Botox na sobrancelha: elevação química do supercílio lateral
A elevação química da sobrancelha funciona por subtração: a toxina enfraquece o depressor da cauda — a porção orbital lateral do orbicular do olho — e deixa o frontal, que é o elevador, trabalhar com menos oposição. O ganho medido nos estudos é de milímetros, maior na porção lateral da sobrancelha, e depende de três decisões do injetor: escolher o paciente certo, colocar o ponto abaixo da cauda, onde só existe orbicular, e não tocar a faixa do frontal que sustenta a sobrancelha. Nenhuma das bulas americanas das três toxinas da casa traz a elevação da sobrancelha entre as indicações estéticas: é uso off-label, e as doses de referência vêm dos estudos.
Por que enfraquecer um músculo levanta a sobrancelha
A sobrancelha fica onde a soma das forças a deixa. Para cima puxa um único músculo, o frontal. Para baixo puxam vários: corrugador e prócero no centro, depressor do supercílio na cabeça da sobrancelha e a porção orbital do orbicular do olho em toda a volta da órbita — inclusive sob a cauda. Kaufman-Janette e Trindade de Almeida (2024, Dermatol Surg) resumem o princípio que sustenta todo “lifting” com neuromodulador: os músculos da mímica interagem entre si, e o efeito de elevação se obtém tratando os depressores e deixando os elevadores sem oposição. Os autores tratam essas técnicas como avançadas, porque cada região tem particularidades anatômicas e efeitos adversos próprios.
Na sobrancelha lateral, a conta é favorável por um motivo anatômico. Na cabeça e no corpo da sobrancelha, o frontal desce até a pele e convive com corrugador e depressor do supercílio. Na cauda, o depressor que pesa é o orbicular lateral. Bloqueá-lo sob a cauda tira o principal peso daquela região sem mexer no elevador.

Quanto se ganha: o que os estudos mediram
O número que o paciente precisa ouvir antes da aplicação é milímetro, não centímetro. Os estudos que mediram a sobrancelha antes e depois concordam na ordem de grandeza e no lugar onde o ganho é maior:
- Ahn, Catten e Maas (2000, Plast Reconstr Surg). Em 22 pacientes tratados apenas no orbicular lateral, com 7 a 10 U de onabotulinumtoxinA (Botox) no orbicular lateral, bilateralmente — o resumo não diz se a faixa é por lado ou o total dos dois lados —, a sobrancelha subiu em média 1,02 mm na linha médio-pupilar e 4,83 mm na vertical do canto lateral, duas semanas depois. Nenhum paciente saiu do estudo por efeito adverso.
- Huang, Rogachefsky e Foster (2000, Dermatol Surg). Onze mulheres receberam, em cada sobrancelha, uma injeção na glabela (5 U) e quatro pontos igualmente espaçados ao longo da borda orbital lateral, abaixo da sobrancelha; o resumo fala em “total de 10 U” sem deixar claro se esse total inclui a glabela, e não informa a marca. A elevação foi significativa nos dois lados; as maiores médias ficaram na porção central (1,86 mm e 3,06 mm em repouso, à direita e à esquerda).
- Uygur e colaboradores (2013, J Craniofac Surg). Com 6 U no orbicular súpero-lateral, em três pontos abaixo da metade lateral da sobrancelha de cada lado (o resumo não informa a marca), dez pacientes tiveram aumento significativo da distância entre a cauda e o canto lateral e da distância entre o ápice da sobrancelha e a pálpebra — sem perder a simetria entre os lados.
- Revisão sistemática de Jabbour e colaboradores (2017, Dermatol Surg). Onze estudos com medida objetiva, 585 pacientes no total: a maior elevação foi na porção lateral da sobrancelha, de 0,4 a 4,8 mm. Hematoma e cefaleia foram as queixas mais citadas, e só 5 casos de ptose palpebral apareceram no conjunto.
Há um detalhe nesses números que muda a conversa no consultório: a resposta varia mais do que o desenho. O mesmo protocolo produz 1 mm em um paciente e perto de 5 mm em outro. Prometer um número é prometer o que o músculo de cada pessoa decide.
Por que mirar a cauda, e não a sobrancelha inteira
Matros, Garcia e Yaremchuk (2009, Plast Reconstr Surg) mediram a sobrancelha de mulheres de 20 a 30 anos e de 50 a 60 anos, sem cirurgia prévia nem toxina. Nas jovens, a porção lateral ficou significativamente mais alta que o meio da sobrancelha. Nas mais velhas, a sobrancelha estava mais alta em todos os pontos, com diferença significativa na porção medial e no meio — na comparação entre os dois grupos, a cabeça e o corpo da sobrancelha subiram mais do que a cauda. Os autores concluem que técnicas que elevam seletivamente a porção lateral têm mais chance de rejuvenescer o terço superior do rosto feminino.
É exatamente o que a toxina no orbicular lateral faz melhor. Subir a cabeça da sobrancelha, que já tende a subir com a idade, produz um olhar surpreso; subir a cauda devolve o desenho inclinado para cima que o rosto jovem tinha.
O paciente certo
A elevação química é uma técnica de refinamento. Ela funciona melhor quando:
- a cauda está um pouco abaixo do que o paciente gostaria, ou a sobrancelha ficou reta e ele quer recuperar a inclinação lateral;
- há um leve peso de pele na lateral da pálpebra superior, que alguns milímetros de elevação já desfazem;
- o frontal funciona até a lateral da testa — é ele que vai levantar a cauda quando o orbicular perder força;
- o paciente entende que o resultado é sutil e temporário.
Fica de fora quem precisa de mais do que milímetros: excesso grande de pele na pálpebra, sobrancelha francamente caída ou ptose palpebral. Nesses casos, quem está segurando a pálpebra costuma ser o próprio frontal, e o caminho é cirúrgico ou outro. Desconfie também do pedido de elevação em quem já tem a testa contraída o tempo todo: esse paciente pode estar compensando algo que a toxina não resolve.

Onde fica o ponto
A referência anatômica mais útil é a borda óssea súpero-lateral da órbita. Yi e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) dissecaram três cadáveres frescos e mostraram que, acima da sobrancelha lateral, as fibras do frontal e do orbicular se entrelaçam; já na borda súpero-lateral da órbita existe só orbicular. Foi esse o ponto usado no único paciente do trabalho — 1 U intradérmica de letibotulinumtoxinA —, com melhora da abertura do olho e elevação da sobrancelha. É um relato anatômico com um caso, que vale pela topografia, não pela dose. O achado explica por que o ponto alto demais é o erro clássico: subir para dentro da sobrancelha é entrar na zona onde o frontal também está — e enfraquecer o elevador que se queria preservar.
- Marque com o paciente em repouso, sentado. Palpe a borda orbital súpero-lateral e localize a cauda da sobrancelha em relação a ela.
- Peça para fechar os olhos com força. O orbicular lateral se contrai e puxa a cauda para baixo; você vê e palpa o ventre que vai tratar. Em seguida, peça para elevar a sobrancelha e confira até onde o frontal age na lateral.
- Coloque o ponto abaixo da cauda, junto à borda óssea. Os estudos usaram de um a quatro pontos por lado ao longo da borda lateral, abaixo da sobrancelha. Mantenha-se fora da pele da sobrancelha e longe do ventre do frontal.
- Superficial e com pouco volume. O orbicular é fino e fica logo sob a pele. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspiração — em toxina ela não é necessária — e nunca com microcânula.
- Decida a glabela junto. El-Khoury e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg), em ensaio randomizado com abobotulinumtoxinA e 15 pacientes (30 sobrancelhas) por grupo, compararam o tratamento só dos depressores laterais com o tratamento dos laterais e mediais juntos. Só lateral: elevação de 0,6 a 2,1 mm em todos os pontos medidos. Lateral e medial: elevação de 1 a 1,7 mm do limbo medial até a ponta lateral, sem mudança na cabeça da sobrancelha. Os desenhos produziram formatos diferentes, e 97% dos pacientes ficaram satisfeitos. A escolha depende do formato que se quer: inclinar a sobrancelha ou subir o arco por inteiro.
- Registre e marque a revisão. Produto, lote, diluição, pontos e unidades por ponto, com foto padronizada antes. O retorno de revisão é feito entre 15 e 30 dias.
Os pontos de pés de galinha das bulas ficam em outro lugar: a do Botox Cosmetic começa o primeiro ponto a cerca de 1,5 a 2 cm do canto lateral, logo além da borda orbital, e a do Xeomin a cerca de 1 cm da borda óssea, na horizontal do canto. Quem já trata os pés de galinha está enfraquecendo parte do orbicular lateral; o ponto da cauda é um acréscimo acima deles, não uma repetição. A técnica completa dos pés de galinha está em Como aplicar botox nos pés de galinha.
Doses: de onde vêm e como converter
Como a elevação da sobrancelha não está entre as indicações estéticas das bulas americanas do Botox Cosmetic, do Dysport e do Xeomin, não existe dose de fabricante para ela. As referências são as dos estudos — 7 a 10 U de onabotulinumtoxinA (Botox) no orbicular lateral, bilateralmente, no estudo de Ahn, sem divisão por lado no resumo; 6 U em três pontos de cada lado no de Uygur e quatro pontos na borda lateral no de Huang, os dois sem marca informada no resumo — e cada número vale para o produto usado ali. As bulas declaram que as unidades de uma marca não são intercambiáveis com as de outra. Na prática, a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência (Botox para Dysport na razão de 1 para 2,5; Botox para Xeomin, 1 para 1), começando na dose equivalente ou levemente abaixo e ajustando pela resposta na revisão. Detalhes da troca entre marcas: Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

Elevar sem tratar o orbicular: duas outras rotas
O orbicular lateral não é o único caminho para mexer na posição da sobrancelha.
- Pela glabela. Solish e colaboradores (2023, Aesthet Surg J) analisaram pacientes que receberam 40 U de daxibotulinumtoxinA só na glabela. Duas semanas depois, a sobrancelha subiu mais na porção lateral (0,6 a 0,9 mm) e no meio (0,5 a 0,7 mm), com movimento desprezível na cabeça, e a atividade do frontal caiu sobretudo no segmento inferior. Os autores descrevem o resultado como um leve arco lateral.
- Por microgotas ao longo da sobrancelha. Steinsapir e colaboradores (2015, Ophthalmic Plast Reconstr Surg) trataram os depressores com 33 U de onabotulinumtoxinA em microgotas de 10 a 20 μL, de 60 a 100 por sessão, ao longo da sobrancelha, da glabela e dos pés de galinha, sem tratar a testa. Em 563 tratamentos, a ptose ocorreu em 0,2%, transitória; nos 49 pacientes reavaliados por imagem, a altura média da sobrancelha passou de 24,6 para 25 mm.
Os dois trabalhos ensinam a mesma coisa por caminhos diferentes: o frontal preservado é o motor da elevação. Qualquer plano que tire força dele na faixa baixa da testa anula o que se ganhou no orbicular.
O que pode dar errado
- Cauda que desce em vez de subir. É o ponto alto demais, dentro da zona onde frontal e orbicular se misturam. A regra prática que sai da dissecção de Yi e colaboradores: o ponto fica na borda óssea, abaixo da sobrancelha.
- Pálpebra pesada. Rara nos estudos de elevação (5 casos em 585 pacientes na revisão de Jabbour), mas possível se o produto chega ao levantador da pálpebra. Volume pequeno, ponto lateral e superficial e distância da porção pré-septal reduzem o risco. Como a ptose palpebral acontece e como é conduzida está na página da glabela.
- Assimetria. A resposta de cada lado pode ser diferente. A revisão de 15 a 30 dias é o momento de avaliar e, se for o caso, fazer um retoque pontual, de dose pequena, só onde ficou atividade.
- Arco exagerado. Elevação lateral demais, somada a uma testa tratada só no centro, pode deixar a cauda em pico. O desenho da testa e o da cauda precisam ser pensados juntos.
Duração e intervalo
A elevação dura o que a toxina dura. Na prática do consultório do Dr. Thiago, o efeito na face é de 3 a 4 meses, com revisão entre 15 e 30 dias. O intervalo mínimo entre aplicações é o das bulas: aplicações mais frequentes que a cada 3 meses não foram avaliadas ou não devem ser feitas.
Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde isso se treina
A elevação química é feita em milímetros, e o ponto certo se acha pela mão e pelo olho, com o paciente fechando os olhos e elevando a sobrancelha na sua frente. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, cada módulo é um sábado presencial, antecedido por pré-work gravado obrigatório, para turmas de até 8 médicos: a demonstração comentada é a parte teórica, e a execução supervisionada em paciente modelo é a parte prática. As unidades estéticas do supercílio entram no módulo de Toxina e Preenchimento, ao lado da anatomia funcional dos três terços e da conversão entre marcas. Os demais módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Como o botox levanta a sobrancelha?
Enfraquecendo o músculo que a puxa para baixo na lateral — a porção orbital do orbicular do olho, sob a cauda. Com menos oposição, o frontal, que é o elevador, sobe a cauda alguns milímetros. O frontal precisa ficar preservado para isso funcionar.
Quantos milímetros a sobrancelha sobe com toxina?
Pouco, e com variação grande entre pacientes. A revisão sistemática de Jabbour e colaboradores (2017), com 11 estudos e 585 pacientes, encontrou a maior elevação na porção lateral, de 0,4 a 4,8 mm. Por isso o resultado deve ser apresentado como refinamento, não como substituto de cirurgia.
Onde fica o ponto da elevação química?
Na borda óssea súpero-lateral da órbita, abaixo da cauda da sobrancelha, superficial e com pouco volume. Ali existe só orbicular; acima, dentro da sobrancelha, frontal e orbicular se misturam, e tratar essa faixa pode baixar a cauda em vez de subi-la.
A bula traz dose para elevar a sobrancelha?
Não. A elevação da sobrancelha não está entre as indicações estéticas das bulas americanas do Botox Cosmetic, do Dysport e do Xeomin. As referências de dose vêm dos estudos, cada uma de um produto específico; as bulas declaram as unidades não intercambiáveis, e a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência com ajuste pela resposta.
Precisa tratar a glabela junto?
Depende do formato desejado. No ensaio de El-Khoury e colaboradores (2018), tratar só os depressores laterais elevou a sobrancelha em todos os pontos; tratar laterais e mediais elevou do limbo medial à ponta lateral, sem mexer na cabeça da sobrancelha. Os dois desenhos produzem formatos diferentes.
Quem não deve fazer elevação química da sobrancelha?
Quem precisa de mais do que alguns milímetros: excesso grande de pele na pálpebra, sobrancelha francamente caída ou ptose palpebral. Nesses pacientes, o frontal costuma estar compensando, e a toxina não resolve o problema de base.
Quanto tempo dura a elevação da sobrancelha com toxina?
O mesmo que o efeito da toxina na face: na prática do Dr. Thiago, de 3 a 4 meses. A revisão é feita entre 15 e 30 dias, e o intervalo mínimo entre aplicações segue a bula, de 3 meses.
Referências
- Ahn MS, Catten M, Maas CS. Temporal brow lift using botulinum toxin A. Plast Reconstr Surg. 2000;105(3):1129-1135. · PMID 10724275 · DOI 10.1097/00006534-200003000-00046
- Huang W, Rogachefsky AS, Foster JA. Browlift with botulinum toxin. Dermatol Surg. 2000;26(1):55-60. · PMID 10632687 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2000.99147.x
- Uygur S, Eryilmaz T, Bulam H, et al. The quantitative effect of botulinum toxin A over brow height. J Craniofac Surg. 2013;24(4):1285-1287. · PMID 23851789 · DOI 10.1097/SCS.0b013e318292c80c
- Jabbour S, Awaida C, Kechichian E, et al. Botulinum Toxin for Eyebrow Shaping: A Systematic Review. Dermatol Surg. 2017;43 Suppl 3:S252-S261. · PMID 33065951 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001410
- El-Khoury JS, Jabbour SF, Awaida CJ, et al. The Impact of Botulinum Toxin on Brow Height and Morphology: A Randomized Controlled Trial. Plast Reconstr Surg. 2018;141(1):75-78. · PMID 29280866 · DOI 10.1097/PRS.0000000000003919
- Matros E, Garcia JA, Yaremchuk MJ. Changes in eyebrow position and shape with aging. Plast Reconstr Surg. 2009;124(4):1296-1301. · PMID 19935315 · DOI 10.1097/PRS.0b013e3181b455e8
- Yi KH, Kim SB, Park HJ, Kim HJ. Lateral Eyebrow Lifting and Eye-Opening Point Injection With Botulinum Neurotoxin: Anatomical Perspective. J Craniofac Surg. 2025;36(6):e607-e609. · PMID 40130887 · DOI 10.1097/SCS.0000000000011112
- Kaufman-Janette J, Trindade de Almeida A. Lifting With Neuromodulators. Dermatol Surg. 2024;50(9S):S58-S63. · PMID 39196835 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004360
- Solish N, Kane MAC, Biesman BS, et al. Impact of DaxibotulinumtoxinA for Injection on Brow Position and Frontalis Muscle Activity Following Treatment of Glabellar Lines. Aesthet Surg J. 2023;43(Suppl 1):S1-S9. · PMID 36095026 · DOI 10.1093/asj/sjab362
- Steinsapir KD, Rootman D, Wulc A, Hwang C. Cosmetic Microdroplet Botulinum Toxin A Forehead Lift: A New Treatment Paradigm. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2015;31(4):263-268. · PMID 25216199 · DOI 10.1097/IOP.0000000000000282
- Goodman GJ, Lim A, Hart S, et al. Botulinum Toxin: Surely, We Can Do Better? Optimizing Results Beyond On-Label Techniques and Teaching. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf032. · PMID 40585019 · DOI 10.1093/asjof/ojaf032
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