 2021 (PMID 35056337), reproduzida sob licença CC BY.

Expectativa: o critério que mais reprova

A revisão sistemática de Atiyeh e colaboradores (2021, Aesthetic Plast Surg), que analisou 20 estudos clínicos e 2 experimentais publicados em dez anos, termina com uma orientação de consulta: o paciente que pede fio precisa ser bem informado sobre eventos adversos e sobre quanto tempo o efeito dura. No texto completo de Hong, a recomendação é a mesma, dita de outra forma — explicar com clareza as limitações quando o procedimento provavelmente não vai satisfazer o pedido inteiro, para impedir expectativa irreal.

Alguns pedidos sinalizam que o fio não é a resposta: o paciente que traz a foto de um lifting cirúrgico, que quer resultado permanente, que não aceita equimose nem alguns dias de edema, ou que pede correção intensa para um achado que o exame não confirma. Nesses casos, a melhor conduta é não indicar o fio — e explicar por quê.

O que o exame mostraConduta
Descida leve a moderada, pele de espessura razoável, gordura preservada, expectativa ajustadaBom candidato: fio com vetor oposto à queda
Descida com perda de volume associadaAjustar o plano: suporte e volume antes ou junto do fio
Pele fina com pouca gordura, paciente muito magraCautela: calibre, plano e número revistos, ou outra ferramenta
Sobra de pele na tração, ptose acentuadaOutro método: avaliação cirúrgica
Infecção ou inflamação no trajeto, gestação, amamentaçãoAdiar
Doença autoimune, anticoagulante, tabagismoDecidir caso a caso, com o médico que acompanha a doença ou prescreve a medicação
Pedido de resultado cirúrgico ou permanenteNão indicar o fio sem reconstruir a expectativa

Quando a resposta é outro método

Modelo · Triagem antes de indicar fio

  1. Queixa nas palavras do paciente e foto de referência, se ele trouxer — é ali que aparece a expectativa.
  2. Paciente sentado: grau de descida, manobra de tração no vetor e quanto de pele sobra.
  3. Pinçar a pele: espessura e gordura acima do trajeto planejado.
  4. Volume: há suporte para o fio segurar, ou o volume vem antes?
  5. História clínica: doença autoimune, anticoagulante ou antiagregante, tabagismo, infecção ou inflamação na área, gestação ou amamentação.
  6. Idade e número de fios previstos: quanto mais altos os dois, mais conservador o plano.
  7. Consentimento escrito com a duração esperada do efeito e as alternativas oferecidas.

Quando, mesmo com boa seleção, algo dá errado, o reconhecimento e o manejo de cada intercorrência estão reunidos na página de complicações dos fios.

Onde a seleção vira hábito

Saber quem não deve fazer fio é o que mais protege o médico que está começando — e é o que menos aparece em curso centrado em técnica. Na formação do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), os fios ficam no Módulo A1, Face Avançada da Pós Prática: cada fio — PDO, PLA/PCL, Aptos — é trabalhado na região em que ele entra, junto da anatomia que cobra respeito (ramo temporal e marginal mandibular do nervo facial, ducto parotídeo), e a gestão clínica do módulo traz um roteiro para conversar sobre expectativa antes de procedimento de alto risco. Há pré-work gravado obrigatório antes do sábado presencial em Brasília; nele, a parte teórica é a demonstração comentada e a parte prática, a execução de cada médico sob supervisão em paciente modelo, com no máximo oito alunos por turma. Quem está comparando formações encontra os critérios na página sobre a escolha de um curso de fios, e a grade completa dos módulos em Cursos.

Perguntas frequentes

Quem é o paciente ideal para fio de sustentação?

Descida leve a moderada, pele de espessura razoável, gordura facial preservada e expectativa de efeito temporário. O consenso BALI descreve o paciente ideal com pele trófica, gordura compacta e sinais de envelhecimento não graves.

Quem não deve fazer fio de sustentação?

Quem tem sobra de pele, pele muito fina sobre uma face esvaziada, infecção ou inflamação ativa no trajeto, ou espera resultado de cirurgia. Gestação e amamentação adiam o procedimento.

Paciente com doença autoimune pode fazer fio?

Exige cautela e decisão caso a caso. Na revisão de Adamczyk e colaboradores sobre doença autoimune da tireoide, fios e mesoterapia foram os procedimentos que os autores não recomendam nesse grupo.

Quem usa anticoagulante pode colocar fio?

Pode ter mais sangramento e hematoma, e isso entra no agendamento e no consentimento. Suspender a medicação é decisão do médico que a prescreveu, nunca do injetor.

Pele fina é contraindicação para fio?

Não absoluta, mas pede cuidado. Na pele fina o fio fica mais perto da superfície e aparece ou se palpa com mais facilidade, e nervos e ducto parotídeo ficam mais superficiais na paciente magra.

Idade avançada impede o fio?

Não impede, mas aumenta o risco. Em Okumura e colaboradores, idade e número de fios foram os preditores independentes de complicação; o caminho é plano mais conservador e combinação com outras ferramentas.

Fio substitui o lifting cirúrgico?

Não. A revisão de Tavares e colaboradores conclui que o fio não deve ser apresentado como alternativa à ritidoplastia. Na série de Bertossi e colaboradores, o ganho já não existia em um ano e 34% dos pacientes tiveram complicação no pós-operatório precoce; por isso os autores recomendam limitar o fio a quem tem contraindicação a uma cirurgia facial mais invasiva.

Referências

  1. Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Pre- and Post-Procedural Considerations and Thread Types for Thread Lifting. Life (Basel). 2025;15(1):85. · PMID 39860025 · DOI 10.3390/life15010085
  2. Tavares JP, Oliveira CACP, Torres RP, Bahmad F Jr. Facial thread lifting with suture suspension. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83(6):712-719. · PMID 28549872 · DOI 10.1016/j.bjorl.2017.03.015
  3. Fundaro SP, Goh CL, Hau KC, Moon H, Lao PP, Salti G. Expert Consensus on Soft-tissue Repositioning Using Absorbable Barbed Suspension Double-needle Threads in Asian and Caucasian Patients. J Cutan Aesthet Surg. 2021;14(1):1-13. · PMID 34084002 · DOI 10.4103/JCAS.JCAS_138_19
  4. Bertossi D, Botti G, Gualdi A, et al. Effectiveness, Longevity, and Complications of Facelift by Barbed Suture Insertion. Aesthet Surg J. 2019;39(3):241-247. · PMID 29474522 · DOI 10.1093/asj/sjy042
  5. Okumura K, Tamura T, Funakoshi Y, Teranishi H. Incidence and Predictors of Complications After Polydioxanone Thread Lift: A Multicenter Retrospective Cohort Study. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(13):4857-4865. · PMID 42236870 · DOI 10.1007/s00266-026-05963-4
  6. Adamczyk K, Rusyan E, Franek E. Safety of Aesthetic Medicine Procedures in Patients with Autoimmune Thyroid Disease: A Literature Review. Medicina (Kaunas). 2021;58(1):30. · PMID 35056337 · DOI 10.3390/medicina58010030
  7. Atiyeh BS, Chahine F, Ghanem OA. Percutaneous Thread Lift Facial Rejuvenation: Literature Review and Evidence-Based Analysis. Aesthetic Plast Surg. 2021;45(4):1540-1550. · PMID 33471152 · DOI 10.1007/s00266-020-02095-1
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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