Dor na aplicação de botox: tópico, gelo e vibração
Toxina botulínica

Dor na aplicação de botox: anestesia tópica, gelo e vibração

A dor da toxina é pequena, mas é ela que o paciente lembra quando pensa em voltar. Frio, vibração, anestésico tópico e o próprio diluente foram testados em ensaios — e a técnica de injeção entra na conta junto com eles.

A dor da toxina vem da punção e do líquido que entra na pele, e os estudos mostram quatro recursos que a reduzem: frio (gelo ou spray de resfriamento), vibração ou pressão perto do ponto, anestésico tópico e, em ensaios com soro fisiológico com conservante, o próprio diluente. O frio, a vibração e o tópico estão dentro de qualquer rotina. O soro com conservante reduziu a dor nos ensaios, mas as bulas americanas de Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin declaram soro sem conservante — o médico precisa conhecer os dois lados antes de decidir.

Abaixo, o que cada recurso entregou nos ensaios, como montar a rotina e o que fica dentro da técnica de injeção, que pesa tanto quanto o anestésico.

De onde vem a dor

Na toxina facial, a agulha atravessa epiderme e derme, onde estão as terminações sensitivas, e deposita um pequeno volume no músculo ou logo abaixo da pele. Somam-se o número de punções, a quantidade injetada e a sensibilidade de cada paciente. O ensaio de Hua e colaboradores (2025, Aesthet Surg J), em 216 pacientes tratados no masseter, mostrou isso na regressão: mais pontos e doses maiores aumentaram a dor, ter recebido injeção antes também, e a seringa de 2 mL doeu menos do que a de 1 mL.

Corte da pele com epiderme, derme em destaque, gordura e músculo, camadas atravessadas pela agulha da toxina — Dr. Thiago Perfeito
A agulha da toxina atravessa epiderme e derme (em destaque), onde ficam as terminações sensitivas, antes de chegar ao músculo. Frio, vibração e anestésico tópico agem justamente nessas camadas superficiais.

A revisão sistemática de Van Hout e colaboradores (2025, J Plast Reconstr Aesthet Surg) reuniu 11 ensaios randomizados e 3 estudos controlados, com 472 pacientes, sobre analgesia antes da toxina facial. Gel ou spray anestésico, estímulo vibratório e resfriamento reduziram a dor de forma significativa em relação a nenhuma analgesia ou placebo, com efeito agrupado de −1,20 ponto na escala visual analógica. É a base para escolher entre eles conforme o paciente e o consultório.

Frio: gelo e spray de resfriamento

O frio é o recurso mais barato da lista, e há ensaios na face:

Na prática, o gelo vai envolto em gaze ou plástico, ponto a ponto ou na área inteira logo antes da punção, e a pele é seca antes da antissepsia. A marcação com lápis é feita antes do frio, para não se perder na umidade.

Vibração e pressão

A vibração ou a pressão aplicadas perto do ponto competem com o sinal doloroso na medula — é a teoria do portão da dor. Três ensaios recentes na toxina estética:

Gráfico de redução da dor com dispositivo mecânico de pressão versus creme anestésico na toxina do terço superior — Dr. Thiago Perfeito
Diferença de dor (escala visual analógica do lado do creme menos a do lado do dispositivo), separando pacientes com dor baixa (abaixo de 4) e dor alta (4 ou mais) no lado do creme: no grupo de dor alta o dispositivo levou vantagem clara; no de dor baixa, a mediana ficou levemente a favor do creme. Fig. 4 de Güvercin E et al., Aesthetic Plast Surg 2026 (PMID 42128935), reproduzida sob licença CC BY.

A leitura de conjunto: a vibração e a pressão funcionam de imediato, não exigem espera nem medicamento e cabem bem no paciente ansioso. Entre vibração e tópico, os resultados variaram de um ensaio para outro, e a preferência do paciente entra na escolha.

Anestésico tópico

O creme anestésico é o recurso que o paciente costuma pedir. Nos ensaios acima, ele reduziu a dor em relação ao placebo e, no estudo de De Carvalho, foi o preferido para o futuro. Três cuidados de rotina:

No frio, o ensaio de Irkoren mostrou o spray de resfriamento à frente do EMLA na testa; com o dispositivo mecânico de Güvercin, o creme também ficou atrás. O tópico, portanto, é uma opção entre várias, não a única.

Soro com conservante: o que os ensaios mostram e o que a bula pede

O soro fisiológico bacteriostático é o cloreto de sódio a 0,9% com álcool benzílico a 0,9% como conservante. Na revisão de Hunt e Malhotra (2022, Eye), cinco estudos relataram dor significativamente menor na toxina periocular e facial reconstituída com ele, em comparação com o soro sem conservante. Dois desses ensaios, em hemiface, dão a medida:

Seringa injetando diluente em frasco de toxina botulínica liofilizada, etapa em que se escolhe o tipo de soro — Dr. Thiago Perfeito
O tipo de diluente se decide na reconstituição. As bulas americanas de Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin indicam somente cloreto de sódio a 0,9% sem conservante; os ensaios com soro com conservante testaram uma alternativa fora dessa instrução.

O outro lado é a bula. As três bulas americanas restringem o diluente: a do Botox Cosmetic e a do Dysport trazem, na tabela de diluição, soro fisiológico a 0,9% sem conservante seguido de "somente" (a do Dysport repete a instrução no preparo), e a do Xeomin apresenta o frasco para reconstituição somente com soro a 0,9% sem conservante. Reconstituir com soro com conservante, portanto, é usar o produto fora do que o fabricante declara — uma decisão do médico, que precisa saber que o dado de menor dor vem desses ensaios e que a instrução oficial é outra. Confira também a bula brasileira do produto em uso. As contas de concentração estão em diluição do Botox, diluição do Dysport e diluição do Xeomin.

A técnica também é analgesia

O ensaio de Chorney e colaboradores (2019, Ear Nose Throat J) testou vibração, gelo e nenhuma intervenção em 88 injeções de glabela em 22 pacientes. As médias na escala visual analógica ficaram próximas — 26,5 com vibração, 24,4 com gelo e 29,4 sem nada — e a diferença não foi significativa. A conclusão dos autores é a lição para o iniciante: na glabela, a técnica consistente pesa mais do que o acessório. O que entra nela:

Como montar a rotina

Uma sequência que cabe em qualquer consultório e respeita os ensaios:

  1. Pergunte como o paciente lida com agulha e se a última aplicação doeu. No estudo de Güvercin, quem sentia mais dor foi quem mais ganhou com o recurso extra.
  2. Marque os pontos com o paciente sentado e em movimento — se for usar creme, depois de removê-lo.
  3. Escolha o recurso pela área e pelo paciente: gelo ou spray de resfriamento para quem aceita o frio; vibração ou pressão para o ansioso e para áreas com muitos pontos, como o masseter; tópico para quem prefere e tem tempo de espera.
  4. Combine, se precisar: frio antes e vibração durante, por exemplo, não se excluem.
  5. Registre na ficha o recurso usado e a dor relatada, para repetir o que funcionou.

Na paciente madura que já fez toxina outras vezes, a pergunta sobre a última sessão orienta o preparo: ela costuma saber qual área incomodou mais. No ensaio de Hua, ter recebido injeção antes se associou a mais dor — motivo para não pular o preparo justamente em quem já conhece o procedimento.

Onde isso se pratica

No módulo de toxina e preenchimento (B1) da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a anestesia não é aula à parte: entra dentro de cada técnica. O formato é um pré-work gravado obrigatório seguido de um sábado na INTI, em Brasília: a parte teórica é a demonstração comentada, e na parte prática o grupo, de até oito médicos, injeta no paciente modelo sob supervisão. Os demais módulos estão em Cursos. Nenhum fabricante de toxina mantém relação comercial com o Dr. Thiago.

Síntese

Frio, vibração e pressão e anestésico tópico reduzem a dor da toxina nos ensaios, e a escolha entre eles segue o paciente e a área. O soro com conservante doeu menos em dois ensaios de hemiface, mas as bulas americanas declaram soro sem conservante. E a técnica — agulha fina, poucas punções, volume pequeno, aplicação sem pressa — é a analgesia que acompanha todas as outras. Mais textos de rotina na Biblioteca.

Perguntas frequentes

Aplicação de botox dói?

Dói pouco, na maioria dos pacientes, e há recursos que reduzem a dor. Na revisão de Van Hout e colaboradores (2025), gel ou spray anestésico, vibração e resfriamento reduziram a dor em relação a nenhuma analgesia.

Gelo antes do botox funciona?

Funcionou nos pés de galinha: com 5 minutos de gelo antes, a dor média caiu para 1,1 contra 5,9 do lado sem gelo (Sarifakioglu, 2004). Na glabela, um ensaio não mostrou diferença significativa entre gelo, vibração e nada.

Vibração altera o efeito da toxina?

No ensaio de Hua e colaboradores (2025), no masseter, não: a duração do efeito não mudou e, em cadáver, a vibração não alterou o raio de difusão nem a profundidade da injeção.

Anestésico tópico ou vibração: qual escolher?

Os dois reduziram a dor contra placebo. Frente a frente, um ensaio de 2026 favoreceu o tópico e as pacientes o recomendaram mais; outro favoreceu um dispositivo mecânico de pressão sobre o creme. A escolha segue o paciente e a área.

Posso reconstituir a toxina com soro com conservante para doer menos?

Os ensaios mostraram menos dor, mas as bulas americanas pedem soro sem conservante. Alam (2002) e Allen (2012) relataram dor 54% e 60% menor sem diferença de efeito; usar soro com conservante é sair da instrução do fabricante, decisão do médico.

A agulha mais fina dói menos?

Tende a ajudar quem sente mais dor. Os ensaios de calibre estão reunidos na página de agulha e seringa; na conduta do Dr. Thiago, a toxina é aplicada com 30 a 32 G, em microbolus.

Referências

  1. Van Hout G, Vissers G, Tondu T, Thiessen F, Verhoeven V. Impact of topical analgesia on injection pain perception in facial botulinum toxin injections: A systematic review and meta-analysis. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2025;110:130-143 · PMID 41043339 · DOI 10.1016/j.bjps.2025.08.024
  2. Sarifakioglu N, Sarifakioglu E. Evaluating the effects of ice application on the pain felt during botulinum toxin type-a injections: a prospective, randomized, single-blind controlled trial. Ann Plast Surg. 2004;53(6):543-546 · PMID 15602250 · DOI 10.1097/01.sap.0000139563.51598.75
  3. Irkoren S, Ozkan HS, Karaca H. A Clinical Comparison of EMLA Cream and Ethyl Chloride Spray Application for Pain Relief of Forehead Botulinum Toxin Injection. Ann Plast Surg. 2015;75(3):272-274 · PMID 25536197 · DOI 10.1097/SAP.0000000000000121
  4. Hua T, Li H, Liang C, et al. Is Vibration Anesthesia Effective and Safe for Pain Reduction in Botulinum Toxin Injection? A Randomized Split-Face Controlled Trial and Cadaver Experiment. Aesthet Surg J. 2025;45(4):NP113-NP118 · PMID 39545448 · DOI 10.1093/asj/sjae231
  5. de Carvalho DC, Rodrigues V, da Fonseca Josino FB, Soares Diniz R, Machado Gonçalves L. Comparing patient satisfaction and pain control between vibration and topical anesthesia during botulinum toxin A injections: a randomized, double-blind, split-face clinical trial. J Cosmet Laser Ther. 2026;28(1-5):21-28 · PMID 41930421 · DOI 10.1080/14764172.2026.2652488
  6. Güvercin E, Bahadırlı N, Tatar BE. Enhancing Patient Comfort in Aesthetic BoNT-A Injections: Mechanical Versus Topical Analgesia. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(15):6218-6223 · PMID 42128935 · DOI 10.1007/s00266-026-05884-2
  7. Alam M, Dover JS, Arndt KA. Pain associated with injection of botulinum A exotoxin reconstituted using isotonic sodium chloride with and without preservative: a double-blind, randomized controlled trial. Arch Dermatol. 2002;138(4):510-514 · PMID 11939813 · DOI 10.1001/archderm.138.4.510
  8. Allen SB, Goldenberg NA. Pain difference associated with injection of abobotulinumtoxinA reconstituted with preserved saline and preservative-free saline: a prospective, randomized, side-by-side, double-blind study. Dermatol Surg. 2012;38(6):867-870 · PMID 22268727 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2011.02284.x
  9. Hunt SV, Malhotra R. Bacteriostatic preserved saline for pain-free periocular injections: review. Eye (Lond). 2022;36(8):1546-1552 · PMID 35017698 · DOI 10.1038/s41433-021-01925-z
  10. Chorney SR, Villwock JA, Suryadevara AC. Vibration Versus Ice to Reduce Cosmetic Botulinum Toxin Injection Pain-A Randomized Controlled Trial. Ear Nose Throat J. 2019;98(6):351-355 · PMID 31072196 · DOI 10.1177/0145561319839839
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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