Dysport ou Xeomin: o que muda na prática do consultório
Toxina botulínica

Dysport ou Xeomin: o que muda na prática do consultório

Na bancada, Dysport e Xeomin parecem dois frascos de pó branco. Na rotina, um mora na geladeira e o outro não precisa dela antes de abrir; um tem duas reconstituições licenciadas e o outro uma tabela inteira; e a troca entre eles exige uma conta que as bulas não fazem por você. Esta página percorre essas diferenças na ordem em que elas aparecem no consultório.

Dysport e Xeomin agem no mesmo alvo, mas chegam ao consultório de jeitos diferentes: um vem como complexo toxina-hemaglutinina medido em unidades Speywood, o outro como neurotoxina de 150 kDa isenta de complexos proteicos, medida em unidades próprias. Para quem injeta, a diferença aparece em quatro momentos da rotina: onde o frasco fica guardado antes de abrir, quanto soro entra nele, quanto volume vai a cada ponto e como se faz a troca de um para o outro sem errar a dose. É sobre esses quatro momentos que esta página trata.

Duas fichas técnicas lado a lado

As duas são toxina botulínica tipo A. O que muda é o que vem dentro do frasco e quem responde por ele:

ItemDysportXeomin
Princípio ativoabobotulinumtoxinA — complexo toxina-hemaglutinina tipo AincobotulinumtoxinA — toxina de 150 kDa isenta de complexos proteicos
Excipientes (bula brasileira)albumina humana 20% e lactosesacarose e albumina humana
FabricanteIpsen (Reino Unido); comercializado no Brasil pela GaldermaMerz (Alemanha)
Unidadeunidade Speywood, específica do produtounidade própria, específica do produto
Indicação estética no rótulo americanosó linhas glabelaresglabela, fronte e linhas cantais laterais

A última linha costuma passar despercebida e tem consequência prática. Nos Estados Unidos, a bula do Dysport descreve dose estética apenas para as linhas glabelares; o Xeomin tem dose declarada para o terço superior inteiro, com teto de 64 U quando glabela, fronte e pés de galinha são tratados no mesmo dia. Fora do rótulo, a decisão de dose é técnica e a responsabilidade é de quem aplica.

Antes de abrir: geladeira ou armário

A diferença de logística mais concreta entre os dois está no frasco fechado. Uma revisão de 2026 sobre as preparações terapêuticas de toxina (Bigalke, Frevert e Dressler, J Neural Transm, com coautor ligado à Merz) resume que a condição de guarda habitual das toxinas é de 2 a 8 °C, e que incobotulinumtoxinA e daxibotulinumtoxinA são as que admitem temperatura ambiente. Prager (2013, Clin Pharmacol) já descrevia o Xeomin como produto que dispensa cadeia fria e mantém estabilidade sem refrigeração.

Na prática do consultório, isso muda três coisas:

A faixa exata de temperatura e o prazo de validade são os da bula brasileira vigente de cada produto, conferidos no frasco que está na sua mão. Depois de reconstituídos, os dois passam a ter relógio curto: a bula americana do Xeomin fala em uso em até 24 horas, e o prazo do Dysport reconstituído está descrito na página de diluição do Dysport.

Reconstituição de toxina botulínica — diluente escorrendo pela parede do frasco — Dr. Thiago Perfeito
Seringa depositando o diluente pela parede interna do frasco, sobre o pó liofilizado. Dysport e Xeomin seguem esse mesmo gesto; o que muda entre eles é o volume de soro e a concentração que resulta.

Quanto soro entra em cada frasco

Pelas bulas americanas, as duas reconstituições têm lógica diferente:

O detalhe que importa é o volume de cada ponto. Na glabela, a bula americana do Dysport pede 50 U em cinco pontos de 10 U, cada um com 0,08 mL ou 0,05 mL conforme a diluição escolhida; a do Xeomin pede 20 U em cinco pontos de 4 U, que a 4 U por 0,1 mL ocupam 0,1 mL cada. Cada bula escreve a dose na própria unidade, e nenhuma das duas autoriza comparar uma com a outra. Quem troca de produto e mantém o “tamanho de gota” da marca anterior muda a dose sem perceber. A conta completa de cada frasco está nas páginas de diluição do Xeomin e de diluição do Dysport.

Halo de efeito: o que os estudos mediram

O argumento de corredor costuma ser “o Dysport espalha mais”. Dois trabalhos ajudam a pôr número nessa conversa, cada um com seu limite.

Da Costa e colaboradores (2019, Aesthet Surg J) injetaram cinco toxinas comerciais no dorso de 25 voluntárias, em cinco doses diferentes, com os produtos de frasco de 100 U e de 500 U reconstituídos na proporção de 1 para 2,5. Pelo teste de iodo-amido, o halo de inibição do suor cresceu com o número de unidades em todos os produtos. Botox, Botulift, Dysport e Prosigne tiveram halos parecidos ao longo de seis meses; o Xeomin teve o menor halo, em todas as doses e momentos. O dado é de pele do tronco e de glândula sudorípara, não de músculo da face — serve como pista sobre o campo de efeito, não como mapa de pontos.

O segundo trabalho é de simulação. Rahman e colaboradores (2025, Toxicon) modelaram em computador a difusão de cinco formulações na glabela, com dose fixa em unidades e volumes de 0,025 a 0,1 mL por ponto. No modelo, a abobotulinumtoxinA teve o maior raio efetivo (1,64 cm); passar de 0,025 para 0,1 mL multiplicou por 2,2 o efeito fora do alvo; e o volume foi o fator que mais pesou no espalhamento. O volume ótimo calculado foi de 0,035 a 0,05 mL por ponto para incobotulinumtoxinA e de 0,04 a 0,045 mL para abobotulinumtoxinA. É um modelo in silico, com autores que declaram consultoria para fabricantes, e não substitui ensaio clínico. O recado que ele reforça é o mesmo da bancada: volume por ponto é variável que o injetor controla, e perto do levantador da pálpebra ou do zigomático maior a escolha certa é ponto pequeno e dose exata, em qualquer das duas marcas.

Músculo frontal e depressores da glabela — campo de efeito da toxina botulínica — Dr. Thiago Perfeito
Frontal em destaque; corrugador, prócero e orbicular do olho em cinza. Na glabela, os pontos ficam a poucos milímetros de músculos que não se quer atingir — é aqui que volume por ponto e concentração pesam mais que a marca.

Início e duração: o ensaio que comparou os três

Rappl e colaboradores (2013, Clin Cosmet Investig Dermatol) randomizaram 180 pacientes de 20 a 60 anos com linhas glabelares moderadas a graves para 21 U de incobotulinumtoxinA, 21 U de onabotulinumtoxinA ou 63 U de abobotulinumtoxinA, com seguimento de 180 dias. O início do efeito foi mais precoce com incobotulinumtoxinA; nas mulheres, 3,02 dias contra 5,29 (onabotulinumtoxinA) e 5,32 dias (abobotulinumtoxinA). A duração também foi maior no grupo do Xeomin, e nos três produtos as mulheres tiveram início mais rápido e efeito mais longo que os homens.

Um cuidado de leitura: o estudo deu 21 U de onabotulinumtoxinA e 63 U Speywood de abobotulinumtoxinA — razão de 1 para 3, acima da referência Botox : Dysport de 1 para 2,5 ensinada na formação do Dr. Thiago. Mesmo com mais unidades Speywood por unidade de Botox, o grupo do Dysport não teve início mais rápido.

Quando se olha o conjunto, o quadro fica mais equilibrado. A revisão sistemática de Prager, Nogueira Teixeira e Leventhal (2017, Dermatol Surg), com 15 artigos de ensaios prospectivos comparativos, concluiu que o peso da evidência indica eficácia semelhante entre incobotulinumtoxinA, onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA em indicações estéticas; a revisão tem autor ligado à Merz. A metanálise independente de Bonaparte e colaboradores (2016, Plast Reconstr Surg), com 18 estudos e 3.082 pacientes, mostrou as três formulações superiores ao placebo em 30, 90 e 120 dias, e comparações indiretas entre elas majoritariamente inconclusivas. Em resumo: diferenças de início e duração aparecem em ensaios isolados; vencedor consistente, não.

Conversão: o que a bula diz e o que a formação ensina

As bulas são explícitas. A do Dysport declara que “as unidades de DYSPORT® (unidades Speywood) são específicas para a preparação e não são intercambiáveis”; a do Xeomin, que “as unidades são específicas para o XEOMIN® e não são intercambiáveis”. A bula americana do Xeomin acrescenta que as unidades de atividade biológica não podem ser comparadas nem convertidas em unidades de outras toxinas medidas por outro método de ensaio.

Na prática, a troca de marca precisa de um ponto de partida, e a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência — uma unidade de Botox para 2,5 de Dysport e uma de Botox para uma de Xeomin. As duas relações têm o Botox como base; a formação não traz uma relação própria entre Dysport e Xeomin, e esta página não cria uma. Na troca entre os dois, vale a regra que a formação usa em qualquer troca de marca: primeira sessão na dose equivalente ou levemente abaixo, registro completo e ajuste pela resposta. Na revisão de Dashtipour (2016), que reuniu ensaios randomizados em distúrbios do movimento, a proporção onabotulinumtoxinA:abobotulinumtoxinA de 1 : 2,5 teve eficácia e efeitos adversos parecidos entre os grupos; com 1 : 3 os efeitos adversos subiram, e com 1 : 4 ficaram intoleráveis em excesso. A discussão completa sobre os limites de qualquer tabela entre marcas está em por que não existe tabela de conversão entre Botox, Dysport e Xeomin.

Modelo · Trocar de Dysport para Xeomin (ou o contrário) em 5 passos

  1. Abra o prontuário anterior — marca, lote, diluição, unidades por ponto e mapa de pontos da última sessão.
  2. Parta da referência e da bula — a referência da formação tem o Botox como base (Botox : Dysport = 1 : 2,5; Botox : Xeomin = 1 : 1); a bula do produto novo dá a dose e a concentração de partida para a área. Escreva cada dose na unidade da marca a que ela pertence.
  3. Comece na dose equivalente ou um pouco abaixo — é a regra de segurança da troca.
  4. Recalcule o volume por ponto — a concentração do frasco novo é outra; a gota da marca antiga não serve.
  5. Ajuste na revisão — no consultório do Dr. Thiago, o retorno é entre 15 e 30 dias; é a resposta do paciente que fixa a dose das sessões seguintes, e não a tabela.

Quando escolher cada um

Como a molécula que age é a mesma, a escolha se faz por critério de rotina, não por promessa de marca:

Erros que aparecem na troca entre os dois

  1. Manter o volume por ponto da marca antiga e, com isso, mudar a dose sem querer.
  2. Aplicar a razão de um estudo como se fosse regra — o ensaio de Rappl usou Botox : Dysport de 1 : 3; a referência ensinada é 1 : 2,5, e ela é ponto de partida, com ajuste pela resposta.
  3. Guardar o Dysport fechado fora da geladeira por hábito herdado do Xeomin.
  4. Mexer em duas variáveis de uma vez — marca nova com diluição nova deixa a revisão sem saber a quem atribuir a diferença.
  5. Não registrar a marca e o lote — sem esse dado, a revisão vira adivinhação.

Declaração de ausência de conflito: o Dr. Thiago Perfeito não mantém relação comercial com fabricante algum de toxina botulínica, Ipsen, Galderma e Merz incluídas.

Da tabela para a mão

A troca de marca é uma conta de cinco linhas no papel; no paciente, ela depende de ler a seringa certa, marcar o ponto certo e reconhecer na revisão o que a dose fez. Na Pós Prática conduzida pelo Dr. Thiago Perfeito — médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa —, farmacologia e marcas do mercado brasileiro — conversão, início, duração e diluição — fazem parte do módulo de Toxina e Preenchimento. O aluno estuda o pré-work gravado antes do sábado presencial; no sábado, assiste à demonstração comentada e depois executa, sob supervisão, em paciente modelo, numa turma de até 8 médicos. Os outros módulos estão em /cursos/, e os demais textos da biblioteca em /cursos/blog/.

Aula prática com paciente modelo na Pós Prática — Dr. Thiago Perfeito
Demonstração comentada no sábado presencial: o docente aplica em paciente modelo enquanto os alunos acompanham ao lado da maca. Na parte prática que vem depois, cada aluno executa sob supervisão.

Perguntas frequentes

Dysport e Xeomin são a mesma toxina?

Os dois bloqueiam a liberação de acetilcolina no terminal nervoso e pertencem ao tipo A. Muda o conteúdo do frasco: no Dysport, da Ipsen, a neurotoxina vem associada à hemaglutinina, com lactose entre os excipientes e dose em unidades Speywood; no Xeomin, da Merz, vem sem as proteínas complexantes, com sacarose, e em unidade própria.

Como fazer a troca entre Dysport e Xeomin?

As bulas de ambos afirmam que suas unidades não se intercambiam. A formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência com o Botox como base — Botox : Dysport = 1 : 2,5 e Botox : Xeomin = 1 : 1 — e, em qualquer troca de marca, começa na dose equivalente ou levemente abaixo, registra marca, lote e diluição, e corrige na revisão. Quem fixa a dose seguinte é a resposta do paciente.

O Xeomin precisa ficar na geladeira?

O frasco fechado de incobotulinumtoxinA é descrito em revisões como estável sem refrigeração, ao contrário da maioria das toxinas, guardadas de 2 a 8 °C. A faixa de temperatura e a validade que valem são as da bula brasileira vigente. Depois de reconstituído, a bula americana do Xeomin pede uso em até 24 horas.

O Dysport espalha mais que o Xeomin?

Num estudo em pele do dorso (da Costa, 2019), o halo de inibição do suor cresceu com a dose em todos os produtos e foi menor com o Xeomin. Num modelo de computador (Rahman, 2025), o volume por ponto foi o fator que mais pesou no espalhamento. Na glabela, quem define até onde o efeito chega é a combinação de dose, volume de cada ponto e posição da agulha, seja qual for a marca.

Qual dos dois começa a agir mais rápido?

No ensaio de Rappl e colaboradores (2013), com 180 pacientes, o início foi mais precoce com incobotulinumtoxinA: nas mulheres, 3,02 dias contra 5,32 com abobotulinumtoxinA, numa razão de dose de 1 para 3. Revisões que reúnem vários ensaios encontram eficácia semelhante entre as toxinas, sem vencedor consistente.

Posso usar a mesma diluição para os dois?

A diluição se escolhe pela concentração que se quer, e cada bula tem a sua. O Dysport de 300 U tem duas reconstituições licenciadas (2,5 mL ou 1,5 mL); o Xeomin tem tabela ampla, e o frasco de 100 U com 2,5 mL dá 4 U por 0,1 mL. Copiar o volume de uma marca para a outra muda a dose por ponto.

Qual escolher para o primeiro paciente?

A que você vai usar de forma consistente, com a diluição que sabe ler na seringa e o mapa de pontos que já treinou. Histórico do paciente, área a tratar, logística de estoque e consistência entre sessões pesam mais que a marca.

Referências

  1. Rappl T, Parvizi D, Friedl H, et al. Onset and duration of effect of incobotulinumtoxinA, onabotulinumtoxinA, and abobotulinumtoxinA in the treatment of glabellar frown lines: a randomized, double-blind study. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2013;6:211-219. · PMID 24098087 · DOI 10.2147/CCID.S41537
  2. da Costa A, Pereira ESP, de Oliveira Pereira M, et al. Six-Month Comparative Analysis Monitoring the Progression of the Largest Diameter of the Sweating Inhibition Halo of Different Botulinum Toxins Type-A. Aesthet Surg J. 2019;39(9):993-1004. · PMID 30107473 · DOI 10.1093/asj/sjy207
  3. Rahman E, Carruthers JDA, Rao P, et al. In silico multiscale computational modelling of botulinum toxin a diffusion for glabellar wrinkle treatment: Optimizing injection volumes across formulations. Toxicon. 2025;266:108548. · PMID 40854395 · DOI 10.1016/j.toxicon.2025.108548
  4. Prager W, Nogueira Teixeira D, Leventhal PS. IncobotulinumtoxinA for Aesthetic Indications: A Systematic Review of Prospective Comparative Trials. Dermatol Surg. 2017;43(7):959-966. · PMID 28375973 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001076
  5. Bonaparte JP, Ellis D, Quinn JG, et al. A Comparative Assessment of Three Formulations of Botulinum Toxin Type A for Facial Rhytides: A Systematic Review with Meta-Analyses. Plast Reconstr Surg. 2016;137(4):1125-1140. · PMID 27018668 · DOI 10.1097/PRS.0000000000002004
  6. Bigalke H, Frevert J, Dressler D. Therapeutic botulinum toxin preparations: an update. J Neural Transm (Vienna). 2026;133(6):965-969. · PMID 42084637 · DOI 10.1007/s00702-026-03121-3
  7. Prager W. Differential characteristics of incobotulinumtoxinA and its use in the management of glabellar frown lines. Clin Pharmacol. 2013;5:39-52. · PMID 23516136 · DOI 10.2147/CPAA.S37582
  8. Dashtipour K, Chen JJ, Espay AJ, et al. OnabotulinumtoxinA and AbobotulinumtoxinA Dose Conversion: a Systematic Literature Review. Mov Disord Clin Pract. 2016;3(2):109-115. · PMID 27110585 · DOI 10.1002/mdc3.12235
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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