Precificação e ticket

Como cobrar mais caro que a concorrência: o que o preço maior precisa pagar

O médico quer cobrar mais, levanta o valor dos consultórios da região e, na hora de decidir, se posiciona logo acima do mais barato. O número não paga consulta mais longa, retorno nem acompanhamento, e não é baixo o bastante para tirar paciente de quem cobra menos. Falta a conta do que um preço maior teria de pagar.

A resposta direta: cobrar acima da concorrência se sustenta quando cada real líquido acima da média local, levantada em consultórios comparáveis, vai para uma entrega que o paciente vê: o custo dela ou uma margem m única sobre ele. Some o custo por consulta das entregas que nenhum desses consultórios inclui (tempo, retorno, material de orientação, acompanhamento, equipe). Líquido de tributo e taxa, teto = média local + soma × (1 + m), e o de tabela = teto ÷ (1 − taxa); diferença = preço pretendido − média local. Acima de soma × (1 + m), o preço fica no teto ou entra entrega nova; entre a soma e soma × (1 + m), pode subir; abaixo da soma, corte uma entrega ou não suba. Entrega nova ou cortada: refaça a soma e reclassifique. Sem média local, a conta não roda. O checklist de 10 entregas se cumpre antes de subir.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

Seu papel
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O gargalo
Você faz de tudo, para todo tipo de paciente
Você sai quando
A agenda está cheia do paciente ideal e dos procedimentos de maior margem
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O sistema invisível: o segundo mais barato não paga nada

Ser o segundo mais barato parece prudente e é a posição mais fraca da tabela. Quem decide por preço vai ao consultório mais barato, e o segundo não é baixo o bastante para disputá-lo. Também não sobra margem para entregar mais que ele: o valor foi escolhido por posição, não por conta.

Subir o preço sem conta repete o defeito em outra altura. Um preço maior se explica pelo que o paciente compra com ele: mais tempo com o médico, um retorno já pago, orientação por escrito, alguém da equipe que liga depois. Sem isso, a diferença é pedágio. O risco oposto é passar a entregar mais sem medir quanto isso custa, e cobrar caro com margem menor do que cobrava barato.

O mecanismo: a diferença de preço é uma conta de destinos

A conta parte da diferença: preço pretendido menos a média local. A média local é a média aritmética dos valores que você levantou em consultórios comparáveis da sua região, para a mesma consulta; esta página não publica média de mercado nenhuma.

Entrega é algo que o paciente vê e que nenhum consultório da média local inclui no valor. Calcule o custo incremental por consulta de cada uma, com fórmula própria; um real de custo entra em um item só. Sobre a soma desses custos aplique a margem m sobre o custo das entregas: um percentual do custo, não do preço, decidido por você e o mesmo para todas. O teto sustentado é a média local + soma dos custos × (1 + m). Com a média local levantada, o preço pretendido cai em um de três ramos:

O quarto caso é o estado inicial: sem média local levantada não existe diferença, e a planilha não roda. Sem entrega nenhuma, a soma é zero e o teto é a própria média local.

Tributo e taxa do meio de pagamento, quando são percentual do preço, levam parte da diferença. Por isso a planilha compara valores líquidos: média local e preço pretendido × (1 − taxa). Assim, até o teto, cada real da diferença líquida vai para uma entrega, pelo custo dela ou pela margem m sobre ela, e o teto de tabela é o teto líquido ÷ (1 − taxa).

O teto sustentado, em valores líquidos de tributo e taxa

Média local+Soma dos custos das entregas×(1 + margem m)=Teto sustentado
Modelo: Preço Sustentado — cada real líquido acima da média local tem um destino visível para o paciente; sem destino, não sobe
  1. Levante a média local. Anote os consultórios comparáveis para a mesma consulta, o valor e a duração da consulta de cada um, a data e o que o valor inclui entre as cinco entregas, e calcule a média aritmética. Pronto quando isso está numa folha; sem ela, pare aqui.
  2. Calcule o custo de cada entrega. Aplique às cinco entregas a fórmula da planilha abaixo; entrega que você não vai oferecer, ou que o valor de ao menos um dos consultórios da média local já inclui, entra com zero. Pronto quando cada uma está em reais por consulta e nenhum custo aparece em dois itens.
  3. Fixe a margem m. Um percentual sobre o custo das entregas, o mesmo para todas. Pronto quando m está numa célula.
  4. Calcule o teto e a diferença. Em valores líquidos: teto = média local + soma dos custos × (1 + m); diferença = preço pretendido − média local. Pronto quando os dois números estão lado a lado.
  5. Classifique o preço pretendido. Aplique os ramos listados acima. Pronto quando o ramo está escrito ao lado do preço e o preço final o respeita.
  6. Cumpra o checklist antes de cobrar o valor novo. Pronto quando os 10 itens do checklist da seção abaixo estão marcados.
Exemplo ilustrativo

Todos os números são fictícios; troque cada um pelo do seu consultório. Até a linha 13 nenhuma taxa incide sobre o preço, e tabela e líquido coincidem; a linha 14 refaz o teto com taxa.

Linha 1, média local levantada, de consultórios cuja consulta não inclui nenhuma das cinco entregas: R$ 400.

Linha 2, tempo de consulta: 20 minutos além da maior duração local ÷ 60 × custo da hora clínica de R$ 180 = R$ 60.

Linha 3, retorno incluso: custo do retorno, 15 minutos ÷ 60 × R$ 180 = R$ 45, × fração de pacientes que usam o retorno, 0,6 = R$ 27.

Linha 4, material de orientação: R$ 1.600 por mês ÷ 200 consultas no mês = R$ 8.

Linha 5, acompanhamento: 15 minutos por paciente ÷ 60 × R$ 40 por hora de quem acompanha = R$ 10.

Linha 6, equipe: R$ 3.000 de custo mensal adicional ÷ 200 consultas = R$ 15.

Linha 7, soma dos custos: 60 + 27 + 8 + 10 + 15 = R$ 120.

Linha 8, margem m de 25%: 120 × 1,25 = R$ 150.

Linha 9, teto sustentado: 400 + 150 = R$ 550.

Linha 10, pretendido R$ 600: diferença 200, maior que 150. Os 600 − 550 = R$ 50 não têm destino; o preço fica em R$ 550, ou entra uma entrega nova na planilha e a conta se refaz.

Linha 11, pretendido R$ 550: diferença 150, igual a 150. Pode subir; margem efetiva (150 − 120) ÷ 120 = 25%, que é m.

Linha 12, pretendido R$ 530: diferença 130, entre 120 e 150. Pode subir; margem efetiva (130 − 120) ÷ 120 ≈ 8,33% (arredondado na segunda casa).

Linha 13, pretendido R$ 500: diferença 100, menor que 120. Para R$ 500 caber, as entregas que ficarem têm de somar de 100 ÷ 1,25 = R$ 80 a R$ 100: acima de 100 o preço não as paga; abaixo de 80, R$ 500 passa do teto novo. Cortando uma entrega só, a única que cai nessa faixa é o retorno: 120 − 27 = R$ 93. Outro corte, ou mais de um, se refaz na planilha e se classifica de novo: cortar só o tempo deixa 120 − 60 = R$ 60 e teto de 400 + 60 × 1,25 = R$ 475, primeiro ramo, e o preço fica em R$ 475. Sem corte, o preço não sobe.

Linha 14, linhas 2 a 8 com taxa de 10% sobre o preço: média local líquida 400 × 0,9 = R$ 360; teto líquido 360 + 150 = R$ 510; teto de tabela 510 ÷ 0,9 ≈ R$ 566,67 (arredondado nos centavos).

A planilha Preço Sustentado, célula por célula

Uma planilha por tipo de consulta, coluna B, sintaxe em português; "digitado" recebe o seu número.

LinhaO que vai nelaFórmula (coluna B)
1Média local levantada, de tabeladigitado; vazio sem levantamento
2Preço pretendido, de tabeladigitado
3Tributo + taxa de pagamento, % do preçodigitado; 0 se não houver
4Média local líquida=B1*(1-B3)
5Preço pretendido líquido=B2*(1-B3)
6Custo da hora clínica, calculado sem os custos das linhas 12 e 18digitado
7Minutos de consulta além da maior duração entre os consultórios da média localdigitado
8Tempo de consulta=B7/60*B6
9Minutos do retornodigitado
10Fração de pacientes que usam o retornodigitado; 1 sem medição na sua agenda
11Retorno incluso=B9/60*B6*B10
12Custo mensal do material de orientaçãodigitado
13Consultas no mês que recebem as entregas das linhas 12 e 18digitado
14Material de orientação=B12/B13
15Minutos de acompanhamento por pacientedigitado
16Custo por hora de quem acompanhadigitado
17Acompanhamento=B15/60*B16
18Custo mensal adicional de equipe, fora a linha 17digitado
19Equipe=B18/B13
20Soma dos custos por consulta (cada entrega nova ganha linha própria, com fórmula, e entra nesta soma)=B8+B11+B14+B17+B19
21Margem m sobre o custo das entregasdigitado
22Teto sustentado líquido=B4+B20*(1+B21)
23Teto sustentado de tabela=B22/(1-B3)
24Diferença líquida=B5-B4
25Ramo=SE(B1="";"levante a média local";SE(B24>B20*(1+B21);"acima do teto: fica no teto, ou entra entrega nova e refaça a conta";SE(B24>=B20;"pode subir";"não paga as entregas: corte uma e refaça a conta, ou não suba")))
26Margem efetiva sobre o custo das entregas=SE(E(B1<>"";B20>0;B24>=B20;B24<=B20*(1+B21));(B24-B20)/B20;"—")

O checklist: as 10 entregas antes de o preço subir

As entregas 1 a 5 são os cinco itens da planilha, funcionando. As entregas 6 a 10 tornam as cinco visíveis ao paciente e não têm linha própria: custo que alguma delas tenha entra no item em que acontece ou vira linha nova. Cumprir o checklist é marcar os 10 itens: feito, ou "não oferecida" nos itens de uma entrega que você não oferece, que também sai da frase da entrega 6. Cada entrega é decisão sua:

  1. A consulta está na agenda com os minutos a mais da linha 7 da planilha.
  2. O retorno incluso tem prazo, [PRAZO DO RETORNO], e espaço reservado na agenda.
  3. O material de orientação está pronto antes do preço novo.
  4. O acompanhamento tem responsável, prazo e canal: [QUEM], [QUANTOS DIAS APÓS A CONSULTA], [CANAL].
  5. A pessoa ou as horas adicionais de equipe da linha 18 da planilha estão na escala, com a tarefa que fazem pelo paciente definida: [TAREFA DA EQUIPE ADICIONAL].
  6. Existe uma frase escrita, igual para todo paciente, com o que o valor inclui: "A consulta tem [DURAÇÃO], inclui retorno em até [PRAZO DO RETORNO], orientação por escrito, [TAREFA DA EQUIPE ADICIONAL] e contato de acompanhamento em [QUANTOS DIAS APÓS A CONSULTA]."
  7. Essa frase chega ao paciente antes de ele marcar, junto com o valor.
  8. O retorno aparece na frase como parte do preço, não como cortesia.
  9. O paciente sai da consulta sabendo a data e o canal do acompanhamento.
  10. A recepção responde a "por que custa isso" com a frase da entrega 6, sem adjetivo e sem citar outro consultório.

Aplicação prática: a mesma conta, especialidades diferentes

Pelo modelo, a resposta à diferença, que o médico anota ao lado do preço e não diz ao paciente, é uma entrega com custo na planilha, ou o teto:

EspecialidadeAcima da média local sem destinoAcima da média local pelo modelo
Pediatria"Cobro mais porque a minha consulta é mais completa.""A diferença paga [MINUTOS] minutos a mais de consulta e o retorno incluso em até [PRAZO DO RETORNO]."
Endocrinologia"Fico acima porque tenho mais procura.""A diferença paga o contato de acompanhamento em [QUANTOS DIAS APÓS A CONSULTA], feito por [QUEM], pelo [CANAL]."
Clínica de procedimentos estéticos"O meu valor é premium.""A diferença paga a orientação por escrito do pós e o retorno de revisão incluso."
Psiquiatria"Fico acima para não parecer barato.""O preço fica no teto da planilha; o que passaria dele não tem entrega e não entra."
Cardiologia"Subi porque o concorrente subiu.""O preço é reclassificado na planilha refeita com a média local levantada de novo, não pelo valor de um consultório só."

Entre especialidades muda qual entrega você escolhe financiar. Onde ao menos um consultório da média local já dá a duração que você quer dar, o tempo entra com zero e a diferença precisa de outro destino; onde o cuidado depende do que acontece entre consultas, o acompanhamento é candidato natural a destino.

O custo da hora clínica, que entra nas linhas 8 e 11 da planilha, vem da conta de quanto cobrar pela consulta particular. Quando o teto sai acima do que você cobra hoje, a passagem ao preço novo segue como reajustar o valor da consulta sem perder pacientes.

Perguntas frequentes

Vale a pena cobrar mais caro que a concorrência no consultório?

Vale quando cada real líquido acima da média local, levantada em consultórios comparáveis, vai para o custo de uma entrega que o paciente vê e que nenhum deles inclui, ou para uma margem m única sobre esse custo. Líquido de tributo e taxa: diferença = preço pretendido − média local; teto = média local + soma dos custos × (1 + m); teto de tabela = teto ÷ (1 − taxa). Diferença acima de soma × (1 + m): o preço fica no teto. Entre a soma e soma × (1 + m): pode subir. Abaixo da soma: corte uma entrega ou não suba. Entrega nova ou cortada: refaça a soma e reclassifique. Sem média local, a conta não roda. Antes de subir, cumpra o checklist de 10 entregas.

Por que ser o segundo mais barato é a pior posição de preço?

Porque ela não ganha nem por preço nem por entrega. Quem decide por preço vai ao consultório mais barato, e o segundo não é baixo o bastante para disputá-lo. E o valor, escolhido por posição e não por conta, não deixa margem para entregar mais que ele: consulta mais longa, retorno já pago, orientação por escrito ou acompanhamento depois da consulta. Sair dessa posição para cima só se sustenta quando a diferença para a média local tem destino. Subir sem conta repete o defeito em outra altura, e passar a entregar mais sem medir o custo pode deixar o consultório cobrando caro com margem menor do que cobrava barato.

Como levantar a média local de preço da consulta?

Anote os consultórios que você considera comparáveis para a mesma consulta, o valor e a duração da consulta de cada um, a data do levantamento e o que o valor inclui entre as cinco entregas, e calcule a média aritmética. Entrega que o valor de ao menos um deles já inclui entra com zero na planilha. A lista e a média ficam numa folha: sem a média não existe diferença, e a conta não roda. A página não publica média de mercado nenhuma; a única média que serve à conta é a da sua região, levantada por você. Se tributo e taxa do meio de pagamento incidem como percentual do preço, a planilha usa a média local líquida, que é o valor levantado multiplicado por (1 − taxa).

Retorno incluso no preço da consulta é cortesia?

Não. Quando nenhum consultório da média local o inclui, o retorno incluso é parte do preço e tem custo na planilha: minutos do retorno ÷ 60 × custo da hora clínica, multiplicado pela fração de pacientes que usam o retorno. Enquanto você não tiver essa fração medida na sua agenda, use 1, como se todos usassem. Na frase escrita do que o valor inclui, o retorno aparece com prazo, como parte do preço e não como cortesia. Se ao menos um consultório da média local já o inclui, ele entra com zero na planilha. Se você não oferece retorno, ele entra com custo zero, sai da frase e os itens dele no checklist, 2 e 8, são marcados como não oferecida.

O que entra no checklist de 10 entregas antes de subir o preço?

As entregas 1 a 5 são os cinco itens da planilha funcionando: a consulta na agenda com os minutos a mais, o retorno com prazo e espaço reservado, o material de orientação pronto, o acompanhamento com responsável, prazo e canal, e a equipe adicional na escala com a tarefa definida. As entregas 6 a 10 tornam as cinco visíveis ao paciente; o que cada uma exige está nos itens 6 a 10 do checklist. Cumprir é marcar os 10 itens: feito, ou não oferecida nos itens de uma entrega que você não oferece, que também sai da frase da entrega 6.

Como fica o imposto e a taxa do cartão quando cobro acima da média?

Tributo e taxa do meio de pagamento, quando incidem como percentual do preço, levam parte da diferença. Por isso a planilha compara valores líquidos: a média local e o preço pretendido multiplicados por (1 − taxa). O teto líquido é a média local líquida + soma dos custos das entregas × (1 + m), e o teto de tabela é o teto líquido ÷ (1 − taxa). Assim, até o teto, cada real da diferença líquida vai para uma entrega, pelo custo dela ou pela margem m sobre ela. Sem taxa percentual, tabela e líquido coincidem.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

Do preço certo para a clínica que sustenta o preço

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