Qual ácido hialurônico usar em cada região da face
Preenchimento com ácido hialurônico

Qual ácido hialurônico usar em cada região da face

O gel que sustenta uma mandíbula endurece um lábio, e o gel que deixa o lábio natural desaparece num mento. A região decide o produto: plano, espessura da pele, movimento e objetivo apontam para um perfil de gel antes de apontar para uma marca. Este é o mapa, com os volumes que as bulas declaram.

Não existe um ácido hialurônico para o rosto inteiro: cada região pede um perfil de gel. Onde o objetivo é projetar sobre o osso (mento, mandíbula, têmpora, malar profundo), serve gel firme, de elasticidade alta, em plano profundo. Onde a pele é fina e a região se move (lábio, região perioral, olheira), serve gel macio, flexível e coeso, em volume pequeno; na olheira, também pouco hidrofílico. O sulco nasogeniano e o terço médio ficam no meio do caminho. A escolha se faz pela indicação e pelas características do gel, e não pelo nome da marca.

Esta página organiza esse mapa região por região, com o que os estudos de seleção de produto dizem e com os volumes que as próprias bulas americanas declaram. Ela parte de um princípio de reologia já conhecido (gel firme sustenta, gel macio se acomoda) e o aplica à anatomia de cada área.

As quatro perguntas que a região responde

Kazin e Bertucci (2026, Dermatol Surg), revisando têmpora, nariz, lábio e mandíbula, listam os fatores que individualizam a escolha do produto: plano de tratamento, espessura da pele, mobilidade do tecido, projeção desejada e reologia do gel. A revisão de Shah e colaboradores (2026, J Craniofac Surg) vai na mesma linha: o desempenho clínico depende da interação entre G', G'', coesividade e degradação, e essas propriedades precisam ser pesadas contra a demanda biomecânica de cada região, com profundidade, instrumento e volume informados pela reologia e pela anatomia vascular local. Na prática, quatro perguntas resolvem a maior parte dos casos:

  1. Em que plano o gel vai ficar? Sobre o periósteo, na gordura profunda, no subcutâneo ou na derme.
  2. O que cobre o gel? Pele espessa e gordura abundante escondem um gel firme; pele fina denuncia qualquer relevo.
  3. Quanto a região se move? O lábio se deforma o dia inteiro; o ângulo da mandíbula quase não.
  4. O objetivo é projetar ou suavizar? Projeção pede firmeza; transição suave pede flexibilidade e coesão.
Dois blocos de gel de ácido hialurônico sob o mesmo peso, um firme e outro flexível — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
O mesmo peso sobre dois géis: o firme (à esquerda) mantém a forma, o flexível (à direita) cede e se acomoda. A região decide qual dos dois comportamentos é desejável. FIGURE 1 de Hong GW et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 40062708), reproduzida sob licença CC BY.

A revisão sistemática de Hong e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) resume a divisão: géis mais lisos e coesos funcionam melhor em áreas de grande mobilidade, como a boca; géis de viscoelasticidade maior oferecem mais capacidade de elevação para sustentação profunda. Os autores lembram que a seleção correta pela reologia, pela área e pelo paciente ajuda a evitar síndrome do sobrepreenchimento, efeito Tyndall e reações inflamatórias tardias.

Como ler os volumes desta página

Os volumes citados abaixo vêm das instruções de uso dos fabricantes (americanas, e europeias no caso da linha Belotero com lidocaína) e são de dois tipos diferentes, que não podem ser misturados: mediana observada no estudo de registro (o que de fato foi injetado, em média, para chegar à correção) e teto declarado (o máximo estudado ou recomendado por sessão, que é limite de segurança, e não dose habitual). As bulas brasileiras podem trazer limites diferentes; antes de usar um número, confira a bula nacional do produto que está na sua bandeja. Nenhuma dessas bulas declara diluição: os géis de ácido hialurônico são usados como fornecidos.

O mapa, região por região

Malar e terço médio

O que se busca: repor suporte e projeção do terço médio, que perde volume com a reabsorção óssea e o deslocamento dos compartimentos de gordura. Perfil de gel: firme a intermediário, em depósito profundo, sobre o osso ou na gordura profunda, para que a projeção não acompanhe o sorriso. Volumes de bula: no estudo do Juvéderm Voluma XC, as medianas foram de 2,0 mL na região zigomaticomalar, 2,0 mL na bochecha anteromedial e 2,1 mL na região submalar; no do Belotero Volume (+), a mediana do tratamento inicial foi de 2,00 mL por bochecha. A bula do Restylane Lyft fixa o teto em 6,0 mL por tratamento para bochecha e médio-face.

Compartimentos de gordura da face com o compartimento malar em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Os compartimentos de gordura da face, com o malar em destaque. No terço médio, o gel firme vai para os compartimentos profundos e para o plano ósseo; o compartimento superficial, que se move com a mímica, recebe pouco ou nada.

A anatomia da região, camada por camada, está em anatomia da região malar para preenchimento.

Têmpora

O que se busca: corrigir a depressão temporal sem criar degrau entre a fronte e o arco zigomático. Perfil de gel: firme o bastante para sustentar contra o músculo temporal, depositado no plano supraperiosteal. Volumes de bula: a bula do Juvéderm Voluma XC orienta aplicação em bolus no plano supraperiosteal, com no máximo 3 bolus por lado por consulta; a mediana do estudo foi de 3,65 mL somando as duas têmporas, entre tratamento inicial e retoque. A do Restylane Contour fixa o teto em 3 mL por têmpora por sessão. Kazin e Bertucci incluem a têmpora entre as regiões de alto impacto e alto risco, ao lado de nariz, lábio e mandíbula.

Mento

O que se busca: projeção e alongamento do terço inferior, com contorno definido. Perfil de gel: firme, de elasticidade alta, sobre o osso, em pequenas alíquotas. Volumes de bula: no estudo do Juvéderm Voluma XC, a mediana total foi de 2,4 mL (faixa de 0,7 a 4,0 mL), distribuída entre pogônio, mento e sulcos pré-jowl, com teto de protocolo de 4 mL entre inicial e retoque; a bula do Restylane Defyne descreve cerca de 2,6 mL na injeção inicial, com teto de 4 mL (2 mL no mento e 2 mL abaixo do lábio inferior).

Mandíbula e ângulo

O que se busca: definição da borda mandibular e do ângulo, frequentemente com objetivo diferente em homens e mulheres. Perfil de gel: o mais firme do rosto, com baixa tendência a se espalhar, depositado em plano profundo. Volumes de bula: a bula do Juvéderm Volux XC declara 6,8 mL como volume típico (mediana de inicial mais retoque) e 3,0 mL para manutenção, e informa que mais de 9 mL não foi estudado.

Sulco nasogeniano

O que se busca: suavizar o sulco, quase sempre depois de tratar o suporte do terço médio, que costuma ser a causa. Perfil de gel: intermediário, que preencha sem formar cordão na transição com o lábio. Volumes de bula: a bula do Juvéderm Vollure XC declara 1,7 mL por sítio como volume típico; a do Restylane Defyne, cerca de 1,4 mL por sulco na injeção inicial; a do Belotero Balance (+), média de 1,59 mL por sulco. É a região em que a artéria facial corre mais perto do alvo, e o planejamento de plano vale tanto quanto o produto: ver artéria facial e artéria angular.

Lábio

O que se busca: hidratação, contorno e volume proporcional, em tecido que se deforma a cada palavra. Perfil de gel: macio, flexível e coeso, que acompanhe o movimento sem endurecer nem migrar. Volumes de bula: a bula do Restylane Kysse recomenda não exceder 1,5 mL por lábio por tratamento, e a mediana do estudo foi de 0,90 mL no lábio superior e 0,80 mL no inferior; no estudo do Juvéderm Volbella XC, as medianas foram de 1,0 mL no superior e 0,8 mL no inferior. A duração costuma ficar entre 6 e 12 meses, em média, e varia de pessoa para pessoa conforme metabolismo, reticulação do gel, mímica e volume aplicado.

Corte lateral do lábio com pequenos depósitos de preenchedor — Dr. Thiago Perfeito
Corte lateral do lábio com pequenos depósitos verticais de preenchedor. Cada depósito é pequeno e fica num tecido que se deforma a cada palavra: no lábio, flexibilidade e coesão do gel pesam mais que firmeza.

A técnica clássica está em preenchimento labial: técnica, volume e planos, e a variante de depósitos verticais, em técnica russa.

Olheira e sulco infraorbital

O que se busca: suavizar a transição entre pálpebra e bochecha sob a pele mais fina do rosto. Perfil de gel: Bhojani-Lynch e colaboradores (2025, Aesthet Surg J Open Forum) recomendam escolher o gel pela capacidade de se adaptar ao movimento: liso, maleável e com hidrofilia limitada, para não acumular água sob a pálpebra. Os mesmos autores recomendam tratar antes a perda de volume do terço médio e só depois, se preciso, o sulco diretamente, no plano supraperiosteal, com no máximo 0,5 mL por olho. A revisão sistemática de Trinh e colaboradores (2022, Facial Plast Surg), com 23 artigos, descreve a técnica mais comum como depósito pré-periosteal, profundo ao orbicular, e lista entre os efeitos adversos a descoloração azul-acinzentada (o chamado efeito Tyndall, que na prática se associa a gel depositado superficialmente). Volumes de bula: a bula do Restylane Eyelight limita a 1 mL por lado por sessão e recomenda nova sessão se for preciso mais; no estudo do Juvéderm Volbella XC, o volume típico foi de cerca de 1,0 mL em cada área infraorbital.

Nariz

O que se busca: corrigir giba, ângulo ou projeção da ponta sem cirurgia. Perfil de gel: firme, em volume mínimo, no plano profundo da linha média. O volume é mínimo e se define na avaliação. É a região de risco máximo do rosto, com anatomia, contraindicações e técnica tratadas em rinomodelação: pontos, planos e zonas de risco.

Linhas finas e região perioral

O que se busca: suavizar linhas superficiais sem relevo visível. Perfil de gel: o mais macio e coeso do portfólio, que se integre à derme de forma homogênea. A bula europeia do Belotero Balance Lidocaine indica injeção da derme superficial à média para as linhas periorais, com até 1,0 mL; a do Belotero Soft Lidocaine permite até 3 mL por sessão nas linhas periorais.

Resumo do mapa

RegiãoObjetivoGel que tende a servirPlano habitual
Mandíbula e ânguloDefinição de contornoMuito firme, pouco espalhamentoProfundo
MentoProjeçãoFirmeSobre o osso
TêmporaRepor depressãoFirmeSupraperiosteal
Malar e terço médioSuporte e projeçãoFirme a intermediárioSobre o osso e gordura profunda
Sulco nasogenianoSuavizarIntermediárioDerme profunda ou subcutâneo, conforme a bula e o trajeto da artéria facial
LábioContorno e volume em área móvelMacio, flexível, coesoSubmucoso ou subcutâneo
OlheiraTransição pálpebra-bochechaMacio, maleável, pouco hidrofílicoSupraperiosteal
NarizContorno sem cirurgiaFirme, volume mínimoProfundo, na linha média
Linhas finasSuavizar superfícieMuito macio e coesoDerme

O envelhecimento muda a pergunta

Na paciente entre 45 e 60 anos, a falta de volume raramente é só de gordura: o esqueleto do terço médio e da mandíbula também perde sustentação, e a pele afina. Isso desloca a escolha para o gel firme no plano ósseo, que devolve o apoio, e reserva o gel macio para o acabamento superficial em pouca quantidade. Tentar resolver com gel macio um problema de suporte leva a mais seringas, mais peso e à face pesada que se vê na síndrome da face sobrepreenchida.

Comparação entre face jovem e envelhecida com perda de suporte ósseo e de gordura — Dr. Thiago Perfeito
Dois cortes comparados: na face jovem, osso e gordura sustentam o contorno; na envelhecida, o suporte ósseo recua e a gordura se desloca. A reposição começa pelo plano profundo, com gel firme, antes de qualquer acabamento superficial.

Marca, família e referência

As grandes famílias de ácido hialurônico (Restylane, da Galderma; Juvéderm, da Allergan Aesthetics/AbbVie; Belotero, da Merz) são portfólios com várias referências de reologia diferente. Não existe "um Restylane" nem "um Juvéderm": existe a referência feita para o lábio, a feita para a mandíbula, a feita para linhas finas. Por isso a pergunta útil nunca é "qual a melhor marca", e sim "qual o melhor perfil de gel para esta indicação". A resposta se organiza pela indicação: para definição de mandíbula, o gel mais firme do portfólio; para lábio, o macio e coeso; para olheira, o maleável e pouco hidrofílico. Dentro de cada indicação, mais de uma marca tem referência que cumpre o critério. Como dado de rotina, e não como ranking, os produtos em uso na clínica hoje são o Restylane Lyft na mandíbula e o Restylane Lido e o Restylane Volyme no lábio.

Há ainda os híbridos, como o HarmonyCa, que combina microesferas de hidroxiapatita de cálcio em gel de ácido hialurônico reticulado. Ele não é só ácido hialurônico, e a escolha dele segue a lógica dos bioestimuladores, discutida em Sculptra, Radiesse ou HarmonyCa.

Declaração: o Dr. Thiago Perfeito não tem relação comercial com nenhum fabricante de preenchedor, incluindo Galderma, Allergan Aesthetics/AbbVie e Merz. As marcas aparecem aqui para ilustrar o critério, com dados das bulas dos próprios fabricantes.

Erros de escolha que aparecem no consultório

Onde o mapa vira mão

Escolher a seringa certa para cada região é decisão que se aprende vendo o gel se comportar no tecido e corrigindo a mão em tempo real. Na Pós Prática, a formação do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o terço médio e o contorno de mandíbula e mento, com ácido hialurônico de alta sustentação, estão no módulo B1 · Toxina e Preenchimento Essencial; lábio, olheira, têmpora e rinomodelação estão no módulo A1 · Face Avançada. Nos dois, a teoria chega pelo pré-work gravado, e o sábado presencial, em Brasília, junta a demonstração comentada à execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, numa turma de até oito médicos.

Síntese

A região escolhe o gel: plano, cobertura, movimento e objetivo definem se ele deve ser firme, intermediário ou macio. Mandíbula, mento, têmpora e malar profundo pedem firmeza; lábio, olheira e linhas finas pedem flexibilidade e coesão; o sulco nasogeniano fica no meio. Os volumes de bula separam mediana de teto, e a marca entra depois da indicação. Outros textos técnicos estão na Biblioteca.

Perguntas frequentes

Qual ácido hialurônico usar na mandíbula?

O gel mais firme do portfólio, com elasticidade alta e pouco espalhamento, em plano profundo. A bula do Juvéderm Volux XC declara 6,8 mL como volume típico entre inicial e retoque e informa que mais de 9 mL não foi estudado.

Qual ácido hialurônico usar no lábio?

Gel macio, flexível e coeso, que acompanhe a fala e o sorriso. A bula do Restylane Kysse recomenda não passar de 1,5 mL por lábio por tratamento. A escolha da referência segue a indicação, e mais de uma marca tem gel com esse perfil.

Qual o melhor tipo de preenchedor para olheira?

Gel liso, maleável e com hidrofilia limitada, no plano supraperiosteal, depois de tratar o suporte do terço médio (Bhojani-Lynch et al., 2025). A bula do Restylane Eyelight limita a 1 mL por lado por sessão.

Posso usar o mesmo ácido hialurônico no rosto todo?

Não é o ideal. Gel firme em plano superficial forma relevo, e gel macio em ponto de projeção espalha e pede mais volume. Cada plano e cada região pedem um perfil de gel.

Os volumes das bulas são a dose a aplicar?

Não. As bulas trazem medianas observadas nos estudos de registro e tetos de segurança por sessão. O teto é limite, e não meta; o volume real sai da avaliação de cada paciente.

Qual a melhor marca de ácido hialurônico?

A escolha se faz pela indicação, não pela marca. Restylane, Juvéderm e Belotero são famílias com várias referências de reologia diferente; dentro de cada indicação, mais de uma marca tem referência que cumpre o critério. O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante.

Quanto tempo dura o preenchimento labial?

Em média de 6 a 12 meses, e varia de pessoa para pessoa, conforme metabolismo, reticulação do gel, mímica labial e volume aplicado.

Referências

  1. Kazin R, Bertucci V. Areas of High Risk and High Reward: Temple, Nose, Lip, and Jawline Filler. Dermatol Surg. 2026 · PMID 42878425 · DOI 10.1097/DSS.0000000000005394
  2. Shah H, Weiss BP, Munkwitz SE, et al. Clinical Translation of Injectable Facial Filler Material Properties: Anatomy-Informed Selection, Technique, and Outcome-Part B. J Craniofac Surg. 2026 · PMID 42112997 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012877
  3. Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Conditions to Consider When Choosing Fillers. J Cosmet Dermatol. 2025;24(3):e70075 · PMID 40062708 · DOI 10.1111/jocd.70075
  4. Bhojani-Lynch T, Berros P, Snozzi P. Optimizing Infraorbital Hollows Treatment With Hyaluronic Acid Fillers: Overview of Anatomy, Injection Techniques, and Product Considerations. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf069 · PMID 41018152 · DOI 10.1093/asjof/ojaf069
  5. Trinh LN, Grond SE, Gupta A. Dermal Fillers for Tear Trough Rejuvenation: A Systematic Review. Facial Plast Surg. 2022;38(3):228-239 · PMID 34192769 · DOI 10.1055/s-0041-1731348
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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