Fios espiculados para lifting do terço médio
No terço médio, o fio espiculado serve para devolver ao lugar a gordura malar que desceu: ele corre no subcutâneo, acima do SMAS, prende os septos do coxim com as espículas e é tracionado no sentido contrário ao da queda, em direção à têmpora ou ao corpo do zigoma. A indicação é a ptose leve a moderada do terço médio, com pele que ainda acompanha o tecido e sem perda de volume dominante. Quando o que falta é volume, o fio desloca um coxim vazio — e o resultado fica aquém do que a paciente esperava.
O que desce no terço médio
O terço médio envelhece por dois mecanismos que se somam: perda de volume, de gordura e de osso, e descida dos compartimentos de gordura superficial em relação aos pontos fixos. Esses pontos fixos são os ligamentos de retenção — o ligamento de retenção do orbicular, ao longo do rebordo orbital inferior, e o ligamento zigomático, no corpo do zigoma. Acima deles o tecido fica mais preso; abaixo, o coxim malar desliza para baixo e para dentro, e o sulco nasogeniano se aprofunda porque passa a receber o peso do tecido que desceu sobre ele.

Essa anatomia define o que o fio consegue fazer. Ele reposiciona o coxim que desceu e, com isso, suaviza a parte do sulco nasogeniano que vem do peso. Ele não repõe gordura nem osso perdidos e não estica a pele. A anatomia dos ligamentos e por que tratá-los muda o resultado está em ligamentos de retenção da face e preenchimento; o mapa dos compartimentos, em compartimentos de gordura da face para o injetor.
Fio ou volume: o diagnóstico que decide
A pergunta que separa o fio do preenchedor é se o sulco nasogeniano vem de descida ou de esvaziamento. El-Mesidy e colaboradores (2020, Arch Dermatol Res) compararam os dois caminhos em 20 pacientes com sulco nasogeniano proeminente, randomizados para ácido hialurônico na região malar ou para fio de sustentação na bochecha, em sessão única. Os dois grupos melhoraram de forma significativa pelas escalas de rugas. Na escala GAIS, a média foi 2,2 no grupo do preenchedor e 3,2 no grupo do fio, diferença significativa a favor do preenchedor; 70% dos casos do preenchedor ficaram satisfeitos, contra 30% dos do fio. Os autores recomendam o preenchedor malar para a face magra e caída, que precisa também de volume e contorno, e o fio para a paciente que deseja uma face mais oval e menos larga — e observam que combinar o fio com outros procedimentos dá um resultado mais completo.
Na consulta, três perguntas organizam a escolha:
- O tecido desceu? Com a paciente sentada, o coxim malar está abaixo do rebordo, e uma leve tração com os dedos em direção à têmpora devolve o contorno e suaviza o sulco. Se a manobra resolve, o fio tem o que fazer.
- Falta volume? Se a tração deixa a região malar achatada ou o rebordo marcado, o volume vem antes, ou junto.
- Sobra pele? Pele que pregueia na tração não se resolve com fio; é território cirúrgico.
Vetores e ancoragem no terço médio
O vetor do terço médio aponta para onde o coxim estava: para cima e para fora, na direção da têmpora, ou para cima, quando a descida é predominantemente vertical. A porção espiculada fica no coxim; a extremidade de ancoragem, em tecido estável. A sequência geral de inserção, o pinçamento para achar o plano e os estudos em cadáver sobre plano e ancoragem temporal estão em como aplicar fios de PDO na face. Aqui interessam as variações próprias do terço médio.

Ancoragem no corpo do zigoma, com vetor reverso. Ballani e Bansal (2026, J Cosmet Laser Ther) trataram 20 mulheres de 30 a 60 anos com ptose moderada do terço médio e pouca flacidez de jowl e de pescoço, inserindo fios bidirecionais de copolímero de poli-L-lactídeo e ε-caprolactona a partir de pontos de ancoragem junto ao corpo do zigoma, com vetores temporais reversos. Logo após o procedimento, o ângulo lateral da boca subiu 0,3 a 0,5 cm e o ponto medial da bochecha, 0,2 a 0,3 cm; em um mês houve ganho adicional de 0,1 a 0,2 cm nos mesmos pontos, e aos seis meses o resultado se manteve nas pacientes que não fizeram procedimento associado. A justificativa dos autores é usar o suporte estrutural dos ligamentos e reduzir o risco neurovascular.
Ancoragem no periósteo da órbita lateral. Myung e Jung (2020, Plast Reconstr Surg Glob Open) trataram 64 mulheres de 33 a 60 anos: por uma punção com agulha 18G sobre o rebordo orbital lateral, inseriram três fios de PDO espiculados 18G, mirando o coxim de gordura medial profundo e a camada interna do SMAS, e ancoraram no periósteo da órbita lateral. O procedimento durou em média 15 minutos, sob anestesia local, sem complicação maior. É uma técnica mais profunda do que o plano subcutâneo dos estudos em cadáver citados na página de técnica, e cobra domínio da anatomia em camadas antes de ser reproduzida.
Quantos fios no terço médio
A literatura recente tem dois resultados que parecem se contradizer e que, juntos, orientam a prática. Germani e colaboradores (2025, Aesthet Surg J Open Forum), em ensaio randomizado com 22 pacientes, compararam 3 contra 6 fios de PDO por hemiface e mediram volume e deslocamento de tecido por estereofotogrametria em três dimensões. Houve mudança significativa de volume no terço médio e no inferior ao longo do tempo, sem diferença entre os grupos; o deslocamento de tecido também variou no tempo, sem diferença entre os grupos; a satisfação pela GAIS foi semelhante. Os ganhos iniciais diminuíram até o 60º dia, e os autores concluem que fios a mais não aumentaram a eficácia sustentada.

Park (2026, Aesthetic Plast Surg) acompanhou prospectivamente 30 mulheres, com idade média de 58 anos, tratadas no terço médio com fios de PDO de espículas bidirecionais em desenho tridimensional. A escala de gravidade de rugas (WSRS) caiu de 2,33 no primeiro mês para 1,47 no sexto, e a GAIS do avaliador melhorou de forma significativa aos 6 meses. Na análise multivariada, o tempo e o número de fios foram preditores de melhora; idade, IMC e comorbidades não foram. Só houve eventos menores, como equimose.
A forma de conciliar os dois é olhar o desenho. No ensaio de Germani, dobrar o número de fios dentro do mesmo plano e do mesmo vetor não acrescentou deslocamento; no de Park, o número de fios entrou como uma variável dentro de um tratamento que já tinha vetor definido. O número de fios segue o vetor e a área de tecido que precisa ser reposicionada, e não a expectativa da paciente.
Quanto tempo dura
O reposicionamento do fio espiculado é real e temporário, e os estudos do terço médio dão a curva:
- Myung e Jung: satisfação média de 4,7 em 5 no primeiro mês e de 2,8 em 1 ano; a avaliação objetiva às cegas, pela posição do ponto de luz malar, seguiu a mesma tendência, de 4,5 para 3,1. Os autores descrevem resultado satisfatório por pelo menos 6 meses.
- Diaspro e Rossini (2021, Dermatol Ther): em 6 participantes com ptose leve a moderada do terço médio, a melhora volumétrica média foi de 5,59 mL aos 120 dias e de 4,16 mL ao fim do seguimento médio de cerca de 350 dias.
- Santorelli e colaboradores (2021, J Cosmet Dermatol): 60 pacientes, idade média de 51,3 anos, tratados com fios de espículas bidirecionais convergentes, sem procedimento associado. Aos 6 meses, todos reduziram um ponto ou mais na escala de déficit de volume do terço médio; nenhum pediu a retirada dos fios no seguimento médio de 9,8 meses.
Na série de 160 pacientes de Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J), que incluiu fio espiculado de PDO para a região malar e o sulco nasogeniano, a melhora caiu de forma perceptível até o sexto mês e não estava mais presente em um ano. Com esse benefício transitório e complicação precoce em 34% dos pacientes, os autores recomendam reservar o fio para quem tem contraindicação a uma cirurgia facial mais invasiva — conclusão que convive, na mesma literatura, com as séries acima. As complicações dessa série e a conduta para cada uma estão em complicações dos fios de sustentação e como evitar. O que vai para o termo de consentimento é o tempo que o efeito costuma durar, escrito, e a possibilidade de complementar com outra ferramenta.
Quem é boa candidata
A paciente que mais se beneficia tem descida leve a moderada do coxim malar, volume ainda razoável e pele de espessura média, que acompanha a tração sem preguear. A pele muito fina mostra cada espícula; a face muito esvaziada pede volume antes; a flacidez com excesso de pele pede cirurgia.
Idade e número de fios aparecem de forma diferente conforme o estudo. Hügül e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol), numa série retrospectiva de pacientes tratados entre 2018 e 2020, não encontraram relação entre a satisfação e a idade, o tipo de fio, o número de fios ou a área tratada. Já Okumura e colaboradores (2025, Plast Reconstr Surg Glob Open), em 1.500 pacientes tratados com fio de PDO no Japão, identificaram idade e número de fios como preditores independentes de retorno por resultado insuficiente — o detalhe está na página de complicações. Para a paciente de 45 a 60 anos, a conduta prudente é a mesma nos dois cenários: indicação pelo diagnóstico, número de fios proporcional ao vetor e expectativa escrita.
Modelo · Checklist do terço médio antes da primeira punção
- Sentada: marcar o coxim malar descido, o sulco nasogeniano e o ponto para onde o tecido deve voltar.
- Manobra de tração: confirmar que o tecido sobe e que o sulco suaviza; anotar se sobra volume a repor.
- Desenhar o vetor e escolher a ancoragem: região temporal, na linha do cabelo, ou corpo do zigoma.
- Mapear as estruturas da região: ramos zigomáticos do nervo facial, ducto parotídeo na bochecha lateral e artéria facial junto ao sulco.
- Plano acima do SMAS do início ao fim; a ponta termina antes do sulco nasogeniano, sem se aprofundar junto à artéria facial.
- Tensionar aos poucos, observando o sulco suavizar sem depressão na região malar, e conferir a simetria com a paciente sentada.
- Planejar o volume que ficou faltando, na mesma consulta, para a sessão certa.

Onde o vetor do terço médio vira prática
A manobra de tração, o desenho do vetor e a sensação do coxim prendendo nas espículas se aprendem com o tecido na mão, não no vídeo. No Módulo A1, Face Avançada, da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), os fios são estudados por produto e por região — PDO, PLA/PCL e Aptos —, junto com o vetor oposto à queda, a anatomia de risco do ramo temporal, do marginal mandibular e do ducto parotídeo, o tensionamento, o dimpling e a extrusão. O pré-work gravado vem antes; no sábado presencial em Brasília, o docente faz a demonstração comentada na parte teórica, e na parte prática cada médico executa, sob supervisão, em paciente modelo, numa turma limitada a oito. Para comparar formações com critérios objetivos, veja como escolher um curso de fios de sustentação; os quatro módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Fio espiculado resolve o sulco nasogeniano?
Resolve a parte do sulco que vem da descida do coxim malar. Quando o sulco vem de perda de volume, o preenchedor malar costuma ir melhor: no ensaio de El-Mesidy, 70% dos casos tratados com preenchedor ficaram satisfeitos, contra 30% dos tratados com fio.
Para onde vai o vetor do fio no terço médio?
Para cima e para fora, em direção à têmpora, ou para cima quando a descida é vertical. A porção espiculada fica no coxim que desceu; a ancoragem, em tecido estável — região temporal ou corpo do zigoma.
Quantos fios espiculados se usam no terço médio?
O número segue o vetor e a área a reposicionar. No ensaio randomizado de Germani, 6 fios por hemiface não deslocaram mais tecido que 3; no estudo de Park, o número de fios entrou como preditor de melhora dentro de um tratamento com vetor definido.
Quanto tempo dura o lifting de terço médio com fio?
É temporário e perde força ao longo do primeiro ano. Na série de Myung e Jung, a satisfação caiu de 4,7 em 5 no primeiro mês para 2,8 em 1 ano; Diaspro e Rossini mediram 5,59 mL de melhora volumétrica aos 120 dias e 4,16 mL perto de 1 ano.
Qual a paciente ideal para fio no terço médio?
Descida leve a moderada do coxim malar, volume ainda razoável e pele que acompanha a tração sem preguear. Face esvaziada pede volume antes; excesso de pele pede cirurgia.
Fio no terço médio pode ser combinado com preenchedor?
Sim, e com frequência é o que completa o resultado. El-Mesidy e colaboradores observaram que combinar o fio com outros procedimentos dá uma aparência mais completa; o volume que falta é planejado na mesma consulta.
Quais estruturas exigem cuidado no fio do terço médio?
Ramos zigomáticos do nervo facial, ducto parotídeo e artéria facial junto ao sulco nasogeniano. O fio corre acima do SMAS, e a ponta termina antes do sulco, sem se aprofundar.
Referências
- Bertossi D, Botti G, Gualdi A, et al. Effectiveness, Longevity, and Complications of Facelift by Barbed Suture Insertion. Aesthet Surg J. 2019;39(3):241-247. · PMID 29474522 · DOI 10.1093/asj/sjy042
- El-Mesidy MS, Alaklouk WT, Azzam OA. Nasolabial fold correction through cheek volume loss restoration versus thread lifting: a comparative study. Arch Dermatol Res. 2020;312(7):473-480. · PMID 31898756 · DOI 10.1007/s00403-019-02031-7
- Ballani I, Bansal A. Retrograde approach to mid-face thread lift with reverse temporal vectors: an innovative insight into the conventional approach. J Cosmet Laser Ther. 2026;28(1-5):48-53. · PMID 41902759 · DOI 10.1080/14764172.2026.2651544
- Myung Y, Jung C. Mini-midface Lift Using Polydioxanone Cog Threads. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2020;8(6):e2920. · PMID 32766067 · DOI 10.1097/GOX.0000000000002920
- Germani M, Munoz-Lora VRM, Carnevali ACN, et al. Is More Always Better? A Randomized Comparative Clinical Trial About the Impact of Polydioxanone Threads Quantity for Facial Lifting. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf002. · PMID 40236886 · DOI 10.1093/asjof/ojaf002
- Park BY. Prospective Study of Three-Dimensional Bi-directional Barbed Threads for Midface and Nasolabial Fold Rejuvenation. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(4):1587-1595. · PMID 41145860 · DOI 10.1007/s00266-025-05327-4
- Diaspro A, Rossini G. Thread lifting of the midface: A pilot study for quantitative evaluation. Dermatol Ther. 2021;34(4):e14958. · PMID 33840127 · DOI 10.1111/dth.14958
- Santorelli A, Cerullo F, Cirillo P, et al. Mid-face reshaping using threads with bidirectional convergent barbs: A retrospective study. J Cosmet Dermatol. 2021;20(6):1591-1597. · PMID 33641227 · DOI 10.1111/jocd.14038
- Hügül H, Özkoca D, Kutlubay Z. Thread lifting: Does patient satisfaction change according to age, type of threads used, number of threads used and treatment area? J Cosmet Dermatol. 2022;21(5):1936-1939. · PMID 35246938 · DOI 10.1111/jocd.14897
- Okumura K, Tamura T, Funakoshi Y, Teranishi H. Predictors of Dissatisfaction After Polydioxanone Thread Lift: A Multicenter Retrospective Analysis. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2025;13(10):e7190. · PMID 41050972 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007190
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