Fios de PLLA: o que muda em relação ao PDO
O fio de PLLA muda o polímero, não a técnica: em vez de polidioxanona, ele é feito de ácido poli-L-láctico, puro ou em copolímero — com glicolídeo nos fios de cones, com ε-caprolactona nos fios espiculados como a linha absorvível da Aptos —, e isso altera três coisas: a curva do colágeno no tecido, o desenho mecânico que segura o tecido e o tempo de acompanhamento que os estudos clínicos alcançam. Plano, vetor, seleção de paciente e anatomia de risco continuam os mesmos do PDO. Quem troca de fio sem entender o que mudou costuma esperar do material o que só a indicação entrega.
Três famílias com nomes parecidos
O mercado chama tudo de "fio de sustentação", e a confusão começa no nome. Vale separar pelo polímero, que é o que o tecido enxerga:
- PDO (polidioxanona): o polímero da sutura absorvível, absorvido em torno de 6 a 8 meses, com bioestímulo e sustentação leve. Existe liso, trançado, em espiral e espiculado.
- PLLA com glicolídeo (PLLA/PLGA): fio de suspensão em que pequenos cones, espaçados no corpo do fio, fazem a ancoragem ponto a ponto.
- Copolímero de poli-L-lactídeo e ε-caprolactona, P(LA/CL): fio espiculado absorvível; é desse copolímero que se faz a linha absorvível da Aptos, inclusive em versões revestidas de ácido hialurônico. A Aptos também fabrica fio permanente, de polipropileno — material e indicação diferentes.
A policaprolactona (PCL) isolada é uma quarta família e aparece em vários estudos comparativos ao lado do PLLA. Não é a mesma coisa: quando um estudo fala em PCL, o resultado não se transfere automaticamente para o fio de PLLA. A classificação por desenho — liso, espiculado, em U e em I, com cones — já foi tratada em tipos de fio de PDO e indicação. Aqui o foco é o que o polímero muda.
A curva do colágeno: quando começa e até onde foi medida
Os dois materiais estimulam colágeno. No modelo animal, a curva do PLLA começa antes; em humanos, o colágeno ao redor do fio de PLLA/PLGA foi medido em biópsia até o dia 270.
No modelo em rata de Kapicioğlu e colaboradores (2019, Dermatol Surg), com 10 animais por grupo, o fio de PLLA foi o único a espessar a derme e a aumentar os fibroblastos de forma significativa já no primeiro mês; o fio espiculado de PDO alcançou o mesmo patamar aos 3 e aos 6 meses, quando os dois grupos se igualaram e ficaram acima do controle. Em termos práticos: o PDO chega lá, mas mais tarde.
Soen e colaboradores (2025, Iran J Basic Med Sci) compararam fios monofilamentares de PDO, PLLA e PCL em ratas envelhecidas e expostas a UVB por quatro semanas. Os três fios trouxeram a densidade de colágeno dérmico, a razão entre colágeno tipo 1 e tipo 3 e a expressão de COL3A1 para valores semelhantes aos do grupo jovem; entre eles, o PCL foi o mais ativo.

Em humanos, o dado mais direto vem de biópsia. Goldberg (2020, J Cosmet Dermatol) tratou com fios de suspensão de PLLA/PLGA com cones 25 voluntários com descida do terço médio e colheu biópsias por punch; 17 completaram a parte de colágeno do estudo. O colágeno novo já aparecia no dia 90 e aumentou de forma significativa em relação ao basal nos dias 180 e 270, e também entre os dias 90 e 180. A gravidade do sulco nasogeniano, avaliada pelos pacientes e pelos investigadores, melhorou de forma significativa em todos os tempos até o dia 270. O autor descreve o colágeno formado junto ao trajeto do monofilamento e dos cones, somado ao reposicionamento feito pelos cones.
O mesmo comportamento aparece com o copolímero espiculado. Burko e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) implantaram fios de P(LA/CL), com e sem cobertura de ácido hialurônico, no subcutâneo de cinco porcas e analisaram a histologia em 7, 21, 30, 90 e 180 dias. Os dois fios remodelaram derme e hipoderme; no dia 180, o fio com cobertura de ácido hialurônico superou o fio sem cobertura na maioria dos indicadores. O estudo foi financiado pela Aptos, e dois dos três autores são da empresa — dado que entra na leitura do resultado.

O tempo que os estudos clínicos alcançam
O PDO é absorvido em torno de 6 a 8 meses, e a série retrospectiva de Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J) — fios espiculados de PDO no terço médio e na linha da mandíbula — registrou um efeito que já tinha desaparecido ao completar um ano. Do lado do PLLA, a série clínica que chegou mais longe acompanhou os pacientes por 24 meses.
Saray (2025, Aesthetic Plast Surg) tratou 42 pacientes, 30 mulheres e 12 homens, com ptose leve a moderada da sobrancelha, usando fios absorvíveis de PLLA/PLGA com cones, e acompanhou até 24 meses. Todos os pacientes ficaram satisfeitos; as escalas FACE-Q de satisfação com a face, as pálpebras superiores e a fronte e sobrancelhas melhoraram de forma significativa ao longo dos 24 meses, e a escala de posição da sobrancelha acompanhou o FACE-Q, com tendência de piora depois do 18º mês. Não houve evento adverso grave; os menores foram equimose, edema, eritema, dimpling e assimetria.
A leitura é dupla. O fio de PLLA/PLGA tem colágeno novo documentado em biópsia humana até o dia 270, além da janela de absorção do PDO. E o reposicionamento continua sendo temporário: na série de sobrancelha, a posição começa a ceder depois de um ano e meio. O que vai para o termo é o tempo que o efeito costuma durar com aquele material, não a promessa de permanência.
Cones e espículas: a mecânica muda
Espícula e cone seguram o tecido de formas diferentes. A espícula corta ou é moldada no corpo do fio e prende os septos fibrosos ao longo de uma fileira; o cone é uma saliência isolada no fio, e o tecido cresce em volta dela. Isso muda a técnica de tensionamento, o número de pontos de ancoragem e a forma de fixar a extremidade, e por isso o fio de cones se aprende com o próprio produto na mão.
Com o copolímero espiculado, a técnica de inserção pesa tanto quanto o material. Fundaro e colaboradores (2026, Clin Cosmet Investig Dermatol) mediram, em peito de peru ex vivo, a força necessária para arrancar fios de P(LA/CL) inseridos de diferentes maneiras. A técnica de inserção influenciou a resistência à tração; padrões em ângulo, como o "J-stitch", e sistemas de autotravamento seguraram mais que a inserção em linha reta; o comprimento da porção espiculada não mudou de forma significativa a resistência; e houve tendência de maior resistência com agulhas mais finas, de 0,85 mm, do que com as de 1,28 mm. Dois autores têm contrato de consultoria com o fabricante dos fios testados e o terceiro é funcionário da empresa, que forneceu o material — e o próprio estudo lembra que o modelo animal não prevê diretamente o resultado em humanos.
A revisão de Hong e colaboradores (2024, Clin Cosmet Investig Dermatol) sobre materiais de fio resume o ponto: os materiais se multiplicaram além do PDO, os fios espiculados absorvíveis de boa qualidade são eficientes, e a escolha precisa considerar vários fatores além da duração.

Segurança: o desenho pesa mais que o polímero
Ojha e colaboradores (2025, Dermatol Surg) revisaram de forma sistemática 19 estudos com fios absorvíveis, somando 1.406 pacientes e 876 complicações relatadas. As mais frequentes foram equimose (19,49%), edema (16,79%) e dor à palpação (9,96%); as menos frequentes, hematoma (0,64%), parestesia (1,14%) e infecção (2,49%). Edema e equimose se associaram mais aos fios de PCL, aos fios espiculados e ao lifting de terço médio; os fios espiculados tiveram mais complicações que os lisos e os de cones, e os fios flutuantes mais que os fixados.
Para a escolha entre PLLA e PDO, a mensagem é que o risco se organiza mais pelo desenho do fio, pela forma de fixação e pela região do que pelo polímero isolado. As complicações de cada tipo, com causa e conduta, estão em complicações dos fios de sustentação.
Tabela: PDO e PLLA lado a lado
| Ponto | PDO | À base de PLLA |
|---|---|---|
| Polímero | Polidioxanona | Ácido poli-L-láctico, com glicolídeo (cones) ou com ε-caprolactona (espiculado) |
| Desenhos comuns | Liso, trançado, espiral, espiculado | Cones; espiculado bidirecional; versões com cobertura de ácido hialurônico |
| Colágeno | Estimula; em rata, atinge o patamar do PLLA aos 3 meses | Estimula mais cedo em rata; em biópsia humana, aumento até o dia 270 |
| Tempo no tecido | Absorvido em torno de 6 a 8 meses | Conforme a instrução de uso de cada produto |
| Acompanhamento clínico | Na série de Bertossi, efeito em queda até o 6º mês e ausente em 1 ano | Série de sobrancelha com cones acompanhada até 24 meses, com piora depois do 18º |
| O que não muda | Plano acima do SMAS, vetor oposto à queda, seleção pelo diagnóstico, anatomia de risco e assepsia de procedimento | |
Como decidir na prática
- Primeiro a indicação. Descida de tecido com pele que acompanha pede fio de tração — espiculado ou de cones —, seja qual for o polímero. Pele que só perdeu qualidade pede fio liso ou outra ferramenta.
- Depois o desenho. Ancoragem por pontos (cones) ou por fileira de espículas muda a técnica de tensionamento e de fixação; o injetor escolhe o desenho que domina.
- Depois o polímero. Pesam o que cada material mostrou — colágeno mais precoce com o PLLA no modelo animal, colágeno documentado até o dia 270 com PLLA/PLGA em biópsia humana, absorção do PDO em torno de 6 a 8 meses — e o material que o injetor domina.
- Por fim, a instrução de uso. Calibre, comprimento, veículo e tempo de absorção são do produto, e se conferem na embalagem antes de classificar o fio.

Do polímero à mão
Conhecer a ficha técnica de cada polímero é leitura; sentir como um PDO espiculado e um espiculado de copolímero se comportam na tração é treino. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) coloca os fios no Módulo A1, Face Avançada, discriminados por produto — PDO, PLA/PCL e Aptos — e por região, com a anestesia dos fios incluída no bloco. Materiais e mecanismos ficam no pré-work gravado; o sábado presencial em Brasília tem demonstração comentada pelo docente na parte teórica e execução supervisionada pelo próprio médico, em paciente modelo, na parte prática, para uma turma de no máximo oito. Para a técnica de plano e vetor, veja como aplicar fios de PDO na face; os quatro módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre fio de PLLA e fio de PDO?
O polímero. O PDO é polidioxanona; o fio de PLLA é de ácido poli-L-láctico, puro ou em copolímero com glicolídeo (cones) ou com ε-caprolactona (espiculado). Isso muda a curva do colágeno e o desenho mecânico; plano, vetor e seleção de paciente continuam os mesmos.
Fio de PLLA estimula mais colágeno que o PDO?
Os dois estimulam; o PLLA começa antes. Em rata, só o PLLA espessou a derme de forma significativa no primeiro mês, e o PDO alcançou o mesmo nível aos 3 e 6 meses. Em biópsia humana, fios de PLLA/PLGA mostraram colágeno aumentando até o dia 270.
Fio Aptos é de PLLA?
Em parte: os fios absorvíveis da Aptos usam ácido poli-L-láctico copolimerizado com caprolactona, P(LA/CL), alguns revestidos de ácido hialurônico. Os fios permanentes da marca são de polipropileno. Nenhum dos dois é PDO.
Quanto tempo dura o fio de PLLA?
Não é permanente. Numa série de 42 pacientes com fios de PLLA/PLGA com cones na sobrancelha, a melhora se manteve ao longo de 24 meses de acompanhamento, com tendência de piora depois do 18º mês.
Fio de cones é mais seguro que fio espiculado?
Na revisão sistemática de Ojha, os fios espiculados tiveram mais complicações que os lisos e os de cones. Equimose e edema foram os eventos mais frequentes; infecção e hematoma, os menos.
A técnica de inserção muda com o fio de PLLA?
O plano e o vetor não mudam; o tensionamento e a fixação mudam com o desenho. Em modelo ex vivo, a forma de inserção de fios de P(LA/CL) alterou a resistência à tração, com padrões em ângulo e autotravamento segurando mais que a linha reta.
Fio de PCL é a mesma coisa que fio de PLLA?
Não. A policaprolactona é outro polímero, presente sozinha ou em copolímero com o poli-L-lactídeo. Resultado de estudo com PCL não se transfere automaticamente para o fio de PLLA.
Referências
- Bertossi D, Botti G, Gualdi A, et al. Effectiveness, Longevity, and Complications of Facelift by Barbed Suture Insertion. Aesthet Surg J. 2019;39(3):241-247. · PMID 29474522 · DOI 10.1093/asj/sjy042
- Kapicioğlu Y, Gül M, Saraç G, et al. Comparison of Antiaging Effects on Rat Skin of Cog Thread and Poly-L-Lactic Acid Thread. Dermatol Surg. 2019;45(3):438-445. · PMID 30608294 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001717
- Soen M, Hidayat M, Widowati W. Enhancing dermal collagen density towards youthfulness: A comparative study of PCL, PLLA, and PDO thread implantation in aging rats model. Iran J Basic Med Sci. 2025;28(2):151-157. · PMID 39850124 · DOI 10.22038/ijbms.2024.80494.17428
- Goldberg DJ. Stimulation of collagenesis by poly-L-lactic acid (PLLA) and -glycolide polymer (PLGA)-containing absorbable suspension suture and parallel sustained clinical benefit. J Cosmet Dermatol. 2020;19(5):1172-1178. · PMID 32167231 · DOI 10.1111/jocd.13371
- Burko P, Sulamanidze G, Nikishin D. Efficacy of Lifting Threads Composed of Poly(L-Lactide-Co-ε-Caprolactone) Copolymers Coated With Hyaluronic Acid: A Long-Term Study on Biorevitalizing Properties in Skin Remodeling. J Cosmet Dermatol. 2025;24(3):e70077. · PMID 40071656 · DOI 10.1111/jocd.70077
- Saray A. Brow Lifting with Poly-L-Lactic Acid (PLLA) and Polylactide/Glycolide (PGA), Resorbable and Coned Threads. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(23):6383-6392. · PMID 40855019 · DOI 10.1007/s00266-025-05117-y
- Fundaro S, Malgapo DMH, Manni M. Evaluation of Parameters Determining the Pull-Out Strength of Poly(L-Lactide-Co-ε-Caprolactone) Barbed Suspension Threads: A Comparative ex vivo Study. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2026;19:531384. · PMID 42388898 · DOI 10.2147/CCID.S531384
- Hong GW, Kim SB, Park SY, et al. Thread Lifting Materials: A Review of Its Difference in Terms of Technical and Mechanical Perspective. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2024;17:999-1006. · PMID 38737945 · DOI 10.2147/CCID.S457352
- Ojha AS, Farahbakhsh N, Saikaly SK. An Assessment and Comparison of Adverse Effect Rates in Differing Absorbable Thread Lift Suture Materials. Dermatol Surg. 2025;51(3):272-276. · PMID 39442180 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004466
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