Precificação e ticket

Quanto cobrar por teleconsulta em relação à consulta presencial

A tabela do consultório ganha uma linha nova, teleconsulta, com valor abaixo do presencial e uma justificativa que ninguém pôs no papel: o paciente não ocupa a sala. A consulta online continua ocupando horário na agenda, a secretária confirma e envia o link, o prontuário registra do mesmo jeito. E, quando o médico atende da própria sala, o aluguel daquela hora foi pago como o de qualquer outra.

A resposta direta: o preço da teleconsulta é o preço da presencial menos a diferença entre os pisos (piso da presencial − piso da tele), mantida a mesma camada de posicionamento. O piso da tele se calcula linha a linha do custo fixo: sai da conta só a linha cujo recurso a hora de tele não usa, e entra o que só ela tem, como a plataforma de vídeo. Atendida na sala, com a mesma duração, nenhuma linha sai e a tele não fica abaixo da presencial. Atendida fora da sala, a estrutura sai e o piso da tele cai — mas o aluguel, se continua pago, fica inteiro nas horas de sala. Se horas saíram da sala e o piso presencial subiu, suba o preço presencial para manter a camada ou aceite a camada menor nas duas modalidades.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

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O sistema invisível: o desconto presume que um custo sumiu

O desconto por modalidade parte de uma conta que não foi feita: se o paciente não vem, algum custo deixou de existir. Para saber qual, é preciso abrir o custo fixo em linhas e perguntar, de cada uma, se a hora de teleconsulta usa o recurso que aquela linha paga. A pergunta separa o custo que fica do que pode sumir da conta da tele — e expõe um terceiro grupo, que a planilha da presencial nem tem:

Há ainda um item que não aparece em linha nenhuma: a duração. A teleconsulta ocupa horário de agenda como a presencial, e o custo da hora clínica só vira custo da consulta multiplicado pela duração real. Se a sua tele é mais curta ou mais longa, a agenda registra; a conta usa a duração medida, não a impressão de que consulta online é rápida.

O mecanismo: o custo sai da conta da tele, não do consultório

Quando a teleconsulta sai da sala, a linha de estrutura deixa de ser dividida pelas horas de tele — é isso que abre espaço para um piso menor. Mas o aluguel do mês não diminuiu por isso. Ele continua pago inteiro e passa a ser dividido só pelas horas vendidas dentro da sala. Se as horas de tele saíram de dentro da sala, sobram menos horas para dividir a mesma estrutura, e o custo da hora presencial sobe.

Por isso a conta divide cada linha pelas horas que usam o recurso daquela linha. É a mesma conta do custo da hora clínica da consulta particular — custo fixo mensal dividido pelas horas realmente vendáveis —, feita linha a linha: quando todas as horas usam todas as linhas, as duas dão o mesmo número. E ela tem teste de fechamento: as horas de cada modalidade, multiplicadas pelo custo da hora dela, devolvem o custo fixo do mês mais as linhas que só a tele tem.

O que essa conta não decide é a camada de posicionamento. Tirar a sala da conta da tele mexe no piso; tempo dedicado, experiência, subespecialização e reputação não mudam só porque a consulta saiu da sala. A estrutura que o paciente percebe e a conveniência, que também compõem a camada e não são linhas de custo, podem mudar com a modalidade — e mexer na camada por causa delas é decisão de posicionamento, registrada separada do piso. O custo da sala entra só no piso, nunca na camada.

Com a mesma camada de posicionamento: o preço da teleconsulta

Preço da presencial(piso da presencial − piso da tele)=Preço da teleconsulta
Modelo: Custo que Some × Custo que Fica — o piso da teleconsulta linha a linha
  1. Abra o custo fixo em linhas. Escreva o valor mensal de estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações (sem o imposto sobre o preço, que entra no passo 5) e marketing recorrente. Pronto quando a soma das linhas bate com o custo fixo mensal do consultório.
  2. Marque o recurso de cada linha. Linha que paga a sala — aluguel ou condomínio, energia, limpeza — recebe a marca "sala". Linha que toda hora vendida usa, esteja o médico na sala ou não — secretária, prontuário, contador, captação — recebe "toda hora". Pronto quando nenhuma linha fica sem marca.
  3. Acrescente o custo que entra. Todo custo que só a teleconsulta tem — plataforma de vídeo contratada à parte, espaço pago fora do consultório — vira linha com a marca "tele". Pronto quando o valor mensal de cada uma está escrito.
  4. Divida cada linha pelas horas que usam o recurso. "Sala" pelas horas vendáveis dentro da sala, incluindo a teleconsulta atendida ali; "toda hora" pelas horas vendáveis totais; "tele" pelas horas vendáveis de teleconsulta. O custo da hora clínica de cada modalidade é a soma das linhas que ela usa — tele na sala e tele fora dela, se as duas existirem, são modalidades distintas. Pronto quando as horas de cada modalidade, multiplicadas pelo custo da hora dela, devolvem a soma de todas as linhas.
  5. Calcule o piso de sustentação de cada modalidade. Multiplique o custo da hora pela duração real da consulta, medida na agenda de cada modalidade e incluindo o retorno embutido, se houver, e acrescente o imposto do regime, calculado sobre o preço: piso = custo da consulta ÷ (1 − alíquota efetiva). Pronto quando o piso, menos o imposto sobre ele, devolve o custo da consulta.
  6. Some a camada de posicionamento. Parta da camada da presencial — o preço dela menos o piso dela — e some-a ao piso de cada modalidade. Com a mesma camada, preço da tele = preço da presencial − (piso da presencial − piso da tele). Se horas saíram da sala e o piso presencial subiu, a camada ao preço atual encolhe: suba o preço presencial para mantê-la ou aceite a camada menor nas duas modalidades. Ajuste de camada pela estrutura que o paciente percebe ou pela conveniência entra como parcela separada, com o motivo escrito; o custo da sala fica só no piso. Pronto quando cada preço aparece como piso mais camada, com as parcelas visíveis.
Exemplo ilustrativo

Consultório fictício com custo fixo de R$ 16.200/mês: estrutura R$ 5.400 (marca "sala"); pessoas R$ 7.200, sistemas R$ 1.200, contabilidade e obrigações R$ 960 (sem o imposto sobre o preço) e marketing recorrente R$ 1.440, somando R$ 10.800 (marca "toda hora"). Plataforma de vídeo contratada à parte, R$ 360/mês (marca "tele"), valor fictício, não referência de mercado. O médico vende 120 horas por mês, 20 delas de teleconsulta. As duas modalidades ocupam 1 hora de agenda por consulta, sem retorno embutido e sem custo variável. Imposto efetivo fictício de 10% sobre o preço. A consulta presencial custa R$ 350.

Cenário 1 — mesmo preço? A teleconsulta acontece na sala. As 120 horas usam a sala. Estrutura: 5.400 ÷ 120 = R$ 45/h. Toda hora: 10.800 ÷ 120 = R$ 90/h. Plataforma: 360 ÷ 20 = R$ 18/h. Custo da hora clínica: presencial 45 + 90 = R$ 135; tele 45 + 90 + 18 = R$ 153. Fechamento: 100 × 135 + 20 × 153 = 13.500 + 3.060 = R$ 16.560, que é 16.200 + 360. Piso: presencial 135 ÷ 0,9 = R$ 150; tele 153 ÷ 0,9 = R$ 170. Camada: 350 − 150 = R$ 200. Preço da tele: 350 − (150 − 170) = R$ 370. Cobrada pelos mesmos R$ 350, a tele fica com camada de 350 − 170 = R$ 180, R$ 20 abaixo da camada da presencial. Nenhuma linha saiu da conta da tele: a conta não sustenta tele abaixo da presencial, e o que a põe acima são os R$ 18/h da plataforma. Sem plataforma à parte, os dois pisos seriam R$ 150 e a tele sairia pelos mesmos R$ 350. Números fictícios.

Cenário 2 — preço reduzido: a teleconsulta acontece fora da sala. As mesmas 20 horas saem da sala, que continua alugada; ficam 100 horas de sala. Estrutura: 5.400 ÷ 100 = R$ 54/h, só na presencial. Toda hora: 10.800 ÷ 120 = R$ 90/h. Plataforma: R$ 18/h. Custo da hora clínica: presencial 54 + 90 = R$ 144; tele 90 + 18 = R$ 108. Fechamento: 100 × 144 + 20 × 108 = 14.400 + 2.160 = R$ 16.560. Piso: presencial 144 ÷ 0,9 = R$ 160; tele 108 ÷ 0,9 = R$ 120. Com a presencial mantida em R$ 350, a camada passa a 350 − 160 = R$ 190, e o preço da tele é 350 − (160 − 120) = R$ 310. Subindo a presencial para manter a camada de R$ 200, os preços vão a 160 + 200 = R$ 360 na presencial e 120 + 200 = R$ 320 na tele. A estrutura não diminuiu, só mudou de lugar: 20 × (170 − 120) = R$ 1.000 a menos de piso nas horas de tele e 100 × (160 − 150) = R$ 1.000 a mais nas horas presenciais. Números fictícios.

Aplicação prática: a mesma conta, vozes diferentes

O argumento do desconto muda conforme a especialidade. Na coluna da direita, ele volta para a conta — linha de custo, duração ou camada.

EspecialidadeJustificativa do desconto (evitar)Pelo modelo
Cardiologia"Online não ocupo a sala de exames, então cobro menos.""A sala de exames é linha de estrutura: sai do piso da tele só nas horas atendidas fora dela. Atendendo da sala, com a mesma duração, o que põe o piso da tele acima do da presencial é a linha da plataforma, se contratada à parte."
Psiquiatria"Atendo online de casa, então cobro menos.""De casa, a estrutura sai do piso da tele, mas o aluguel fica inteiro nas horas de sala. Se as horas de tele saíram da sala, o piso presencial sobe."
Pediatria"Consulta online é mais rápida, então custa menos.""A duração vem da agenda: se a tele ocupa o mesmo horário da presencial, o piso usa a mesma duração e as mesmas linhas de toda hora."
Endocrinologia"O paciente economiza o deslocamento, então o preço pode cair.""Deslocamento do paciente não é linha do custo fixo do consultório: não entra no piso nem sai dele. Se pesar no preço, é conveniência a favor do paciente: sustenta a camada, não a reduz."
Procedimentos estéticos eletivos"A avaliação online sai mais barata para não perder o paciente.""Avaliação atendida na sala usa estrutura, secretária, prontuário e plataforma. Com a mesma duração, cobrar menos que a presencial reduz a camada, não o custo."

Quanto maior a linha de estrutura no seu custo fixo — sala de exames, metragem —, maior a distância entre o piso da tele fora da sala e o da presencial, e maior o valor que passa para as horas de sala quando a tele sai. Tirar a tele da sala não reduz o custo do consultório: até a linha de estrutura cair — sala menor, turno de aluguel a menos —, o piso menor da tele é custo trocado de lugar. Se as horas de tele forem horas a mais, fora do período em que a sala seria vendida, nenhuma hora sai da sala e a estrutura continua dividida pelas mesmas horas de sala. A teleconsulta, atendida na sala ou fora dela, é atendimento médico a distância, que o Código de Ética Médica submete à regulamentação do CFM no art. 37, § 1º: "O atendimento médico a distância, nos moldes da telemedicina ou de outro método, dar-se-á sob regulamentação do Conselho Federal de Medicina." Confira a regulamentação de telemedicina vigente e confirme junto ao CRM da sua jurisdição antes de oferecê-la.

As cinco categorias do custo fixo mensal, que aqui viram linhas, estão mapeadas em quanto custa manter um consultório por mês; o custo da hora clínica, o piso de sustentação e a camada de posicionamento da consulta presencial, de onde o passo 6 parte, estão em quanto cobrar pela consulta particular.

Perguntas frequentes

Teleconsulta pode custar menos que a consulta presencial?

Pela conta de piso, com a mesma duração e a mesma camada de posicionamento, só quando a hora de teleconsulta deixa de usar alguma linha do custo fixo e essa saída supera o custo que só a tele tem, como a plataforma de vídeo contratada à parte. No modelo desta página, a linha que pode sair é a estrutura da sala, quando a tele acontece fora dela. Atendida da própria sala, a tele usa todas as linhas da presencial e o piso dela não fica abaixo. Fora da sala, o aluguel ainda pago passa inteiro para as horas de sala: o piso da tele cai sem que o custo do consultório diminua.

Quanto cobrar por teleconsulta atendendo da minha própria sala?

Atendendo da sala, dentro da agenda do consultório, a teleconsulta usa as mesmas linhas de custo fixo da presencial, as marcadas sala e as marcadas toda hora. Nenhuma sai da conta. Com a mesma duração, o que põe o piso de sustentação da tele acima do piso da presencial é apenas o custo que só ela tem, como a plataforma de vídeo contratada à parte. Somada a mesma camada de posicionamento, o preço da tele fica igual ao da presencial quando não existe custo próprio da tele, e acima dele quando existe. Cobrar menos que a presencial, nesse cenário, reduz a camada, não o custo.

Se eu atender online de casa, posso cobrar menos pela consulta?

Fora da sala, a linha de estrutura sai da conta da teleconsulta e o piso dela cai. Mas o aluguel não diminui por isso: se continua pago, passa a ser dividido só pelas horas vendidas dentro da sala. Quando as horas de tele saíram de dentro da sala, sobram menos horas para a mesma estrutura, e o piso presencial sobe. O modelo publica duas saídas: subir o preço presencial para manter a camada de posicionamento, ou aceitar a camada menor nas duas modalidades. Tirar a tele da sala não reduz o custo do consultório: enquanto a linha de estrutura não cair, com sala menor ou turno de aluguel a menos, o piso menor da tele é custo trocado de lugar.

Como calcular o custo da hora da teleconsulta?

É a mesma conta do custo da hora clínica da consulta presencial, custo fixo mensal dividido pelas horas realmente vendáveis, feita linha a linha. Cada linha do custo fixo recebe uma marca pelo recurso que paga: sala, toda hora ou tele. A linha sala se divide pelas horas vendáveis dentro da sala, incluindo a teleconsulta atendida ali; a toda hora, pelas horas vendáveis totais; a tele, pelas horas vendáveis de teleconsulta. O custo da hora de cada modalidade é a soma das linhas que ela usa. O teste de fechamento: as horas de cada modalidade, multiplicadas pelo custo da hora dela, devolvem a soma de todas as linhas.

O custo da plataforma de teleconsulta entra no preço?

Entra no piso da teleconsulta, como linha própria. Todo custo que só a tele tem, como plataforma de vídeo contratada à parte ou espaço pago fora do consultório, recebe a marca tele e é dividido pelas horas vendáveis de teleconsulta, não pelas horas totais. Por isso, atendendo da sala e com a mesma duração, o piso da tele fica acima do piso presencial pelo custo dessa linha na consulta, o valor por hora multiplicado pela duração, dividido por um menos a alíquota efetiva do imposto. Sem custo próprio da tele, os dois pisos se igualam, e com a mesma camada de posicionamento a tele sai pelo mesmo preço da presencial.

A camada de posicionamento da teleconsulta deve ser igual à da presencial?

O modelo parte da camada da presencial, o preço dela menos o piso dela, e a soma ao piso de cada modalidade. Tirar a sala da conta mexe no piso, não na camada: tempo dedicado, experiência, subespecialização e reputação não mudam só porque a consulta saiu da sala. A estrutura que o paciente percebe e a conveniência, que também compõem a camada e não são linhas de custo, podem mudar com a modalidade. Se você ajustar a camada da tele por causa delas, o ajuste entra como parcela separada, com o motivo escrito; o custo da sala fica só no piso, para que decisão de posicionamento não desconte custo que o piso já mede.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — art. 37, § 1º: sustenta a frase de que o Código submete o atendimento médico a distância, inclusive a teleconsulta, à regulamentação do CFM.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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