Botox para olhos mais abertos: orbicular pré-tarsal
Toxina botulínica

Botox para olhos mais abertos: orbicular pré-tarsal

"Quero o olho mais aberto" é um pedido que a toxina atende, mas não do jeito que a paciente imagina. Nenhum ponto levanta a pálpebra: o que a toxina faz é tirar força do músculo que fecha o olho. Saber em qual pálpebra, em quem e quanto é o que separa o olhar descansado do olho seco.

A toxina botulínica abre o olho por um caminho indireto: ela não levanta a pálpebra, ela enfraquece o músculo que fecha. A porção pré-tarsal do orbicular do olho é o esfíncter colado à margem palpebral; relaxada na pálpebra inferior, a margem de baixo desce um pouco; relaxada na pálpebra superior, o levantador trabalha contra menos resistência e a margem de cima sobe um pouco. Os ganhos medidos nos estudos vão de frações de milímetro a pouco mais de três milímetros, conforme a pálpebra tratada, o desenho do estudo, o momento da medida (repouso ou sorriso) e se os pés de galinha entram junto. É efeito pequeno, temporário e de uso fora de bula — nas bulas americanas, a área estética do Dysport é a glabela; Botox Cosmetic e Xeomin somam testa e pés de galinha, e o Botox Cosmetic também o platisma. Bem indicado, é a diferença entre um olhar cansado e um olhar descansado.

A lógica muscular: abrir o olho tirando força de quem fecha

A fenda palpebral é o resultado de um equilíbrio. De um lado, o levantador da pálpebra superior, que sobe a margem de cima. Do outro, o orbicular do olho, esfíncter em três porções concêntricas: a orbital, sobre o osso; a pré-septal, sobre o septo; e a pré-tarsal, a faixa estreita apoiada sobre o tarso, junto aos cílios, responsável pelo piscar e pelo tônus de repouso da margem.

A toxina entra nesse equilíbrio pelo lado do esfíncter. Na pálpebra inferior, menos tônus pré-tarsal deixa a margem assentar um pouco mais baixo e desfaz o "rolete" que sobe abaixo dos cílios no sorriso — e o olho parece mais aberto sobretudo quando a pessoa sorri. Na pálpebra superior, a porção pré-tarsal funciona como antagonista do levantador; reduzir a força dela permite que a margem fique um pouco mais alta em repouso. São dois mecanismos diferentes, com candidatos diferentes, e a página trata cada um separadamente.

Corte sagital da pálpebra superior com o levantador chegando ao tarso — Dr. Thiago Perfeito
Corte sagital da pálpebra superior e da órbita: o levantador da pálpebra corre sob o teto da órbita até a aponeurose no tarso, em destaque; globo, gordura orbital e orbicular em cinza. A porção pré-tarsal do orbicular fica na frente do tarso, logo abaixo da pele — é ela que se opõe ao levantador no fechamento da pálpebra.

A distribuição dos nervos dentro do músculo ajuda a entender por que pequenas variações de ponto mudam o resultado. Çiçek e colaboradores (2024, Ann Anat) aplicaram a técnica de Sihler em 12 músculos orbiculares de cadáver e encontraram as entradas nervosas concentradas no quadrante súpero-lateral acima da fenda palpebral e, abaixo dela, numa faixa em torno da posição de 6 horas. O trabalho foi desenhado para o blefaroespasmo, mas a leitura serve ao injetor estético: o orbicular não responde de forma homogênea, e a dose pequena colocada no lugar certo rende mais que a dose maior espalhada.

Pálpebra inferior: o olho que abre no sorriso

O trabalho de origem é de Flynn e colaboradores (2001, Dermatol Surg), feito com Botox em 15 mulheres. Numa pálpebra inferior, 2 U foram colocadas logo abaixo da pele, na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar; no outro lado, a mesma pálpebra recebeu as 2 U somadas a 12 U na região orbital lateral. A abertura palpebral aumentou em 40% das pacientes tratadas só na pálpebra e em 86% das que receberam pálpebra e pés de galinha. Em milímetros, a pálpebra isolada ganhou em média 0,5 mm em repouso e 1,3 mm no sorriso máximo; a combinação chegou a 1,8 mm em repouso e 2,9 mm no sorriso. O efeito foi mais visível no olho asiático, em que a fenda é naturalmente mais estreita.

Três conclusões práticas saem desses números. A primeira: o ganho aparece principalmente no sorriso, que é quando o orbicular inferior se contrai e estreita o olho. A segunda: pálpebra e pés de galinha somam, porque são porções do mesmo esfíncter. A terceira: o paciente que se queixa de "olho pequeno quando sorrio" é o candidato natural; quem se queixa de olho pequeno em repouso precisa de outro raciocínio, que começa na pálpebra superior e na sobrancelha.

A seleção para a pálpebra inferior — tônus pelo teste do estalo, olho seco, bolsas, blefaroplastia prévia — e as complicações dessa região estão desenvolvidas em botox na pálpebra inferior: quando é seguro. Aqui fica a regra de bolso: o olho só "abre" bem quando a pálpebra que vai perder tônus tinha tônus de sobra.

Pálpebra superior: a toxina pré-tarsal na ptose leve

O uso mais recente da mesma lógica é na pálpebra de cima, para a queda leve a moderada em quem não quer ou ainda não precisa de cirurgia. Três estudos medem esse efeito.

Lidos juntos, os três trabalhos desenham o tamanho real da intervenção. Nos dois estudos com MRD1 medida em fotos, o ganho médio ficou abaixo de um milímetro e já não se distinguia do início na 24ª semana. O ganho maior de Lu se refere a outra medida (altura da fenda palpebral) e a outra população (fraqueza do levantador), e por isso não se soma aos dois primeiros. É pouco para corrigir uma ptose que cobre a pupila, e é bastante para quem tem uma pálpebra discretamente mais baixa que a outra e passa o dia erguendo a sobrancelha daquele lado.

O achado contralateral de Ludwig merece atenção no exame. Quando um olho sobe, o outro pode descer um pouco — comportamento compatível com a lei de Hering, em que os dois levantadores recebem o mesmo comando central. Em ptose unilateral, examine os dois olhos antes e na revisão, e avise a paciente de que o lado "bom" também pode mudar.

A testa que está segurando a pálpebra

Na queixa de olho cansado, a anamnese muscular começa acima da sobrancelha. Muitas pacientes com pálpebra superior baixa compensam com o frontal: erguem a sobrancelha o dia inteiro, e as rugas horizontais da testa são o preço dessa compensação. D'Emilio e colaboradores registraram exatamente isso — depois da toxina pré-tarsal, as pacientes pararam de recrutar a testa para abrir o olho.

A consequência para o planejamento é direta. Tratar a testa de quem usa o frontal para abrir o olho tira a compensação e expõe a pálpebra; a paciente sai com a testa lisa e o olhar mais pesado do que entrou. Antes de marcar a testa, peça que ela feche os olhos, relaxe a fronte e abra devagar: se a pálpebra desce quando a testa relaxa, a ordem do plano muda. As estratégias de dose e de altura dos pontos frontais estão em como aplicar botox na testa sem baixar a sobrancelha, e o roteiro de expressões para esse exame em avaliação dinâmica antes do botox.

Músculo frontal em destaque sobre a testa com corrugador, prócero e orbicular do olho em cinza — Dr. Thiago Perfeito
Músculo frontal em destaque, com corrugador, prócero e orbicular do olho em cinza. O frontal é o único elevador da sobrancelha; na paciente com pálpebra superior baixa, ele costuma trabalhar em tempo integral para manter o olho aberto.

O mesmo raciocínio vale para a cauda da sobrancelha. Quando a queixa é o terço lateral do olho "fechando", a elevação da cauda pelo relaxamento do orbicular lateral soma ao efeito pré-tarsal; a técnica está em botox na sobrancelha: elevação química do supercílio lateral.

Quem é candidato e quem precisa de outro caminho

Bons candidatos:

Precisa de outro caminho:

Na paciente entre 45 e 60 anos, a queixa de olhar cansado reúne com frequência três componentes: pálpebra superior um pouco mais baixa, testa compensando e sobrancelha lateral que desce. A toxina pré-tarsal resolve uma parte desse quadro e só funciona bem quando as outras duas foram examinadas no mesmo dia.

Técnica: o que muda em relação ao resto do terço superior

  1. Medir antes. Foto frontal em repouso e em sorriso máximo, com a testa relaxada, e registro da MRD1 e da altura da fenda de cada lado. Sem medida de base, ganho de meio milímetro não se demonstra na revisão.
  2. Superficial. A porção pré-tarsal fica logo abaixo da pele mais fina do rosto. A aplicação é uma pápula rasa; profundidade não aumenta o efeito e aproxima a toxina do septo e das estruturas atrás dele. D'Emilio usou agulha de 4 mm, de 32 a 33 G.
  3. Agulha fina, sem aspirar. Na conduta que a formação do Dr. Thiago ensina para toda toxina, a agulha é de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspiração e sem microcânula — o controle está no ponto e no plano.
  4. Dose mínima e titulação. Na pálpebra inferior, a referência de estudo é a de Flynn: 2 U de Botox no ponto médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar. Na pálpebra superior, comece pela menor dose que você usaria em qualquer ponto do orbicular e corrija na revisão; aqui o erro por excesso custa mais que o erro por falta.
  5. Marca e equivalência. Os números de Flynn são de Botox. Com outro produto, valem duas informações ao mesmo tempo: cada bula afirma que as suas unidades não se trocam pelas de outra toxina; e a formação do Dr. Thiago ensina partir de uma equivalência de referência — 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport e 1 U de Botox para 1 U de Xeomin —, começando na dose equivalente ou um pouco abaixo e acertando pela resposta. Numa pálpebra, fique sempre no lado de baixo.
  6. Combinar com intenção. Pés de galinha somam com a pálpebra inferior; cauda da sobrancelha soma com a abertura lateral; testa pode tirar o que a pálpebra superior ganhou. Cada ponto entra no plano porque ajuda a abrir o olho, não por hábito.
Junção neuromuscular com vesículas de acetilcolina e o bloqueio da liberação em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Corte da junção neuromuscular com as vesículas e o bloqueio da liberação do sinal em destaque. É o mesmo mecanismo em qualquer músculo; o que muda na pálpebra é que a faixa pré-tarsal é fina e funcionalmente vital, e por isso a dose que basta é pequena.

Revisão, duração e o que dizer à paciente

A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias depois da aplicação, e na pálpebra é a consulta que decide o plano seguinte: repetir a foto padronizada, medir a MRD1 dos dois lados, perguntar por olho seco, ardência ou dificuldade de fechar o olho à noite. Se a pálpebra respondeu e o olho continua bem lubrificado, a área fica no plano; se houve qualquer sinal de exposição, ela sai.

Nos dois estudos com acompanhamento até a 24ª semana, a pálpebra superior já estava de volta à posição inicial nesse ponto. Na rotina do Dr. Thiago, o efeito da toxina na face dura de 3 a 4 meses, e as bulas americanas pedem no mínimo 3 meses entre aplicações. A conversa com a paciente segue a mesma régua: o olho fica um pouco mais aberto, por alguns meses, e a manutenção acompanha a do resto do terço superior.

Os sinais de excesso são os do próprio esfíncter enfraquecido demais: dificuldade de fechar completamente o olho, olho seco, lacrimejamento reflexo e, na pálpebra inferior, esclera aparente. Todos acompanham a duração da toxina, e a conduta é proteger a superfície ocular com lubrificação e encaminhar ao oftalmologista diante de dor ou de baixa de visão — nunca aplicar mais toxina para "equilibrar".

Onde isso se treina

Abrir o olho com toxina é uma decisão de exame mais do que de seringa: ler a MRD1, pegar a testa compensando, testar o tônus da pálpebra inferior e escolher qual dos três componentes do olhar cansado tratar primeiro. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), Medicina Estética e Regenerativa, esse raciocínio chega antes em pré-work gravado e obrigatório; no sábado presencial em Brasília, a parte teórica é demonstração comentada e a parte prática é execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, com turma de até 8 médicos. A toxina do terço superior está no módulo de Toxina e Preenchimento; os demais módulos, em /cursos/.

Transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica. As marcas aparecem porque os estudos e as bulas citados se referem a produtos específicos.

Perguntas frequentes

Botox abre o olho?

Abre um pouco, de forma indireta. A toxina relaxa a porção pré-tarsal do orbicular, o músculo que fecha a pálpebra. Na pálpebra inferior, a margem assenta mais baixo e o olho estreita menos no sorriso; na superior, o levantador trabalha contra menos resistência. Os estudos medem ganhos de frações de milímetro a pouco mais de três milímetros, conforme a pálpebra, o desenho do estudo e o momento da medida.

Qual a diferença entre aplicar na pálpebra de baixo e na de cima?

Na inferior, o objetivo é o olho que fecha no sorriso; o efeito soma com os pés de galinha (Flynn, 2001). Na superior, o objetivo é a pálpebra levemente baixa: relaxar o antagonista do levantador eleva a MRD1 em fração de milímetro (Ludwig, 2022; D'Emilio, 2025). São candidatos e riscos diferentes.

Quantas unidades se usam no orbicular pré-tarsal?

Na pálpebra inferior, a referência de estudo é 2 U de Botox por pálpebra, no ponto médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar (Flynn, 2001). Na pálpebra superior, a regra é começar pela menor dose e titular na revisão. Com outra marca, as bulas declaram que as unidades não são intercambiáveis, e a formação do Dr. Thiago ensina a equivalência de referência (Botox:Dysport 1:2,5; Botox:Xeomin 1:1) com ajuste pela resposta.

Toxina pré-tarsal melhora a ptose palpebral?

Melhora a ptose leve, por alguns meses, em paciente selecionado. Nos estudos com MRD1 medida, o ganho médio foi de 0,5 a 0,7 mm e a pálpebra voltou à posição inicial até a 24ª semana. Ptose que cobre a pupila, de instalação recente ou que piora ao longo do dia pede investigação e avaliação oftalmológica, não toxina.

Por que a pálpebra cai quando trato a testa?

Porque muitas pacientes usam o frontal para compensar uma pálpebra superior baixa. Relaxar a testa tira essa compensação e expõe a pálpebra. Teste antes: olhos fechados, testa relaxada, abrir devagar — se a pálpebra desce, a testa entra com menos dose e pontos mais altos, ou o plano começa pela pálpebra.

Quanto tempo dura o efeito de olho mais aberto?

O efeito acompanha o da toxina: na rotina do Dr. Thiago, 3 a 4 meses na face. Nos estudos da pálpebra superior, a posição já tinha voltado ao início na 24ª semana. A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias, e as bulas americanas pedem no mínimo 3 meses entre aplicações.

Quem não deve receber toxina no orbicular pré-tarsal?

Quem tem olho seco sintomático, fechamento incompleto da pálpebra, doença da junção neuromuscular, pálpebra inferior frouxa ou blefaroplastia inferior prévia (quando o alvo é a pálpebra de baixo), e quem tem excesso de pele da pálpebra superior apoiado nos cílios — nesse caso o problema é a pele, não o músculo.

Referências

  1. Flynn TC, Carruthers JA, Carruthers JA. Botulinum-A toxin treatment of the lower eyelid improves infraorbital rhytides and widens the eye. Dermatol Surg. 2001;27(8):703-708. · PMID 11493292 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2001.01038.x
  2. Ludwig GD, Osaki MH, Gameiro GR, Hentona Osaki T. Is It Worth Using Botulinum Toxin Injections for the Management of Mild to Moderate Blepharoptosis? Aesthet Surg J. 2022;42(12):1377-1381. · PMID 35657738 · DOI 10.1093/asj/sjac139
  3. D'Emilio R, Barone M, De Bernardis R, Salzillo R, Rosati G, Caputo MG, Fundarò SP, Persichetti P. Botulinum Toxin: A Non-surgical Approach for Non-myasthenic Mild-to-Moderate Blepharoptosis Treatment. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(10):2799-2808. · PMID 39663220 · DOI 10.1007/s00266-024-04584-z
  4. Lu S, Wei Q, Ma J, Zhuang J, Su X, Lu Y, Zhang Z, Liang Y, Hu J. Orbicularis Oculi Toxin Injection for Treating Levator Palpebrae Superioris Weakness: Clinical Effect and Safety in a Cohort Study. Aesthet Surg J. 2026 (online ahead of print). · PMID 42028749 · DOI 10.1093/asj/sjag076
  5. Çiçek F, Çınaroğlu S, Ceranoğlu FG, Küçük E, Zor KR. Evaluation of nerve innervation distribution of orbicularis oculi muscle for botulinum neurotoxin application using Sihler's method. Ann Anat. 2024;251:152165. · PMID 37804929 · DOI 10.1016/j.aanat.2023.152165
  6. BOTOX® Cosmetic, DYSPORT® e XEOMIN® — Prescribing Information (EUA): áreas estéticas aprovadas, advertência sobre doença neuromuscular e intervalo mínimo entre aplicações.
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
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