Fototipo de Fitzpatrick: como ajustar as tecnologias
Tecnologias

Fototipo de Fitzpatrick: como ajustar as tecnologias

O fototipo é o primeiro número que entra na ficha antes de qualquer aparelho, e também um dos mais mal usados: ele mede resposta ao sol, não cor de pele, e pesa de forma muito diferente conforme a tecnologia dependa ou não da melanina. Abaixo, o que a escala mede, o que os estudos mostram sobre melanina e margem de segurança, e como a regulagem muda em cada família de aparelho.

O fototipo de Fitzpatrick muda a regulagem de uma tecnologia na proporção em que essa tecnologia depende da melanina. Laser e luz que miram pigmento são os que mais exigem ajuste em fototipo alto: comprimento de onda mais longo, energia e densidade menores, resfriamento e mais sessões. Laser fracionado que mira água pede, sobretudo, densidade contida. Radiofrequência e ultrassom, que não usam a cor da pele como alvo, mudam menos com o fototipo, mas não ficam isentos de mancha. E a escala, sozinha, não decide: ela foi feita para medir resposta ao sol, e o histórico de pigmento de cada paciente pesa tanto quanto o número.

O que a escala mede, e o que ela não mede

A classificação de Fitzpatrick é uma escala de fototipos "reativos ao sol", do I ao VI: é assim que a nomeia o título do artigo de 1988 em que o próprio Fitzpatrick discute sua validade e sua praticidade (Arch Dermatol). Ware e colaboradores (2020, Cutis), num levantamento entre médicos, lembram a origem: ela foi criada para estimar a tendência da pele a queimar durante a fototerapia, mas passou a ser usada como descrição de cor de pele e até de etnia, mistura que os autores pedem para evitar, reforçando o propósito original no ensino.

Essa mistura tem preço. He e colaboradores (2014, J Am Acad Dermatol) entrevistaram 3.386 pessoas de uma população etnicamente diversa e testaram se raça, sexo, cor da pele, dos olhos e dos cabelos previam o fototipo informado. Todos foram preditores significativos, mas fracos; o modelo que reuniu todos eles acertou o fototipo com até 1 ponto de erro em 92% dos casos, com concordância moderada (kappa ponderado de 0,53). Conclusão dos autores: raça e aparência são preditores imprecisos da sensibilidade ao sol. Para quem regula aparelho, isso significa perguntar e não estimar pela aparência.

A revisão de Harvey e colaboradores (2024, J Am Acad Dermatol) encontrou 17 sistemas de classificação de cor de pele em uso. A escala de Fitzpatrick é a mais usada e a mais validada; as demais têm pouca validação. Ou seja: ela continua sendo a ferramenta de trabalho, desde que lida como medida de resposta ao sol, e não de cor ou origem.

Seis blocos de pele em corte com quantidade crescente de melanina na camada basal — Dr. Thiago Perfeito
Seis blocos de pele em corte. Os grânulos de melanina, em âmbar, aumentam da esquerda para a direita e se concentram na camada basal e logo acima dela. É essa melanina da epiderme que compete com o alvo de laser e luz e que torna a regulagem mais estreita nos blocos da direita.

Por que a melanina muda a conta

A revisão de Dreifus e colaboradores (2026, J Am Acad Dermatol) resume o mecanismo: nos fototipos IV a VI, a melanina da epiderme é um cromóforo concorrente com espectro de absorção amplo. Parte da energia que deveria chegar ao folículo, ao vaso ou ao pigmento da lesão fica na epiderme, e é aí que nascem a hiperpigmentação pós-inflamatória, a hipopigmentação, a bolha e a cicatriz.

Um experimento recente, em animal, dá a medida dessa diferença. Arroyo e colaboradores (2026, J Biomed Opt) dispararam pulsos únicos de laser de 750 nm e 5 nanossegundos sobre a pele do abdome de três porcos com pigmentação diferente e calcularam a exposição que provoca lesão visível em metade dos pontos (ED50). No animal de pele escura, o ED50 foi 27,7% menor (323,94 mJ/cm²) que no de pele clara (448,36 mJ/cm²); no animal mais claro, não houve eritema visível dentro da faixa testada. Mesma energia, mesmo aparelho, margem de segurança menor na pele mais pigmentada.

Curvas dose-resposta de eritema uma hora após pulso de laser em pele de porco escura e clara, com o limiar ED50 — Dr. Thiago Perfeito
Probabilidade de eritema 1 hora depois de um pulso único de laser de 750 nm, conforme a exposição, no porco de pele escura (D1, à esquerda) e no de pele clara (L1, à direita). A linha tracejada vermelha marca o ED50: 323,94 mJ/cm² na pele escura contra 448,36 mJ/cm² na clara. Recorte (linha da avaliação de 1 hora) da Fig. 5 de Arroyo J et al., J Biomed Opt 2026 (PMID 42571480), adaptada sob licença CC BY.

O ajuste, família por família

A pergunta útil não é "esse aparelho pode em pele negra?", e sim "quanto este aparelho depende da melanina?". Por essa régua, as tecnologias se dividem em três grupos.

1. Laser e luz que miram pigmento ou usam a melanina como via

Depilação a laser, luz intensa pulsada, lasers de pigmento e vasculares. Aqui o ajuste é maior. Breadon e Barnes (2007, J Drugs Dermatol), revisando eventos adversos da depilação a laser e com luz em fototipos IV a VI, apontam o risco de discromia, bolha, crosta, edema e cicatriz, e registram que comprimentos de onda mais longos são considerados mais seguros nesses fototipos, porque a melanina da epiderme absorve menos. Dreifus e colaboradores citam o Nd:YAG Q-switched em baixa fluência e o Nd:YAG de picossegundo como opções de perfil favorável para pigmento e tatuagem em pele de cor. O detalhe de cada plataforma fica para a página de cada aparelho; o princípio é o mesmo para todas: onda mais longa, fluência mais baixa, resfriamento da epiderme e progressão por sessões.

Corte da pele com feixes de laser de comprimentos de onda diferentes penetrando em profundidades distintas — Dr. Thiago Perfeito
Três feixes de laser penetrando a pele em profundidades diferentes. Quanto mais longo o comprimento de onda, mais fundo o feixe chega e menos energia fica na melanina da epiderme; é por isso que a onda longa é a escolha mais segura nos fototipos altos.

2. Laser fracionado, que mira água

No fracionado, o cromóforo é a água, e o risco vem do calor somado. Chao, Porter e Hessler (2023, Facial Plast Surg) registram que os fracionados não ablativos, por mirarem água e não melanina, são particularmente mais seguros para fototipos altos. A regulagem que mais pesa é a densidade:

Ablativo em fototipo alto é a situação de maior risco do grupo: Dreifus e colaboradores registram taxa de complicação mais alta com as modalidades ablativas nesses fototipos. Três dos cinco autores dessa revisão declaram apoio de pesquisa, cessão de equipamento ou consultoria de fabricantes de aparelho. Os parâmetros de cada laser ablativo ficam nas páginas de cada um.

3. Radiofrequência e ultrassom, que não usam a cor como alvo

Na radiofrequência, o calor nasce da resistência do tecido à corrente; no ultrassom microfocado, da energia acústica concentrada num ponto da derme profunda ou do SMAS. Nenhum dos dois usa a melanina, e Chao e colaboradores incluem a radiofrequência de tensionamento, o ultrassom microfocado e a radiofrequência microagulhada entre as modalidades com bons resultados nos fototipos IV a VI. Seguro, aqui, não quer dizer imune: a agulha da radiofrequência microagulhada atravessa a epiderme, o calor de superfície ainda inflama, e a mancha pós-inflamatória continua possível. Os dados por fototipo do Morpheus8, com os estudos em fototipos V e VI, estão em Morpheus8 em pele negra; os da radiofrequência sem agulha, em XERF.

O fototipo do prontuário e o fototipo do dia

A classificação é constitucional, mas a pele que chega para a sessão pode estar mais pigmentada que o número anotado: exposição solar recente, mancha em atividade ou melasma em piora mudam a pele do dia. A regulagem segue a pele do dia; o bronzeado recente é assunto à parte nesta série. Também entra na anamnese o que a escala não pergunta: mancha depois de acne, de depilação ou de outro procedimento; cicatriz hipertrófica ou queloide; melasma; e medicamentos e tratamentos em curso que mudam a resposta da pele.

O teste em área pequena é a ferramenta clássica de quem tem dúvida. Wang e colaboradores (2025, Arch Dermatol Res) perguntaram a 66 médicos de uma associação acadêmica americana de procedimentos estéticos o que os levava a fazê-lo: os fatores mais citados foram o fototipo mais escuro (96,9%) e o tipo de laser (71,9%), e 87,3% acham que o paciente fica mais confortável quando o teste é feito; os motivos para dispensá-lo foram conhecer a pele e a reação do paciente (87,9%) e usar aparelho e regulagem de resultado conhecido (86,4%). Os autores defendem a criação de um protocolo padronizado.

A regulagem em fototipo alto, passo a passo

Modelo · ajuste da tecnologia pelo fototipo

  1. Perguntar o fototipo — queima e bronzeia como? A resposta da paciente vale mais que a impressão do médico (He, 2014).
  2. Somar o histórico de pigmento — mancha pós-inflamatória prévia, melasma, queloide, bronzeado recente; qualquer item positivo pede regulagem mais conservadora.
  3. Escolher a família pelo grau de dependência da melanina — quanto mais o aparelho depende de pigmento, mais estreita a janela em fototipo alto.
  4. Regular para baixo no começo — onda longa e fluência menor na luz e no laser de pigmento; densidade menor no fracionado; energia e passadas contidas na radiofrequência microagulhada.
  5. Resfriar a epiderme — a mancha perioral de Chan apareceu onde não houve resfriamento.
  6. Teste em área pequena quando houver dúvida — com retorno para ver a área antes de tratar o resto.
  7. Mais sessões, mais espaçadas — a recomendação de Wat, Wu e Chan para o fracionado; no Morpheus8, a conduta do Dr. Thiago Perfeito mantém no mínimo 30 dias entre sessões.
  8. Fotoproteção e plano de mancha combinados antes — a prevenção da hiperpigmentação pós-inflamatória começa na consulta, não depois da sessão.

Onde esse critério se aprende

A escolha da tecnologia pela camada e pelo tipo de pele é parte do bloco dedicado às tecnologias da clínica no módulo B2 · Colágeno, Qualidade de Pele e Tecnologias da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199) com atuação em Medicina Estética e Regenerativa, que mostra o que cada aparelho faz, em que camada age, quando entra no protocolo e o que fazer sem ele. A física da energia, da onda e do cromóforo fica no pré-work gravado; no sábado presencial, para até 8 médicos, a parte teórica é demonstração comentada e a parte prática é execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo. O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de aparelho citado nesta página. Os critérios para escolher um curso de aparelhos estão em como escolher um curso de tecnologias em estética.

Síntese

O fototipo de Fitzpatrick é uma escala de resposta ao sol, e é como resposta ao sol que ele deve entrar na regulagem: perguntado, não adivinhado, e somado ao histórico de pigmento. Quanto mais a tecnologia depende da melanina, mais o número pesa: luz e laser de pigmento pedem onda longa, fluência baixa e resfriamento; o fracionado pede densidade contida e mais sessões; radiofrequência e ultrassom mudam menos, mas seguem exigindo cuidado com a mancha. Os parâmetros por aparelho estão em Fotona 4D, Morpheus8 por região e ultrassom microfocado; os demais textos, na Biblioteca, e a grade presencial em Cursos.

Perguntas frequentes

O que a escala de Fitzpatrick mede?

A resposta da pele ao sol, do fototipo I (sempre queima, não bronzeia) ao VI. Ela foi criada para estimar a tendência a queimar durante a fototerapia (Ware, 2020). Usá-la como descrição de cor ou de etnia é um desvio do propósito original.

Dá para classificar o fototipo olhando a paciente?

Com pouca precisão. No estudo de He e colaboradores (2014), com 3.386 pessoas, raça e cor de pele, olhos e cabelo foram preditores fracos do fototipo; o modelo com todos esses fatores acertou o fototipo, com margem de 1 ponto, em 92% dos casos, com concordância só moderada. O fototipo se pergunta: como a pele queima e bronzeia.

Qual tecnologia muda mais com o fototipo?

A que usa a melanina como alvo ou como via: depilação a laser, luz intensa pulsada e lasers de pigmento e vasculares. Em fototipo alto, a melanina da epiderme compete com o alvo (Dreifus, 2026). Radiofrequência e ultrassom microfocado não usam a cor como alvo e mudam menos.

No laser fracionado, o que se ajusta primeiro em pele morena ou negra?

A densidade. Em asiáticas, aumentar a densidade produziu mais edema, vermelhidão e hiperpigmentação do que aumentar a energia (Kono, 2007), e a revisão de Wat, Wu e Chan (2017) recomenda mais sessões, em densidade menor e com intervalo maior.

Precisa fazer teste em área pequena antes de tratar fototipo alto?

É uma ferramenta, não uma regra fixa. No levantamento de Wang e colaboradores (2025), o fototipo mais escuro foi o fator mais citado para fazer o teste (96,9%), e conhecer a pele do paciente e usar regulagem de resultado conhecido foram os principais motivos para dispensá-lo. Os autores defendem um protocolo padronizado.

Pele mais escura sofre lesão com menos energia?

Com laser que interage com a melanina, sim. Em pele de porco, Arroyo e colaboradores (2026) mediram, com laser de 750 nm, um limiar de lesão 27,7% menor na pele escura (323,94 mJ/cm²) que na clara (448,36 mJ/cm²). É um estudo em animal, mas mostra a direção do ajuste.

Referências

  1. Fitzpatrick TB. The validity and practicality of sun-reactive skin types I through VI. Arch Dermatol. 1988;124(6):869-871. · PMID 3377516 · DOI 10.1001/archderm.124.6.869
  2. Ware OR, Dawson JE, Shinohara MM, Taylor SC. Racial limitations of Fitzpatrick skin type. Cutis. 2020;105(2):77-80. · PMID 32186531
  3. He SY, McCulloch CE, Boscardin WJ, et al. Self-reported pigmentary phenotypes and race are significant but incomplete predictors of Fitzpatrick skin phototype in an ethnically diverse population. J Am Acad Dermatol. 2014;71(4):731-737. · PMID 24928709 · DOI 10.1016/j.jaad.2014.05.023
  4. Harvey VM, Alexis A, Okeke CAV, et al. Integrating skin color assessments into clinical practice and research: A review of current approaches. J Am Acad Dermatol. 2024;91(6):1189-1198. · PMID 38342247 · DOI 10.1016/j.jaad.2024.01.067
  5. Dreifus EM, Burke OM, Alexis AF, Dover JS, Eber AE. Laser and energy-based device use in skin of color: A clinical review of safety, efficacy, and best practices. J Am Acad Dermatol. 2026 (online ahead of print). · PMID 42660430 · DOI 10.1016/j.jaad.2026.08.077
  6. Arroyo J, Zhang J, Tripathi M, et al. Pigmentation-dependent skin injury thresholds with nanosecond single-pulse laser exposure. J Biomed Opt. 2026;31(8):085001. · PMID 42571480 · DOI 10.1117/1.JBO.31.8.085001
  7. Breadon JY, Barnes CA. Comparison of adverse events of laser and light-assisted hair removal systems in skin types IV-VI. J Drugs Dermatol. 2007;6(1):40-46. · PMID 17373160
  8. Chao JR, Porter JP, Hessler J. Cosmetic Treatments with Energy-Based Devices in Skin of Color. Facial Plast Surg. 2023;39(5):496-500. · PMID 37557909 · DOI 10.1055/s-0043-1772197
  9. Chan HH, Manstein D, Yu CS, et al. The prevalence and risk factors of post-inflammatory hyperpigmentation after fractional resurfacing in Asians. Lasers Surg Med. 2007;39(5):381-385. · PMID 17518354 · DOI 10.1002/lsm.20512
  10. Kono T, Chan HH, Groff WF, et al. Prospective direct comparison study of fractional resurfacing using different fluences and densities for skin rejuvenation in Asians. Lasers Surg Med. 2007;39(4):311-314. · PMID 17457835 · DOI 10.1002/lsm.20484
  11. Wat H, Wu DC, Chan HH. Fractional resurfacing in the Asian patient: Current state of the art. Lasers Surg Med. 2017;49(1):45-59. · PMID 27605303 · DOI 10.1002/lsm.22579
  12. Goldman MP, Wu DC, Khetarpal S, et al. Dual 1550-nm Erbium Glass Fiber and 1927-nm Thulium Fiber Non-ablative Fractional Laser System Treatment in Patients With Skin of Color: A Review of Clinical Studies and Unmet Needs. Lasers Surg Med. 2026;58(3):169-179. · PMID 41668543 · DOI 10.1002/lsm.70108
  13. Wang JY, Patel P, Kabakova M, Cohen M, Jagdeo J. Factors influencing laser test spot practices among dermatologists: a cross-sectional survey of the association of academic cosmetic dermatology members. Arch Dermatol Res. 2025;317(1):633. · PMID 40137990 · DOI 10.1007/s00403-025-04159-1
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

Pós Prática em Medicina Estética Avançada

Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.

Conhecer a formação →