Toxina e enxaqueca: quando o injetor estético encaminha
Toxina botulínica

Toxina botulínica e enxaqueca: quando o injetor estético deve encaminhar

A paciente pede para aproveitar a sessão e tratar a enxaqueca, ou volta contando que a dor melhorou depois da toxina na testa. O que a literatura diz sobre a toxina na enxaqueca crônica, os sinais de alarme da cefaleia e por que a conduta do injetor estético é encaminhar.

Enxaqueca crônica é doença neurológica: o diagnóstico exige critério de frequência, exclusão de causa secundária e investigação do uso excessivo de analgésico, e o tratamento é um plano preventivo conduzido por quem trata cefaleia — no qual a onabotulinumtoxinA entra por um protocolo próprio, o PREEMPT, com dose, sítios e seguimento que não são os da toxina estética. O papel do injetor estético é outro: perguntar, reconhecer os sinais de alarme, encaminhar ao neurologista e, quando o paciente já recebe toxina para enxaqueca, coordenar com quem aplica antes de tocar na testa e na glabela.

A pergunta chega ao consultório estético por dois caminhos: a paciente que leu que "botox trata enxaqueca" e pede para aproveitar a sessão, e a que voltou dizendo que a dor de cabeça melhorou depois da toxina na testa. As duas merecem a mesma resposta, e ela começa por entender o que é a doença.

O que define enxaqueca crônica

O consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia sobre o tratamento da enxaqueca crônica, publicado por Kowacs e colaboradores (2019, Arq Neuropsiquiatr), caracteriza a doença por cefaleia em 15 dias ou mais por mês, durante pelo menos três meses, com pelo menos oito dias de dor com características de enxaqueca. O mesmo texto lembra que ela se associa com frequência ao uso excessivo de analgésicos ou de medicação aguda para enxaqueca, e que isso não pode passar despercebido. Na revisão de Diener e colaboradores (2012, Nat Rev Neurol), a definição citada da classificação internacional exige ainda a ausência de uso excessivo de medicação — ou seja, separar uma coisa da outra é parte do diagnóstico.

O tratamento que o consenso brasileiro descreve é amplo: medidas farmacológicas e não farmacológicas, estratégias de retirada do analgésico usado em excesso e cuidados na gestação e na amamentação. Topiramato oral e onabotulinumtoxinA injetável são os dois únicos tratamentos com recomendação classe A. A toxina, portanto, é uma das peças de um plano neurológico, decidida depois do diagnóstico e acompanhada ao longo do tempo — não um procedimento avulso.

O PREEMPT em um parágrafo

A indicação nasceu de dois ensaios de fase 3 idênticos no desenho, o PREEMPT 1 e o PREEMPT 2. Na análise conjunta de Dodick e colaboradores (2010, Headache), 1.384 adultos com enxaqueca crônica foram randomizados para onabotulinumtoxinA de 155 a 195 U ou placebo, a cada 12 semanas, em fase duplo-cega de 24 semanas seguida de fase aberta. A redução de dias de cefaleia na semana 24 foi de 8,4 dias com a toxina contra 6,6 com placebo (p < 0,001), com eventos adversos em 62,4% e 51,7%, respectivamente. No PREEMPT 1 isolado (Aurora et al., 2010, Cephalalgia), o desfecho primário — episódios de cefaleia — não diferiu do placebo (−5,2 contra −5,3), mas dias de cefaleia e dias de enxaqueca diferiram. O método de aplicação, descrito por Blumenfeld e colaboradores (2010, Headache), combina sítios fixos na cabeça e no pescoço com sítios que seguem a dor de cada paciente. No estudo observacional europeu de Matharu e colaboradores (2017, Cephalalgia), com 1.160 pacientes e 85 médicos — 81% deles neurologistas —, a mediana foi de 31 sítios e 155 U por sessão, com 13,7 semanas entre as sessões; o evento adverso relacionado mais frequente foi dor cervical (4,4%).

Para o injetor estético, o contraste é imediato: pela bula do Botox Cosmetic, a glabela recebe 20 U e a testa com a glabela, 40 U. O protocolo de enxaqueca usa várias vezes essa dose, distribuída por cabeça e pescoço, em paciente selecionado por critério neurológico e acompanhado por diário de dor. Não é uma versão ampliada da sessão estética; é outro tratamento.

Frontal, corrugadores e prócero, território comum à toxina estética e ao protocolo de enxaqueca — Dr. Thiago Perfeito
Frontal (em destaque) e, em cinza, corrugadores, prócero e orbicular do olho. A glabela e a testa recebem toxina tanto na indicação estética quanto no protocolo de enxaqueca, e é por isso que as duas aplicações, quando coexistem no mesmo paciente, precisam ser combinadas entre quem as faz.

Quando a transferência dá errado

A tentação de levar a técnica estética para a enxaqueca foi medida. Boczarska-Jedynak (2023, Neurol Neurochir Pol) enviou um questionário a 110 médicos da Polônia que atuam em medicina estética, com taxa de resposta de 73,6%. As respostas revelaram desvios em todas as etapas — da seleção do paciente ao procedimento e à forma de avaliar o resultado —, e só cerca de um terço classificou a eficácia que observava como muito boa. A autora conclui que transferir práticas da medicina estética para o tratamento neurológico é comum e pode levar a falta de eficácia ou até a piora dos sintomas.

A lição para o consultório brasileiro é a mesma: o injetor estético domina a anatomia e a técnica de injeção, mas a enxaqueca crônica se trata com diagnóstico, diário de dor, manejo do analgésico, escolha entre preventivos e reavaliação periódica. Isso é trabalho do neurologista. Encaminhar não é falta de habilidade; é a conduta que protege o paciente e o próprio médico.

Sinais de alarme: quando a dor não é enxaqueca

Antes de qualquer conversa sobre tratamento, a cefaleia que chega à anamnese estética precisa passar por um filtro simples: ela tem cara de causa secundária? A revisão de Do e colaboradores (2019, Neurology) organizou os sinais de alerta na lista SNNOOP10, com 15 itens:

Para quem trabalha em português, Leone e colaboradores (2025, Arq Neuropsiquiatr) reorganizaram os mesmos itens no mnemônico "NÃO É PRIMÁRIA", agrupando-os por sentido. Para quem faz a anamnese em português, é um lembrete mais fácil de guardar do que a sigla em inglês.

Mnemônico NÃO É PRIMÁRIA ligado aos sinais de alerta da lista SNNOOP10 para cefaleia secundária — Dr. Thiago Perfeito
À esquerda, as letras do mnemônico "NÃO É PRIMÁRIA"; à direita, os sinais de alerta da lista SNNOOP10 a que cada uma corresponde; embaixo, exames de imagem de causas secundárias de cefaleia. Figure 1 de Leone DCMG et al., Arq Neuropsiquiatr 2025 (PMID 41360402), sob licença CC BY; adaptada com a retirada do recorte do cabeçalho do artigo original.

O que o injetor faz com cada achado é princípio clínico, não protocolo publicado. Dor de início súbito e muito intenso, déficit neurológico, alteração de consciência, febre com outros sintomas sistêmicos ou papiledema são motivo de avaliação de urgência no mesmo dia, e a sessão estética não acontece. Os demais sinais — cefaleia nova, mudança de padrão, dor que piora deitado ou em pé, dor que começa com tosse ou esforço, gestação, trauma recente, imunossupressão, uso diário de analgésico — pedem encaminhamento ao neurologista antes de qualquer decisão sobre toxina na cabeça.

A paciente que melhorou da dor com a toxina estética

O relato é real e foi estudado. Goldman e colaboradores (2014, J Cosmet Dermatol) aplicaram questionários antes e depois em pacientes que buscavam tratamento de linhas de expressão. Dos 45 que tinham cefaleia antes, 76% (22 de 29) dos que receberam só onabotulinumtoxinA estética relataram melhora global da dor, com redução da frequência, da intensidade e dos dias de analgésico; a melhora da dor apareceu em média em 9,5 dias, contra 4,4 dias para a mudança de aparência. As doses foram as estéticas, de 15 a 50 U.

Esse achado explica por que a paciente associa as duas coisas, mas não muda a conduta. Quem tem dor de cabeça frequente o bastante para notar diferença precisa de diagnóstico: pode ser enxaqueca episódica, enxaqueca crônica, cefaleia por uso excessivo de analgésico ou uma das causas secundárias da lista acima. A melhora não vira indicação, e o injetor estético não promete efeito sobre a dor nem ajusta pontos para tratá-la. Registra o relato na ficha e encaminha.

Masseter e temporal em vista lateral, músculos da mastigação na anamnese de dor da cabeça e da face — Dr. Thiago Perfeito
Crânio em perfil com o masseter, do arco zigomático ao ângulo da mandíbula, e o temporal, em leque na fossa temporal, em destaque. A dor que a paciente aponta na têmpora ou no ângulo da mandíbula entra na mesma anamnese: músculo da mastigação tem indicação e avaliação próprias, e cefaleia frequente não se presume muscular sem diagnóstico.

O mesmo vale para a dor que a paciente localiza na têmpora ou na mandíbula e atribui ao bruxismo. A toxina no masseter para bruxismo e no músculo temporal tem indicação, diagnóstico e acompanhamento próprios, e a cefaleia que acompanha esse quadro continua precisando de avaliação quando é frequente ou mudou de padrão.

A paciente que já recebe toxina para enxaqueca

Este é o caso que mais exige do injetor estético, porque os territórios se sobrepõem. Boczarska-Jedynak e Blumenfeld (2023, Headache) revisaram a técnica do PREEMPT na glabela e na testa e descrevem a situação comum da paciente em tratamento de enxaqueca que, incomodada com a aparência, procura um injetor estético. Os autores apontam três pontos:

Do lado da paciente, a aparência importa. Num estudo transversal em centros de cefaleia, Boczarska-Jedynak e colaboradores (2025, Toxins) avaliaram 124 pacientes que tinham recebido pelo menos três ciclos de onabotulinumtoxinA para enxaqueca crônica: 74,2% relataram melhora estética e 76,7% disseram que o tratamento atendeu ou superou as expectativas. Os efeitos estéticos adversos foram em geral leves, mas não raros.

Na prática, diante dessa paciente: perguntar quem aplica, qual produto, quantas unidades, em quais regiões e em que data foi a última sessão; registrar na ficha; falar com o neurologista antes de planejar glabela e testa; e marcar a aplicação estética dentro do ciclo combinado, nunca como reforço solto. O retoque do retorno de 15 a 30 dias, quando necessário, é pontual, de dose pequena e só onde ficou atividade — e, nessa paciente, também combinado com quem aplica o protocolo, porque a mesma revisão pede o intervalo de 10 a 12 semanas justamente para reduzir o risco de anticorpos, e reforço em intervalo curto vai na direção contrária.

As perguntas que entram na ficha

Seis perguntas resolvem a triagem de cefaleia na consulta estética e ficam registradas no prontuário:

  1. Quantos dias por mês você tem dor de cabeça? Há quanto tempo é assim?
  2. Em quantos dias por mês você toma remédio para dor?
  3. A dor mudou de jeito recentemente, começou de repente ou piora com tosse, esforço ou posição?
  4. Você tem diagnóstico de enxaqueca e acompanha com neurologista?
  5. Já recebeu toxina para dor de cabeça? Quando, com quem, quanto e onde?
  6. Está grávida, amamentando, teve trauma na cabeça ou começou algum remédio novo?

Resposta que acende um sinal de alarme suspende a sessão e gera encaminhamento. Dor frequente sem sinal de alarme, mas sem diagnóstico, gera encaminhamento ao neurologista com uma carta curta: o que a paciente relatou, o que foi aplicado em que data e em que áreas. Paciente já em tratamento gera contato com quem a acompanha antes do plano estético.

Formação

A anamnese que separa o que é estético do que não é faz parte do raciocínio de quem injeta toxina com segurança. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o módulo de toxina e preenchimento trabalha a anatomia funcional dos três terços, a farmacologia e as marcas, o mapa de pontos com doses de referência e as intercorrências. O pré-work gravado vem antes; no sábado presencial, na clínica INTI, em Brasília, a demonstração comentada é a parte teórica e a parte prática é a execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, em turma de até oito médicos. Os módulos estão em Cursos. O Dr. Thiago não mantém relação comercial com fabricantes de toxina.

Síntese

A enxaqueca crônica tem critério diagnóstico, causas a excluir, um problema frequente de analgésico em excesso e um tratamento preventivo em que a toxina é uma das opções, aplicada por protocolo próprio. O injetor estético pergunta, registra, reconhece o sinal de alarme, encaminha ao neurologista e, quando a paciente já faz toxina para enxaqueca, combina antes de aplicar. Mais textos técnicos na Biblioteca.

Perguntas frequentes

O injetor estético pode tratar enxaqueca com toxina botulínica?

A conduta do injetor estético é encaminhar ao neurologista. Enxaqueca crônica exige diagnóstico por critério, exclusão de causa secundária e manejo do uso de analgésico; quando a toxina é indicada, ela segue o protocolo PREEMPT, com dose, sítios e seguimento próprios, dentro de um plano preventivo neurológico.

O que é enxaqueca crônica?

Cefaleia em 15 dias ou mais por mês, por pelo menos três meses, com pelo menos oito dias de dor com características de enxaqueca, segundo o consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia (Kowacs et al., 2019). Ela se associa com frequência ao uso excessivo de analgésicos.

Qual a dose de toxina no protocolo PREEMPT?

Nos ensaios PREEMPT, 155 a 195 U de onabotulinumtoxinA a cada 12 semanas, em sítios fixos na cabeça e no pescoço somados a sítios que seguem a dor. Na prática europeia observada por Matharu e colaboradores (2017), a mediana foi de 31 sítios e 155 U por sessão. Pela bula do Botox Cosmetic, a glabela estética recebe 20 U.

Quais sinais de alarme de cefaleia o injetor deve conhecer?

Os da lista SNNOOP10: sintomas sistêmicos e febre, história de câncer, déficit neurológico, início súbito, início em idade mais avançada, dor nova ou que mudou de padrão, dor posicional, dor desencadeada por tosse ou esforço, papiledema, dor progressiva, gestação ou puerpério, olho doloroso com sinais autonômicos, trauma, imunossupressão e uso excessivo de analgésico. Qualquer um deles suspende a sessão estética e gera encaminhamento.

A toxina estética pode melhorar a dor de cabeça?

Pacientes relatam. Em Goldman e colaboradores (2014), 76% dos que tinham cefaleia e receberam só toxina estética, em doses de 15 a 50 U, relataram melhora. O relato vai para a ficha, mas não vira indicação: dor de cabeça frequente precisa de diagnóstico com o neurologista.

Paciente que faz toxina para enxaqueca pode fazer toxina estética?

Pode, combinando com quem aplica o protocolo. Glabela e testa estão nos dois tratamentos; aplicar no mesmo dia da sessão de enxaqueca sem conversar arrisca sobredose, e a revisão de Boczarska-Jedynak e Blumenfeld (2023) recomenda intervalo de 10 a 12 semanas entre aplicações e pontos estéticos que não se sobreponham aos do protocolo.

Referências

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  3. Dodick DW, Turkel CC, DeGryse RE, et al. OnabotulinumtoxinA for treatment of chronic migraine: pooled results from the double-blind, randomized, placebo-controlled phases of the PREEMPT clinical program. Headache. 2010;50(6):921-936 · PMID 20487038 · DOI 10.1111/j.1526-4610.2010.01678.x
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  5. Blumenfeld A, Silberstein SD, Dodick DW, et al. Method of injection of onabotulinumtoxinA for chronic migraine: a safe, well-tolerated, and effective treatment paradigm based on the PREEMPT clinical program. Headache. 2010;50(9):1406-1418 · PMID 20958294 · DOI 10.1111/j.1526-4610.2010.01766.x
  6. Matharu M, Pascual J, Nilsson Remahl I, et al. Utilization and safety of onabotulinumtoxinA for the prophylactic treatment of chronic migraine from an observational study in Europe. Cephalalgia. 2017;37(14):1384-1397 · PMID 28758415 · DOI 10.1177/0333102417724150
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  8. Leone DCMG, Segundo AFSM, Meira AT. "NÃO É PRIMÁRIA": a Portuguese version of the SNNOOP10 mnemonic. Arq Neuropsiquiatr. 2025;83(12):1-7 · PMID 41360402 · DOI 10.1055/s-0045-1813240
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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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