Lipoenxertia: microfat e nanofat, técnica
Microfat e nanofat são a mesma gordura da paciente em dois tamanhos e com duas funções. O microfat é tecido adiposo colhido com cânula de furos pequenos, que mantém a arquitetura do lóbulo e serve para repor volume no subcutâneo. O nanofat é esse microfat emulsionado e filtrado até perder os adipócitos viáveis: não dá volume, entra na derme por agulha fina e é usado para qualidade de pele e cicatriz. A técnica, portanto, começa antes da injeção: o calibre da cânula de colheita, o número de passagens entre seringas e o filtro decidem qual dos dois produtos sai da bancada. Esta página organiza essas decisões na ordem em que acontecem, com o que os estudos mediram em cada etapa.
Três tamanhos de enxerto, três trabalhos diferentes
A literatura de enxertia separa a gordura pelo tamanho da partícula, e o tamanho manda no plano. O enxerto clássico, colhido com cânula de calibre maior, leva lóbulos grandes e é o que se usa em depósitos profundos. O microfat leva lóbulos pequenos o bastante para correr em cânula fina e se distribuir em fios delgados no subcutâneo. O nanofat já não é enxerto de volume: é uma suspensão de matriz e de células da fração vascular estromal, com quase nenhum adipócito íntegro.
Na rotina do Dr. Thiago Perfeito, essa divisão vira indicação. No protocolo dele com a plataforma Lipocube, o microfat entra para volume e o nanofat para flacidez e qualidade de pele; quando a paciente precisa das duas coisas, os dois saem da mesma colheita. A gordura própria também pode ser associada ao bioestimulador e ao ácido hialurônico, que continuam sendo produtos separados.

Colheita: o produto começa na cânula
Para microfat, a colheita usa cânula multiperfurada de furos pequenos, e o diâmetro desses furos já define o tamanho do lóbulo. Tonnard e colaboradores (2013), que descreveram o nanofat, colhiam o microfat com cânula multiperfurada de furos pequenos. No estudo de Yang e colaboradores (2021), a cânula tinha múltiplos furos laterais lisos de 0,8 mm, e os lóbulos de microfat mediram de 100 a 120 µm ao microscópio. Ma e colaboradores (2025) usaram furos de 1,0 mm e relatam que o microfat obtido assim passava por agulha 26G para enxertia superficial.
Com a plataforma Lipocube, o Dr. Thiago colhe até cerca de 250 mL, volume de mini-lipoaspiração e não de cirurgia de contorno. A anestesia é local; quando há sedação, com anestesista, é a pedido da própria paciente e em poucos casos. Exame de laboratório antes do procedimento não é rotina na clínica.
Três cuidados de colheita valem para qualquer sistema:
- Infiltração antes de aspirar. A solução tumescente anestesia a área doadora.
- Pressão baixa na seringa. A aspiração é suave, sem vácuo forte.
- Área doadora coerente com o volume. A escolha depende do biotipo e de onde a paciente aceita os pontos de entrada.
Processamento: do microfat ao nanofat
O nanofat sai do microfat por três etapas mecânicas: lavagem, emulsificação entre duas seringas e filtração. Em 2025, Arcani e colaboradores revisaram 39 artigos e consultaram um painel de médicos e pesquisadores experientes para propor uma definição comum; o painel incluiu autores ligados a empresas de terapia celular. A proposta do painel: nanofat é o lipoaspirado que passa por uma etapa de lavagem, depois por 20 a 30 passagens de emulsificação num conector de 1,2 a 1,6 mm e, por fim, por um filtro com poros de cerca de 300 a 500 µm. Cada kit comercial muda alguma dessas variáveis.
O que sobra depois da emulsificação é discutido na literatura, e os resultados não coincidem. No trabalho original de Tonnard (2013), o nanofat não tinha adipócitos viáveis, mas as células-tronco derivadas do tecido adiposo continuavam abundantes, com a mesma capacidade de proliferação e diferenciação das amostras de gordura não emulsionada. Yang e colaboradores (2021) acharam outra coisa: também sem adipócitos viáveis e com muito lipídio livre, o nanofat teve número de células da fração vascular estromal viáveis claramente menor que o do microfat. Para os autores, o microfat preserva a estrutura histológica e combina volume subcutâneo com melhora de pele.
A revisão sistemática de Schimanski e colaboradores (2025) reuniu 15 estudos histológicos de gordura processada mecanicamente. Em 13 deles (87%), o tecido processado tinha densidade maior de células da fração vascular estromal que a gordura não processada; em 12 (80%), a matriz extracelular estava mais preservada; em 11 (73%), havia menos adipócitos maduros; e em 9 (60%), menos cistos oleosos, fibrose e infiltrado inflamatório. A heterogeneidade dos protocolos impediu a metanálise.
Os dispositivos também diferem entre si. Cohen e colaboradores (2019) processaram 10 mL de gordura de cada um de 10 pacientes em dois sistemas: o LipocubeNano rendeu 2,24 × 10⁶ células por mL, contra 1,44 × 10⁶ do NanoTransfer, com viabilidade de 96,05% nos dois. No texto completo, os autores declaram participação acionária ou vínculo com a Lipocube Ltd. e com outras empresas do setor, inclusive royalties da fabricante do sistema comparado; o dado deve ser lido com esse conflito em vista.
Onde cada um vai: planos e instrumentos
Microfat vai no subcutâneo e nos compartimentos de gordura, em fios finos depositados durante o recuo da cânula; nanofat vai na derme ou logo abaixo dela, por agulha. A lógica é a mesma de qualquer enxerto vivo: o tecido sobrevive pela periferia, em contato com leito vascularizado, e depósito grande no mesmo ponto tende a necrose central e cisto oleoso. Por isso a regra de técnica é distribuir em muitos túneis e em camadas, nunca em bolus.

No rosto, o microfat segue o mapa dos compartimentos que se esvaziam com a idade (a anatomia está em compartimentos de gordura da face para o injetor). A experiência de Lindenblatt e colaboradores (2015), com 166 pacientes tratados com microfat para hipoplasia de maxila e mandíbula, traz uma lição de instrumento: lóbulos visíveis sob a pele da pálpebra inferior apareceram em 7% dos casos nos primeiros anos e deixaram de ocorrer quando o grupo trocou as cânulas e a técnica. O resumo não detalha qual mudança resolveu o problema.
O nanofat foi descrito com agulhas de até 27G, para rugas superficiais, cicatrizes e pálpebra inferior escurecida. Uma variante anterior do mesmo grupo, a enxertia intradérmica com agulha cortante (SNIF), foi avaliada por Zeltzer e colaboradores (2012) em 250 pacientes consecutivos ao longo de 3 anos: o resultado durou mais de 1 ano, sem complicação maior, e as intercorrências mais comuns foram equimose e edema.
No corpo, o plano também é decisão de segurança. No glúteo, o Dr. Thiago enxerta exclusivamente no plano subcutâneo, sem entrar no músculo, e usa cânula de calibre igual ou superior a 4 mm. A escolha de calibre e comprimento para cada região é discutida em como escolher a cânula.
Quanto fica: reabsorção e planejamento
Parte da gordura enxertada é reabsorvida em todos os pacientes, e a parte que fica varia com a mobilidade da região. Na série de Lindenblatt, a perda clínica ficou em torno de 15% nas regiões pouco móveis, como malar e mento, e chegou a cerca de 50% no lábio; 38% dos pacientes fizeram complementação seis meses ou mais depois do primeiro procedimento, num acompanhamento médio de 2 anos e 7 meses. A revisão de Ouyang e colaboradores (2026), que reuniu 12 estudos e 885 pacientes de enxertia facial acompanhada por ultrassom, descreve o mesmo padrão: a retenção cai nos primeiros 3 a 6 meses, depois se estabiliza, e fica em cerca de 50% a 70% em 1 ano.
O planejamento do Dr. Thiago parte dessa curva: ele conta com 30% a 40% de perda e enxerta acima do volume-alvo para compensar. A balança também conta. Antes do procedimento, ele exige 3 meses sem variação de peso, inclusive em quem usa agonista de GLP-1; depois, a paciente é avisada de que emagrecer gasta justamente o tecido que acabou de receber.
O que os estudos mediram por indicação
- Cicatriz. A revisão de Al-Sabri e colaboradores (2025) incluiu 12 estudos de nanofat em cicatrizes, 5 ensaios randomizados e 7 estudos antes e depois, com 12 a 48 participantes cada. A maioria relatou melhora de aspecto, textura e satisfação no curto prazo, além de pele mais espessa, mais vasos e mais colágeno na histologia. Dois ensaios randomizados de alta qualidade não mostraram benefício sustentado depois de 12 meses. Não houve evento adverso grave. Na prática, é argumento para associar o nanofat a outras ferramentas e para deixar a reavaliação do primeiro ano acertada com o paciente.
- Qualidade de pele do rosto. Van Dongen e colaboradores (2019) revisaram 9 estudos, com 301 pacientes tratados com enxerto de gordura, fração vascular estromal ou nanofat. Oito relataram aumento de elasticidade, textura melhor e cor mais homogênea, e um não encontrou ganho de elasticidade. A conclusão dos autores vai em sentido oposto: para eles, o enxerto de gordura e as injeções de células praticamente não melhoram a qualidade da pele do rosto, embora sejam seguros, e o nível de evidência dos estudos incluídos era baixo.
- Têmporas. Lin e colaboradores (2020) enxertaram microfat no subcutâneo da têmpora em 39 mulheres, com média de cerca de 6,3 mL de cada lado e acompanhamento médio de 20 meses. A nota de satisfação na escala visual analógica subiu de 4,44 para 8,08, e as intercorrências foram sangramento e congestão leves.
- Contorno do terço médio e inferior. Na série de Lindenblatt, 50% dos pacientes classificaram o resultado como excelente e 48% como suficiente.
Entre as indicações do Módulo A2 estão papada, flacidez das mamas, celulite e contorno corporal. Na celulite, a subcisão das traves fibrosas é uma técnica à parte, que pode ser feita sozinha ou associada ao nanofat ou ao bioestimulador.
Segurança: a gordura também embola
Diferente do ácido hialurônico, que a hialuronidase dissolve, a gordura não tem agente que a desfaça dentro do vaso. A revisão de Moellhoff e colaboradores (2023) reuniu 61 pacientes com embolia arterial depois de enxertia facial de gordura. As regiões mais envolvidas foram a glabela e as aplicações em várias regiões (26,2% cada), as têmporas (16,4%) e a fronte (14,8%). O volume médio injetado foi de 21,5 mL. Todos os 26 pacientes com oclusão da artéria oftálmica tiveram perda visual permanente, e seis pacientes morreram.

Os princípios que reduzem esse risco são os mesmos do preenchimento, aplicados com mais rigor:
- Volume no plano com cânula romba. Agulha fica para o nanofat intradérmico, em quantidade pequena.
- Injetar só em movimento de recuo, com pressão baixa e alíquotas pequenas. Depósito parado na ponta é o que mais se aproxima de um bolus intravascular.
- Respeitar as zonas de maior risco. Glabela, fronte e têmporas aparecem no topo dos relatos; o trajeto das artérias está em mapa das zonas de risco vascular da face e em artéria temporal superficial e preenchimento de têmpora.
- Usar ultrassom quando disponível. Na revisão de Ouyang, o ultrassom de alta frequência serviu para mapear vasos, confirmar a cânula no plano pretendido e acompanhar a retenção; nenhum dos 12 estudos relatou cegueira, AVC ou necrose de pele. O uso do Doppler na suspeita de oclusão está em ultrassom Doppler na oclusão vascular.
- Ter o plano de perda visual escrito antes de começar. O mecanismo e a conduta inicial estão em cegueira por preenchimento.
Fora a embolia, as intercorrências descritas são as esperadas de qualquer enxerto: equimose e edema na área doadora e na receptora, irregularidade, lóbulo palpável em pele fina, cisto oleoso e reabsorção maior que a prevista. Na rotina do Dr. Thiago, a paciente volta em 2 semanas e em 3 meses, começa a drenagem linfática no 7º dia e usa a cinta de 4 a 6 semanas.
Quem é bom candidato
- Peso sem variação há 3 meses ou mais, e a intenção de mantê-lo.
- Área doadora com gordura suficiente para o volume planejado e a sobrecorreção.
- Queixa compatível com a ferramenta: volume pede microfat; textura, cicatriz e flacidez discreta de pele pedem nanofat; as duas queixas juntas pedem os dois.
- Expectativa ajustada à reabsorção, com a paciente avisada de que uma complementação pode ser necessária.
Quem vem de emagrecimento ainda em curso, quem tem pouca gordura disponível ou quem quer o resultado definitivo em uma única sessão costuma ser mais bem atendido por outra rota, como ácido hialurônico ou bioestimulador, que podem ser associados à gordura depois.
Sem relação comercial com fabricantes: o Dr. Thiago não recebe de nenhum fabricante, e os sistemas de processamento aparecem aqui pelo que os estudos mediram.
Da colheita ao enxerto, com as próprias mãos
Lipoenxertia é uma sequência de gestos que se influenciam: a pressão da aspiração muda o lóbulo, o número de passagens muda o que sobra de célula, e o plano escolhido muda quanto fica. O Dr. Thiago Perfeito, médico com CRM-DF 23199 em Medicina Estética e Regenerativa, ensina essa sequência no Módulo A2 da Pós Prática (corpo, glúteo, lipoenxertia e regenerativa), com o princípio do sistema Lipocube, colheita, processamento, planos de enxertia, indicações, seleção de candidato e intercorrências. A teoria chega antes, em aulas gravadas; o sábado presencial acontece na clínica INTI, em Brasília, com turma de até oito médicos, demonstração comentada na parte teórica e execução supervisionada em paciente modelo na parte prática. Para comparar formações de procedimentos corporais, os critérios estão em melhor curso de bioestimulador corporal e glúteo; os quatro módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre microfat e nanofat?
O microfat é gordura com estrutura preservada, para volume; o nanofat é gordura emulsionada e filtrada, para pele. O microfat é colhido com cânula de furos pequenos e mantém o lóbulo íntegro. O nanofat vem do microfat depois de emulsificação e filtração, perde os adipócitos viáveis e é injetado na derme com agulha fina.
Como se prepara o nanofat?
Por lavagem, emulsificação entre duas seringas e filtração. O consenso publicado por Arcani e colaboradores em 2025 propõe de 20 a 30 passagens num conector de 1,2 a 1,6 mm e um filtro final com poros de cerca de 300 a 500 µm.
O nanofat dá volume?
Não. Sem adipócitos viáveis, ele não serve para repor volume. A indicação é qualidade de pele, cicatriz e rugas finas; para volume, usa-se o microfat no subcutâneo.
Quanto da gordura enxertada fica?
Depende da região, e parte sempre é reabsorvida. Na série de Lindenblatt (2015), a perda ficou em torno de 15% no malar e no mento e chegou a cerca de 50% no lábio. A revisão de Ouyang (2026) descreve retenção de cerca de 50% a 70% em 1 ano. O Dr. Thiago planeja com perda de 30% a 40% e injeta volume a mais para compensar.
Qual o maior risco da lipoenxertia facial?
A embolia arterial, que pode causar cegueira, AVC e morte. Na revisão de Moellhoff (2023), glabela, fronte e têmporas estavam entre os locais mais envolvidos, e todos os pacientes com oclusão da artéria oftálmica tiveram perda visual permanente. Não existe enzima que dissolva gordura, por isso a prevenção é toda de técnica: cânula romba, recuo, pressão baixa e alíquotas pequenas.
Precisa esperar o peso estabilizar para fazer lipoenxertia?
Na rotina do Dr. Thiago, sim: são 3 meses sem variar de peso. Depois do enxerto, a orientação é não perder peso, porque o emagrecimento gasta a gordura recém-enxertada.
Onde se aprende microfat e nanofat na prática?
Na formação do Dr. Thiago, a lipoenxertia está no Módulo A2. O módulo trata colheita, processamento, planos, indicações, seleção de candidato e intercorrências, com teoria gravada antes e sábado presencial em Brasília, em turma de até oito médicos, com execução supervisionada em paciente modelo.
Referências
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