Migração do ácido hialurônico nos lábios: causas e correção
O que se chama de migração no lábio
Migração é o ácido hialurônico encontrado fora do lugar em que deveria ter ficado — acima da borda do vermelhão, no vestíbulo, na comissura ou, raramente, longe do lábio —, e quase sempre ela nasce de onde e de quanto gel foi colocado, não do produto em si. O sinal mais conhecido é a "prateleira" logo acima da borda do lábio superior: a transição entre vermelhão e lábio branco some e a pele acima da linha fica cheia, de frente e sobretudo de perfil.
Vale separar três situações que chegam ao consultório com o mesmo nome:
- Gel mal posicionado desde o início — depositado acima da borda, raso demais ou no plano errado. Não migrou; foi parar ali.
- Gel deslocado com o tempo — sessões repetidas, pressão do músculo e do tecido empurrando o depósito para o caminho de menor resistência.
- Aumento que não é gel — edema tardio, nódulo inflamatório, granuloma. Parece "gel que foi para outro lugar", mas pede outra conduta.
A diferença entre os três é o que decide a correção. Esta página trata das causas, do diagnóstico e da correção do gel fora do lugar; o excesso no lábio como um todo e o desenho que leva ao "efeito pato" estão em contorno labial e prevenção do efeito pato.
Quão comum é e onde aparece
Migração não é a complicação mais frequente do lábio, mas é uma das mais visíveis. Na revisão de Diwan e colaboradores (2023, J Clin Aesthet Dermatol), que reuniu 53 casos publicados com 82 complicações de preenchimento labial com produtos não permanentes, o nódulo foi a complicação mais comum; migração, alteração de cor e reativação herpética aparecem entre as complicações associadas à região.
A migração pode ir longe. Kaczorowski e colaboradores (2020, J Craniofac Surg) descreveram uma paciente de 52 anos com massa firme na bochecha, retirada por suspeita de tumor; a histologia mostrou granulomas em torno de lagos de ácido hialurônico, e só na nova anamnese a paciente contou ter feito preenchimento de lábio e de sulco nasogeniano dois anos antes — o gel havia se deslocado para trás. É um caso isolado, mas ensina a perguntar sempre por preenchimento prévio diante de massa perioral.

As causas: plano, quantidade, direção e pressão
Plano: o espaço que o lábio não tem
Harris e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg) examinaram por ultrassom de alta frequência 126 participantes em clínicas de Londres e Amsterdã. A camada subcutânea do lábio teve, em média, menos de 1 mm nos lábios superior e inferior — e, por isso, a maioria dos lábios tratados tinha gel dentro do músculo, sem que essa fosse a intenção. As técnicas de injeção vertical se associaram a depósito mais profundo, hipervascularização e sinais de migração. Os autores declararam vínculos: dois deles são sócios de uma empresa de cursos de ultrassom facial, um dirige uma empresa de ensino de anatomia e uma é consultora da Galderma.
Wu e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), numa revisão sobre o ultrassom do lábio, defendem o exame para identificar as artérias labiais e o orbicular e propõem um protocolo estruturado de varredura. É essa leitura por camadas que permite dizer, numa consulta de correção, em que plano o gel ficou — e se ele está no caminho de um vaso.
Quantidade: o lábio é dividido em compartimentos pequenos
Cotofana e colaboradores (2024, Plast Reconstr Surg), em 20 doadores de corpo, descreveram 24 compartimentos no lábio — seis anteriores e seis posteriores em cada lábio —, separados por septos verticais, cada um com capacidade de frações de mililitro — entre 0,30 e 0,52 cc conforme a posição, maiores no centro e menores perto da comissura. Os autores sugerem uma injeção que respeite esses compartimentos. A leitura prática para a migração é de bom senso: o lábio é feito de espaços pequenos, e gel acumulado num ponto além do que o tecido acomoda procura saída — em geral para cima, onde a pele do lábio branco oferece menos resistência que o vermelhão.
O acúmulo também vem do calendário. Retoque em cima de retoque, sem avaliar o que restou das sessões anteriores, soma gel que o exame de frente não mostra.
Direção: o gel segue o caminho aberto pela ponta
Buhsem (2024, Cureus) comparou retrospectivamente quatro técnicas de injeção — de cima para baixo, de baixo para cima e duas de lateral para medial — em 216 mulheres e associou a maior satisfação à agulha orientada de cima para baixo, atribuindo a diferença à migração do gel para o lábio superior quando a ponta trabalha no sentido oposto. A conclusão do autor é que a direção da agulha também determina a direção em que o preenchedor se distribui. É uma série de um único autor, com seguimento de três semanas.
Pressão: músculo e massagem
O orbicular da boca trabalha o tempo todo — na fala, na mastigação, na expressão —, e o gel dentro ou junto dele está sob essa força. Massagem vigorosa no fim da sessão, para "espalhar" o gel, empurra o depósito para o mesmo lado em que o tecido cede.

O papel do produto
A literatura se divide entre quem atribui a migração à técnica e quem atribui um peso ao gel. Alizadeh e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg Glob Open), numa revisão narrativa com opinião de oito injetores, concluíram que o risco de migração do gel ou de síndrome da face sobrepreenchida não é inerente aos produtos, mas ligado a conhecimento anatômico insuficiente, técnica inadequada ou seleção e orientação inadequadas do paciente. O artigo teve apoio de redação científica financiado pela Teoxane, e os autores declararam honorários do mesmo fabricante.
Do outro lado, Gratteri e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg) relataram cinco anos de uma técnica própria em 4.583 pacientes, com um gel de elasticidade e coesividade altas injetado em microtúneis superficiais entre o orbicular e a mucosa, e a apresentaram como abordagem de baixo risco de migração; registraram 2 complicações vasculares maiores. É uma série sem grupo de comparação, nível de evidência IV.
As duas leituras não se excluem: o gel com características adequadas ao plano escolhido ajuda, mas não corrige plano errado nem quantidade excessiva. A escolha do produto pela indicação, e não pela marca, está em qual ácido hialurônico usar em cada região da face. Como informação de rotina, e não como ranking: no lábio, o Dr. Thiago trabalha sobretudo com Restylane Lido e Restylane Volyme, da Galderma. Ele declara não ter relação comercial com fabricante algum.
Diagnóstico: confirmar que é gel e onde ele está
Antes de qualquer enzima, três perguntas: é ácido hialurônico, onde está, e há outra causa para o volume?
- História. Que produto, quantas sessões, quando foi a última, quem aplicou. Paciente que não sabe o que recebeu muda a conduta: preenchedor permanente não responde à hialuronidase.
- Exame. Olhar de perfil primeiro, depois de frente e obliquamente, parado e falando. Prateleira acima da borda, perda de definição do arco, plenitude no lábio branco, volume palpável no vestíbulo.
- Diferencial. Inchaço que vai e volta, com gatilho, sugere edema tardio intermitente; nódulo endurecido, doloroso ou com sinais inflamatórios segue o raciocínio de nódulos após preenchimento; tom azulado sobre gel raso é efeito Tyndall.
- Imagem. Na série de Grippaudo e colaboradores (2014, J Cosmet Laser Ther), com 26 pacientes com complicação de preenchedor na região oral, o ultrassom de alta frequência, complementado por ressonância e cintilografia em parte dos casos, identificou o preenchedor em todos e distinguiu infecção, fibrose, inflamação granulomatosa e migração. No lábio, o ultrassom mostra a camada e o tamanho do depósito e dirige a correção.

Correção
Gel de ácido hialurônico fora do lugar se corrige com hialuronidase dirigida ao depósito migrado — e o lábio só volta a receber gel depois que o tecido se acomoda. A sequência:
- Mapeie o depósito, de preferência com ultrassom, e marque na pele a área a tratar. A técnica guiada está em hialuronidase guiada por ultrassom.
- Dissolva o que está fora — no lábio branco, no vestíbulo, na comissura —, com a dose definida pelo cenário em dose de hialuronidase por cenário. Às vezes o vermelhão fica com o que ainda está no lugar certo.
- Reavalie antes de repetir a enzima, de frente e de perfil.
- Espere antes de preencher de novo. O intervalo e o raciocínio estão em quanto tempo depois da hialuronidase posso preencher de novo.
- Refaça com outra técnica: menos gel por sessão, plano conferido, ponta orientada para que o gel não suba, sem massagem forte.
Há quem faça tudo no mesmo dia. Ozturk e Kibar Guzin (2024, Dermatol Surg), numa análise retrospectiva de 920 pacientes, injetaram hialuronidase em quatro pontos do lábio branco superior antes de reinjetar o ácido hialurônico em 127 mulheres que já tinham migração para essa região, e não encontraram diferença de satisfação em relação às 793 tratadas pela primeira vez. É uma estratégia de um único centro, retrospectiva, e exige diagnóstico seguro de que o volume acima da borda é gel.
Preenchedor permanente que migrou é outro problema: não se dissolve com enzima e pode exigir abordagem cirúrgica. É uma das razões pelas quais material permanente fica fora do lábio.
Checklist · Migração no lábio
- Separar: mal posicionado, deslocado ou não é gel.
- Perguntar: produto, número de sessões, data.
- Localizar: exame de perfil e ultrassom.
- Corrigir: enzima no depósito fora do lugar, dose pelo cenário.
- Refazer: menos gel, plano conferido, ponta orientada para o gel não subir.
Prevenção
- Volume da sessão abaixo do teto. O teto da bula é limite estudado, não meta; os números por produto ficam na página quanto ácido hialurônico usar nos lábios por sessão.
- Avaliar o que restou antes de cada nova sessão, com fotos comparáveis.
- Borda tratada no canal da borda, com fio fino, sem depósito acima dela.
- Direção da ponta pensada: o gel tende a seguir o caminho aberto.
- Massagem leve, só para modelar.
- Enzima à mão desde o começo da sessão — para corrigir excesso e para o evento vascular, cujo protocolo está em oclusão vascular por ácido hialurônico.
Histórico de herpes labial recorrente pede profilaxia antiviral combinada antes da correção e antes do novo preenchimento.
Corrigir lábio também se aprende
Ler um lábio já tratado — o que é gel, onde está, o que fica e o que sai — é parte do ofício de quem injeta lábio. Dentro da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, esse raciocínio pertence ao Módulo A1 · Face Avançada, com proporção, técnicas por plano, materiais e profilaxia herpética, e cada módulo trata das complicações do próprio tema. No sábado presencial, a parte teórica é a demonstração comentada e a parte prática é a execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, com turma de até 8 médicos. A estrutura completa da formação está em /cursos/.
Perguntas frequentes
O que é a migração do ácido hialurônico no lábio?
É o gel encontrado fora do lugar em que deveria estar — acima da borda do vermelhão, no vestíbulo, na comissura ou, raramente, longe do lábio. O sinal mais comum é a prateleira acima da borda do lábio superior, que apaga o desenho.
A migração é culpa do produto?
Na maior parte das vezes, não. Uma revisão narrativa de 2026, financiada por um fabricante, atribui o risco à técnica, ao conhecimento anatômico e à seleção do paciente; séries de técnicas específicas defendem que gel coeso no plano certo migra pouco. O plano e a quantidade pesam mais que a marca.
Como saber se o volume acima do lábio é gel migrado?
Pela história (produto, sessões, data), pelo exame de frente e de perfil e, quando há dúvida, pelo ultrassom, que mostra a camada e o tamanho do depósito. Edema tardio, nódulo e granuloma imitam migração e pedem outra conduta.
Como se corrige a migração no lábio?
Com hialuronidase dirigida ao depósito que está fora do lugar, de preferência guiada por ultrassom, com a dose definida pelo cenário. Depois se espera o tecido se acomodar e se refaz o lábio com menos gel e plano conferido.
Dá para dissolver e preencher na mesma sessão?
Há quem faça. Numa série retrospectiva de Ozturk e Kibar Guzin, mulheres com migração para o lábio branco receberam hialuronidase nessa região antes do novo preenchimento, sem diferença de satisfação em relação às tratadas pela primeira vez. Exige certeza de que o volume é gel.
Preenchedor permanente também migra?
Migra, e não se dissolve com hialuronidase; a correção pode exigir cirurgia. Por isso material permanente fica fora do lábio.
Como prevenir a migração no lábio?
Menos gel por sessão, avaliação do que restou antes de cada retoque, borda tratada no canal da borda, ponta orientada para que o gel não suba e massagem leve, só para modelar.
Referências
- Harris S, Schelke L, Orlovska M, Wortsman X, Cotofana S, Velthuis P. Ultrasound Evaluation of Lip Anatomy and Filler Placement: A Cross-Sectional Study of Injection Accuracy, Migration, and Demographic Variation. Plast Reconstr Surg. 2026;158(1):65e-75e — 126 participantes; subcutâneo < 1 mm; gel intramuscular na maioria; técnica vertical associada a depósito profundo e sinais de migração. Vínculos declarados: empresa de cursos de ultrassom (Schelke, Velthuis), empresa de ensino de anatomia (Cotofana), consultoria Galderma (Wortsman). · PMID 41494527 · DOI 10.1097/PRS.0000000000012772
- Diwan Z, Trikha S, Etemad-Shahidi S, Parrish N, Rennie C. Evaluation of Current Literature on Complications Secondary to Lip Augmentation Following Dermal Filler Injection. J Clin Aesthet Dermatol. 2023;16(7):26-33 — 53 casos, 82 complicações; nódulo a mais comum. · PMID 37560504
- Cotofana S, Hong WJ, Horne J, Harris S, Surek CC, Frank K, et al. Intralabial Lip Compartments and Their Potential Clinical Relevance. Plast Reconstr Surg. 2024;153(6):1293-1300 — 24 compartimentos; 0,30–0,39 cc (anteriores) e 0,44–0,52 cc (posteriores). · PMID 37314374 · DOI 10.1097/PRS.0000000000010820
- Buhsem O. Comparing the Effects of Different Injection Techniques Used in Lip Augmentation on Filler Migration and Patient Satisfaction. Cureus. 2024;16(7):e64716 — 216 mulheres, quatro técnicas, seguimento de três semanas; maior satisfação com agulha de cima para baixo. · PMID 39021739 · DOI 10.7759/cureus.64716
- Alizadeh N, Caboni S, Hasenöhrl K, Lorenc ZP, Rosso Millan P, Sezgin Kizilok B, et al. Debunking Myths on Hyaluronic Acid Injectable Gels in Clinical Practice. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2026;14(7):e7927 — revisão narrativa; redação financiada pela Teoxane; autores com honorários da Teoxane. · PMID 42499804 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007927
- Gratteri M, Gigliofiorito P, Palmesano M, Piombino L, D'Anna M, Guariglia M, et al. iLips: A 5-Years Experience with a Highly Reproducible Approach for Dynamic Lip Filler. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(15):6306-6315 — 4.583 pacientes; 2 complicações vasculares maiores; nível IV. · PMID 42332314 · DOI 10.1007/s00266-026-05982-1
- Ozturk MK, Kibar Guzin AK. A Natural Flat Volumized Lips Filler Technique: Retrospective Analysis of 920 Patients. Dermatol Surg. 2024;50(5):453-458 — 127 pacientes com migração prévia tratadas com hialuronidase no lábio branco antes do novo preenchimento. · PMID 38386847 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004128
- Grippaudo FR, Di Girolamo M, Mattei M, Pucci E, Grippaudo C. Diagnosis and management of dermal filler complications in the perioral region. J Cosmet Laser Ther. 2014;16(5):246-52 — 26 pacientes; imagem distinguiu infecção, fibrose, granuloma e migração. · PMID 25046237 · DOI 10.3109/14764172.2014.946048
- Kaczorowski M, Nelke K, Łuczak K, Hałoń A. Filler Migration and Florid Granulomatous Reaction to Hyaluronic Acid Mimicking a Buccal Tumor. J Craniofac Surg. 2020;31(1):e78-e79 — relato de caso. · PMID 31634310 · DOI 10.1097/SCS.0000000000005928
- Wu WT, Chang KV, Naňka O, Chang HC, Ricci V, Mezian K, Özçakar L. Lip Sonoanatomy and Relevance to Aesthetic Filler Injections: A Pictorial Review. J Cosmet Dermatol. 2025;24(4):e70164. — revisão sobre ultrassom do lábio; identificação das artérias labiais e do orbicular e protocolo estruturado de varredura. · PMID 40200858 · DOI 10.1111/jocd.70164
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