Publicidade médica e CFM

Depoimento de paciente: o que o médico pode publicar

A paciente manda no WhatsApp da clínica uma mensagem longa de agradecimento, com emoji, o nome dela no topo da conversa e a frase "fiquei dez anos mais nova". Alguém da equipe tira o print e pergunta se pode ir para o perfil. A resposta curta é que o elogio pode virar publicação, mas não na forma em que chegou.

A resposta direta: Pode publicar o depoimento que passa nos 4 testes do Filtro S-S-S+1. Os três primeiros saem da alínea g do art. 14, II da Resolução CFM 2.336/2023: o texto tem de ser sóbrio, sem adjetivo que denote superioridade e sem indução de promessa de resultado. O quarto vem do art. 75 do Código de Ética Médica: nada de caso identificável nem de paciente reconhecível em anúncio ou na divulgação de assuntos médicos, mesmo com autorização do paciente. Por isso o print com nome reprova, o elogio de resultado ou de superioridade reprova, e a autorização escrita não cura a identificação. Reprovou em algum teste, reescreva só cortando e passe de novo pelos 4; sem trecho que passe, descarte. O que vai ao ar é o relato da experiência, com o trecho exato autorizado em termo.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

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Por que o print do elogio é o formato que falha

O print parece a prova mais honesta que existe: foi o paciente que escreveu, ninguém editou, a data está na tela. É exatamente por isso que ele junta, numa imagem só, três elementos que as normas tratam em separado. Traz a identificação (nome, foto de perfil, número), traz o resultado ("resolveu", "fiquei mais nova") e costuma trazer o superlativo ("o melhor"). Cada um desses elementos, sozinho, já reprova num dos testes do filtro abaixo.

O erro de raciocínio está em tratar o depoimento como prova. Prova de quê? De que o procedimento funciona, de que o médico é superior aos outros. As duas coisas são precisamente o que a norma pede que o depoimento não sugira. O que sobra de legítimo num depoimento é o relato: como foi ser atendido, se a explicação foi clara, se o paciente se sentiu acolhido. Isso é informação sobre a experiência, não promessa sobre o desfecho.

A legenda que a clínica escreve em volta do depoimento, a resposta a uma avaliação pública e o post institucional são outro objeto, com outro lastro. Esta página trata só do texto do paciente.

O que a norma permite, e em que condição

O art. 14 da Resolução CFM 2.336/2023 permite o uso da imagem de pacientes com finalidade educativa voltado, no inciso II, à demonstração de resultados de técnicas e procedimentos, respeitados princípios que a norma lista em alíneas. Um deles, a alínea g, é o que rege este tema: autorretratos repostados dos pacientes e depoimentos sobre a atuação do médico "devem ser sóbrios, sem adjetivos que denotem superioridade ou induzam a promessa de resultado".

Dessa frase saem três testes, que batizam o filtro: Sóbrio, Sem adjetivo de Superioridade e sem indução de promessa de resultado. O filtro lê a terceira condição pela frase inteira, e não só pelo adjetivo: uma frase como "resolveu em 1 sessão" induz promessa sem ter adjetivo nenhum. É uma leitura mais conservadora que a letra, escolhida de propósito. O Teste 1 faz o mesmo com "sóbrio": a norma não lista sinais, e o filtro fixa três verificáveis, emoji, caixa alta e exclamação. O Teste 2 também vai além do adjetivo: reprova a comparação sem adjetivo, como "não existe outro".

O quarto teste, o "+1", vem de outra norma. O art. 75 do Código de Ética Médica lista entre as condutas vedadas ao médico fazer referência a casos clínicos identificáveis e exibir pacientes ou imagens que os tornem reconhecíveis em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, "mesmo com autorização do paciente". A autorização escrita, portanto, não resolve a identificação.

Os dois dispositivos se encontram num ponto específico: a alínea g fala do autorretrato repostado, e o art. 75 fala do paciente reconhecível em anúncio ou na divulgação de assuntos médicos. O repost em si segue a alínea g; publicá-lo com o paciente reconhecível esbarra no art. 75. Na dúvida sobre esse cruzamento, o filtro fica com a versão sem identificação, e a interpretação fina vale conferir junto ao CRM da sua jurisdição.

Modelo: PR — Da Prova ao Relato, operado pelo Filtro S-S-S+1
  1. Teste 1, Sóbrio. Leia o texto e marque se há emoji, caixa alta ou exclamação. Havendo, reprova neste teste. Pronto quando o trecho é uma frase declarativa sobre a experiência.
  2. Teste 2, Sem Superioridade. Procure superlativo e comparação: "o melhor", "o único", "o mais", "não existe outro". Havendo qualquer um, reprova. Pronto quando nenhuma palavra coloca o médico acima de outros.
  3. Teste 3, Sem indução de promessa de resultado. Procure toda frase sobre o desfecho: aparência, idade, número de sessões, "resolveu", "sumiu". Havendo, reprova. Pronto quando o texto fala do atendimento, da explicação ou do acolhimento, e não do resultado.
  4. Teste 4, o +1: sem identificação. Confira nome, rosto, foto de perfil, número, arroba, idade e qualquer combinação de detalhes que torne o caso identificável. Havendo, reprova. Pronto quando ninguém de fora consegue dizer quem escreveu.
  5. Decidir o destino. Passou nos 4 testes: publique o relato. Reprovou em algum: reescreva só cortando, nunca acrescentando palavra que o paciente não disse, e passe a versão cortada de novo pelos 4 testes. Não sobrou trecho que passe: descarte.
  6. Colher o termo do trecho final. A versão que vai ao ar volta ao paciente e só é publicada depois que ele assina o termo com aquele trecho exato, na cláusula 2 do modelo abaixo.

Filtro S-S-S+1: do depoimento recebido ao relato publicado

  1. RecebidoO depoimento chega; ainda não é publicação.
  2. Teste 1Sóbrio: sem emoji, caixa alta ou exclamação.
  3. Teste 2Sem Superioridade: nenhum superlativo nem comparação com outros médicos.
  4. Teste 3Sem indução de promessa de resultado: nenhuma frase sobre o desfecho.
  5. Teste 4O +1: sem nome, rosto nem detalhe que torne o caso identificável.
  6. DestinoPassou nos 4 testes: publique o relato. Reprovou em algum: reescreva só cortando. Não sobrou trecho que passe: descarte.
A autorização escrita não resolve a identificação: o art. 75 vale mesmo com autorização do paciente.
Exemplo ilustrativo

Cenário fictício, para você montar a sua folha de triagem. Suponha uma pasta com 15 depoimentos recebidos. Cada um passa pelos 4 testes, então a folha tem 15 × 4 = 60 células a marcar. Monte uma linha por depoimento e quatro colunas (Teste 1, Teste 2, Teste 3, Teste 4), marque ✓ ou ✗ em cada célula e some os ✓ da linha. Linha com 4 ✓ vai para a coluna "publicar". Linha com qualquer ✗ vai para "reescrever ou descartar", conforme o passo 5, e a versão cortada ganha uma linha nova na mesma folha. Troque o 15 pelo número de depoimentos da sua pasta e refaça a multiplicação para saber o tamanho da folha antes de começar.

Cinco depoimentos típicos, reescritos pelo filtro

A tabela mostra um original típico, o teste em que ele reprova e a versão reescrita só por corte. Os colchetes marcam onde entram os dados reais. Nenhuma versão reescrita acrescenta palavra: todas são trechos do próprio original.

Original típicoTeste em que reprovaVersão reescrita (relato)
Print de WhatsApp com [NOME E SOBRENOME] e foto de perfil no topo: "Doutora, AMEI!!! 😍😍 Obrigada pela paciência de explicar tudo."Teste 1 (caixa alta, exclamação e emoji) e Teste 4 (nome e foto no print)"Obrigada pela paciência de explicar tudo." — paciente
"O melhor médico de [CIDADE]. Me atendeu no horário e explicou cada etapa antes de começar."Teste 2 ("o melhor")"Me atendeu no horário e explicou cada etapa antes de começar." — paciente
"Fiquei 10 anos mais nova! A equipe me recebeu muito bem desde a recepção."Teste 1 (exclamação) e Teste 3 ("10 anos mais nova")"A equipe me recebeu muito bem desde a recepção." — paciente
"Resolveu em 1 sessão. Gostei de ter recebido as orientações por escrito."Teste 3 ("resolveu em 1 sessão")"Gostei de ter recebido as orientações por escrito." — paciente
Post com foto do rosto: "[NOME], [IDADE] anos, fez [PROCEDIMENTO]. Me senti segura durante todo o atendimento."Teste 4 (nome, idade, procedimento e foto juntos)"Me senti segura durante todo o atendimento." — paciente

Repare no que as cinco reescritas têm em comum: todas falam de atendimento, explicação ou acolhimento, e nenhuma fala do resultado. Quando o original é só o resultado, como "Fiquei 10 anos mais nova!" sem mais nada, o corte não deixa trecho que passe, e o destino é o descarte. A atribuição "paciente", sem nome, é a mesma nas cinco linhas e é um exemplo do que preenche o campo [ATRIBUIÇÃO GENÉRICA] na cláusula 6 do termo.

O termo de autorização do trecho publicado

O termo é o que amarra a versão cortada ao paciente: ele autoriza aquela redação, e não o print original. Abaixo, a estrutura em cláusulas numeradas, com os campos entre colchetes a preencher. É um modelo estrutural, não texto jurídico pronto: valide a redação final com seu assessor jurídico.

  1. Identificação do signatário. [NOME COMPLETO DO PACIENTE], [DOCUMENTO DE IDENTIFICAÇÃO], [CONTATO]. Estes dados ficam só neste termo e não são publicados.
  2. Trecho autorizado. O signatário autoriza a publicação exclusivamente do seguinte trecho, palavra por palavra: "[TRECHO EXATO]". Qualquer alteração de redação exige novo termo.
  3. Canais. O trecho pode ser publicado somente em: [CANAIS AUTORIZADOS].
  4. Prazo. A autorização vale de [DATA DE INÍCIO] a [DATA DE TÉRMINO].
  5. Revogação. O signatário pode revogar esta autorização a qualquer tempo, por [CANAL DE REVOGAÇÃO]. Recebida a revogação, a clínica retira o trecho dos canais em até [PRAZO DE RETIRADA].
  6. Publicação sem identificação. A clínica se compromete a publicar o trecho sem nome, rosto, imagem, voz ou qualquer dado que identifique o signatário, com a atribuição "[ATRIBUIÇÃO GENÉRICA]".
  7. Limite desta autorização. Esta autorização não libera a identificação do signatário. Nome, imagem ou dado que o torne reconhecível não entram na publicação, mesmo com este termo assinado.
  8. Data e assinaturas. [LOCAL], [DATA]. Assinatura do signatário e de [RESPONSÁVEL PELA CLÍNICA].

As cláusulas 6 e 7 parecem repetir a mesma coisa, mas fazem trabalhos diferentes. A 6 é o compromisso da clínica sobre como publica. A 7 impede a leitura inversa, a de que o paciente que assinou "autorizou tudo": é a tradução, dentro do termo, do "mesmo com autorização do paciente" do art. 75.

O filtro resolve o texto do paciente; a imagem do paciente segue regra própria, com condições que se somam, e a lista geral do que entra em anúncio fecha o quadro. Para as duas, veja o que vale para antes e depois e o que o médico pode anunciar.

Perguntas frequentes

Médico pode repostar o depoimento que o paciente publicou nas redes?

O repost de autorretrato do paciente e o depoimento sobre a atuação do médico aparecem juntos na alínea g do art. 14, II da Resolução CFM 2.336/2023, que pede que sejam sóbrios, sem adjetivos que denotem superioridade ou induzam a promessa de resultado. Se o paciente aparece reconhecível, entra também o art. 75 do Código de Ética Médica, que veda exibir paciente reconhecível em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, mesmo com autorização. Na dúvida sobre esse cruzamento, publique a versão sem identificação e confira a interpretação junto ao CRM da sua jurisdição.

Posso postar o print do WhatsApp com o elogio do paciente?

Na forma em que chega, o print costuma reprovar no Filtro S-S-S+1: traz nome e foto de perfil, que reprovam no Teste 4, e muitas vezes emoji, caixa alta, superlativo ou frase de resultado, que reprovam nos Testes 1, 2 e 3. O caminho é cortar o texto até sobrar só o relato da experiência, sem acrescentar palavra que o paciente não disse, passar a versão cortada de novo pelos 4 testes e publicar como texto, com atribuição genérica, depois que o paciente assinar o termo com aquele trecho exato.

A autorização por escrito do paciente libera usar o nome e a foto dele no depoimento?

Não. O art. 75 do Código de Ética Médica veda fazer referência a casos clínicos identificáveis e exibir pacientes ou imagens que os tornem reconhecíveis em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, mesmo com autorização do paciente. Por isso o termo desta página tem uma cláusula própria, a 7, dizendo que a autorização não libera a identificação. O termo serve para amarrar o trecho exato, os canais, o prazo e a revogação, não para liberar nome ou rosto.

Que frases de depoimento de paciente não podem ir para a publicidade médica?

Pelo Filtro S-S-S+1, reprovam as frases com emoji, caixa alta ou exclamação (Teste 1), as que trazem superlativo ou comparação com outros médicos, como o melhor ou o único (Teste 2), as que falam do desfecho, como resolveu em 1 sessão ou fiquei mais nova (Teste 3), e qualquer dado que torne o paciente identificável (Teste 4). O que costuma passar é o relato sobre atendimento, explicação ou acolhimento, como me senti segura durante todo o atendimento.

O que precisa ter no termo de autorização de depoimento de paciente?

O modelo estrutural desta página tem 8 cláusulas: identificação do signatário, que fica só no termo; o trecho exato autorizado, palavra por palavra; os canais; o prazo, com data de início e de término; a revogação a qualquer tempo, com o prazo de retirada; o compromisso de publicar sem nome, rosto ou dado que identifique; o limite de que a autorização não libera identificação; e data e assinaturas. É modelo estrutural, não texto jurídico pronto: valide a redação final com seu assessor jurídico.

Se eu editar o depoimento do paciente, ainda posso publicar?

Pelo modelo Da Prova ao Relato, a única edição admitida é o corte: tirar emoji, superlativo, frase de resultado e dado que identifique, sem acrescentar palavra que o paciente não disse. A versão cortada passa de novo pelos 4 testes e volta ao paciente, que assina o termo com aquele trecho exato. Qualquer alteração de redação depois disso exige novo termo. Se o corte não deixa trecho que passe, como num depoimento que é só o resultado, o destino é o descarte.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — art. 14, caput e inciso II, alínea g: autorretratos repostados dos pacientes e depoimentos sobre a atuação do médico devem ser sóbrios, sem adjetivos que denotem superioridade ou induzam a promessa de resultado (sustenta os Testes 1, 2 e 3).
  2. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — art. 75: veda ao médico fazer referência a casos clínicos identificáveis e exibir pacientes ou imagens que os tornem reconhecíveis em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, mesmo com autorização do paciente (sustenta o Teste 4 e a cláusula 7 do termo).

Conteúdo educacional de gestão para médicos. Não substitui orientação jurídica, contábil ou a consulta ao CRM da sua jurisdição.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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