Precificação e ticket

Quanto cobrar por consulta domiciliar: a conta que inclui o deslocamento

A família liga pedindo que o médico vá até a casa do pai, que não consegue mais descer a escada do prédio. A secretária pergunta quanto cobrar, e o médico responde o que parece óbvio: o mesmo valor da consulta. Na terça seguinte, ele sai do consultório no meio da tarde, enfrenta o trânsito, atende, volta — e os horários que ficaram vazios na agenda não aparecem em lugar nenhum da conta.

A resposta direta: Cobre a visita pela Hora Clínica Estendida (HCE): preço da visita = valor da consulta no consultório + horas de deslocamento ida e volta × valor da hora clínica + custo de trajeto (km × custo por km, mais estacionamento e pedágio). O valor da hora clínica é o valor da consulta vezes as consultas que a agenda comporta numa hora. No exemplo fictício da página, a visita a 45 minutos por trecho sai por mais de quatro vezes o valor da consulta. O raio se mede em tempo por trecho, não em quilômetros: Faixa 1 até 30 minutos, Faixa 2 de 30 a 60 minutos, e acima de 60 minutos só sob consulta. Cada faixa tem preço fixo calculado pela fórmula, informado por escrito antes da visita.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

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Por que o preço do consultório não serve para a visita

A consulta no consultório tem um preço desenhado para uma unidade de tempo: o paciente entra, é atendido, sai, e o próximo já está na sala de espera. A visita domiciliar ocupa essa mesma unidade de atendimento e mais o tempo de ir e o tempo de voltar. Durante o trajeto, a agenda do consultório fica parada: nenhum paciente é atendido, nenhuma consulta é faturada, e o custo fixo da sala, da secretária e do sistema continua correndo.

Cobrar a visita pelo valor da consulta equivale a vender o atendimento e dar o deslocamento de graça. O erro não aparece no dia — o paciente paga, o médico recebe, a conta parece fechada. Ele aparece no fim do mês, quando o faturamento da agenda fica abaixo do que as horas trabalhadas deveriam ter produzido e ninguém sabe apontar onde a diferença se perdeu.

Há um segundo erro, mais sutil: definir o adicional de visita "no olho", uma taxa redonda que parece razoável. Taxa sem conta tende a cobrir a gasolina e esquecer o tempo, que é o custo maior. E, como não deriva de nada, ela não se ajusta quando o médico reajusta a consulta, quando muda de bairro ou quando a família mora do outro lado da cidade.

Visita domiciliar aqui é o atendimento particular, pontual, que o médico faz na casa do paciente a pedido da família. Não é teleconsulta, que não tem deslocamento, nem atendimento de home care ou de convênio, em que o valor vem de contrato com a operadora ou com a empresa de assistência e não é o médico quem fixa.

O mecanismo: deslocamento é tempo de agenda

O desenho que funciona trata o tempo de trajeto como o que ele é: horas de agenda que o médico deixou de vender. Se a hora do consultório tem um valor, a hora no carro tem o mesmo valor, porque é a mesma hora — só que gasta de outro jeito. A partir daí o preço da visita deixa de ser opinião e vira soma de três parcelas, cada uma com origem conhecida.

A primeira parcela é o próprio atendimento, cobrado pelo valor da consulta no consultório. A segunda é o tempo de ida e volta, multiplicado pelo valor da hora clínica. A terceira é o custo de trajeto em dinheiro: quilômetros rodados vezes o custo por quilômetro do carro, somados a estacionamento e pedágio.

O valor da hora clínica precisa de definição operacional, senão a fórmula herda o mesmo chute que pretendia eliminar. Nesta página ele é o valor da consulta multiplicado pelo número de consultas que a agenda do médico comporta numa hora — ou seja, quanto aquela hora fatura quando ele está no consultório. Há uma checagem de piso: esse valor tem de ficar acima do custo da hora do consultório (custo fixo mensal dividido pelas horas atendíveis no mês). Se não ficar, o problema é o preço da consulta, e a visita só vai ampliá-lo.

O raio de atendimento se mede em tempo por trecho, e não em quilômetros. Dez quilômetros de avenida livre às dez da manhã e dez quilômetros no horário de pico não custam a mesma agenda. Como a segunda parcela da fórmula é tempo, o critério de raio também é tempo — um critério só, do cálculo à mensagem.

Modelo: HCE — Hora Clínica Estendida
  1. Defina o valor da hora clínica. Multiplique o valor da consulta pelo número de consultas que sua agenda comporta numa hora. Confira que o resultado fica acima do custo da hora do consultório (custo fixo mensal ÷ horas atendíveis no mês); se não ficar, reveja primeiro a consulta.
  2. Aplique a fórmula. Preço da visita = valor da consulta no consultório + (horas de deslocamento ida e volta × valor da hora clínica) + custo de trajeto. O custo de trajeto é quilômetros rodados × custo por quilômetro do carro, mais estacionamento e pedágio.
  3. Divida o raio em faixas de tempo por trecho. Faixa 1: até 30 minutos por trecho. Faixa 2: de 30 a 60 minutos por trecho. Acima de 60 minutos por trecho, só sob consulta, com agendamento em bloco (mais de uma visita na mesma saída).
  4. Calcule um preço fixo por faixa. Rode a fórmula uma vez para cada faixa, usando o tempo máximo dela e a distância típica, arredonde para cima e publique a tabela internamente. A secretária não calcula nada: identifica a faixa do endereço e informa o valor total da faixa.
  5. Orce por escrito, antes de sair. A secretária envia ao responsável o valor total fechado, o que ele inclui (consulta e deslocamento), a faixa do endereço, a forma de pagamento e a emissão de recibo. A visita só entra na agenda depois da confirmação.
  6. Recalcule a tabela quando a consulta mudar. Como as três parcelas derivam do valor da consulta, do tempo e do carro, qualquer reajuste da consulta ou mudança de custo por quilômetro pede uma nova rodada da fórmula para as duas faixas.

HCE — Hora Clínica Estendida

Valor da consulta no consultório+Horas de deslocamento ida e volta × valor da hora clínica+Custo de trajeto (km × custo por km + estacionamento e pedágio)=Preço da visita
Exemplo ilustrativo

Todos os números abaixo são fictícios, hipóteses deste exemplo — substitua pelos seus. Um médico cobra R$ 500 pela consulta no consultório e a agenda dele comporta 2 consultas por hora. Valor da hora clínica: R$ 500 × 2 = R$ 1.000. A casa do paciente fica a 45 minutos por trecho (Faixa 2), então o deslocamento de ida e volta soma 1h30: 1,5 × R$ 1.000 = R$ 1.500. O trajeto tem 30 km no total, a um custo fictício de R$ 1,50 por km (R$ 45), mais R$ 20 de estacionamento: custo de trajeto de R$ 65. Preço da visita: R$ 500 + R$ 1.500 + R$ 65 = R$ 2.065 para este endereço; o preço fixo da Faixa 2 sai da mesma conta com o tempo máximo da faixa, 60 minutos por trecho.

O lado a lado do erro: se a visita for cobrada pelos mesmos R$ 500 da consulta, o médico deixa de receber R$ 1.500 de agenda e R$ 65 de trajeto, R$ 1.565 no total (R$ 2.065 − R$ 500). Para a Faixa 1 do mesmo médico, refaça a conta com o tempo máximo da faixa (30 minutos por trecho, 1 hora ida e volta) e a distância típica dos seus endereços dessa faixa.

A mensagem de orçamento da visita

O orçamento é conversa privada, entre a secretária e o responsável pelo paciente, sempre antes da visita. Ele não vai para post, story nem site: quem pediu a visita recebe o valor fechado por escrito, e a visita só é agendada depois do "sim". A mensagem abaixo tem cinco elementos, na ordem: valor total fechado, o que o valor inclui, a faixa do endereço, a forma de pagamento e o recibo. Não traz desconto, não cria urgência e não promete resultado do atendimento.

Texto pronto para a secretária adaptar no WhatsApp da clínica:

"Olá, [NOME DO RESPONSÁVEL]. Obrigada pelo contato. A consulta domiciliar do Dr./Dra. [NOME DO MÉDICO] para o endereço informado, no bairro [BAIRRO], fica na Faixa [1 ou 2] do nosso atendimento em domicílio. O valor total é [VALOR TOTAL DA FAIXA], já incluindo a consulta e o deslocamento de ida e volta — não há cobrança adicional no dia. O pagamento pode ser feito por [FORMAS DE PAGAMENTO ACEITAS], e emitimos recibo em nome do paciente ou do responsável, como preferir. Se estiver de acordo, me confirme por aqui e eu envio as opções de data e horário disponíveis."

Quando o endereço cai acima de 60 minutos por trecho, a mensagem muda de natureza: a secretária não informa valor de faixa, porque a tabela não tem faixa para esse endereço. Ela responde que esse endereço é atendido sob consulta e que vai verificar com o médico a possibilidade de agendamento em bloco, e o preço é calculado pela mesma fórmula antes de ser enviado.

O Código de Ética Médica veda ao médico deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos. Mandar o valor total por escrito antes de sair, com o deslocamento já dentro, é a forma operacional de cumprir esse ajuste prévio na visita — e evita a cena em que a família descobre, na porta, que o preço não era o da consulta.

A mesma conta, especialidades diferentes

A tabela compara a resposta improvisada da secretária com a resposta pelo modelo.

EspecialidadeResposta improvisadaResposta pelo modelo HCE
Geriatria"É o mesmo valor da consulta, o doutor passa aí depois do expediente.""O endereço fica na Faixa 1. O valor total é [VALOR TOTAL DA FAIXA], com consulta e deslocamento incluídos."
Clínica médica"O valor é o da consulta mais uma taxa de visita, que o doutor define no dia.""O valor total é [VALOR TOTAL DA FAIXA], fechado antes da visita, sem cobrança adicional no dia."
Pediatria"Depende de onde vocês moram, a gente vê isso depois.""Pelo bairro informado, o endereço fica na Faixa 2. O valor total é [VALOR TOTAL DA FAIXA], já com o deslocamento."
Cardiologia"Fica um pouco mais caro que a consulta, pela distância.""O valor total é [VALOR TOTAL DA FAIXA]. Ele inclui a consulta e o deslocamento de ida e volta, e emitimos recibo."
Cuidados paliativos"Pode ficar tranquila, depois a gente acerta o valor.""Antes de agendar, envio o valor total por escrito: [VALOR TOTAL DA FAIXA], com consulta e deslocamento incluídos."
Psiquiatria"Para esse endereço eu não sei o valor, vou perguntar ao doutor.""Esse endereço fica acima de 60 minutos por trecho e é atendido sob consulta. Vou verificar com o doutor o agendamento em bloco e envio o valor calculado."

Em geriatria e cuidados paliativos, quando mais de uma pessoa da família participa da decisão, o orçamento por escrito evita que cada uma receba um valor diferente. Em pediatria, quando os pedidos de visita chegam avulsos, a tabela de faixas evita que cada pedido vire negociação. E, quando o mesmo paciente passa a receber visitas regulares, o agendamento em bloco — mais de uma visita na mesma saída, na mesma região — divide o deslocamento entre os atendimentos e é a forma de tornar viável o endereço acima de 60 minutos por trecho.

O ponto de partida é saber quanto vale a sua consulta e quanto custa a hora do seu consultório — sem isso, as duas primeiras parcelas da fórmula ficam no escuro. A conta da consulta está em quanto cobrar pela consulta particular, e o custo fixo que define o piso da hora clínica está em quanto custa manter um consultório.

Perguntas frequentes

Quanto cobrar por uma consulta domiciliar particular?

Some três parcelas: o valor da consulta no consultório, as horas de deslocamento de ida e volta multiplicadas pelo valor da hora clínica, e o custo de trajeto, que é quilômetros rodados vezes o custo por quilômetro do carro, mais estacionamento e pedágio. O valor da hora clínica é o valor da consulta vezes o número de consultas que a sua agenda comporta numa hora. Esse é o modelo HCE, Hora Clínica Estendida. Rode a conta uma vez para cada faixa de raio, arredonde para cima e deixe a tabela pronta para a secretária informar o valor total da faixa.

Posso cobrar a visita domiciliar pelo mesmo valor da consulta?

Pode, mas a conta não fecha. A consulta no consultório remunera o tempo do atendimento; a visita ocupa esse tempo e mais as horas de ida e volta, durante as quais a agenda do consultório fica parada e o custo fixo continua correndo. Cobrar só a consulta é vender o atendimento e dar o deslocamento de graça. O erro não aparece no dia, porque o paciente paga e o médico recebe; aparece no fim do mês, quando o faturamento fica abaixo do que as horas trabalhadas deveriam ter produzido.

Como definir o valor da hora clínica do médico?

No modelo HCE, o valor da hora clínica é o valor da consulta multiplicado pelo número de consultas que a agenda comporta numa hora, ou seja, quanto aquela hora fatura quando o médico está no consultório. Confira um piso: esse valor tem de ficar acima do custo da hora do consultório, que é o custo fixo mensal dividido pelas horas atendíveis no mês. Se não ficar acima, o problema está no preço da consulta, e a visita domiciliar só vai ampliar a perda.

Raio de atendimento domiciliar se mede em quilômetros ou em tempo?

Em tempo por trecho. A mesma distância custa agendas diferentes conforme o horário e o trânsito, e a parcela mais pesada da fórmula é o tempo de deslocamento multiplicado pela hora clínica. Por isso as faixas são de tempo: Faixa 1 até 30 minutos por trecho, Faixa 2 de 30 a 60 minutos por trecho, e acima de 60 minutos por trecho o endereço é atendido só sob consulta, com agendamento em bloco. Os quilômetros entram apenas no custo de trajeto.

O que escrever na mensagem de orçamento da visita domiciliar?

A mensagem vai por escrito, em conversa privada com o responsável, antes de agendar. Ela traz cinco elementos: o valor total fechado, o que ele inclui, que é a consulta e o deslocamento de ida e volta, a faixa do endereço, as formas de pagamento aceitas e a emissão de recibo. Não oferece desconto, não cria urgência e não promete resultado do atendimento. A visita só entra na agenda depois da confirmação. Para endereço acima de 60 minutos por trecho, a secretária informa que o atendimento é sob consulta e envia o valor calculado depois.

Consulta domiciliar particular é a mesma coisa que home care?

Não. A consulta domiciliar desta conta é o atendimento particular e pontual que o médico faz na casa do paciente a pedido da família, com preço fixado pelo próprio médico. No home care ou no atendimento domiciliar de convênio, o valor vem de contrato com a operadora ou com a empresa de assistência. A teleconsulta também fica fora, porque não tem deslocamento, e o deslocamento é justamente a parcela que a fórmula HCE existe para cobrar.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) — Capítulo VIII (Remuneração profissional), art. 61: veda ao médico deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos; sustenta a frase sobre enviar o valor total por escrito antes da visita.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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