Herpes e procedimentos faciais: profilaxia
Complicações e segurança

Herpes e procedimentos faciais: profilaxia

O herpes que aparece poucos dias depois de um procedimento costuma ser autolimitado, mas no lugar errado ele atrasa a cicatrização, imita isquemia ou chega ao olho. Abaixo, por que agulha e laser reativam o vírus, o que os ensaios de resurfacing mostraram, o que se sabe do lábio e da toxina, como separar herpes de sofrimento vascular e em que cenário a profilaxia entra no plano.

O vírus do herpes simples fica latente nos gânglios sensitivos da face e volta à pele quando o tecido sofre trauma — e agulha, cânula, calor de laser e ferida aberta são trauma. A profilaxia antiviral se discute em dois cenários: o resurfacing ablativo, o peeling profundo e a dermoabrasão na face, em que ela tem ensaio clínico e recomendação de consenso, e o procedimento no lábio ou na região perioral de quem tem herpes labial recorrente, em que a decisão se toma na consulta, dentro da triagem e do plano de profilaxia que a diretriz do CMAC pede para os procedimentos estéticos. Em toxina e preenchimento fora do lábio, a reativação aparece em relatos isolados, e o que pesa é a pergunta na anamnese e saber reconhecer o quadro. A droga, a dose e o momento de início seguem a diretriz vigente e a avaliação do médico assistente; esta página não traz posologia.

Por que um procedimento reativa o vírus

A diretriz do Complications in Medical Aesthetics Collaborative, o CMAC (Vaghela e colaboradores, 2021, J Clin Aesthet Dermatol), parte de três observações: o herpes simples é comum na população geral, o trauma é um gatilho reconhecido de reativação e a reativação depois de procedimento estético é considerada rara. Mesmo autolimitada, ela é dolorosa e angustiante para quem fez um procedimento para melhorar a aparência, e por isso a diretriz pede que o médico registre o que fez para evitá-la e tenha um plano pronto se ela acontecer.

Kim e colaboradores (2020, J Clin Aesthet Dermatol), um grupo da Universidade Federal de São Paulo, resumem os mecanismos propostos para a reativação depois de preenchedor: lesão direta do axônio pela agulha, manipulação do tecido e a própria reação inflamatória. Segundo os autores, o herpes simples é o vírus mais envolvido, com incidência que não passa de 1,45% dos casos de complicação, e o herpes-zóster é ainda mais raro.

Laser e resurfacing: onde a profilaxia foi testada

O resurfacing ablativo é o cenário em que a reativação tem consequência maior, porque o vírus encontra uma pele sem epiderme. Beeson e Rachel (2002, Dermatol Surg) abrem o ensaio lembrando que, depois do laser de CO2, a reativação atrasa a reepitelização e pode deixar cicatriz. Na série de Sriprachya-Anunt e colaboradores (1997, Dermatol Surg), com 395 procedimentos de resurfacing com CO2 pulsado, um paciente ficou com cicatrizes atróficas múltiplas e persistentes por herpes simples disseminado localmente, apesar da profilaxia e do tratamento — o único da série com essa evolução; com tratamento adequado, a maioria dos pacientes infectados cicatrizou normalmente.

Dois ensaios randomizados testaram a profilaxia com valaciclovir nesse cenário. No de Beeson e Rachel, 120 pacientes de laser de CO2 receberam o antiviral em dois esquemas de duração diferente, ambos iniciados na véspera, e nenhum teve infecção ou recorrência de herpes. No de Gilbert e McBurney (2000, Dermatol Surg), 84 pacientes de resurfacing — laser de CO2, Er:YAG, peeling químico, dermoabrasão ou combinação — foram sorteados para começar o antiviral na manhã da véspera ou na manhã do procedimento; com cultura viral e 21 dias de seguimento, não houve reativação em nenhum dos dois grupos. São esquemas de protocolo de estudo, não posologia para copiar.

Três painéis de fibras de colágeno passando de desorganizadas a organizadas na cicatrização — Dr. Thiago Perfeito
Três painéis de fibras de colágeno, das desorganizadas às organizadas, representando as fases da cicatrização até a remodelação. O herpes que aparece enquanto a pele ainda está se fechando atrasa essa sequência e pode deixar cicatriz; é nessa janela, depois de um resurfacing ablativo, que a profilaxia mais pesa.

A recomendação mais recente veio do consenso de Labadie e colaboradores (2022, JAMA Dermatol) sobre entrega de ativos assistida por laser fracionado: profilaxia antiviral recomendada quando se trata a face e a região genital, antibiótico profilático só quando a cicatrização está comprometida e antifúngico profilático não recomendado. Os cuidados de antes e depois do laser ablativo estão em laser de CO2 fracionado, e os da entrega de ativos, em drug delivery após laser e microagulhamento.

Preenchimento labial e perioral

O lábio é onde o injetor encontra o herpes com mais frequência, porque a lesão recorrente costuma surgir justamente na borda do vermelhão, a mesma que recebe agulha no contorno e no tenting. A pergunta "você tem herpes no lábio?" faz parte da avaliação de todo preenchimento labial, e a resposta muda o plano da sessão.

Lábios de frente com arco do cupido, filtro, tubérculos e borda do vermelhão em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Lábios de frente com as subunidades: arco do cupido, colunas do filtro, tubérculo central superior e os dois tubérculos laterais inferiores, com a borda do vermelhão em destaque. É sobre essa borda que o herpes labial recorrente costuma aparecer, e é por ela que entram as agulhas do contorno — por isso a história de herpes é perguntada antes de qualquer trabalho de borda.

Um dado recente ajuda a dimensionar a questão. Armenti (2026, Aesthet Surg J Open Forum) acompanhou 90 adultos com herpes labial recorrente documentado que fizeram preenchimento labial com ácido hialurônico entre 2016 e 2025, cada um servindo de controle de si mesmo. A taxa de base era de 5,22 episódios por pessoa-ano. Depois da primeira sessão, a taxa não mudou; a partir da segunda, caiu (razão de taxas de 0,81) e, depois de quatro sessões, chegou a 0,55, estabilizando com tratamentos repetidos. O próprio autor ressalva que a associação não prova causa e que a relevância clínica da redução não foi definida de antemão. O estudo mede recorrência ao longo de meses, não a reativação nos dias seguintes à punção, que é o que a profilaxia procura evitar.

Os relatos de reativação logo depois do preenchedor existem e mostram como o quadro se apresenta. Wang e colaboradores (2020, Medicine) descreveram uma mulher de 24 anos com eritema, pápulas crostosas, dor e edema no nariz depois de ácido hialurônico; a cultura da secreção confirmou o herpes simples, e o quadro melhorou após uma semana de antiviral. Dougherty e colaboradores (2011, J Am Acad Dermatol) publicaram, em carta, um caso de edema do tipo angioedema com reativação de herpes após preenchimento labial. No extremo da raridade, Khoo e colaboradores (2018, Am J Case Rep) relataram encefalite por herpes simples tipo 1 numa mulher de 27 anos, cinco semanas depois de preenchedor nasal, que os autores apresentam como possível complicação do procedimento; mesmo com antiviral, ela evoluiu com síndrome pós-encefalítica.

A técnica do lábio está em preenchimento labial: técnica, volume e planos, e o mapa das subunidades, em lábio por subunidades.

Toxina e região periocular

A toxina não fere tecido como o laser nem deixa material implantado, mas também tem relatos. Amini-Salehi e colaboradores (2023, BMC Infect Dis) descreveram uma mulher de 33 anos com lesões dolorosas e vesículas na testa, no couro cabeludo e na pálpebra superior direita, com febre e mal-estar, depois de toxina para rugas; o teste de Tzanck confirmou a infecção herpética, e o quadro regrediu com antiviral. Os autores lembram que poucos casos de herpes-zóster e de herpes simples após toxina foram publicados e levantam a hipótese de que a proteína da toxina, como antígeno, ative a resposta imune celular e facilite a reativação. Liang e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) relataram herpes-zóster numa paciente que tinha recebido semaglutida, toxina e ácido hialurônico.

O olho pede um cuidado à parte. Ramappa e colaboradores (2018, Indian J Ophthalmol) relataram reativação de ceratite herpética necrosante depois de toxina aplicada para entrópio espástico num homem que já tinha tido episódios oculares semelhantes — diagnóstico clínico, com raspado corneano negativo para o vírus —, e Das e colaboradores (2020, Ophthalmic Plast Reconstr Surg) descreveram endotelite corneana herpética três semanas depois de toxina periocular para espasmo hemifacial. São usos terapêuticos, em doses e pontos diferentes dos estéticos, mas sustentam duas condutas simples: perguntar por herpes ocular antes de tratar a região periocular e encaminhar ao oftalmologista quem relata baixa de visão, dor ocular ou olho vermelho depois da sessão.

Herpes ou sofrimento vascular?

Vesícula sobre pele avermelhada nos primeiros dias depois de um preenchedor é um ponto de confusão nos dois sentidos. No relato de Kim e colaboradores, as vesículas e a dor leve que apareceram dois dias depois de uma volumização facial com ácido hialurônico eram herpes-zóster: o ultrassom com Doppler arterial e venoso mostrou fluxo normal no trajeto da artéria angular e o produto bem posicionado, e as lesões se resolveram com antiviral. Para os autores, a reativação do zóster pode imitar isquemia, e o ultrassom é a ferramenta rápida para examinar a perfusão.

Trajeto da artéria facial da borda da mandíbula até a artéria angular — Dr. Thiago Perfeito
Trajeto da artéria facial, da borda da mandíbula, passando ao lado da boca e do nariz, até a artéria angular no canto medial do olho, em destaque; osso e músculos em cinza. É o território que se examina quando aparecem vesículas na região malar, no sulco nasogeniano ou na asa do nariz depois de um preenchimento: no relato de Kim e colaboradores, o fluxo normal nesse trajeto ao Doppler afastou a isquemia.

O erro também acontece no sentido contrário: bolhas e pústulas também aparecem na pele sem fluxo, numa sequência descrita em necrose cutânea após preenchimento: sinais precoces, e rotular como herpes sem examinar a perfusão é o erro mais caro. Quando o que chama atenção é a dor, a ordem de investigação está em dor desproporcional após preenchimento. Os sinais de alerta de oclusão — dor desproporcional, branqueamento, livedo, enchimento capilar lento no território de uma artéria — estão em sinais de alerta de oclusão, e a conduta, em oclusão vascular por ácido hialurônico. Na dúvida, a perfusão é examinada primeiro.

Quando a profilaxia entra na conversa

CenárioComo se trata o herpes no planoDe onde vem
Resurfacing ablativo, peeling profundo ou dermoabrasão na faceProfilaxia antiviral planejada antes da sessão; nos dois ensaios, todos os pacientes de resurfacing incluídos receberam o antiviralEnsaios de Beeson e de Gilbert; consenso de Labadie para entrega de ativos por laser fracionado na face
Preenchimento labial, contorno, tenting ou procedimento perioral em paciente com herpes labial recorrenteProfilaxia discutida e registrada na consulta, antes do diaDiretriz do CMAC (triagem, registro e plano de profilaxia nos procedimentos estéticos); a borda do vermelhão é onde a recorrência costuma aparecer
Toxina ou preenchedor fora do lábio, sem história de herpesPergunta na anamnese e orientação dos sinais de alertaRelatos isolados de reativação
Região periocular em paciente com história de herpes ocularPergunta específica e encaminhamento se surgirem sintomas ocularesRelatos de ceratite e endotelite após toxina
Lesão de herpes ativa na áreaAdiar até a cicatrização completaPele não íntegra é porta de entrada

O plano de 10 pontos de Heydenrych e colaboradores (2021, Clin Cosmet Investig Dermatol) põe o herpes simples entre as doenças virais de base que a consulta prévia ao preenchimento precisa esclarecer; a primeira autora declara consultoria e honorários da Allergan/AbbVie. Na prática, isso significa perguntar sempre, anotar a resposta no prontuário e decidir antes do dia — não com a agulha na mão. A droga, a dose, o início e a duração seguem a diretriz vigente e a avaliação do médico assistente, considerando função renal, gestação e interações. Lesão ativa adia qualquer injetável na área, como descrito em quando não aplicar injetável; no bioestimulador, as bulas trazem avisos próprios, reunidos em contraindicações dos bioestimuladores.

Se o surto acontece

  1. Reconhecer cedo: ardor, formigamento ou dor em queimação seguidos de vesículas agrupadas, em geral nos primeiros dias.
  2. Afastar o vascular quando a lesão está no território de um preenchimento recente.
  3. Confirmar quando há dúvida, com exame do conteúdo da vesícula — cultura no caso de Wang, Tzanck no de Amini-Salehi.
  4. Tratar conforme a diretriz, cedo, com antiviral prescrito pelo médico assistente.
  5. Proteger a pele tratada: depois de laser ablativo, o surto é tratado como urgência, pelo risco de cicatriz.
  6. Encaminhar ao oftalmologista qualquer sintoma ocular.
  7. Registrar e replanejar: o próximo procedimento na área já entra com a profilaxia definida.

Onde isso se aprende

O herpes é um daqueles temas que parecem detalhe até a primeira paciente voltar com o lábio cheio de vesículas dois dias depois do preenchimento. No Módulo A1, Face Avançada, da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o lábio é ensinado com proporção, técnicas por plano, materiais e profilaxia herpética, dentro de um módulo que também cobre a anatomia vascular de risco e os princípios de prevenção da oclusão. O conteúdo teórico vem antes, no pré-work gravado obrigatório; o sábado presencial em Brasília reúne no máximo oito médicos, com demonstração comentada como parte teórica e execução supervisionada em paciente modelo como parte prática. Os quatro módulos estão em Cursos.

Síntese

O herpes reativa com trauma, e os procedimentos faciais são trauma em graus diferentes. No resurfacing ablativo, a profilaxia tem ensaio e consenso e entra no plano da sessão; no lábio e na região perioral, entra para quem tem história, decidida e registrada antes da sessão; na toxina e no preenchedor de outras regiões, o que conta é perguntar, orientar e reconhecer. Diante de vesículas depois de um preenchimento, a perfusão é examinada antes de tudo. Dose, droga e duração seguem a diretriz vigente. Mais temas de segurança estão na Biblioteca.

Perguntas frequentes

Precisa de antiviral antes do preenchimento labial?

Em quem tem herpes labial recorrente, a profilaxia é discutida e registrada na consulta, antes do dia. A diretriz do CMAC pede triagem, registro do que foi feito para evitar a reativação e um plano de profilaxia; a droga, a dose e o início seguem a diretriz vigente e a avaliação do médico assistente.

Qual a dose do antiviral para profilaxia de herpes?

A que estiver na diretriz vigente, ajustada pelo médico assistente. Os ensaios de resurfacing testaram esquemas de valaciclovir com início na véspera ou no dia, mas esquema de protocolo de estudo não é posologia; função renal, gestação e interações entram na decisão.

Preenchimento labial aumenta as crises de herpes?

No estudo de Armenti, não aumentou ao longo dos meses. Em 90 pacientes com herpes labial recorrente, a taxa não mudou após a primeira sessão e caiu a partir da segunda, até uma razão de taxas de 0,55 após quatro sessões; o autor ressalva que associação não prova causa, e o estudo não mede a reativação nos dias seguintes à punção.

Botox pode reativar herpes?

Há relatos isolados. Foram publicados casos de herpes simples e de herpes-zóster após toxina, e casos de ceratite herpética após toxina periocular em pacientes tratados por espasmo; por isso a pergunta sobre herpes, inclusive ocular, entra na anamnese.

Como diferenciar herpes de oclusão vascular depois do preenchimento?

Examinando a perfusão primeiro. As duas podem trazer vesículas sobre pele avermelhada; branqueamento, livedo e enchimento capilar lento no território de uma artéria apontam para oclusão, e o ultrassom com Doppler ajuda — no caso de Kim e colaboradores, ele mostrou fluxo normal e o quadro era zóster.

Antes de laser de CO2 na face precisa de profilaxia para herpes?

No resurfacing ablativo da face, a profilaxia entra no plano da sessão. Os ensaios com valaciclovir no resurfacing não registraram reativação, e o consenso de entrega de ativos por laser fracionado recomenda profilaxia antiviral quando se trata a face; droga, dose e duração seguem a diretriz vigente e o médico assistente.

Paciente com herpes ativo pode fazer o procedimento?

Não na área afetada: a sessão é adiada até a cicatrização completa. Pele com lesão ativa não é pele íntegra, e o procedimento seguinte na região já entra com a profilaxia definida.

Referências

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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
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