Rinomodelação: riscos de cegueira e necrose e como prevenir
Duas complicações, dois prognósticos
Necrose e cegueira nascem do mesmo evento — gel dentro de uma artéria —, mas têm destinos diferentes: a pele isquêmica, tratada a tempo, costuma se recuperar; a retina tolera muito pouco. É por isso que a prevenção no nariz tem duas metas ao mesmo tempo: evitar a entrada intravascular e, se ela acontecer, enxergá-la antes que o território perca a janela de reversão.
A revisão sistemática de Zhuang e colaboradores (2023, Plast Reconstr Surg Glob Open), que reuniu os casos publicados de embolia após preenchimento facial, encontrou fronte, sobrancelha e nariz entre os locais de injeção mais associados ao evento. As manifestações principais foram alteração visual, necrose de pele e ptose — e o prognóstico se dividiu: a perda visual evoluiu mal, enquanto a necrose de pele e a ptose em geral melhoraram com o tratamento. O caminho anatômico que leva o êmbolo do nariz até a retina está explicado em cegueira por preenchimento: mecanismo e o que fazer; aqui o foco é o que o injetor faz para que esse caminho não seja percorrido.
O tamanho do risco no nariz
A complicação grave é rara na rinomodelação, e a complicação leve é comum — as duas informações precisam estar na conversa com a paciente e no planejamento do médico.
Song e colaboradores (2024, Aesthetic Plast Surg) revisaram 30 estudos com 9.657 pacientes tratados no nariz, 96,76% deles com ácido hialurônico. A incidência global de complicações foi de 39,11%, puxada por eritema e edema (27,95%); as complicações vasculares graves — cegueira, necrose de pele e acidente vascular cerebral — chegaram a 0,27%. Os autores apontam o conhecimento da anatomia dos vasos nasais e a precisão técnica como a base da prevenção.
O risco não é exclusivo de quem está começando. No levantamento de Goodman e colaboradores (2016, Aesthetic Plast Surg), enviado a injetores que atuam como formadores em vários países, 71% dos 52 respondentes tinham 11 anos ou mais de prática, e 62% relataram ao menos uma injeção intravascular. Entre os eventos, o nariz e o sulco nasogeniano foram as áreas mais acometidas, com 39% dos casos cada. Na metanálise de Chakhachiro e Waseem (2025, Cureus), com 14 estudos, glabela, nariz e sulco nasogeniano foram as regiões mais implicadas em oclusão — áreas de vascularização complexa.
Na prática, isso muda o tom da seleção: a pergunta não é se o injetor é experiente o bastante para nunca ter um evento, e sim se o consultório está montado para reconhecê-lo e tratá-lo na primeira hora.
Quem tem pele de risco: a triagem antes da agulha
A prevenção mais eficiente acontece antes de abrir a seringa: identificar o nariz cuja pele tem menos reserva de irrigação e decidir, com calma, se aquele caso é para aquele injetor.
O nariz já operado é o primeiro filtro. A cirurgia deixa cicatriz, pele aderida ao esqueleto e irrigação redistribuída. A revisão de Lazzeri e colaboradores (2012, Plast Reconstr Surg), que reuniu os casos de cegueira após injeção cosmética na face, inclui entre as precauções evitar injetar em tecido previamente traumatizado. Isso não fecha a porta ao nariz operado: na série de Harb e Abdul-Razzak (2024, Plast Reconstr Surg Glob Open), com 2.088 correções não cirúrgicas de rinoplastia, o volume médio no tratamento inicial foi de 0,49 mL e três pacientes apresentaram necrose de pele, todas transitórias e com resolução espontânea. Mas é um cenário de injetor experiente, volume contido e vigilância maior.
A literatura de rinoplastia cirúrgica ajuda a ler a pele. Na revisão de Ferzli e colaboradores (2021, Facial Plast Surg), com 18 casos de comprometimento vascular cutâneo após rinoplastia cirúrgica, o tabagismo apareceu em 23,5% dos pacientes e a cirurgia revisional foi fator de risco; o dorso foi a subunidade mais atingida, seguido da ponta. Os autores propõem avaliar a pele do nariz antes de indicar a cirurgia — o mesmo exame serve ao injetor.
- Rinoplastia prévia, sobretudo revisional, e qualquer procedimento recente no nariz.
- Preenchedor anterior no nariz, em especial permanente ou de composição desconhecida.
- Tabagismo e pele fina, aderida, com cicatriz ou com sinais de sofrimento prévio.
- Evento vascular anterior em qualquer região da face.
- Expectativa que só a cirurgia entrega — reduzir, estreitar, corrigir desvio funcional. Os demais motivos para não injetar estão em quando não aplicar injetável.

As variáveis que o injetor controla
Quatro variáveis estão inteiramente na mão do médico: o volume de cada depósito, a pressão no êmbolo, o instrumento e a leitura da pele durante a injeção. As precauções reunidas por Lazzeri e colaboradores vão nessa direção: agulhas, seringas e cânulas de pequeno calibre; injeção de baixa pressão, com a menor quantidade possível de produto, em vez de bolus; volume total da sessão limitado; e aspiração antes de injetar.
- Volume por depósito. No nariz, cada ponto recebe pouco. A pele tem pouca folga, e volume em excesso comprime de fora os mesmos vasos que se quer preservar. O plano de pontos se escreve antes e não cresce na mesa.
- Pressão e velocidade. Injeção lenta, com o polegar leve. A coluna de gel só sobe contra o fluxo arterial quando a pressão vence a do vaso; injetar devagar e pouco é o que mantém essa conta a favor do paciente.
- Aspiração. Na conduta do Dr. Thiago com preenchedor, a aspiração é feita sempre, e por mais tempo quando a agulha é 29–30G. É uma camada de segurança entre outras. No protocolo de Ortiz Middleton e Guzman (2025, Aesthet Surg J Open Forum), com 4.400 procedimentos guiados por Doppler, houve 365 aspirações positivas (8,3%), o que mostra que o teste flagra vasos de verdade — e, mesmo assim, registraram-se 20 eventos vasculares (0,45%), todos resolvidos sem sequela com hialuronidase em alta dose.
- Instrumento. A cânula de ponta romba tende a afastar o vaso em vez de perfurá-lo, e uma entrada única ajuda a manter o instrumento no plano profundo; a agulha perpendicular, tocando osso ou pericôndrio, dá precisão de ponto. Nenhum dos dois zera o risco: o que decide é o plano e o volume.

Os 20 eventos da série de Ortiz Middleton e Guzman não se distribuíram por igual: 18 aconteceram na ponta e 2 na columela. A ponta e a supraponta são onde os ramos terminais convergem para a linha média, e é ali que o volume por ponto deve ser o menor da sessão. O detalhe de onde cada artéria corre, segmento por segmento, está em como fazer rinomodelação: pontos, planos e zonas de risco, e o mapa da face inteira em anatomia vascular da face para injetáveis.

Reconhecer na mesa: o sinal pode vir sem dor
O sinal mais frequente de injeção intravascular não é a dor — é a mudança de cor da pele, e quase metade dos eventos vem com pouca ou nenhuma dor. No levantamento de Goodman, os primeiros sinais mais relatados foram livedo discreto (63% dos casos), palidez (41%) e dor (37%); a dor foi leve ou ausente em 47% dos eventos. Quem espera a queixa de dor para parar deixa passar quase metade dos eventos.
O roteiro de observação durante a sessão:
- Branqueamento que aparece no momento do depósito e não volta em segundos, no dorso, na ponta, na asa ou na columela.
- Livedo: rendilhado violáceo que se desenha no território de um ramo, às vezes longe do ponto injetado — na asa, na parede lateral, no lábio superior.
- Enchimento capilar lento ao pressionar a pele do território suspeito, comparado com o lado oposto.
- Dor fora de proporção ao volume injetado, quando existe.
- Qualquer queixa visual — borramento, perda de campo, dor no olho — ou alteração neurológica: emergência, com o protocolo de olho acionado na hora.
Qualquer um desses sinais encerra a injeção naquele ponto. Não se continua o planejamento “para terminar o lado”.
Reconhecer depois: as horas e os dias seguintes
Parte das oclusões se revela depois que a paciente saiu, e o canal de contato combinado na alta é parte do protocolo de prevenção. Edema e equimose são esperados; o que preocupa é a dor que aumenta em vez de diminuir, a pele que escurece em mancha ou em rendilhado, e o aparecimento de bolhas ou pústulas no território de um vaso — sinais de que a isquemia avança e de que o caso é de atendimento no mesmo dia.
Modelo · Orientação de alta depois da rinomodelação
- O que é esperado: inchaço discreto e roxo pequeno nos pontos, que melhoram dia a dia.
- O que pede contato imediato: dor que piora, mancha roxa ou rendilhada que se espalha, pele que fica escura, bolhas ou pontos de pus, qualquer alteração da visão.
- Como falar com a equipe: um canal que responde no mesmo dia, com foto do nariz em boa luz.
- Retorno: combinado na alta, para conferir pele e resultado.
Foto enviada pela paciente com a pele marmórea na manhã seguinte é atendimento no mesmo dia, com avaliação presencial — não é caso para aguardar a revisão marcada.
Conduzir: o relógio conta a favor de quem age cedo
O desfecho da oclusão depende do vaso atingido e do tempo até o tratamento — e o tempo é a variável que o médico controla. Na metanálise de Chakhachiro e Waseem, a recuperação dependeu do vaso envolvido, com melhor prognóstico nas artérias menores, e atrasos além de cinco dias se associaram a déficit permanente; a hialuronidase nas oclusões por ácido hialurônico teve taxa de sucesso de 84,2%, com recuperação parcial ou total. No levantamento de Goodman, a hialuronidase foi usada logo no diagnóstico em 86% dos casos, a maioria cicatrizou sem intercorrência, 86% se resolveram em até 14 dias e só 7% ficaram com cicatriz moderada que pediu tratamento de superfície.
O protocolo da primeira hora está em oclusão vascular por ácido hialurônico; as doses de hialuronidase por situação, em dose de hialuronidase por cenário; e o uso do ultrassom para localizar o gel e o vaso, em hialuronidase guiada por ultrassom. A regra deste texto é anterior a todos eles: a hialuronidase está na sala antes de abrir o preenchedor, e o contato da emergência oftalmológica está combinado antes do primeiro nariz.
Checklist · Segurança na rinomodelação
- Triagem: rinoplastia prévia, preenchedor anterior, tabagismo, pele de risco.
- Plano escrito: pontos, ordem e volume máximo por ponto antes da primeira punção.
- Execução: plano profundo, linha média, alíquota pequena, injeção lenta, aspiração.
- Olhos na pele: branqueamento, livedo, enchimento capilar — com ou sem dor.
- Resgate: hialuronidase na sala, retaguarda oftalmológica combinada, canal de contato na alta.
Na conduta do Dr. Thiago, aparelho de energia na face só entra de 2 a 4 semanas depois do preenchedor no nariz.
Onde a segurança do nariz se treina
Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, a rinomodelação está no Módulo A1 · Face Avançada, que abre pela anatomia vascular de risco e pelos princípios de prevenção que valem para toda a face — aspiração, injeção lenta, microbolus e cânula — antes de chegar ao nariz, às suas contraindicações absolutas e à técnica por segmento. O conteúdo teórico vem no pré-work gravado; no sábado presencial, na clínica INTI, em Brasília, o nariz passa pela demonstração comentada na parte teórica e pela execução supervisionada do aluno em paciente modelo na parte prática, com a conduta de intercorrência discutida ao vivo. São no máximo oito médicos por turma. Os outros módulos estão em Cursos, e os textos técnicos de apoio, na Biblioteca.
Perguntas frequentes
Qual o risco de cegueira e necrose na rinomodelação?
Baixo, mas real. Na revisão sistemática de Song e colaboradores (2024), com 9.657 pacientes, as complicações vasculares graves — cegueira, necrose de pele e acidente vascular cerebral — somaram 0,27%. As complicações leves, como eritema e edema, foram muito mais frequentes.
A dor avisa quando o gel entrou num vaso?
Nem sempre. No levantamento de Goodman e colaboradores (2016) com injetores experientes, a dor foi leve ou ausente em 47% das injeções intravasculares. Os sinais mais frequentes foram livedo (63%) e palidez (41%). Por isso se olha a pele durante todo o depósito.
Quem já fez rinoplastia pode fazer rinomodelação?
Pode, mas é um caso para injetor experiente. Cicatriz, pele aderida e irrigação alterada reduzem a margem de segurança. Na série de Harb e Abdul-Razzak (2024), com 2.088 correções de rinoplastia com ácido hialurônico, três pacientes tiveram necrose de pele, todas transitórias e com resolução espontânea.
Aspirar antes de injetar no nariz evita a oclusão?
Ajuda, sem ser garantia. No protocolo de Ortiz Middleton e Guzman (2025), 8,3% das aspirações foram positivas, e ainda assim houve eventos vasculares em 0,45% dos procedimentos. Na conduta do Dr. Thiago com preenchedor, a aspiração é feita sempre, ao lado de plano profundo, volume pequeno e injeção lenta.
Qual a região do nariz com mais eventos vasculares?
A ponta. Na série de 4.400 procedimentos de Ortiz Middleton e Guzman, 18 dos 20 eventos vasculares aconteceram na ponta e 2 na columela. É onde os ramos terminais convergem para a linha média e onde o volume por ponto deve ser o menor.
Quais sinais depois da rinomodelação pedem contato imediato?
Dor que piora em vez de melhorar, mancha roxa ou rendilhada que se espalha, pele que escurece, bolhas ou pontos de pus no nariz, na asa ou no lábio superior e qualquer alteração da visão. A paciente precisa sair com um canal de contato que responda no mesmo dia.
O que fazer se aparecer branqueamento durante a injeção?
Parar naquele ponto e tratar como oclusão até prova em contrário: hialuronidase no território, conforme o protocolo de oclusão vascular e a dose por cenário. Queixa visual é emergência oftalmológica. Na metanálise de Chakhachiro e Waseem (2025), atrasos além de cinco dias se associaram a déficit permanente.
Referências
- Song D, Wang X, Yu Z. Nonsurgical Rhinoplasty: An Updated Systematic Review of Technique, Outcomes, Complications, and Its Treatments. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(23):4902-4915 — 30 estudos, 9.657 pacientes; complicações 39,11%; eritema e edema 27,95%; complicações vasculares graves 0,27%. · PMID 38862661 · DOI 10.1007/s00266-024-04161-4
- Goodman GJ, Roberts S, Callan P. Experience and Management of Intravascular Injection with Facial Fillers: Results of a Multinational Survey of Experienced Injectors. Aesthetic Plast Surg. 2016;40(4):549-555 — 52 respondentes; 62% com ao menos um evento; livedo 63%, palidez 41%, dor 37%; dor leve ou ausente em 47%; nariz 39%; 86% resolvidos em 14 dias. · PMID 27286849 · DOI 10.1007/s00266-016-0658-1
- Lazzeri D, Agostini T, Figus M, Nardi M, Pantaloni M, Lazzeri S. Blindness following cosmetic injections of the face. Plast Reconstr Surg. 2012;129(4):995-1012 — 32 pacientes; precauções: aspiração, calibres pequenos, baixa pressão, volume limitado, evitar tecido previamente traumatizado. · PMID 22456369 · DOI 10.1097/PRS.0b013e3182442363
- Harb A, Abdul-Razzak A. Nonsurgical Correction of Surgical Rhinoplasty Complications with Hyaluronic Acid Fillers: A Retrospective Review of 2088 Cases. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2024;12(9):e6126 — volume médio inicial 0,49 mL; três necroses de pele, transitórias e com resolução espontânea. · PMID 39247575 · DOI 10.1097/GOX.0000000000006126
- Ferzli G, Araslanova R, Sukato D, Romo T 3rd. Skin Necrosis Following Rhinoplasty: A Review and Proposed Strategy on Identifying High-Risk Patients. Facial Plast Surg. 2021;37(4):543-549 — 18 pacientes; tabagismo 23,5%; cirurgia revisional como fator de risco; dorso e ponta as subunidades mais atingidas. · PMID 34082455 · DOI 10.1055/s-0041-1730384
- Ortiz Middleton E, Guzman C. Novel Ultrasound-Assisted Nonsurgical Rhinoplasty Technique: Injection Guidelines From Evidence to Clinical Practice Based on 4400 Procedures. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf074 — 365 aspirações positivas (8,3%); 20 eventos vasculares (0,45%), 18 na ponta e 2 na columela, todos resolvidos sem sequela. · PMID 41141629 · DOI 10.1093/asjof/ojaf074
- Chakhachiro A, Waseem M. Risk Factor Analysis for Vascular Occlusions After Dermal Filler Injections: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cureus. 2025;17(4):e82800 — 14 estudos; glabela, nariz e sulco nasogeniano as regiões mais implicadas; atraso além de cinco dias associado a déficit permanente; hialuronidase com 84,2% de sucesso. · PMID 40406769 · DOI 10.7759/cureus.82800
- Zhuang J, Zheng Q, Su X, Jiang L, Hu J. Clinical Manifestations and Prognosis of Embolism Caused by Filler Injection in Different Facial Regions. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2023;11(8):e5225 — fronte, sobrancelha e nariz entre os locais mais associados; prognóstico visual ruim; necrose de pele e ptose em geral melhoraram com tratamento. · PMID 37650096 · DOI 10.1097/GOX.0000000000005225
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