Ultherapy: visualização e técnica (MFU-V)
Tecnologias

Ultherapy: visualização e técnica

O que distingue o Ultherapy de outros ultrassons focalizados não é a energia, é a imagem: o transdutor mostra as camadas antes de disparar. Aprender a ler essa tela — e a montar o plano de linhas a partir dela — é a técnica do aparelho.

O Ultherapy é o ultrassom microfocado com visualização (MFU-V) da Merz: o mesmo transdutor que dispara também gera imagem de ultrassom do tecido, e o médico vê, antes de cada linha, onde estão a derme, a gordura, o SMAS e o osso, e se o transdutor está bem acoplado à pele. A técnica gira em torno dessa imagem — ver, planejar e só então disparar. O aparelho trabalha com transdutores de profundidade fixa, e a versão mais recente se chama Ultherapy PRIME. Esta página é técnica e neutra; os ultrassons focalizados em uso na clínica INTI são outros, o Ultraformer MPT e o Linear Z. O raciocínio de camada é o mesmo; o que muda aqui é o recurso de enxergar o alvo durante a sessão.

O que é o MFU-V e para que foi liberado

Nos Estados Unidos, o FDA liberou o MFU-V para elevar o tecido da sobrancelha, do submento e do pescoço e para melhorar linhas e rugas do colo, conforme o consenso de Pavicic e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol). Mais recentemente, como registra o consenso de Lin e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), vieram o abdome e a parte superior dos braços; em agosto de 2026, os joelhos. A liberação do FDA não equivale a registro na Anvisa; aqui, o aparelho consta como "Ulthera System", classe II, em nome da Merz.

O mecanismo é o de todo ultrassom microfocado. A revisão de Vachiramon e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), com três coautores funcionários da Merz, descreve a energia atravessando as camadas da pele e criando pontos de coagulação térmica localizados, inclusive no SMAS; esses pontos recrutam fibroblastos e estimulam colágeno e elastina novos, com melhora de firmeza e textura.

Transdutores de ultrassom microfocado com visualização e suas profundidades na pele — estudo de Vachiramon — Dr. Thiago Perfeito
À esquerda, as camadas da pele — epiderme, derme, subcutâneo e SMAS — com as marcas de profundidade. À direita, quatro transdutores e o plano onde cada um forma sua fileira de pontos de coagulação: dois no SMAS e dois em níveis diferentes da derme. FIGURE 1 de Vachiramon V et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 39501429), reproduzida sob licença CC BY.

O que a tela mostra

A imagem tem quatro usos, descritos no texto completo do consenso de Pavicic: confirmar que a profundidade do transdutor bate com a camada que se quer tratar; evitar disparar sobre o que não é alvo, como osso e vasos calibrosos; ajustar profundidade e energia a cada paciente; e checar o acoplamento — se o transdutor não está bem apoiado, o aparelho avisa com um código de erro. No teste de bancada desse consenso, a imagem em tempo real e a detecção de acoplamento estavam presentes no MFU-V e ausentes nos três HIFU testados; o trabalho foi patrocinado pela Merz, e os autores clínicos são consultores ou palestrantes da empresa.

Na prática, a tela se lê de cima para baixo. A primeira linha clara é a epiderme; abaixo dela, a derme, mais ecogênica; depois, o subcutâneo, mais escuro e entremeado de septos; em seguida, uma faixa fibrosa — o SMAS ou a fáscia da região — e, conforme a área, músculo e o contorno brilhante do osso. Quando o osso aparece raso, o transdutor profundo não é disparado sobre ele; quando a imagem some numa borda, falta gel ou pressão.

O valor dessa leitura aparece quando o paciente foge da média. Park e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), em trabalho financiado pela Merz, ao propor um protocolo para homens asiáticos, lembram que o homem tende a ter epiderme e derme mais espessas e subcutâneo mais fino que a mulher, com menos gordura nas bochechas, e que por isso a profundidade do SMAS muda entre os sexos — razão pela qual defendem a visualização para individualizar o tratamento. O artigo propõe um roteiro em três etapas, a começar pela avaliação das necessidades estéticas: no homem, em geral definição da mandíbula e formato do rosto.

Da imagem ao plano de linhas

O consenso de Fabi e colaboradores (2019, J Drugs Dermatol), feito por cinco médicos com experiência no aparelho, resume a lógica: a imagem de ultrassom serve para escolher o transdutor, a profundidade e o número de linhas em cada profundidade; os melhores resultados se associam a tratamentos de maior densidade; e o intervalo entre sessões se ajusta à idade, com pacientes mais velhos precisando de sessões mais frequentes para manter o efeito.

Modelo · Ver, planejar, tratar

  1. Ver. Antes de marcar, examinar cada região com o transdutor: espessura de pele e subcutâneo, posição do SMAS, onde o osso fica raso.
  2. Planejar. Desenhar as zonas na pele, escolher uma ou duas profundidades por zona e distribuir as linhas conforme a espessura e a queixa.
  3. Tratar. Antes de cada linha, conferir na imagem o acoplamento e a camada; começar pela profundidade maior e terminar na mais rasa.
  4. Revisar. Fechar a sessão registrando zonas, transdutores e linhas, para a próxima partir do mesmo mapa.

A série de Lim e colaboradores (2025, Plast Reconstr Surg Glob Open) aplicou essa abordagem — que os autores chamam de See, Plan, Treat — com o Ultherapy PRIME, a versão com processador e imagem atualizados. Trinta pacientes asiáticos com flacidez de mandíbula e pescoço receberam uma sessão em duas profundidades, com 650 linhas ou mais, voltadas às camadas fibrosa e dérmica profunda. Aos 90 dias, a maioria melhorou ao menos 1 ponto na escala de mandíbula e de volume do pescoço, independentemente de fototipo, idade, índice de massa corporal ou sexo; todos os médicos e pacientes registraram melhora na escala global, e a dor média foi de 4,50. O programa foi patrocinado pela Merz, e os autores foram remunerados pelas aplicações.

No corpo, o consenso de Lin e colaboradores (2025) diz que o candidato ideal tem flacidez leve a moderada e o tecido-alvo numa profundidade tratável — algo que só a imagem confirma. Os autores propõem mapas em colunas do tamanho do transdutor para o abdome e para o braço, onde o tratamento se concentra no terço médio, longe do ombro e do cotovelo, com profundidades escolhidas na tela. Todos os autores receberam honorários da Merz pela participação.

Corte transversal da pele com epiderme, derme destacada, gordura e músculo — Dr. Thiago Perfeito
Corte da pele com epiderme, derme em destaque, gordura subcutânea e músculo. É essa sequência que a tela do MFU-V reproduz em tons de cinza: a derme clara, o subcutâneo mais escuro, a faixa fibrosa abaixo dele e, em algumas regiões, o osso logo em seguida.

Conforto e o que a pele faz depois

A dor leva parte dos pacientes a hesitar ou a recusar o procedimento. Fabi e colaboradores (2020, Aesthet Surg J) reuniram a experiência dos autores com medidas farmacológicas e não farmacológicas e concluíram que a atenção ao conforto se relaciona com a satisfação e parece pesar na decisão de voltar. Tran e colaboradores (2022, J Drugs Dermatol) testaram em 10 pacientes, face dividida ao meio, o óxido nitroso autoadministrado em um dos lados: a diferença de dor foi clinicamente significativa em 2 dos 3 momentos medidos, e os 9 que completaram o estudo se declararam satisfeitos.

Kerscher e colaboradores (2019, Clin Cosmet Investig Dermatol), com dois coautores funcionários da Merz, mediram a fisiologia da pele de 22 mulheres após uma sessão na mandíbula e no submento. A barreira cutânea não mudou: perda de água transepidérmica, hidratação e eritema ficaram estáveis. A elasticidade caiu na 4ª semana e subiu, acima do basal, na 12ª e na 24ª. O edema regrediu sem sequela e não houve evento adverso em 24 semanas. Vale avisar o paciente de que a firmeza não aparece no primeiro mês.

Combinação com bioestimulador

Parte da literatura do MFU-V combina, na mesma sessão, o ultrassom e a hidroxiapatita de cálcio diluída. Casabona e Nogueira Teixeira (2018, J Cosmet Dermatol) trataram 47 pessoas no pescoço, no colo ou nos dois, com ultrassom seguido de injeção subdérmica de CaHA diluída 1:1 com lidocaína: aos 90 dias, a nota média das linhas do pescoço foi de 2,6 para 1,3, e as do colo, de 2,6 e 3,3 para 1,1 e 1,8, nas duas escalas usadas. Ramirez e Puah (2021, J Cosmet Dermatol), com verba da Merz, trataram 12 mulheres com flacidez de braço da mesma forma, com transdutores de 4,5 mm e de 3,0 mm seguidos de CaHA diluída (1:1) ou hiperdiluída (1:2); o índice R0 de firmeza passou de 0,515 para 0,433 mm em 24 semanas. A técnica de diluição está no guia de Radiesse hiperdiluído.

São protocolos de estudo, feitos na mesma sessão. A conduta do Dr. Thiago Perfeito é outra: bioestimulador ou preenchedor de um lado, sessão de aparelho de energia do outro, com 2 a 4 semanas entre eles.

Onde isso entra na formação

O Ultherapy não está entre as tecnologias da clínica INTI. O que a Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito ensina, no bloco de tecnologias do Módulo B2, é a base que vale para qualquer ultrassom focalizado: qual camada cada profundidade alcança, como ler a espessura do paciente, quando a tecnologia entra no plano e o que oferecer quando o consultório não tem aparelho. O ultrassom focalizado trabalhado ali é o Ultraformer MPT. A formação é dividida em quatro sábados presenciais, cada um com pré-work gravado obrigatório e no máximo 8 médicos; os módulos estão em /cursos/. A escolha de cartucho por região está no guia de profundidades do ultrassom microfocado, e os critérios para escolher um curso de tecnologia, no guia de cursos de tecnologias.

Ausência de relação comercial: o Dr. Thiago Perfeito não tem vínculo com a Merz nem com os demais fabricantes citados.

Perguntas frequentes

O que significa a visualização do Ultherapy?

O transdutor do Ultherapy também gera imagem de ultrassom. Antes de cada linha, o médico vê as camadas — derme, subcutâneo, SMAS, osso — e confere se o transdutor está bem acoplado; se não estiver, o aparelho avisa.

Quais áreas o FDA liberou para o Ultherapy?

Sobrancelha, submento e pescoço (elevação) e linhas do colo; depois, abdome e parte superior dos braços e, em agosto de 2026, joelhos. A liberação do FDA não equivale a registro na Anvisa.

Quais são os transdutores do Ultherapy?

Transdutores de profundidade fixa, cada um com sua camada-alvo: os mais profundos miram a camada fibrosa (SMAS ou fáscia) e os mais rasos, a derme. Os de 4,5 mm e de 3,0 mm, por exemplo, foram os usados no braço por Ramirez (2021). A escolha entre eles se faz pela imagem de cada região.

Mais linhas dão resultado melhor?

O consenso de Fabi (2019) associa os melhores resultados a tratamentos de maior densidade, com o número de linhas definido por profundidade a partir da imagem de cada paciente.

O Ultherapy dói?

Incomoda: na série de Lim (2025) com o Ultherapy PRIME, a nota média de dor foi de 4,50. Medidas farmacológicas e não farmacológicas reduzem o desconforto; num estudo de face dividida com óxido nitroso autoadministrado, a diferença de dor foi clinicamente significativa em 2 dos 3 momentos medidos.

Quando aparece o resultado do Ultherapy?

Não no primeiro mês: no estudo de Kerscher (2019), a elasticidade caiu na 4ª semana e subiu acima do basal na 12ª e na 24ª, após uma sessão.

Pode combinar Ultherapy com Radiesse na mesma sessão?

Há estudos que fizeram o ultrassom seguido de CaHA diluída na mesma sessão, no pescoço, no colo e nos braços. Na conduta do Dr. Thiago Perfeito, bioestimulador e aparelho de energia ficam separados por 2 a 4 semanas.

Referências

  1. Pavicic T, Ballard JR, Bykovskaya T, et al. Microfocused ultrasound with visualization: Consensus on safety and review of energy-based devices. J Cosmet Dermatol. 2022;21(2):636-647. · PMID 34951735 · DOI 10.1111/jocd.14666
  2. Fabi SG, Joseph J, Sevi J, Green JB, Peterson JD. Optimizing Patient Outcomes by Customizing Treatment With Microfocused Ultrasound With Visualization: Gold Standard Consensus Guidelines from an Expert Panel. J Drugs Dermatol. 2019;18(5):426-432. · PMID 31141851
  3. Park JY, Hong W, Lee KC, et al. Customizing Microfocused Ultrasound With Visualization Treatment for Facial Lifting in Asian Men: Experience and Practical Insights From Korea. J Cosmet Dermatol. 2025;24(6):e70278. · PMID 40488260 · DOI 10.1111/jocd.70278
  4. Vachiramon V, Pavicic T, Casabona G, et al. Microfocused Ultrasound in Regenerative Aesthetics: A Narrative Review on Mechanisms of Action and Clinical Outcomes. J Cosmet Dermatol. 2025;24(2):e16658. · PMID 39501429 · DOI 10.1111/jocd.16658
  5. Lim J, Siew TW, Xu Y. Early Experience With Ultherapy Prime in Asia Pacific: A Pilot Case Series. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2025;13(11):e7269. · PMID 41282450 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007269
  6. Lin F, Vachiramon V, Casabona G, et al. Microfocused Ultrasound With Visualization for Body Indications: A Global Expert Consensus on Best Practices for Treatment of the Abdomen and Arms. J Cosmet Dermatol. 2025;24(10):e70449. · PMID 40995829 · DOI 10.1111/jocd.70449
  7. Fabi SG, Few JW, Moinuddin S. Practical Guidance for Optimizing Patient Comfort During Microfocused Ultrasound with Visualization and Improving Patient Satisfaction. Aesthet Surg J. 2020;40(2):208-216. · PMID 30869754 · DOI 10.1093/asj/sjz079
  8. Tran J, Lultschik S, Sapra S, et al. Prospective, Single-arm, Split-face Pain Management Evaluation of Nitrous Oxide System During Micro-Focused Ultrasound With Visualization. J Drugs Dermatol. 2022;21(11):1228-1234. · PMID 36342737 · DOI 10.36849/JDD.7030
  9. Kerscher M, Nurrisyanti AT, Eiben-Nielson C, et al. Skin physiology and safety of microfocused ultrasound with visualization for improving skin laxity. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2019;12:71-79. · PMID 30666145 · DOI 10.2147/CCID.S188586
  10. Casabona G, Nogueira Teixeira D. Microfocused ultrasound in combination with diluted calcium hydroxylapatite for improving skin laxity and the appearance of lines in the neck and décolletage. J Cosmet Dermatol. 2018;17(1):66-72. · PMID 29285863 · DOI 10.1111/jocd.12475
  11. Ramirez S, Puah IBK. Effectiveness of combined microfocused ultrasound with visualization and subdermal calcium hydroxyapatite injections for the management of brachial skin laxity. J Cosmet Dermatol. 2021;20(12):3871-3879. · PMID 34716645 · DOI 10.1111/jocd.14573
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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