Fios de PDO lisos para qualidade de pele
O fio de PDO liso (mono) não levanta tecido: ele é um fio de polidioxanona sem espícula, colocado em malha no subcutâneo logo abaixo da derme, e o que entrega é qualidade de pele — firmeza, textura, linhas finas e cicatriz atrófica — pela reação de corpo estranho controlada que cada trajeto provoca e que termina em colágeno novo. A indicação certa é a pele que perdeu qualidade sem que o tecido tenha descido. Quando há ptose, o fio liso é a ferramenta errada; quando a pele só pede densidade, ele é uma das mais simples de executar.
O que acontece no tecido ao redor de um fio liso
A polidioxanona é o polímero da sutura absorvível e se degrada em torno de 6 a 8 meses. Enquanto está no tecido, cada fio funciona como um pequeno corpo estranho: atrai células inflamatórias e fibroblastos, forma uma cápsula fibrosa e, nessa cápsula, deposita colágeno. O efeito na pele é a soma de muitos trajetos, não o resultado de um fio isolado.
Yoon e colaboradores (2019, J Cosmet Dermatol) escolheram porcos miniatura da variedade Yucatan, cuja pele é das mais parecidas com a humana, e inseriram fio de PDO 4-0 na gordura subcutânea. Colheram tecido em 4, 12, 24 e 48 semanas. Os nove achados histológicos se agruparam em cinco mudanças: neocolagênese, fusão fibrosa entre o fio e os septos vizinhos, redução de gordura, contração do tecido e melhora do ambiente vascular. O estudo partiu de uma pergunta clínica — por que a pele fica mais luminosa, mantém a elasticidade e o contorno afina depois do fio monofilamentar — e os autores propõem que essas cinco mudanças são a explicação.
A intensidade dessa reação é maior que a de um fio de ácido hialurônico. Kim e colaboradores (2024, Aesthetic Plast Surg) compararam, em camundongos, fios de PDO com fios de ácido hialurônico sólido inseridos no subcutâneo. O fio de PDO produziu resposta inflamatória mais intensa e expressão de colágeno tipo 1 significativamente maior, além de aumento significativo de TGF-β1. No mesmo estudo, o fio de ácido hialurônico teve mais colágeno tipo 3. Na prática, é a inflamação controlada do PDO que trabalha a favor da pele — e é por isso que densidade de fios, plano e assepsia pesam tanto.

Onde o fio liso entra: as indicações de qualidade de pele
O fio liso é escolhido pela pele, não pelo vetor. Quatro situações aparecem com dado publicado.
Rugas finas e textura da região periorbital
Arora e Arora (2022, J Cutan Aesthet Surg) trataram 25 adultos de 40 a 65 anos com fios monofilamentares de PDO como terapia única na região periorbital inferolateral: 10 fios por lado, 5 na região lateral e 5 na infraorbital. Vinte e um completaram o acompanhamento. Na escala de rugas de Lemperle, a média caiu de 2,29 para 1 em 16 semanas, diferença estatisticamente significativa; 16 pacientes se declararam satisfeitos com a melhora de textura. Os eventos adversos foram equimose em dois casos e deslocamento de um fio nas primeiras 24 horas.
Rugas estáticas da glabela
Garcia e colaboradores (2024, J Biophotonics), em São Paulo, aplicaram fios de PDO ao longo das rugas estáticas da glabela em 40 participantes com envelhecimento Glogau 3 e 4, num ensaio randomizado e duplo-cego que testava se a fotobiomodulação com LED vermelho somaria efeito. O ultrassom mostrou espessamento da derme induzido pelos fios. O LED não acrescentou espessamento nem acelerou a degradação do fio. Para o injetor, a leitura útil é dupla: o fio liso espessa a derme sob a ruga estática, e somar uma tecnologia ao fio só vale quando ela mostra efeito próprio.
Cicatriz atrófica de acne e de trauma
É onde o fio liso tem mais ensaio comparativo. Mohamed e colaboradores (2025, Arch Dermatol Res) trataram 20 pacientes com cicatriz atrófica pós-acne em desenho de hemiface: um lado com fio monofilamentar de PDO, o outro com subcisão somada ao fio. Em três meses, pela escala de Goodman e Baron, o lado só com fio teve melhora excelente em 10%, boa em 70% e fraca em 20%; o lado combinado, excelente em 30%, boa em 60% e fraca em 10%, sem diferença estatisticamente significativa entre os lados. Não houve efeito adverso grave.
Abdo e colaboradores (2025, Arch Dermatol Res) compararam, em 40 pacientes randomizados, subcisão seguida de fio de PDO em parafuso e subcisão seguida de laser de CO2 fracionado. Os dois grupos melhoraram de forma significativa. O grupo do laser reduziu mais a gravidade e a profundidade das cicatrizes e teve satisfação maior; o grupo do fio recuperou mais rápido, com menos tempo de afastamento. Os autores concluem que a escolha depende da preferência do paciente e do tipo de cicatriz — e é exatamente assim que o fio entra na consulta: como a opção de recuperação curta, não como a de maior efeito.
A cicatriz atrófica que não é de acne também responde. Hamolaila e colaboradores (2025, JPRAS Open) trataram com fios de PDO 20 pacientes com cicatriz facial atrófica de acidente ou de cirurgia prévia. Na escala POSAS, todas as variáveis do observador — vascularização, pigmentação, espessura, maleabilidade, área e homogeneidade — melhoraram de forma significativa; na avaliação do paciente, melhoraram cor, rigidez, espessura e aparência, e o prurido aumentou na primeira reavaliação.
Pálpebra inferior, como complemento
Khan e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) acrescentaram fios de PDO trançados à região do sulco lacrimal em 15 pacientes que fariam fio de sustentação no terço médio, e compararam com 15 que fizeram só o terço médio. Aos 7 meses, pela classificação de Barton, o grupo com o fio trançado ficou em 0,733 contra 1,733 do grupo sem ele, diferença significativa, e a autoavaliação também favoreceu o grupo do fio trançado. Não houve edema persistente, hematoma, irregularidade nem infecção no seguimento.

Quem é candidato e quem não é
O fio liso responde a uma pergunta simples: a pele perdeu qualidade, mas o tecido continua no lugar? Se a resposta é sim, ele entra no plano. Se a queixa é volume ou descida, entram outras ferramentas.
- Bom candidato: pele fina e sem viço, linhas finas periorbitais, rugas estáticas superficiais, cicatriz atrófica com base móvel, paciente que quer recuperação curta e aceita resultado progressivo.
- Candidato a outra ferramenta: descida do terço médio ou do contorno mandibular (fio espiculado, ver os tipos de fio de PDO e a indicação de cada um); perda de volume dominante (preenchedor ou bioestimulador); excesso de pele (cirurgia).
- Adiar: infecção ou inflamação ativa na área, acne em atividade sobre a cicatriz que se quer tratar, doença sistêmica descompensada e expectativa de efeito lifting.
Para a paciente de 45 a 60 anos, o fio liso raramente é o tratamento inteiro. Ele costuma entrar como camada de qualidade de pele dentro de um plano que já resolveu suporte e volume.
Técnica: malha, densidade e plano
A lógica técnica é a do estímulo distribuído. O que conta é cobrir a área de forma regular, no plano certo, com trajetos que não se amontoem.
Modelo · Sessão de fio liso para qualidade de pele
- Delimitar a área e desenhar a malha com a paciente sentada: linhas paralelas ou cruzadas cobrindo a região, com espaço regular entre os trajetos.
- Fotografar em luz, distância e posição padronizadas, porque a mudança é gradual e só a foto mostra a evolução.
- Antissepsia ampla e anestesia tópica ou local conforme a área.
- Inserir a agulha montada paralela à pele, no subcutâneo logo abaixo da derme, até o canhão; a resistência deve ser uniforme ao longo de todo o trajeto.
- Retirar a agulha deixando o fio no trajeto e comprimir o ponto de entrada.
- Repetir pela malha, sem cruzar dois fios no mesmo ponto superficial e sem deixar extremidade aflorando.
- Registrar produto, lote, número de fios e mapa da malha no prontuário.
Três erros respondem pela maior parte dos resultados ruins. O fio superficial demais fica visível ou palpável e pode extruir. O fio fundo demais sai da derme que se queria estimular e passa a ser apenas um trajeto no subcutâneo profundo. E a malha irregular gera estímulo irregular: uma área mais firme ao lado de outra sem mudança. As complicações de fio e a conduta de cada uma estão na página sobre complicações dos fios de sustentação.

Combinar com tecnologia e com outros injetáveis
O fio liso convive bem com outras ferramentas de qualidade de pele, mas a ordem e o intervalo importam, e o dado animal é um alerta útil. Li e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) implantaram fios de PDO na pele de porcos e aplicaram radiofrequência monopolar sobre os mesmos pontos duas semanas depois. Às 6 e às 12 semanas, PDO e radiofrequência produziram remodelação de colágeno em níveis comparáveis; a combinação não aumentou a neocolagênese e amplificou a resposta inflamatória, com paniculite nodular e necrose de adipócitos às 6 semanas, em grande parte resolvidas às 12. Os autores concluem que a combinação não é recomendada.
A leitura prática é planejar: se a pele vai receber fio e aparelho de energia, cada um ganha a sua janela, e a sequência é decidida na consulta. Com injetáveis de qualidade de pele, a lógica é a mesma — o fio constrói estrutura dérmica, o skinbooster hidrata e o microagulhamento trabalha a superfície, cada um no seu plano.
O que dizer à paciente
- O efeito é gradual. O colágeno se forma ao redor do fio nas semanas seguintes; não existe o "antes e depois" do mesmo dia que o fio espiculado mostra.
- O fio some. A polidioxanona é absorvida em torno de 6 a 8 meses; o que fica é o colágeno formado.
- Equimose pontual é esperada nos pontos de entrada, e some em dias.
- Não é lifting. Se a queixa é queda, o fio liso não é a resposta, e isso fica escrito no termo.
Onde se aprende a malha
Densidade de malha e profundidade certa são percepções de mão: a agulha conta em que camada está pela resistência, e a pele mostra no mesmo instante se o trajeto ficou raso. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) ensina os fios no Módulo A1, Face Avançada, com o PDO separado por desenho — mono, multi, espiralado e espiculado — e por região, ao lado de PLA/PCL e Aptos e da anestesia própria dos fios. O aluno chega ao sábado presencial em Brasília com o pré-work gravado visto; ali, a parte teórica é demonstração comentada e a parte prática é execução supervisionada, feita pelo próprio médico em paciente modelo, numa turma de até oito. Para o fio que reposiciona, veja como aplicar fios de PDO na face; os quatro módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Fio de PDO liso serve para quê?
Para qualidade de pele: firmeza, textura, linhas finas e cicatriz atrófica. Sem espícula, ele não prende o tecido e não reposiciona; o efeito vem do colágeno que se forma na cápsula ao redor de cada trajeto.
Em que plano se coloca o fio liso?
No subcutâneo, logo abaixo da derme. Superficial demais, o fio fica visível, palpável e pode extruir; profundo demais, se afasta da derme que se quer estimular.
Quantos fios lisos se usam por região?
O número sai da área e da malha desenhada, não de uma tabela. Como referência publicada, Arora e Arora usaram 10 fios monofilamentares por lado na região periorbital inferolateral, 5 laterais e 5 infraorbitais, e registraram queda da escala de rugas de 2,29 para 1 em 16 semanas.
Fio liso de PDO funciona em cicatriz de acne?
Sim, em cicatriz atrófica. Em 20 pacientes, Mohamed e colaboradores viram melhora boa ou excelente em 80% do lado tratado só com fio, sem diferença significativa para o lado com subcisão associada. Abdo e colaboradores mostraram que o laser de CO2 fracionado após subcisão reduziu mais a profundidade da cicatriz, enquanto o fio teve recuperação mais rápida.
Quanto tempo o fio liso fica na pele?
A polidioxanona é absorvida em torno de 6 a 8 meses. O fio desaparece; o colágeno formado ao redor dele é o que sustenta o resultado.
Posso fazer radiofrequência logo depois do fio de PDO?
Vale separar as duas coisas no tempo. Em porcos, Li e colaboradores aplicaram radiofrequência duas semanas depois do PDO: a combinação não aumentou o colágeno e amplificou a inflamação, com paniculite nodular às 6 semanas. A sequência e o intervalo se planejam na consulta.
Fio liso dá efeito lifting?
Não. Ele melhora a qualidade da pele, mas não desloca tecido. Quando há descida do terço médio ou do contorno, a ferramenta é o fio espiculado ou com cones, com vetor oposto à queda.
Referências
- Yoon JH, Kim SS, Oh SM, et al. Tissue changes over time after polydioxanone thread insertion: An animal study with pigs. J Cosmet Dermatol. 2019;18(3):885-891. · PMID 30058213 · DOI 10.1111/jocd.12718
- Kim JH, Han MW, Lee MH, et al. Comparative In Vivo Study of Solid-Type Pure Hyaluronic Acid in Thread Form: Safety and Efficacy Compared to Hyaluronic Acid Filler and Polydioxanone Threads. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(2):221-227. · PMID 37644191 · DOI 10.1007/s00266-023-03614-6
- Arora G, Arora S. Periorbital Rejuvenation: A Study on the Use of Dermal Threads as Monotherapy, with a Review of Literature. J Cutan Aesthet Surg. 2022;15(1):48-57. · PMID 35655650 · DOI 10.4103/JCAS.JCAS_221_20
- Garcia PC, Meireles DP, Tassinary JAF, Pavani C. Combining red photobiomodulation therapy with polydioxanone threads for wrinkle reduction in the glabella region: A randomized, controlled, double-blind clinical trial. J Biophotonics. 2024;17(8):e202400139. · PMID 38934100 · DOI 10.1002/jbio.202400139
- Mohamed MAA, Darwish HMA, Abd-Elhafiz HS. Combined subcision with polydioxanone monofilament (PDO) threads versus polydioxanone monofilament (PDO) threads alone in treatment of atrophic post-acne scars. Arch Dermatol Res. 2025;317(1):725. · PMID 40252132 · DOI 10.1007/s00403-025-04204-z
- Abdo H, Shawky A, Elkholy MS, Nasr MI. PDO screw threads versus fractional CO2 laser, after subcision, for atrophic acne scar remodelling: a randomized group-based comparative study. Arch Dermatol Res. 2025;317(1):236. · PMID 39804529 · DOI 10.1007/s00403-024-03727-1
- Hamolaila MK, Zenati M, Shehada A. Treating Facial Scars using Polydioxanone Threads. JPRAS Open. 2025;43:497-505. · PMID 40026536 · DOI 10.1016/j.jpra.2025.01.006
- Khan G, Kim BJ, Kim DG, Park E. Retrospective study of the absorbable braided polydioxanone threads' usefulness in the aged lower eyelids' rejuvenation. J Cosmet Dermatol. 2022;21(11):5952-5956. · PMID 35866335 · DOI 10.1111/jocd.15257
- Li K, Zhang X, Guo W, et al. Polydioxanone thread insertion in combination with radio frequency treatment does not exhibit synergistic efficacy: Animal study with pigs. J Cosmet Dermatol. 2022;21(8):3479-3485. · PMID 34951734 · DOI 10.1111/jocd.14651
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