Fios no nariz: técnica e limites
Fios de sustentação

Fios no nariz: técnica e limites

O fio no nariz promete rinomodelação sem preenchedor, mas os estudos medem ganhos de altura em torno de um milímetro e as séries de revisão mostram fio extruso na ponta, infecção e nódulo anos depois — com um material que a hialuronidase não desfaz. Abaixo, o que o fio entrega, o plano que protege a artéria dorsal do nariz, as complicações publicadas e quando a resposta é ácido hialurônico ou rinoplastia.

O fio no nariz faz mudanças pequenas — um pouco mais de projeção e rotação da ponta, um dorso que parece mais reto — e as faz com um material que, ao contrário do ácido hialurônico, não se desfaz com enzima. Os estudos clínicos mostram satisfação boa em séries pequenas; as séries de complicação mostram extrusão na ponta, infecção, nódulo tardio e, quando o fio precisa sair, perda de suporte que pede cirurgia. É uma técnica de indicação estreita, que exige plano profundo na linha média e uma conversa franca sobre o que acontece se der errado.

O que o fio faz no nariz

Dois desenhos aparecem na literatura. Os fios lisos ou de preenchimento (os chamados fios volumizadores, em malha, tubo ou espiral) são colocados ao longo do dorso para dar altura e regularidade. Os fios espiculados entram pela ponta, em direção à columela ou ao dorso, para sustentar e rodar a ponta para cima. Em nenhum dos dois o fio substitui cartilagem: ele cria um trajeto de tecido fibroso e, enquanto está íntegro, um pequeno suporte mecânico.

Kim (2026, Plast Reconstr Surg Glob Open), autor único, mediu esse efeito com ultrassom e escâner 3D numa análise retrospectiva de 23 pacientes tratados com fios de PDO enrolados (JAMBER), em média 2,85 fios no dorso e 1,75 na columela. A altura nasal aumentou 1,387 mm no primeiro mês e ainda estava 1,005 mm acima do início aos 12 meses; o volume ganho caiu de 0,771 mL para 0,552 mL no mesmo intervalo. O diâmetro do fio diminuiu de 1,113 mm para 0,857 mm em 12 meses, sinal da absorção gradual, enquanto a espessura de partes moles subiu de 1,213 mm para 1,403 mm, o que o autor interpreta como formação de colágeno. Não houve infecção nem extrusão nessa série. O estudo foi financiado pelo próprio autor.

Os números dão a escala: na média dessa série, pouco mais de um milímetro de altura no primeiro mês e cerca de um milímetro aos 12 meses. Para quem precisa de mais do que isso, o fio não é a ferramenta.

O que os estudos clínicos mostram

Sulyman e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) acompanharam prospectivamente 10 adultos que queriam mais rotação da ponta ou menos giba dorsal, tratados só com fios de PDO. Duas semanas depois, o FACE-Q mostrou melhora significativa da função social, da função psicológica e da satisfação com o nariz, e queda do desconforto psicossocial com a aparência; 146 avaliadores cegos deram notas melhores na primeira impressão. As medidas do próprio nariz, porém, não mudaram de forma estatisticamente significativa: redução da giba, aumento do ângulo nasolabial e razão de Goode tiveram p de 0,15, 0,48 e 0,16. Não houve evento adverso maior. Os autores concluem que o fio isolado serve para mudanças nasais pequenas, sobretudo de rotação da ponta e de aparência da giba.

Ziade e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) compararam três abordagens em 85 pacientes: preenchedor de ácido hialurônico com toxina (63), fio farpado com toxina (9) e fio seguido de preenchedor e toxina (13). Com 1 mês e com 1 ano, a combinação tripla teve os maiores escores de FACE-Q para o nariz e a menor perda de efeito; entre preenchedor com toxina e fio com toxina, não houve diferença. Os efeitos adversos registrados em 48 horas tinham desaparecido em uma semana nos três grupos. O desenho tem um limite que importa: os grupos são muito desiguais em tamanho, e a comparação mede satisfação, não forma.

A leitura conjunta é coerente com a anatomia: o fio, sozinho, entrega pouco; somado ao preenchedor e à toxina, entra como mais uma camada de um plano de rinomodelação. Para a toxina na ponta, veja toxina no nariz para a ponta caída.

Nariz em 3/4 com nasal transverso e depressor do septo em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Nariz em 3/4 com o nasal transverso cruzando o dorso e o depressor do septo descendo da base da columela ao lábio, em destaque. O depressor puxa a ponta para baixo ao sorrir; é o músculo que a toxina enfraquece quando o plano da ponta inclui toxina.

Plano: profundo e na linha média

O raciocínio vascular do fio no nariz é o mesmo do preenchedor. Choi e colaboradores (2018, J Cosmet Dermatol) dissecaram 31 narizes de cadáveres asiáticos para localizar a artéria dorsal do nariz. Em média, ela corre a 4,4, 4,6 e 5,2 mm da linha média nos três níveis medidos do dorso; no nível do osso nasal, corre acima da camada muscular, e na porção cartilaginosa do dorso aprofunda e passa abaixo da camada fibromuscular. A conclusão dos autores é que o depósito na camada de gordura profunda reduz o risco de lesão arterial — com uma ressalva: no nariz com giba, a ponta do instrumento que avança no plano profundo sobe em direção à superfície ao passar pela convexidade, e é ali que a chance de atingir a artéria aumenta.

Corte sagital do dorso nasal com depósito no plano profundo da linha média — Dr. Thiago Perfeito
Corte sagital do dorso nasal com o depósito (em destaque) no plano profundo, junto ao osso e à cartilagem, na linha média. É o mesmo plano que orienta o fio de dorso: abaixo da camada fibromuscular onde corre a artéria dorsal do nariz na porção cartilaginosa, e com atenção redobrada sobre a giba.

Hong, Wan e Yi (2024, J Dermatolog Treat), ao descrever os fios volumizadores em malha para o nariz, insistem no mesmo ponto: o fio vai na camada de gordura profunda, abaixo da camada fibromuscular, para evitar complicação vascular. Três regras práticas decorrem disso.

Complicações: o que as séries mostram

A revisão de casos de Park e colaboradores (2024, Skin Res Technol) lista o que dá errado no fio de nariz: fio visível, protrusão pela pele ou pela mucosa oral, migração, infecção, dimpling e granuloma. A mensagem dos autores é de intervenção precoce: o fio que começa a aparecer ou o ponto que inflama não se observa à espera de melhora.

Extrusão e irregularidade

Jin e Kim (2022, Clin Exp Otorhinolaryngol) revisaram sete pacientes que precisaram de rinoplastia de revisão por complicação de fio. O fio visível ou extruso na ponta foi a complicação mais comum, seguido de irregularidade do dorso. Em todos, os fios estavam intactos e não absorvidos, mesmo anos depois da inserção. A retirada exigiu dissecção cuidadosa e terminou em perda do suporte da ponta e irregularidade dorsal, corrigidas com enxerto de tecido autólogo.

Nódulo e granuloma tardios

Dois relatos com o mesmo autor sênior mostram que o problema pode aparecer muito depois. Lee e Min (2024, J Craniofac Surg) atenderam uma paciente com lesão firme, de aspecto de giba, no dorso, 12 meses após rinoplastia com fio farpado; na revisão, os fios no dorso e na ponta não tinham sido reabsorvidos e formavam, com o tecido ao redor, uma massa aderida. Kim e Min (2022, J Craniofac Surg) retiraram uma massa septal que surgiu 10 anos depois de uma rinoplastia: havia fios farpados dentro dela, provavelmente colocados naquela rinoplastia, e o exame mostrou lesão inflamatória crônica, possivelmente por corpo estranho. No fio não absorvível o risco tardio é explícito: Altuna-Roshkova e colaboradores (2025, Int J Surg Case Rep) trataram, 10 anos depois de uma rinomodelação com fios de tensão não absorvíveis, extrusão, granuloma e ruptura parcial de cartilagem alar, com rinosseptoplastia aberta e enxerto.

Infecção

Setúbal e colaboradores (2026, POCUS J), no Brasil, descreveram uma mulher de 42 anos, diabética, que desenvolveu edema, dor e drenagem purulenta logo após rinomodelação com ácido hialurônico e fios de PDO farpados. O ultrassom à beira do leito mostrou abscesso em torno do nó de um fio e coleções ao longo do dorso, e guiou a retirada completa dos fios em tempo real; a histologia confirmou inflamação granulomatosa.

Risco vascular

Kim (2026) conclui que os fios que estudou não têm risco de complicação vascular. Esse é o ponto em que a afirmação precisa ser lida com cuidado: a série dele não teve evento vascular, mas um caso publicado no mesmo ano (Mlosek, 2026, Diagnostics (Basel)) mostrou fios de PDO e depósitos de ácido hialurônico junto à artéria dorsal do nariz, com alteração de fluxo atribuída provavelmente à compressão pelos fios — está descrito em complicações dos fios de sustentação. O fio não deposita material dentro do vaso, como o preenchedor pode fazer; mas atravessa a mesma região, e a anatomia de Choi vale para ele. O mapa vascular do nariz está em zonas de risco vascular da face e em riscos de cegueira e necrose na rinomodelação.

Bisel de agulha penetrando junto a um vaso e ponta romba de cânula afastando o vaso — Dr. Thiago Perfeito
À esquerda, o bisel de uma agulha corta o tecido junto a um vaso; à direita, a ponta romba de uma cânula afasta o vaso ao avançar. Os fios de nariz são levados por agulha montada ou por cânula: a ponta romba reduz a chance de perfurar, mas o fio que fica ao lado do vaso ainda pode comprimi-lo.

Limites: fio, ácido hialurônico ou rinoplastia

O que se querFioÁcido hialurônicoRinoplastia
Disfarçar giba pequenaMudança discretaCamufla preenchendo acima e abaixo da gibaRemove a giba
Rodar e projetar a pontaPouco, temporárioProjeta com volume na ponta e na columelaReestrutura a ponta
Corrigir desvio, dorso largo, base alarNãoCamuflagem parcial do desvioSim
Problema funcional respiratórioNãoNãoSim
Reverter se o resultado não agradarSó retirando o fio, com dissecçãoHialuronidaseRevisão cirúrgica

A última linha é a que mais pesa na decisão. O ácido hialurônico mal posicionado se dissolve com hialuronidase (a dose por cenário está em dose de hialuronidase por cenário); o fio, não. Se ele extrui, infecta ou forma nódulo, sai por retirada — e as séries de revisão mostram que a retirada na ponta e no dorso pode custar suporte e tecido. A técnica de preenchimento por segmento está em rinomodelação por dorso, ponta e ângulo nasolabial e em preenchimento de nariz com cânula ou agulha.

Quem não é candidato

Onde o nariz se aprende

No nariz, a segurança vem da mesma anatomia para qualquer material: linha média, plano profundo, mapa da artéria dorsal e da angular. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o nariz entra pela rinomodelação com ácido hialurônico, no Módulo A1, Face Avançada: por que é zona de risco máximo, as contraindicações absolutas e a técnica por segmento. Os fios estão no mesmo módulo, discriminados por produto e por região — PDO, PLA/PCL e Aptos, com o PDO espiculado para supercílio, jowl e pescoço —, e o nariz não está entre as regiões de fio da grade. Antes do sábado presencial em Brasília o médico assiste ao pré-work gravado; no sábado, com turma de até oito, a teoria é demonstração comentada e a prática é execução supervisionada em paciente modelo. Os critérios para escolher uma formação nessa área estão em melhor curso de rinomodelação; os módulos, em Cursos.

Perguntas frequentes

Fio de PDO no nariz funciona?

Para mudanças pequenas. Em 10 pacientes tratados só com fio, Sulyman e colaboradores (2024) viram melhora significativa da satisfação no FACE-Q, mas as medidas da giba, do ângulo nasolabial e da razão de Goode não mudaram de forma estatisticamente significativa. Com fios de PDO enrolados, Kim (2026) mediu ganho de altura de 1,005 mm aos 12 meses.

Em que plano se coloca o fio no nariz?

Na linha média, na gordura profunda, abaixo da camada fibromuscular. Choi e colaboradores (2018) mostraram que a artéria dorsal do nariz aprofunda na porção cartilaginosa do dorso e que, sobre a giba, o instrumento que avança no plano profundo tende a subir em direção a ela.

A hialuronidase dissolve o fio?

Não. A hialuronidase age sobre o ácido hialurônico. Fio que extrui, infecta ou forma nódulo sai por retirada, e as séries de revisão mostram que a retirada na ponta e no dorso pode exigir enxerto para recuperar o suporte.

Quais são as complicações do fio no nariz?

Fio visível ou extruso na ponta, irregularidade do dorso, migração, infecção, dimpling e granuloma. Há relato de massa firme no dorso 12 meses depois e de massa inflamatória crônica no septo 10 anos depois de rinoplastia com fio farpado, e de abscesso em torno do nó do fio em paciente diabética.

Fio no nariz tem risco vascular?

Não é zero. Os autores das séries com fio o descrevem como menor que o do preenchedor, porque o fio não deposita material dentro do vaso; mas ele atravessa a região da artéria dorsal do nariz, e Mlosek (2026) publicou um caso de alteração de fluxo nessa artéria atribuída provavelmente à compressão por fios de PDO.

Fio no nariz substitui a rinoplastia?

Não. O fio não corrige desvio, dorso largo, base alar nem problema respiratório. Na série de Ziade e colaboradores (2025), a maior satisfação veio da combinação de fio, preenchedor e toxina — e mesmo ela mede satisfação, não mudança estrutural.

Referências

  1. Kim JS. Coiled Polydioxanone Threads (JAMBER) for Nasal Augmentation: Efficacy, Longevity, and Safety. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2026;14(5):e7500. · PMID 42164959 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007500
  2. Sulyman O, Cristel R, Gandhi N, et al. Non-surgical rhinoplasty using polydioxanone threads. J Cosmet Dermatol. 2024;23(1):199-206. · PMID 37539496 · DOI 10.1111/jocd.15894
  3. Ziade G, Saade R, Daou D, et al. Nasal Reshaping Using Barbed Threads Combined With Hyaluronic Acid Filler and Botulinum Toxin A. J Cosmet Dermatol. 2025;24(2):e70047. · PMID 39936459 · DOI 10.1111/jocd.70047
  4. Choi DY, Bae JH, Youn KH, et al. Topography of the dorsal nasal artery and its clinical implications for augmentation of the dorsum of the nose. J Cosmet Dermatol. 2018;17(4):637-642. · PMID 30058278 · DOI 10.1111/jocd.12720
  5. Hong GW, Wan J, Yi KH. Anatomical consideration and techniques in thread nose augmentation with mesh scaffold implant. J Dermatolog Treat. 2024;35(1):2410246. · PMID 39467567 · DOI 10.1080/09546634.2024.2410246
  6. Park SY, Kim SB, Suwanchinda A, Yi KH. Non-surgical rhinoplasty through minimal invasive nose thread procedures: Adverse effects and prevention methods. Skin Res Technol. 2024;30(2):e13590. · PMID 38279564 · DOI 10.1111/srt.13590
  7. Jin HR, Kim SJ. Presentation Patterns and Surgical Management of the Complications of Thread Rhinoplasty. Clin Exp Otorhinolaryngol. 2022;15(3):247-253. · PMID 35413169 · DOI 10.21053/ceo.2022.00101
  8. Lee SB, Min HJ. Complications of a Barbed Thread in Rhinoplasty. J Craniofac Surg. 2024;35(4):e336-e338. · PMID 38345937 · DOI 10.1097/SCS.0000000000010012
  9. Kim KS, Min HJ. Benign Nasal Mass as a Delayed Complication of Barbed Thread Rhinoplasty. J Craniofac Surg. 2022;33(5):e503-e505. · PMID 34897200 · DOI 10.1097/SCS.0000000000008434
  10. Altuna-Roshkova Y, Villarreal G, Villarroel-Mosquera D, et al. Late complication due to rhinoplasty with non-absorbable tension threads: A case report. Int J Surg Case Rep. 2025;132:111465. · PMID 40440948 · DOI 10.1016/j.ijscr.2025.111465
  11. Setúbal RA, Solidonio RB, Martins LFB, et al. POCUS in the Management of Complications with Barbed Polydioxanone (PDO) Threads in Aesthetic Medicine: Case Report. POCUS J. 2026;11(1):82-85. · PMID 42131552 · DOI 10.24908/pocusj.v11i01.19968
  12. Mlosek RK. The Usefulness of High-Frequency Ultrasound in Assessing Complications After Minimally Invasive Aesthetic Medicine Procedures, Using the Example of Assessing Blood Flow in the Dorsal Artery of the Nose. Diagnostics (Basel). 2026;16(2):271. · PMID 41594247 · DOI 10.3390/diagnostics16020271
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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