Dor desproporcional após preenchimento: o que investigar
Complicações e segurança

Dor desproporcional após preenchimento: o que investigar

A paciente diz que está doendo muito, e a pergunta do médico não é quanto, mas por quê. Cinco mecanismos diferentes produzem essa queixa, e só um deles não pode esperar.

Dor desproporcional depois de um preenchimento é a dor que não combina com o que foi feito: mais forte do que a técnica e o volume justificam, que cresce em vez de ceder, que aparece longe do ponto injetado ou que muda de caráter, virando queimação, latejamento ou choque. Cinco causas explicam a maior parte dos casos: oclusão arterial, hematoma, infecção, compressão de vaso ou de tecido pelo produto e lesão ou irritação de nervo. A investigação tem uma ordem fixa: primeiro afastar a oclusão, porque é a única das cinco que se mede em minutos; depois separar as outras pelo exame, pela linha do tempo e, sempre que possível, pelo ultrassom com Doppler. Dor no olho ou alteração visual sai dessa lista e vira emergência própria.

O que torna uma dor "desproporcional"

Toda injeção dói um pouco, e o anestésico do gel ou do bloqueio muda a percepção durante a sessão. O que pede investigação é o desvio do padrão esperado, observado em quatro eixos:

O contrário também importa: dor desproporcional é motivo para investigar, mas a falta de dor não afasta a oclusão. No levantamento de Goodman e colaboradores (2016, Aesthetic Plast Surg) com injetores que atuam como formadores, quase metade dos eventos intravasculares teve dor leve ou nenhuma; o lugar da dor entre os outros sinais de oclusão está em sinais de alerta de oclusão.

Primeira hipótese, sempre: oclusão arterial

A oclusão vem primeiro na lista não por ser a mais comum, mas porque o tecido tem prazo. A checagem é rápida: cor da pele em todo o território do vaso, enchimento capilar comparado com o lado oposto e, no nariz, glabela e fronte, perguntas diretas sobre a visão. Qualquer achado positivo leva ao protocolo, descrito em oclusão vascular por ácido hialurônico, sem esperar a definição das outras hipóteses.

O ponto delicado é que a oclusão pode vir acompanhada de outra causa de dor e se esconder atrás dela. Rasheed e Itani (2026, Cureus) relataram uma paciente com preenchimento no sulco nasogeniano e no lábio superior com inchaço, branqueamento e um hematoma exagerado e atípico. O tratamento inicial no serviço de origem, com hialuronidase em dose alta e lidocaína, foi insuficiente, e o hematoma que se formou depois dele dificultou avaliar se a isquemia progredia. O ultrassom confirmou oclusão das artérias angular e labial superior esquerdas e guiou a enzima para dentro dos depósitos de produto, com retorno imediato do fluxo e melhora progressiva.

Ultrassom com Doppler mostrando oclusão arterial após preenchimento mascarada por hematoma — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom antes do tratamento, no caso de oclusão mascarada por hematoma. No painel A, região nasogeniana: fluxo reduzido e segmentado na artéria angular (cabeça de seta), com material de preenchimento heterogêneo ao lado (seta), sugerindo compressão extrínseca. No painel B, lábio superior: ausência de fluxo na artéria labial superior e nas arteríolas (cabeça de seta) e depósitos de gel em faixa no subcutâneo (seta). Recorte dos painéis A e B da figura original; o painel C, da região bucal, foi omitido. Figure 2 de Rasheed S et al., Cureus 2026 (PMID 42182558), reproduzida sob licença CC BY.

Hematoma: dor de tensão, no lugar da agulha

O hematoma dói por distensão. A dor fica centrada no ponto ou no trajeto da agulha, a área é abaulada e tensa, e a cor arroxeada não desenha a rede de um território arterial. A pele em volta enche normalmente quando comprimida. Na maioria das vezes, a conduta é compressão e acompanhamento. O caso de Rasheed e Itani mostra a exceção que importa: hematoma grande, com branqueamento na vizinhança ou dor que não cede, pede que se procure a oclusão por trás dele, de preferência com Doppler, e não que se atribua tudo ao sangue.

Compressão: o produto apertando o vaso ou o tecido

A compressão é o mecanismo mais questionado da lista. A revisão de Hong e colaboradores (2024, Diagnostics) separa as complicações vasculares em dois grupos: compressão extravascular, quando o preenchedor comprime vasos vizinhos e causa isquemia, e êmbolo intravascular, quando o produto entra no vaso.

A favor de que a compressão produz efeito clínico, Lima e colaboradores (2019, J Cosmet Dermatol), do Hospital Universitário de Brasília, documentaram com ultrassom de alta frequência um vaso comprimido pelo preenchedor, com palidez perioral. Depois da hialuronidase, o ultrassom mostrou aumento da luz do vaso, e a hipoperfusão regrediu. Os autores registram que a compressão costuma ser questionada justamente pela rica rede de anastomoses da face, e que nesse caso ela causou uma área de baixo fluxo.

No sentido oposto, Chang e colaboradores (2016, Ophthalmic Plast Reconstr Surg), num modelo em orelha de camundongo, não conseguiram ocluir vasos com grandes bolus de gel colocados ao lado dos feixes vasculares; mesmo a ligadura de um feixe com fio preservou a perfusão capilar a jusante. Já a injeção do gel dentro da artéria produziu grandes áreas sem perfusão capilar. Para os autores, o êmbolo intra-arterial é a causa mais provável da necrose vista na clínica. As duas observações convivem, cada uma com o peso do seu desenho: Chang trabalhou num modelo animal; Lima descreveu um caso. No camundongo, a compressão externa não bastou para tirar a perfusão capilar; no caso clínico, ela produziu uma área de baixo fluxo visível na pele. Para quem examina, a consequência prática não muda: volume grande em espaço pequeno, com pele tensa ou palidez em faixa, pede reavaliação do depósito, e no caso de Lima a hialuronidase devolveu a luz ao vaso comprimido.

Infecção: dor que cresce com calor e vermelhidão

A infecção bacteriana aguda depois de procedimento estético não cirúrgico é considerada rara. A diretriz do grupo CMAC sobre o tema (Davies e colaboradores, 2021, J Clin Aesthet Dermatol) registra que não há dado confiável sobre a incidência e organiza a prevenção, o diagnóstico e o manejo. Na beira do leito, a infecção se reconhece pela combinação: dor que aumenta ao longo dos dias, calor, vermelhidão que se expande, endurecimento e, no abscesso, flutuação; febre ou mal-estar indicam repercussão sistêmica. O ultrassom ajuda a ver uma coleção e a orientar drenagem. O raciocínio dos quadros tardios, quando a dor e o inchaço aparecem semanas depois, está em nódulos após preenchimento e biofilme.

A infecção viral entra no mesmo grupo. No relato de Kim e colaboradores (2020, J Clin Aesthet Dermatol), a dor leve com vesículas que começou dois dias depois de uma volumização com ácido hialurônico era herpes-zóster, com Doppler normal no trajeto da artéria angular. Nesses primeiros dias, o fluxo ao Doppler ajuda a separar a reativação viral da isquemia.

Nervo: queimação, choque, formigamento

Quando a dor tem caráter neuropático, a hipótese muda de vaso para nervo. Os mecanismos possíveis são trauma direto da agulha, compressão do nervo pelo produto ou inflamação no tecido em volta.

Nervo facial e seus ramos atravessando a parótida — onde investigar dor e fraqueza após preenchimento — Dr. Thiago Perfeito
Perfil da face com o nervo facial em destaque: o tronco sai diante da orelha, atravessa a parótida e se abre nos ramos que seguem para a fronte, a pálpebra, o terço médio, o lábio e o pescoço. A sensibilidade da face é do trigêmeo, por outro caminho; o desenho ajuda a lembrar que dor, formigamento e fraqueza depois de um preenchimento têm de ser lidos no território do nervo correspondente.

No exame, a pista é a distribuição: dor ou formigamento no território de um ramo sensitivo, como o infraorbital ou o mentual, alodinia ao toque leve, pele de cor normal e enchimento capilar preservado. A anatomia dos forames está em bloqueio anestésico infraorbital e mentual.

Esquema de preenchimento labial e ultrassom do lábio com área hipoecoica e aumento de vascularização — Dr. Thiago Perfeito
Caso de dor do tipo neuralgia do trigêmeo depois de preenchimento labial. Em A, o esquema dos pontos de entrada e do plano superficial da aplicação. Em B, ultrassom do hemilábio inferior direito com pequena área hipoecoica mal definida (seta); em C, o Doppler do mesmo ponto mostra aumento de vascularização. Os autores leram o achado como reação tecidual localizada depois do tratamento, com diagnóstico diferencial entre reação inflamatória e pequeno depósito residual, sem tomá-lo como prova da origem da dor. FIGURE 1 de Calabrò RS et al., J Cosmet Dermatol 2026 (PMID 41923295), reproduzida sob licença CC BY.

As cinco causas lado a lado

CausaComo a dor costuma serO que a pele mostraEnchimento capilarO que o ultrassom procura
Oclusão arterialCrescente, às vezes distante do ponto; pode faltarPalidez, livedo, cor escura no território do vasoLentoFluxo ausente ou reduzido; depósito dentro ou junto do vaso
HematomaTensão no ponto ou no trajeto da agulhaAbaulamento arroxeado sem desenho de territórioPreservado em voltaColeção; e, se houver dúvida, fluxo nas artérias vizinhas
CompressãoSem padrão próprio descrito; pensar nela diante de volume grande para o espaçoPele tensa; pode haver palidez em faixaVariávelVaso estreitado ao lado de depósito volumoso
InfecçãoAumenta ao longo dos dias, com calorVermelhidão que se expande, endurecimento, flutuaçãoPreservadoColeção, edema de partes moles
NervoQueimação, choque, formigamento, alodiniaCor normalPreservadoRelação do depósito com o forame; afastar causa vascular

As colunas descrevem o padrão típico; os quadros se sobrepõem, como mostrou o caso do hematoma que escondia uma oclusão. Na dúvida entre uma causa vascular e qualquer outra, trata-se a vascular primeiro.

A ordem da investigação

  1. Visão e sinais neurológicos. Dor ocular, visão turva, ptose ou déficit neurológico mudam tudo: a conduta está em cegueira por preenchimento.
  2. Cor e enchimento capilar no território inteiro, comparados com o outro lado e com a foto inicial.
  3. Palpação: tensão, flutuação, temperatura, ponto mais doloroso.
  4. Sensibilidade: formigamento, dormência ou dor ao toque leve no território de um ramo nervoso.
  5. Linha do tempo: dor desde a agulha, horas depois ou dias depois; produto, volume, plano, instrumento e região, conferidos no prontuário.
  6. Ultrassom com Doppler, quando disponível: fluxo arterial, localização do gel, coleções e relação do depósito com vasos e forames. O que aprender primeiro para usar o aparelho nesse contexto está em curso de ultrassom em estética; o uso para dirigir a enzima, em hialuronidase guiada por ultrassom.
  7. Exames laboratoriais, sobretudo quando se pensa em infecção. Numa série de complicações vasculares avaliada com Doppler, termografia e laboratório, Choi e colaboradores (2023, J Cosmet Dermatol) encontraram a contagem de leucócitos entre os fatores ligados ao desfecho, ao lado do momento do início do tratamento e da aplicação de hialuronidase.

Onde esse raciocínio se treina

A dor que não combina com o procedimento costuma chegar por telefone, à noite, descrita pela paciente com palavras imprecisas. Transformar essa queixa em exame ordenado é parte do que se ensina na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa). No módulo B1 · Toxina e Preenchimento Essencial, o bloco de segurança vascular reúne mapa arterial, mecanismos de oclusão, protocolo de oclusão, comprometimento visual e hialuronidase, e o bloco de intercorrências trata das complicações que não são vasculares. A teoria chega antes, pelo pré-work gravado obrigatório. No sábado presencial em Brasília, o aluno acompanha a demonstração comentada, que é a parte teórica, e depois executa sob supervisão em paciente modelo, numa turma limitada a oito médicos.

Em síntese

Dor desproporcional é um sinal para investigar, não um diagnóstico. A ordem protege o tecido: visão primeiro, depois perfusão, depois as causas que dão tempo. Hematoma dói por tensão e pode esconder uma oclusão; compressão reduz fluxo e responde à enzima quando o produto é ácido hialurônico; infecção cresce com calor ao longo dos dias; dor de nervo queima ou dá choque sobre pele de cor normal. O ultrassom com Doppler encurta o caminho entre as hipóteses. Outros temas de segurança estão na Biblioteca.

Perguntas frequentes

O que é dor desproporcional depois de um preenchimento?

É a dor que não combina com o que foi feito: mais forte do que a técnica e o volume justificam, que aumenta em vez de diminuir, que surge longe do ponto injetado ou que tem caráter de queimação, latejamento ou choque. Ela pede investigação ordenada, começando pela oclusão arterial.

Dor forte depois do preenchimento é sempre oclusão?

Não, mas a oclusão é a primeira hipótese a afastar, porque o tecido tem prazo. Hematoma, compressão pelo produto, infecção e lesão de nervo também causam dor fora do esperado. Cor da pele e enchimento capilar no território do vaso separam a causa vascular das demais.

Dor que começa dias depois do preenchimento: o que pensar?

Infecção, reativação viral e causa neurológica sobem na lista, mas a perfusão continua sendo a primeira coisa a examinar. No relato de Kim e colaboradores (2020), a dor leve com vesículas começou dois dias depois e era herpes-zóster, com Doppler normal; no de Calabrò e Bonavita (2026), a dor neuropática começou 10 dias depois de um preenchimento labial. Cor, enchimento capilar e, quando possível, Doppler vêm antes de qualquer rótulo.

Um hematoma pode esconder uma oclusão vascular?

Pode. Rasheed e Itani (2026) relataram oclusão das artérias angular e labial superior em que um hematoma grande dificultou a avaliação; o ultrassom com Doppler confirmou a oclusão e guiou a hialuronidase. Hematoma com branqueamento na vizinhança ou dor que não cede pede busca ativa de isquemia.

O preenchedor pode causar dor de nervo?

Há relatos. Calabrò e Bonavita (2026) descreveram dor do tipo neuralgia do trigêmeo que começou 10 dias depois de preenchimento labial, com causa vascular afastada e melhora com tratamento dirigido à dor neuropática. A pista no exame é dor em queimação ou choque, formigamento e pele de cor normal no território de um ramo sensitivo.

Quando o ultrassom ajuda na dor depois do preenchimento?

Em quase todas as hipóteses. O Doppler mostra se há fluxo na artéria, onde está o gel, se existe coleção e qual a relação do depósito com vasos e forames. Ele também dirige a hialuronidase quando a causa é vascular, como descrito em hialuronidase guiada por ultrassom.

Dor no olho depois de preenchimento é o quê?

Emergência até prova em contrário. Dor ocular, visão turva, queda da pálpebra ou sinal neurológico depois de preenchimento, sobretudo em nariz, glabela e fronte, seguem a conduta descrita em cegueira por preenchimento, com retaguarda oftalmológica imediata.

Referências

  1. Goodman GJ, Roberts S, Callan P. Experience and Management of Intravascular Injection with Facial Fillers: Results of a Multinational Survey of Experienced Injectors. Aesthetic Plast Surg. 2016;40(4):549-55 · PMID 27286849 · DOI 10.1007/s00266-016-0658-1
  2. Rasheed S, Itani I. Atypical Hyaluronic Acid-Induced Vascular Occlusion Masked by a Hematoma: Ultrasound-Guided Diagnosis and Management. Cureus. 2026;18(5):e108472 · PMID 42182558 · DOI 10.7759/cureus.108472
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  4. Lima VGF, Regattieri NAT, Pompeu MF, Costa IMC. External vascular compression by hyaluronic acid filler documented with high-frequency ultrasound. J Cosmet Dermatol. 2019;18(6):1629-1631 · PMID 30838729 · DOI 10.1111/jocd.12901
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  6. Davies E, Vaghela D, Convery C, Walker L, Murray G. Guideline for the Prevention, Diagnosis, and Management of Acute Bacterial Soft Tissue Infections Following Nonsurgical Cosmetic Procedures. J Clin Aesthet Dermatol. 2021;14(9 Suppl 1):S29-S35 · PMID 34980965
  7. Kim JSTW, Dos Santos Guadanhim LR, De Barros Nunes GJ, et al. Herpes Zoster as a Differential Diagnosis for Ischemia after Facial Hyaluronic Acid Filler. J Clin Aesthet Dermatol. 2020;13(12):29-31 · PMID 33488916
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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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