Avaliação dinâmica antes do botox: o que observar
Toxina botulínica

Avaliação dinâmica antes do botox: o que observar

Dose, ponto e expectativa se decidem antes da agulha, com o paciente sentado fazendo uma expressão de cada vez. Este é o roteiro do exame dinâmico e o que cada achado muda no plano.

A avaliação dinâmica antes da toxina botulínica segue um roteiro fixo: rosto em repouso de olhos abertos, repouso de olhos fechados, cada expressão de forma isolada (franzir, elevar a sobrancelha, fechar os olhos com força, sorriso largo, franzir o nariz, abaixar os cantos da boca, tensionar o pescoço, apertar os dentes) e palpação dos músculos que trabalham. Em cada etapa o médico procura cinco coisas: qual músculo produz a ruga, se os dois lados respondem igual, se o frontal está sustentando sobrancelha ou pálpebra, se a ruga é dinâmica ou já está gravada em repouso e que tipo de pele recobre aquele músculo. O resultado desse exame é o que decide dose, ponto e expectativa — e, às vezes, que a toxina não é o tratamento daquela queixa.

Esta página é sobre o exame. A sessão em ordem, da recepção ao retorno, está no guia do primeiro paciente; a leitura detalhada dos desenhos da glabela e da testa está em padrões de contração da glabela e em padrões de rugas da testa.

Por que o rosto parado não basta

A toxina enfraquece o músculo que contrai, e cada ruga do terço superior é o resultado de um cabo de guerra: o frontal puxa a sobrancelha para cima; corrugadores, prócero e orbicular do olho puxam para baixo e para o centro. Olhar só o rosto em repouso mostra a marca na pele, mas não mostra quem a produz nem quanto cada lado está puxando.

O consenso da sociedade francesa SAMCEP, publicado por Braccini e colaboradores (2023, J Cosmet Dermatol), reuniu 17 médicos experientes de cinco áreas — entre elas cirurgia plástica, oftalmologia, otorrinolaringologia e neurologia — para revisar o tratamento das linhas da testa, da glabela e dos pés de galinha. A proposta do grupo é abandonar o molde padrão e ajustar o tratamento ao padrão e à força de cada músculo. Para isso, descrevem uma avaliação dinâmica por indicação e concluem que o resultado depende de examinar o paciente em repouso e em movimento, com pistas visuais e táteis, conhecendo como os músculos opostos interagem.

Frontal em destaque e depressores da sobrancelha em cinza, alvos da avaliação dinâmica antes da toxina — Dr. Thiago Perfeito
O que a avaliação dinâmica mede é o equilíbrio entre o frontal (em destaque), único elevador da sobrancelha, e os depressores em cinza — corrugadores e prócero na glabela, orbicular ao redor da órbita. Cada expressão do roteiro isola um desses grupos.

O roteiro, expressão por expressão

O paciente fica sentado, cabeça em posição neutra, luz frontal uniforme, sem maquiagem na área. Peça uma expressão de cada vez, mantenha-a por alguns segundos e volte ao repouso antes da próxima. A ordem abaixo vai do mais simples ao que costuma esconder surpresa:

  1. Repouso, olhos abertos, olhando para o horizonte. Altura e formato das sobrancelhas, linhas presentes sem movimento, simetria das fendas palpebrais, peso da pálpebra superior. A testa que já está enrugada sem esforço é o primeiro sinal de frontal recrutado.
  2. Repouso, olhos fechados. Com a testa relaxada, peça que feche os olhos suavemente. Se a sobrancelha desce nesse momento, ela estava sendo segurada pelo frontal com os olhos abertos — o mecanismo e a conduta estão na página de queda da sobrancelha após toxina.
  3. Franzir com força. Que músculo domina (aproximar, abaixar ou elevar a cabeça da sobrancelha), se o orbicular medial entra junto, se aparecem linhas no dorso do nariz.
  4. Elevar as sobrancelhas como quem se espanta. Até onde as linhas vão para fora, se o movimento é igual dos dois lados, se a cauda da sobrancelha sobe ou fica parada.
  5. Fechar os olhos com força. O orbicular inteiro, as linhas laterais e as que descem para a bochecha.
  6. Sorriso largo e sorriso espontâneo. Os pés de galinha mudam de desenho entre apertar os olhos e sorrir; as linhas que nascem do zigomático e da bochecha não respondem do mesmo modo à toxina no orbicular.
  7. Franzir o nariz. Linhas no dorso nasal, que costumam aparecer depois que a glabela é bloqueada.
  8. Abaixar os cantos da boca e tensionar o pescoço. Depressor do ângulo da boca, mentual e bandas do platisma — para registrar o que existe, mesmo que o primeiro plano seja só o terço superior.
  9. Apertar os dentes. Volume e força do masseter à palpação, com a mão espalmada no ângulo da mandíbula.

A palpação acompanha o roteiro: os dedos sobre o ventre de cada músculo durante a contração dão a noção de espessura e de força que o olho não dá, e é essa noção que separa um corrugador volumoso de um discreto com o mesmo desenho de ruga.

Os pés de galinha precisam de duas expressões

O desenho das linhas laterais muda conforme o paciente aperta os olhos ou sorri. Cavallini e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) classificaram os pés de galinha de 323 pessoas, com idade média de 51,5 anos, nas duas situações. O padrão em leque completo predominou tanto na contração máxima quanto no sorriso; o segundo mais frequente foi o leque superior na contração máxima e o leque completo estendido no sorriso. A idade pesou: na faixa de 40 a 49 anos, os padrões de leque inferior superaram os demais, e os de leque completo e completo estendido ficaram mais frequentes com o envelhecimento. Os autores concluem que a topografia das injeções deve ser individualizada.

Na prática, o exame registra as duas expressões e marca onde as linhas se concentram — acima, abaixo ou dos dois lados do canto lateral. A técnica e a zona de segurança dessa região estão em como aplicar botox nos pés de galinha.

Assimetria: quase sempre existe, e o paciente quase nunca sabe

O exame dinâmico costuma revelar diferenças entre os lados que o paciente nunca reparou. Motazedian e colaboradores (2024, World J Plast Surg) mediram em fotografia a região periorbital de 155 pacientes antes de blefaroplastia superior e encontraram assimetria em 112 deles (72%). Em 39% a diferença passava de 1 mm na distância entre a sobrancelha e a prega; em 26%, na exposição do tarso; em 15,5%, na distância entre a margem palpebral e o reflexo da pupila. A conclusão dos autores é direta: a maioria tem assimetria antes do procedimento sem saber, e conhecer isso evita insatisfação e expectativa irreal.

Para a toxina, isso tem três consequências:

Sobrancelha assimétrica: procure a pálpebra

A sobrancelha mais alta de um lado nem sempre é só um frontal mais forte. Eshraghi e colaboradores (2023, Aesthet Surg J Open Forum) examinaram 2.530 candidatos a blefaroplastia superior e encontraram ptose palpebral não diagnosticada em 13,7%, quase sempre leve (85,5%) e em pacientes mais velhos. A prevalência de ptose foi muito maior entre quem tinha assimetria de sobrancelha: 75,3% contra 3,7%. Os autores apontam a assimetria de sobrancelha como pista para desmascarar uma ptose que passaria despercebida.

Corte sagital da pálpebra superior com o levantador da pálpebra em destaque, referência para triagem de ptose antes da toxina — Dr. Thiago Perfeito
Corte sagital da pálpebra superior: em destaque, o levantador da pálpebra, que corre sob o teto da órbita até a aponeurose no tarso; em cinza, globo, gordura orbital e orbicular. Quando o levantador não dá conta, o frontal do mesmo lado sobe a sobrancelha para abrir o olho — e a sobrancelha assimétrica é a pista visível disso.

No consultório, a sequência é simples: diante de uma sobrancelha mais alta, olhe a margem da pálpebra do mesmo lado em relação à íris, com a testa relaxada e o paciente olhando para a frente. Se a pálpebra desse lado estiver mais baixa, o frontal provavelmente está compensando, e bloqueá-lo pode baixar o olhar. Esse paciente sai do exame com plano diferente: frontal poupado ou tratado com mais cautela daquele lado, conversa franca sobre o achado e, quando a ptose é evidente, avaliação da pálpebra antes de qualquer toxina na testa.

Linha dinâmica ou linha gravada

A pergunta que define a expectativa é se a ruga some quando o músculo relaxa. Linha dinâmica aparece no movimento e desaparece no repouso; linha estática continua lá com o rosto parado. A distinção é tão central que as escalas fotonuméricas validadas por Lorenc e colaboradores (2025, Aesthet Surg J Open Forum) foram construídas em pares: seis escalas de 4 pontos, para glabela, pés de galinha e testa, cada uma em repouso e em expressão máxima. Testadas por cinco médicos em 96 a 114 participantes por escala, tiveram concordância intraexaminador (κ médio de 0,83 a 0,91) e interexaminador (ICC de 0,94 a 0,98) classificadas como quase perfeitas.

Registrar as duas notas — repouso e movimento — dá ao retorno uma régua objetiva e ajuda a explicar o que esperar. A linha estática não é necessariamente definitiva. Na análise de Glogau e colaboradores (2021, Dermatol Surg), 568 adultos com linhas glabelares dinâmicas moderadas ou graves receberam três ciclos de daxibotulinumtoxinA 40 U — dose própria dessa toxina, que não serve de referência para outra marca. Na avaliação dos próprios pacientes, a proporção sem linha estática na glabela passou de 9,0% no início para 57,9% quatro semanas após o primeiro ciclo, 68,7% após o segundo e 71,5% após o terceiro; na avaliação do investigador, de 27,3% para 64,8%, 75,0% e 77,6%. Os autores atribuem a melhora progressiva ao período prolongado de inatividade muscular, durante o qual a derme se remodela.

Gráfico da proporção de pacientes sem linha estática na glabela ao longo de três ciclos de toxina — Dr. Thiago Perfeito
Proporção de pacientes com linhas glabelares estáticas ausentes (verde escuro), leves, moderadas ou graves, pela avaliação do próprio paciente, no início e após cada ciclo de daxibotulinumtoxinA: a fatia sem linha estática sai de 9,0% para 71,5% no terceiro ciclo. Figure 1 de Glogau R et al., Dermatol Surg 2021 (PMID 34417396), reproduzida sob licença CC BY.

A leitura para o paciente é honesta nos dois sentidos: a linha gravada tende a responder menos na primeira sessão e pode melhorar com tratamentos repetidos no intervalo correto. Quando o sulco é profundo, a conversa já inclui o que a toxina entrega e o que talvez precise de outro recurso.

Pele grossa, pele fina

O mesmo músculo, sob peles diferentes, produz rugas diferentes — e o exame precisa olhar a pele com o mesmo cuidado com que olha o músculo:

Para a paciente entre 45 e 60 anos, que é quem mais procura a toxina com olhar de resultado natural, o exame costuma encontrar as três coisas ao mesmo tempo: linhas dinâmicas, linhas já gravadas e pele mais fina. O plano que funciona separa o que é do músculo, tratado com toxina, do que é da pele e do suporte, que pede outra abordagem em outro momento.

Do exame ao plano: o que muda com cada achado

Achado no exameO que muda no plano
Testa enrugada em repouso, sobrancelha desce ao fechar os olhosFrontal sustentando sobrancelha ou pálpebra: dose menor e pontos mais altos na testa, ou testa fora do primeiro plano
Sobrancelha mais alta de um ladoOlhar a pálpebra do mesmo lado; se estiver mais baixa, poupar o frontal daquele lado e discutir o achado
Diferença de força ou de desenho entre os ladosDose e pontos por lado, registrados no mapa; assimetria mostrada ao paciente antes
Pés de galinha com desenho diferente no sorriso e na contração máximaPontos distribuídos onde as linhas se concentram nas duas expressões
Linha visível em repousoNota de repouso registrada; expectativa de melhora parcial na primeira sessão
Linha que aparece só com a pele pinçada, sem contraçãoNão é alvo da toxina; outro recurso, em outro momento
Linhas no dorso do nariz, cantos da boca ou platisma ativosRegistrados agora, para o retorno e para um plano por etapas

Tudo vai para a ficha: as notas de repouso e movimento, o mapa com o que cada lado faz e as fotografias, com o mesmo enquadramento que será repetido no retorno de 15 a 30 dias. O que foi visto antes da agulha é o que permite comparar depois.

Onde o exame se aprende

O roteiro cabe numa página; o olhar que reconhece em segundos um frontal compensando ou uma assimetria de pálpebra se forma vendo muitos rostos com alguém experiente ao lado. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), cada um dos quatro módulos abre com a leitura da face em quatro camadas — osso, músculo, gordura e pele — e com a fotografia padronizada de sete ângulos. O módulo de toxina e preenchimento segue com a anatomia funcional dos três terços, o mapa de pontos e as intercorrências, entre elas ptose palpebral e assimetria. Depois do pré-work gravado, o sábado presencial na clínica INTI, em Brasília, tem a demonstração comentada como parte teórica e, na parte prática, o aluno examina e trata paciente modelo sob supervisão, em turma de até oito médicos. Os módulos estão em Cursos. O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina.

Síntese

Repouso de olhos abertos e fechados, cada expressão isolada, palpação, comparação entre os lados, separação entre linha dinâmica e linha gravada e leitura da pele. O exame dinâmico define quem trata, onde, quanto e o que prometer — e tudo o que ele encontra precisa ser mostrado ao paciente antes, não descoberto depois. Outros textos técnicos estão na Biblioteca.

Perguntas frequentes

O que é a avaliação dinâmica antes do botox?

É o exame do rosto em repouso e em cada expressão isolada, com palpação dos músculos, para saber qual músculo produz cada ruga, se os lados respondem igual e se o frontal está sustentando sobrancelha ou pálpebra. É ela que define dose, pontos e o que prometer ao paciente.

Quais expressões pedir ao paciente antes da toxina?

Repouso de olhos abertos e fechados, franzir, elevar as sobrancelhas, fechar os olhos com força, sorriso largo e espontâneo, franzir o nariz, abaixar os cantos da boca, tensionar o pescoço e apertar os dentes. Uma de cada vez, voltando ao repouso entre elas.

Por que pedir para o paciente fechar os olhos durante a avaliação?

Para ver se a sobrancelha desce quando a testa relaxa. Se desce, o frontal estava segurando a sobrancelha ou ajudando a abrir uma pálpebra pesada, e bloqueá-lo pode baixar o olhar.

Sobrancelha assimétrica pode indicar ptose palpebral?

Pode. Em 2.530 candidatos a blefaroplastia, Eshraghi e colaboradores (2023) encontraram ptose não diagnosticada em 13,7%, e ela foi muito mais frequente em quem tinha assimetria de sobrancelha (75,3% contra 3,7%). Diante de uma sobrancelha mais alta, olhe a pálpebra do mesmo lado antes de tratar a testa.

Botox melhora ruga que aparece com o rosto parado?

Melhora menos na primeira sessão e pode melhorar com sessões repetidas. Em 568 adultos tratados com três ciclos de daxibotulinumtoxinA, a proporção sem linha estática na glabela, pela avaliação dos pacientes, passou de 9,0% para 71,5% (Glogau et al., 2021). Ruga que aparece só com a pele pinçada, sem contração, é da pele e não responde à toxina.

É normal o paciente ter assimetria antes do botox?

É o mais comum. Em 155 pacientes medidos antes de blefaroplastia, 72% tinham assimetria periorbital, em geral sem saber. Por isso a assimetria precisa ser mostrada na foto e no espelho antes da aplicação.

Como registrar a avaliação dinâmica?

Com fotografia padronizada em repouso e em cada expressão, nota de gravidade em repouso e em movimento por área, e um mapa do que cada lado faz. O mesmo enquadramento é repetido no retorno de 15 a 30 dias.

Referências

  1. Braccini F, Catoni I, Belfkira F, et al. SAMCEP Society consensus on the treatment of upper facial lines with botulinum neurotoxin type A: A tailored approach. J Cosmet Dermatol. 2023;22(10):2692-2704 · PMID 37408173 · DOI 10.1111/jocd.15768
  2. Cavallini M, Papagni M, Augelli F, et al. Heterogeneous crow's feet line patterns and customized botulinum toxin rejuvenating treatment. J Cosmet Dermatol. 2022;21(10):4294-4300 · PMID 35723939 · DOI 10.1111/jocd.15172
  3. Motazedian G, Sadeghi E, Jabbarinia E, et al. Preoperative Eyelid and Eyebrow Asymmetry: A Potential Pre-Operation Inform Consent Option: A Descriptive Cross-Sectional Study. World J Plast Surg. 2024;13(2):19-24 · PMID 39193249 · DOI 10.61186/wjps.13.2.19
  4. Eshraghi B, Pourazizi M, Taghian A, et al. The Prevalence of Undiagnosed Ptosis Among Candidates for Upper Eyelid Blepharoplasty. Aesthet Surg J Open Forum. 2023;5:ojad079 · PMID 37694225 · DOI 10.1093/asjof/ojad079
  5. Lorenc ZP, Smith S, Bass LS, et al. Development and Validation of Photonumeric Scales for Glabellar, Lateral Canthal, and Forehead Lines. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf124 · PMID 41245226 · DOI 10.1093/asjof/ojaf124
  6. Glogau R, Kontis TC, Liu Y, Gallagher CJ. Progressive Improvement in Static Glabellar Lines After Repeated Treatment With DaxibotulinumtoxinA for Injection. Dermatol Surg. 2021;47(12):1579-1584 · PMID 34417396 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003211
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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