Fios na sobrancelha (foxy eyes): técnica e riscos
O foxy eyes com fio é a elevação oblíqua da cauda da sobrancelha e do canto lateral do olho com fio espiculado, levado da região da cauda até uma ancoragem na têmpora ou acima da linha temporal. O ganho publicado é de milímetros, o efeito mecânico é temporário e o risco está concentrado em duas estruturas que cruzam o caminho do fio: o ramo temporal do nervo facial e a artéria temporal superficial. Quem entende o trajeto dessas duas estruturas e o plano que as separa do fio faz o procedimento com segurança; quem pensa só no vetor estético, não.
O que o foxy eyes pede da sobrancelha
Há duas queixas diferentes que chegam com o mesmo nome. Uma é a sobrancelha que desceu por inteiro e pesa sobre a pálpebra superior; a outra é o desenho — a paciente quer a cauda mais alta que a cabeça e o canto lateral do olho inclinado para cima. A primeira pede elevação vertical; a segunda pede um vetor oblíquo, voltado para a têmpora, que alonga e levanta só o terço lateral.
A distinção muda o desenho do fio. Jung e colaboradores (2025, J Clin Med) revisaram 29 pacientes tratados só com fios de PDO e partiram exatamente desse problema: subir a sobrancelha como um bloco nem sempre satisfaz. O método levantou a sobrancelha como um todo e corrigiu o formato considerando a porção interna; a altura mudou pouco, e a mudança no ângulo da sobrancelha interna, de 4,00° e 4,44°, foi o que deixou a aparência mais favorável; 26 dos 29 pacientes se declararam satisfeitos ou muito satisfeitos, sem complicação grave. A lição para o foxy eyes é a mesma, com o sinal trocado: o resultado depende mais da forma que se cria do que de quantos milímetros a sobrancelha sobe.
A anatomia que decide o plano
A testa e a têmpora têm uma particularidade que a bochecha não tem: pouca gordura subcutânea. Park e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) chamam a atenção para isso — com pouco subcutâneo, o fio exige entendimento anatômico preciso, e a cânula com tunelização parcial funciona mesmo em pacientes com aderências fortes.

O ramo temporal do nervo facial
O ramo temporal (ou frontal) do nervo facial cruza o arco zigomático e sobe em direção à testa para inervar o frontal. Lei e colaboradores (2005, Plast Reconstr Surg) dissecaram 30 regiões temporoparietais e mostraram que o ramo corre dentro de um triângulo formado pela borda inferior do arco zigomático, pelo ramo frontal da artéria temporal superficial e pela vertical que passa pelo ponto mais alto da eminência frontal. Tellioğlu e colaboradores (2000, Plast Reconstr Surg) acrescentaram a profundidade: os ramos frontais correm paralelos ao ramo frontal da artéria temporal superficial, abaixo da fáscia temporoparietal, dentro da chamada fáscia inominada. Olhando só para o nervo, esses autores concluíram que, na parte temporal da ritidoplastia, a dissecção subcutânea logo abaixo dos folículos o protege melhor que a dissecção subfascial — conclusão escrita para a cirurgia aberta, não para o fio, mas que mostra onde o nervo está.
Para o fio da cauda da sobrancelha, isso significa que o trajeto lateral atravessa justamente esse triângulo. O nervo não está no subcutâneo, mas está logo abaixo da fáscia que o fio cruza ou ao lado da qual ele corre.
A artéria temporal superficial
A artéria corre dentro da fáscia temporal superficial (temporoparietal) ou colada a ela. Hong, Park e Yi (2026, J Craniofac Surg) compararam em cadáver o fio espiculado da linha do cabelo temporal em dois planos. No subcutâneo superficial, o fio ocupava a mesma camada dos ramos da artéria e, sob tração, comprimia visivelmente o vaso; no plano entre a fáscia temporal superficial e a profunda, a própria fáscia separava fio e artéria, e não houve compressão na tração. Os autores identificaram também uma falha clínica relevante: o fio que começa profundo pode migrar para a superfície e cruzar um ramo anterior da artéria perto da região temporal lateral.
Na região medial da testa, a preocupação são os feixes supraorbital e supratroclear. A revisão de Hong e colaboradores (2025, J Dermatolog Treat) destaca esses vasos e conclui que o fio em I colocado abaixo do músculo frontal é uma alternativa mais segura e igualmente eficaz ao desenho tradicional em U.
Duas rotas para levantar a sobrancelha
Os trabalhos publicados descrevem dois caminhos, que respondem às duas queixas do início.
Pela testa, em sentido vertical. É a rota para a sobrancelha que desceu por inteiro. O fio sobe pela testa, sob o músculo frontal, levado por cânula: Park e colaboradores (2024) descrevem os desenhos em V e em I com fio espiculado, e a revisão de Hong e colaboradores (2025) citada acima prefere o fio em I abaixo do frontal ao desenho em U.

Pela têmpora, em sentido oblíquo. É a rota do foxy eyes. Hong e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg Glob Open) revisaram retrospectivamente 22 mulheres asiáticas tratadas com fio espiculado multidirecional em I para a ptose do canto lateral e o encapuzamento temporal: a cânula romba avançava no plano areolar abaixo da fáscia temporal superficial, e o segmento espiculado era ancorado além da linha temporal superior, na aponeurose subgaleal. A inclinação do canto lateral passou de 2,1° para 4,3° aos 6 meses e 3,6° aos 12 meses; o canto lateral subiu 1,8 mm e 1,2 mm, e a altura da cauda da sobrancelha, 2,4 mm e 1,8 mm, nos mesmos tempos. A melhora global foi registrada em 90,9% aos 6 meses e 77,8% aos 12 meses, com eventos adversos menores e transitórios. É uma coorte retrospectiva, sem grupo controle, e os autores a classificam como nível de evidência V.
Os dois trabalhos de Hong apontam para o mesmo plano: abaixo da fáscia temporal superficial, e não no subcutâneo, porque é ali que o fio fica separado da artéria — e foi nele que a coorte clínica trabalhou. O nervo pede uma precisão a mais dentro desse plano. Pela anatomia cirúrgica clássica da têmpora, o ramo temporal corre colado à face profunda da fáscia temporal superficial, e o plano seguro para ele é o que fica sobre a fáscia temporal profunda. Aplicado ao fio, o princípio é passar a cânula romba abaixo da fáscia superficial mas encostada na profunda, sem raspar a face de baixo da superficial; desvio de plano, para cima ou para baixo, é a falha que os estudos em cadáver descrevem.

Técnica, passo a passo
Modelo · Fio de cauda de sobrancelha pela rota temporal
- Avaliar sentada, em repouso e com a testa relaxada: medir a posição da cauda, comparar os lados e verificar se o frontal está compensando uma ptose (sobrancelha que cai quando a paciente relaxa a testa).
- Desenhar o vetor da cauda da sobrancelha em direção à têmpora, no ângulo que produz a forma desejada, e marcar o ponto de ancoragem acima da linha temporal superior.
- Desenhar as zonas de risco: o trajeto palpável da artéria temporal superficial e o triângulo do ramo temporal do nervo facial.
- Antissepsia ampla, incluindo a linha do cabelo, e anestesia do trajeto.
- Introduzir a cânula romba no plano abaixo da fáscia temporal superficial, mantendo-a junto à fáscia profunda; resistência uniforme ao longo do trajeto.
- Liberar o fio de modo que as espículas de um sentido prendam o tecido da cauda da sobrancelha e as do sentido oposto fiquem no ponto de ancoragem.
- Ajustar a tensão com a paciente sentada, conferindo a simetria de frente; corrigir o lado que ficou mais alto antes de cortar.
- Sepultar as extremidades e registrar produto, lote, número de fios e mapa dos vetores no prontuário.
Quanto se ganha e quanto dura
Os estudos mostram ganho real e modesto. Santorelli e colaboradores (2023, J Cosmet Dermatol) trataram 38 mulheres, com média de 35,5 anos, com ptose de sobrancelha leve a moderada ou sem ptose: todas ficaram satisfeitas, os escores do FACE-Q melhoraram aos 6 meses e o aumento ainda era significativo aos 12 meses, mais evidente nas mais jovens, e as pacientes voltaram à rotina no dia seguinte. Kim e colaboradores (2023, J Cosmet Dermatol) mediram 15 pacientes com fio multidirecional na testa e observaram um detalhe que vale contar antes do procedimento: na primeira semana, a sobrancelha estava abaixo da posição inicial; com 12 semanas, sobrancelha e pálpebra superior estavam significativamente mais altas que antes.
Quanto à duração, Park e colaboradores (2024) resumem o que a prática confirma: o efeito do fio na sobrancelha dura cerca de 6 meses, a melhora é mais sutil que a da cirurgia, o procedimento tem desconforto e precisa ser repetido conforme o efeito regride.
Complicações publicadas e como preveni-las
Assimetria
A assimetria pré-existente entre as sobrancelhas é comum, e o fio a amplifica se o vetor for o mesmo dos dois lados. Fotografar antes, medir os dois lados e ajustar a tensão sentada evita a maior parte dos casos. A outra origem é a interação com a toxina: a paciente que já faz toxina na testa pode ter um frontal enfraquecido de forma desigual, e a sobrancelha responde à soma dos dois. O planejamento da toxina para elevar a cauda está em toxina na sobrancelha; a queda e o efeito em asa, em queda da sobrancelha após toxina e efeito Mephisto.
Dimpling e fio visível
Com pouco subcutâneo na testa e na têmpora, o fio superficial marca a pele com facilidade: depressão no ponto em que a espícula prende o tecido, ou o trajeto visível sob a pele fina. O plano mais profundo afasta o fio da pele: na têmpora, abaixo da fáscia temporal superficial; na testa, abaixo do frontal. A conduta de cada caso está em complicações dos fios de sustentação.
Nervo
A lesão do ramo temporal é a complicação que mais pesa, porque a paciente perde a elevação da sobrancelha do lado afetado. Prantl e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg) estudaram em cadáver, com um caso clínico, duas técnicas minimamente invasivas de suspensão da sobrancelha por sutura — parentes próximas do fio. A técnica com menos suturas e abordagem periosteal reduziu o risco de aprisionar o nervo; a que usa várias suturas percutâneas ficou mais próxima do ramo frontal. Nos estudos clínicos dessa segunda técnica, segundo os autores, não houve lesão nervosa até agora, e, se ocorrer, ela seria temporária, com recuperação completa. O princípio vale para o fio: menos trajetos atravessando o triângulo do nervo e um plano bem controlado.
Vascular
Nouri e colaboradores (2023, Radiol Case Rep) descreveram uma jovem com massa pulsátil no couro cabeludo depois de um fio de sobrancelha: o Doppler mostrou fístula arteriovenosa dos vasos temporais superficiais, tratada de forma conservadora, com regressão quase completa. Massa pulsátil, sopro ou dor localizada na têmpora semanas depois do fio pedem ultrassom com Doppler. A prevenção é a do estudo em cadáver: plano entre as fáscias e cuidado ao avançar onde a artéria é esperada.
Extrusão
A extremidade do fio perto da cauda da sobrancelha e o ponto de entrada na linha do cabelo são os lugares em que o fio aflora. Extremidade bem sepultada, sem tensão excessiva no segmento distal, e antissepsia que inclua o couro cabeludo são a prevenção.
Onde a sobrancelha vira prática
Na sobrancelha, o resultado bom e o resultado ruim estão separados por poucos milímetros de plano. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o fio supraciliar — o foxy eyes — é um dos usos do PDO espiculado ensinados no Módulo A1, Face Avançada, com a anatomia de risco do ramo temporal do nervo facial, o vetor oposto à queda, a inserção, o tensionamento e o manejo de dimpling e extrusão. O pré-work gravado vem antes do sábado presencial em Brasília, com turma de até oito médicos; no sábado, a teoria é demonstração comentada e a prática é execução supervisionada em paciente modelo. Para a mecânica do vetor na face inteira, veja como aplicar fios de PDO na face; os módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Quanto o fio de foxy eyes levanta a sobrancelha?
Alguns milímetros. Na coorte retrospectiva de Hong e colaboradores (2026), com 22 mulheres e fio espiculado ancorado acima da linha temporal superior, a cauda da sobrancelha subiu 2,4 mm aos 6 meses e 1,8 mm aos 12 meses, e a inclinação do canto lateral passou de 2,1° para 4,3° e 3,6° nos mesmos tempos.
Em que plano passa o fio na têmpora?
Abaixo da fáscia temporal superficial, e não no subcutâneo. Em cadáver, Hong, Park e Yi (2026) mostraram que o fio no subcutâneo ocupa a camada da artéria temporal superficial e a comprime sob tração, enquanto o fio entre as fáscias fica separado dela.
Qual nervo está em risco no fio de sobrancelha?
O ramo temporal (frontal) do nervo facial. Ele corre num triângulo entre a borda inferior do arco zigomático, o ramo frontal da artéria temporal superficial e a vertical do ponto mais alto da eminência frontal, logo abaixo da fáscia temporoparietal. A lesão tira a elevação da sobrancelha do lado afetado.
Quanto tempo dura o fio na sobrancelha?
Cerca de 6 meses de efeito, segundo Park e colaboradores (2024), com melhora mais sutil que a da cirurgia e necessidade de repetir conforme regride. Em outra série, de 38 mulheres, a melhora no FACE-Q ainda era significativa aos 12 meses.
É normal a sobrancelha ficar mais baixa logo depois do fio?
Pode acontecer nos primeiros dias. Kim e colaboradores (2023) mediram 15 pacientes: na primeira semana a sobrancelha estava abaixo da posição inicial, e com 12 semanas sobrancelha e pálpebra superior estavam significativamente mais altas que antes. Vale avisar a paciente antes.
Massa pulsátil na têmpora depois do fio é grave?
Precisa de ultrassom com Doppler. Há relato de fístula arteriovenosa dos vasos temporais superficiais depois de fio de sobrancelha (Nouri et al., 2023), tratada de forma conservadora; Hong, Park e Yi (2026) citam também o pseudoaneurisma da artéria temporal superficial entre as complicações vasculares de procedimentos com fio.
Posso combinar fio e toxina na sobrancelha?
Sim, mas a sobrancelha responde à soma dos dois. O frontal é o único elevador; toxina que o enfraquece de forma desigual cria assimetria que o fio não corrige. O planejamento da toxina para elevar a cauda deve conversar com o vetor do fio.
Referências
- Hong GW, Choi W, Wong IKJ, Liang BC, Lee HE, Kim JH, Yi KH. Anatomical Considerations in Lateral Canthal Ptosis and Temporal Hairline Lifting with Sihler Threads. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2026;14(8):e7964. · PMID 42578186 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007964
- Hong GW, Park SY, Yi KH. Risk of Superficial Temporal Artery Injury During Temporal Hairline Cogged Thread Lifting: Cadaveric Comparison of Subcutaneous and Interfascial Thread Planes. J Craniofac Surg. 2026. · PMID 42113002 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012810
- Park SY, Kim SB, Wan J, Techapichetvanich T, Tsay TJ, Sirisuk T, Yi KH. Anatomical perspectives of brow-lifting using threads: Clinical cases with techniques. J Cosmet Dermatol. 2024;23(12):4140-4145. · PMID 39135300 · DOI 10.1111/jocd.16505
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- Lei T, Xu DC, Gao JH, et al. Using the frontal branch of the superficial temporal artery as a landmark for locating the course of the temporal branch of the facial nerve during rhytidectomy: an anatomical study. Plast Reconstr Surg. 2005;116(2):623-629. · PMID 16079700 · DOI 10.1097/01.prs.0000174001.95115.9e
- Tellioğlu AT, Tekdemir I, Erdemli EA, Tüccar E, Ulusoy G. Temporoparietal fascia: an anatomic and histologic reinvestigation with new potential clinical applications. Plast Reconstr Surg. 2000;105(1):40-45. · PMID 10626968 · DOI 10.1097/00006534-200001000-00007
- Jung KH, Lee W, Kim SH. Evaluation of a Novel Method for Temporary Eyebrow Lifting Using Polydioxanone Threads: Preliminary Findings. J Clin Med. 2025;14(2):490. · PMID 39860496 · DOI 10.3390/jcm14020490
- Santorelli A, Cirillo P, Fundarò SP, Cavallini M, Salti G, Avvedimento S. Eyebrow lifting with barbed threads: A simple, safe, and effective ambulatory procedure. J Cosmet Dermatol. 2023;22(1):140-145. · PMID 35441792 · DOI 10.1111/jocd.15006
- Kim H, Jung J, Choi SW, Yun CW, Lee W. Eyebrow lifting using multidirectional absorbable thread. J Cosmet Dermatol. 2023;22(10):2780-2784. · PMID 37060183 · DOI 10.1111/jocd.15771
- Prantl L, Anker AM, Hamoshi L, et al. Anatomical Insights into Frontal Branch Preservation in Minimally Invasive Brow Lift Techniques: A Comparative Analysis of Anatomical Lift Prantl's Suture Suspension (ALPS) Versus Gliding Brow Lift (GBL). Aesthetic Plast Surg. 2026;50(8):2929-2937. · PMID 41286172 · DOI 10.1007/s00266-025-05455-x
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