Artéria temporal superficial e preenchimento de têmpora
A artéria temporal superficial sobe diante do trago, cruza o arco zigomático e, na maioria das pessoas, se divide acima dele em um ramo frontal e um ramo parietal. O ramo frontal corre dentro da fáscia temporoparietal (a fáscia temporal superficial), a dois ou três milímetros da pele na têmpora baixa, e se comunica com as artérias da fronte que nascem da órbita. Para quem preenche têmpora, essa anatomia decide o que o plano raso coloca no caminho da agulha: produto dentro desse vaso pode necrosar a pele da fronte e do couro cabeludo e, numa fração dos casos, chegar à circulação do olho.
O mapa das camadas da têmpora e a técnica de cada plano estão em preenchimento de têmporas: plano profundo ou superficial. Aqui o foco é um vaso só — onde ele nasce, onde se divide, em que camada corre, com quem conversa — e o que isso muda na escolha do plano.
Tronco, divisão e os dois ramos
Ramo terminal da carótida externa, a temporal superficial é o eixo vascular da região temporoparietal e da lateral do couro cabeludo. A revisão sistemática de Yi e colaboradores (2026, J Craniofac Surg), que reuniu dissecção, angiotomografia e angiografia digital, resume o comportamento dela numa frase útil para o injetor: o trajeto do tronco é, em geral, conservado; o que varia é o nível da divisão, o número de ramos terminais, a profundidade e a relação com as fáscias. Nas séries de cadáver, a divisão ficou acima do arco zigomático em cerca de 74% a 90% dos casos, com estimativa combinada perto de 79%, e variantes com divisão no arco e abaixo dele apareceram de forma consistente. Também foram descritos ausência de divisão, ramos frontais ou parietais duplicados e trifurcação.
A dissecção clássica de Pinar e Govsa (2006, Surg Radiol Anat), em 27 peças injetadas com látex, dá os números de um mesmo grupo:
- divisão acima do arco em 74,07% e sobre o próprio arco em 22,22%;
- em 3,70% não houve divisão — a artéria seguiu só como ramo frontal, sem o parietal; a ausência do ramo frontal não foi encontrada;
- diâmetro médio de 2,73 mm na altura do arco; o ramo frontal foi mais calibroso que o parietal em 15 das 27 peças.
Num estudo de neurocirurgia sobre a incisão bicoronal, Tangkatitham e colaboradores (2025, Asian J Neurosurg) dissecaram 16 hemicabeças, mediram a divisão, em média, a 3 cm da raiz do arco zigomático, e encontraram o ramo frontal passando pelo pico temporal da linha do cabelo, ou logo à frente dele, em 68,75% dos lados. É um marco de superfície que o injetor enxerga sem aparelho: a entrada da linha do cabelo na têmpora costuma estar no trajeto do ramo frontal.

A camada da artéria e a distância até a pele
Os ramos da temporal superficial correm dentro da fáscia temporal superficial ou colados a ela. O experimento de Hong e colaboradores (2026, J Craniofac Surg) feito em cadáver para simular o fio de sustentação com espículas passado pela linha do cabelo temporal, mostra isso de um jeito que interessa também a quem injeta: ao expandir com gelatina corada o espaço entre a fáscia temporal superficial e a profunda, os ramos da artéria ficaram acima do compartimento preenchido, dentro da fáscia temporal superficial ou colados a ela, e os fios mantidos entre as fáscias ficaram separados da artéria pela própria fáscia. O mesmo estudo registrou o modo de falha: um fio que começou abaixo da fáscia subiu de plano durante o avanço e cruzou um ramo anterior da artéria na região temporal lateral.
A profundidade é pequena. Na angiotomografia de 418 artérias de 209 pessoas, Yücedağ Gündoğdu e colaboradores (2025, Head Neck) viram o tronco ficar mais fino e mais superficial da origem até a divisão; o ramo frontal estava, em média, a 0,27 cm (2,7 mm) da pele no ponto mais próximo do jugal e a 0,21 cm (2,1 mm) junto ao processo zigomático. Profundidade e diâmetro variaram com o sexo, e o calibre aumentou com a idade. Com imagem microvascular em 62 pacientes, Ten e colaboradores (2026, Dermatol Surg) encontraram a temporal superficial, em alguns casos, a 1,15 mm da pele; IMC mais baixo e idade menor se associaram a partes moles mais finas.
Traduzido para a seringa: na têmpora baixa, perto do arco, uma agulha de preenchimento que fica no subcutâneo raso está na faixa de profundidade da artéria. E, pelos dados de Ten, a margem encolhe ainda mais na paciente de IMC mais baixo e na mais jovem, que têm partes moles mais finas.
O ramo frontal do nervo facial corre ao lado
Tellioğlu e colaboradores (2000, Plast Reconstr Surg) dissecaram 20 lados de 10 cadáveres e descreveram os ramos frontais do nervo facial correndo paralelos ao ramo frontal da temporal superficial, logo abaixo da fáscia temporoparietal, dentro da fáscia inominada. A conclusão dos autores foi cirúrgica e vai contra um hábito: na parte temporal da ritidoplastia, a dissecção subfascial convencional, feita para proteger o nervo, não seria a mais razoável; a dissecção subcutânea cuidadosa, logo abaixo dos folículos, protegeria melhor o nervo.
Para o preenchimento, o recado é de localização. O ramo frontal da artéria serve de guia para o trajeto do nervo, e o espaço entre as fáscias — o mesmo que afasta a cânula da artéria — é a vizinhança imediata do nervo. Um plano que protege de um risco não dispensa o mapa do outro.

Ponte para a fronte, o couro cabeludo e a órbita
O ramo frontal termina na fronte lateral, onde se comunica com a supraorbital e a supratroclear, ramos da oftálmica. Tansatit e colaboradores (2018, J Cosmet Dermatol) testaram essas comunicações ao Doppler em voluntários, comprimindo as artérias em sequência, de forma cumulativa, e observando como as anastomoses mantinham o fluxo. A leitura dos autores: se a cânula entrar na supratroclear ou na supraorbital, a embolização da oftálmica foi possível em todos os casos registrados; se entrar no ramo frontal da temporal superficial, a chance de cegueira apareceu em um quinto dos voluntários. O risco visual pela temporal superficial é menor que pelos ramos da oftálmica, mas não é zero. Como a fronte se liga à órbita, está em anatomia vascular da face para injetáveis; o mecanismo da perda visual, em cegueira por preenchimento.
O desfecho mais típico da oclusão nesse território é cutâneo. Zheng e colaboradores (2023, Aesthet Surg J) descreveram cinco pacientes com necrose da pele frontotemporal e do couro cabeludo do mesmo lado depois de ácido hialurônico na têmpora, com embolização da temporal superficial como mecanismo suspeito. A alopecia apareceu cerca de 1 a 2 semanas depois da injeção; com hialuronidase aplicada pela própria temporal superficial, associada a outras medidas, o cabelo começou a voltar em 2 a 3 meses, e a pele voltou a um aspecto próximo do normal no seguimento de 3 a 6 meses. É uma série pequena, de cinco casos, mas mostra onde olhar: a isquemia desse território aparece na fronte lateral e na área com cabelo, do mesmo lado da têmpora tratada, e não só no ponto da injeção.
Os vizinhos: zigomático-orbital e veia sentinela
Da temporal superficial sai também a artéria zigomático-orbital. Na série de Pinar e Govsa, ela seguiu para a face paralela ao arco zigomático e terminou no orbicular do olho em 77,77% das peças; em 22,22%, não foi encontrada. A transversa da face apareceu em todas. Por terminar no orbicular, é mais um caminho entre a têmpora e a região em volta do olho.
A veia sentinela, marco clássico da têmpora anterior, completa o trio. O trajeto dela, com medidas de cadáver e de ultrassom, está no texto de preenchimento de têmporas. Para quem trabalha na têmpora anterior e baixa, a regra prática é ter os três no mapa — artéria, veia e ramo do nervo — antes de escolher a entrada.
O que a temporal superficial muda no plano do preenchimento
Modelo · Os três planos vistos a partir da temporal superficial
- Subcutâneo raso. É a faixa de profundidade da artéria na têmpora baixa: entre 2 e 3 mm em média perto do arco e, em alguns casos, a 1,15 mm da pele. Agulha nesse plano pede o trajeto marcado antes, e cânula romba quando o objetivo é espalhar o produto.
- Entre as fáscias. A artéria fica acima, separada pela fáscia temporal superficial — foi o que a gelatina corada mostrou no cadáver. É o plano que mais afasta a temporal superficial, desde que a ponta não suba de camada durante o avanço; em compensação, é a vizinhança do ramo frontal do nervo facial.
- Sobre o osso. Longe da temporal superficial. O vaso desse nível é outro, a temporal profunda, junto ao osso — na imagem microvascular de Ten e colaboradores, em alguns casos a 0,3 mm dele; a técnica está no texto de plano profundo ou superficial.
Quando o produto é bioestimulador, a conta pesa mais, porque a hialuronidase não o dissolve; a escolha de plano para ácido poli-L-láctico e hidroxiapatita está em bioestimulador na têmpora.

Marcar a artéria antes de abrir a seringa
O mapa da temporal superficial começa com a polpa do dedo. O pulso é palpável diante do trago e, em muitas pacientes, o ramo frontal pode ser seguido pela pele até a fronte lateral; o pico temporal da linha do cabelo ajuda a prever por onde ele passa. Em seguida vem a imagem: na série de Lee e colaboradores (2024, Dermatol Surg), 34 pacientes tiveram a fronte mapeada com Doppler antes do preenchimento — supraorbital, supratroclear e ramo frontal da temporal superficial —, os três vasos foram localizados e evitados, e nenhum paciente teve complicação arterial. O passo a passo do mapeamento está em ultrassom na prevenção da oclusão vascular.
Sobre o mapa entram as rotinas de sempre: injeção lenta, volume pequeno por depósito e ponta em movimento nos trajetos longos. No consultório do Dr. Thiago Perfeito, com preenchedor e bioestimulador, a aspiração antes de depositar é feita sempre — e por mais tempo quando a agulha é fina, de 29 a 30G —, somada às demais medidas, nunca no lugar delas. O que procurar na pele durante e depois da aplicação está em sinais de alerta de oclusão; a conduta, em oclusão vascular por ácido hialurônico e em hialuronidase em alta dose pulsada, com a dose por situação em dose de hialuronidase por cenário. A visão do conjunto da face está no mapa de zonas de risco vascular.
Da tomografia à têmpora da paciente
As porcentagens dizem com que frequência a artéria se divide acima do arco; não dizem onde ela se divide na paciente sentada na maca. Essa leitura — palpar, marcar, confirmar com imagem e escolher o plano antes de pegar a seringa — é treino de mão. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), a têmpora entra no módulo de Face Avançada, junto com a anatomia vascular de risco por região, o plano seguro e o perigoso da têmpora e a veia sentinela; o protocolo de oclusão e a hialuronidase têm bloco próprio no módulo de Toxina e Preenchimento. Cada módulo é um sábado presencial em Brasília, na clínica INTI, precedido de pré-work gravado obrigatório: a demonstração comentada é a parte teórica do dia, e a parte prática é a execução supervisionada pelo próprio aluno em paciente modelo, numa turma de no máximo 8 médicos. Os quatro módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Onde a artéria temporal superficial se divide em ramo frontal e parietal?
Na maioria das pessoas, acima do arco zigomático. Na revisão sistemática de Yi e colaboradores (2026), as séries de cadáver ficaram entre 74% e 90%, com estimativa combinada perto de 79%. Na dissecção de Pinar e Govsa (2006), a divisão foi acima do arco em 74,07%, sobre o arco em 22,22% e não ocorreu em 3,70%.
A que profundidade fica o ramo frontal na têmpora?
Perto do arco, a poucos milímetros da pele. Na angiotomografia de 418 artérias de Yücedağ Gündoğdu e colaboradores (2025), o ramo frontal ficou em média a 0,27 cm da pele junto ao jugal e a 0,21 cm junto ao processo zigomático. Ten e colaboradores (2026) registraram casos a 1,15 mm da pele.
Injetar entre as fáscias da têmpora evita a artéria temporal superficial?
Afasta. Num modelo de cadáver de fio de sustentação, Hong e colaboradores (2026) expandiram esse espaço com gelatina corada e os ramos da artéria ficaram acima dele, na fáscia temporal superficial ou colados a ela. A proteção depende de a ponta não subir de plano durante o avanço — e esse espaço é vizinho do ramo frontal do nervo facial.
Oclusão da artéria temporal superficial pode causar cegueira?
Pode, com frequência menor que a dos ramos da oftálmica. No estudo com Doppler de Tansatit e colaboradores (2018), a canulação acidental do ramo frontal da temporal superficial teria chance de cegueira em um quinto dos voluntários; na supratroclear e na supraorbital, a embolização da oftálmica foi possível em todos os casos.
Qual é o quadro de pele da oclusão da temporal superficial?
Isquemia e necrose da pele frontotemporal e do couro cabeludo do mesmo lado, que pode evoluir com queda de cabelo. Na série de cinco casos de Zheng e colaboradores (2023), a alopecia apareceu cerca de 1 a 2 semanas após a injeção, e o cabelo começou a voltar 2 a 3 meses depois do tratamento com hialuronidase.
Como localizar a artéria temporal superficial antes de preencher a têmpora?
Palpando o pulso diante do trago e seguindo o ramo frontal pela pele, usando o pico temporal da linha do cabelo como referência e confirmando com Doppler. Na série de Lee e colaboradores (2024), o Doppler localizou o ramo frontal, a supraorbital e a supratroclear em 34 pacientes, e nenhum teve complicação arterial.
Referências
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- Yücedağ Gündoğdu H, Gündoğdu O, Paslı B, Karabörk Kılıç AC, Güneş BE. Three-Dimensional Evaluation of Superficial Temporal Artery and Its Terminal Branches: Implications for Clinical Practice. Head Neck. 2025;47(8):2280-2289. · PMID 40151027 · DOI 10.1002/hed.28141
- Ten B, Dursun P, Kaya TI, et al. Temporal Artery Mapping With Microvascular Imaging: Anatomical Considerations for Filler Injections. Dermatol Surg. 2026;52(7):672-677. · PMID 41512153 · DOI 10.1097/DSS.0000000000005012
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- Zheng C, Fu Q, Zhou GW, et al. Efficacy of Percutaneous Superficial Temporal Arterial Hyaluronidase Injection for Hyaluronic Acid Filler-Induced Necrosis of Frontotemporal Skin and/or the Ipsilateral Scalp With Subsequent Alopecia. Aesthet Surg J. 2023;43(2):NP77-NP83. · PMID 36268599 · DOI 10.1093/asj/sjac270
- Lee W, Kim TH, Yang EJ. Mapping High-Risk Arteries Using Doppler Ultrasound for Forehead Contouring in Korean Patients. Dermatol Surg. 2024;50(11):1029-1033. · PMID 39082612 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004292
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