Preenchimento de mento: projeção, altura e técnica
Preenchimento com ácido hialurônico

Preenchimento de mento: projeção, altura e técnica

Queixo retruído e queixo curto parecem o mesmo problema na foto de frente e pedem pontos diferentes. A análise de perfil separa os dois, e a anatomia vascular do queixo explica por que o depósito central fica na linha média.

O mento se planeja em dois eixos: projeção, que avança o queixo no perfil e se trabalha no pogônio, e altura, que alonga o terço inferior e se trabalha na borda inferior (o mentoniano, ou menton). Nos dois casos o gel é firme e vai sobre o periósteo, em pequenas alíquotas, de preferência perto da linha média. O cuidado anatômico é a artéria mentual ascendente, que entra no queixo um pouco ao lado do centro, no plano do músculo.

Esta página trata da análise e da técnica do mento isolado. A borda da mandíbula e o ângulo, que costumam entrar no mesmo plano, têm texto próprio; o músculo mentual com toxina, também.

Análise: o que falta neste queixo?

Antes de qualquer seringa, o perfil responde três perguntas. A primeira é se o queixo está atrás da linha que se espera para aquele rosto, isto é, se há retrusão. A segunda é se o terço inferior está curto, com mento baixo pouco desenvolvido. A terceira é se há hipertonia do mentual, que enruga a pele e achata o queixo quando o paciente fecha a boca. Uma mesma retrusão pode pedir só projeção, só altura ou os dois.

Mariwalla e colaboradores (2025, Dermatol Surg), num consenso multidisciplinar sobre o terço inferior, registram que retrusão do mento e peso na mandíbula são queixas mais comuns em pacientes do Leste e do Sul da Ásia, enquanto em pacientes de ascendência europeia predominam atrofia e rugas periorais. O mesmo exame, portanto, leva a planos diferentes conforme o rosto.

Gráfico da mudança do ângulo glabela-subnasal-pogônio após preenchimento de mento — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Mudança média do ângulo glabela-subnasal-pogônio ao longo de 52 semanas: o grupo tratado mantém ganho de cerca de 3 graus no perfil até a semana 52, e o controle, acompanhado até a semana 24, fica perto de zero. Figure 3 de Xie Y et al., Aesthet Surg J 2025 (PMID 40246546), reproduzida sob licença CC BY.

A anatomia do queixo para quem injeta

O queixo tem mais artérias superficiais do que profundas. Li e colaboradores (2023, Dermatol Surg), com tomografia contrastada de 40 cabeças de cadáver, contaram 221 artérias atravessando o plano sagital: 163 superficiais e 58 profundas. O número de artérias diminuía à medida que se afastava do plano do vermelhão do lábio inferior: quanto mais baixo no queixo, menos vasos, e o plano profundo tem menos que o superficial.

O vaso que mais pesa no planejamento é a artéria mentual ascendente, principal suprimento do topo do queixo. No estudo de dissecção de Tansatit e colaboradores (2020, Plast Reconstr Surg), em 31 cadáveres, a artéria dominante entrou no queixo paracentralmente, a cerca de 6 mm da linha média (5,64 ± 4,34 mm), no plano muscular, a 4,15 ± 1,95 mm da pele. A mesma artéria se anastomosava com a sublingual, no assoalho da boca. Lateralmente, na altura dos pré-molares, fica o forame mentual, por onde saem o nervo e os vasos mentuais.

Doppler colorido do queixo em corte sagital com artéria submentual sob o músculo mentual — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Corte sagital paramediano do queixo com Doppler colorido: a artéria submentual (em vermelho) corre sob o músculo mentual, acima da cortical do osso. O ultrassom mostra onde está o vaso antes da agulha chegar. Figure 20 de Vasconcelos-Berg R et al., Diagnostics (Basel) 2025 (PMID 40218271; a primeira autora declara vínculo de palestrante com a Galderma, e uma coautora, bolsa de pesquisa da Merz), reproduzida sob licença CC BY.

Essas anastomoses explicam uma complicação rara e típica da região. Wang e colaboradores (2018, Aesthetic Plast Surg) relataram dois casos de oclusão após ácido hialurônico no mento: um com necrose de pele do queixo e outro com comprometimento vascular da língua, que os autores atribuíram à passagem do gel pela artéria submentual e suas ligações com as artérias sublingual e lingual profunda. O mapa completo das zonas de risco está em zonas de risco vascular da face, e a anatomia vascular por região, em anatomia vascular da face para injetáveis.

Os pontos: projeção, altura e transição

Pogônio, para projeção

O ponto mais anterior do queixo recebe o gel sobre o periósteo, perto da linha média, em bolus pequeno. Voytik e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg), em estudo prospectivo com fotogrametria 3D, injetaram o Juvéderm Volux no plano periosteal, submuscular, e mediram resposta volumétrica imediata e retenção de volume ao longo de 90 dias. Manter o depósito central na linha média, sobre o osso, afasta a agulha do ponto de entrada mais frequente da artéria mentual ascendente. A dispersão do estudo de Tansatit (desvio-padrão de 4,34 mm) mostra, porém, que o vaso pode passar perto do centro: aspiração, injeção lenta e baixa pressão valem também ali.

Mentoniano, para altura

Quando o terço inferior é curto, o gel vai na borda inferior do mento, também sobre o osso, empurrando o contorno para baixo. Gel colocado só na ponta, nesse paciente, projeta sem alongar e pode deixar o queixo pontudo.

Laterais e pré-jowl, para a transição

Na bula do Juvéderm Voluma XC, o tratamento do queixo distribui o gel entre pogônio, mentoniano e sulcos pré-jowl; na do Restylane Defyne, a área tratada inclui o mento e a região abaixo do lábio inferior, entre as linhas que descem das comissuras até o sulco pré-jowl. É o reconhecimento de que o queixo termina na mandíbula, e não no ponto central. A conduta comum é tratar primeiro o centro e depois decidir se as laterais precisam de transição.

Bloco de tecido em camadas com depósito de preenchedor em plano profundo — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de tecido em camadas com o depósito de preenchedor no plano profundo, junto ao osso. No mento, é nesse plano que o gel firme projeta e alonga, abaixo da maior parte das artérias superficiais.

Técnica passo a passo

  1. Foto de frente e de perfil, em repouso e com a boca fechada sob esforço. A segunda mostra a hipertonia do mentual.
  2. Marcação. Linha média, pogônio, borda inferior e, se for o caso, as laterais até o pré-jowl. O Doppler, quando disponível, localiza o vaso paramediano antes de injetar.
  3. Agulha perpendicular até o osso no ponto central. Antes de cada depósito, aspirar (rotina do Dr. Thiago em todo preenchedor, com espera mais longa quando a agulha é fina) e então empurrar devagar, sem força no êmbolo.
  4. Alíquotas pequenas. A bula do Juvéderm Voluma XC orienta distribuir o gel no queixo em bolus pequenos, de 0,1 a 0,2 mL, sobre uma área ampla, para reduzir irregularidades persistentes.
  5. Cânula para a transição, quando necessária. Entrada lateral, plano profundo, retroinjeção.
  6. Conferência de perfil. Paciente sentado, perfil dos dois lados e vista de baixo. Melhor faltar um pouco do que sobrar: o retoque é simples, a retirada não.
Ultrassom com Doppler de cânula no plano profundo do queixo — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Cânula no plano de gordura profunda do queixo, em imagem com Doppler obtida durante a injeção; o osso aparece como a linha brilhante abaixo. Figure 22 de Vasconcelos-Berg R et al., Diagnostics (Basel) 2025 (PMID 40218271), reproduzida sob licença CC BY.

As vantagens de cada instrumento por região estão em cânula ou agulha no preenchimento, e a escolha do gel pela reologia, em reologia do ácido hialurônico.

Mentual hipertônico: toxina junto com o gel

O músculo mentual contraído empurra o gel para cima e apaga a projeção. Guo e colaboradores (2024, Aesthet Surg J), em ensaio randomizado com 50 pacientes com retrusão moderada a grave, compararam toxina botulínica mais ácido hialurônico com ácido hialurônico isolado: as escalas de retrusão ficaram semelhantes, mas a associação alcançou o resultado com menos volume de gel e teve maior taxa de melhora global nos três primeiros meses. A técnica no músculo está em botox na covinha do queixo.

O que os ensaios de registro mostram

Sem conflito: nenhum fabricante, Galderma e Allergan Aesthetics/AbbVie incluídos, tem relação comercial com o Dr. Thiago Perfeito. Os nomes comerciais estão aqui só porque são os géis com ensaio publicado para o queixo.

Complicações e como conduzir

Onde a análise do perfil vira técnica

Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), mento, mandíbula e ângulo goníaco, incluindo a diferença de abordagem entre homem e mulher, estão no módulo B1 · Toxina e Preenchimento Essencial. O médico chega ao sábado com a anatomia estudada no pré-work gravado; em Brasília, a parte teórica é a demonstração comentada, e a prática é a execução do próprio aluno, supervisionada, em paciente modelo, com no máximo oito médicos por turma.

Síntese

Projeção se faz no pogônio, altura na borda inferior, transição nas laterais; o gel é firme, sobre o osso, em alíquotas pequenas e com o depósito central na linha média, ao lado da qual passa a artéria mentual ascendente. Mentual hipertônico pede toxina junto. O paciente sai informado de que o queixo tem anatomia vascular ligada à língua e de que o osso pode remodelar sob o gel. Outros textos técnicos estão na Biblioteca.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre projeção e altura no preenchimento de mento?

Projeção avança o queixo no perfil; altura alonga o terço inferior. A primeira se trabalha no pogônio, a segunda na borda inferior do mento. Gel só na ponta, em queixo curto, projeta sem alongar.

Em que plano se injeta o ácido hialurônico no mento?

Sobre o periósteo, em pequenas alíquotas. No estudo de Li e colaboradores (2023), as artérias profundas do queixo eram bem menos numerosas que as superficiais, e o número caía à medida que se descia em direção à borda. Na transição lateral, a cânula em plano profundo é opção.

Onde fica o risco vascular do queixo?

Na artéria mentual ascendente, que entra a cerca de 6 mm da linha média, no plano muscular (Tansatit et al., 2020), e nas ligações da submentual com as artérias da língua (Wang et al., 2018).

Precisa de toxina junto com o preenchimento de mento?

Quando o mentual é hipertônico, a associação ajuda. Em ensaio randomizado, toxina mais ácido hialurônico chegou a resultado semelhante com menos gel (Guo et al., 2024, Aesthet Surg J).

Preenchimento de mento reabsorve o osso?

Pode haver remodelação. Em coorte com tomografia, 35,90% dos pacientes injetados tinham reabsorção óssea discernível no mento (Guo et al., 2024, Int J Surg). O paciente deve ser informado.

Quanto tempo dura o preenchimento de mento?

Nos ensaios de registro, o efeito se manteve por cerca de um ano (48 a 52 semanas, conforme o estudo). A duração varia de pessoa para pessoa conforme o gel, o volume e o metabolismo.

Referências

  1. Beer K, Kaufman-Janette J, Bank D, Biesman B, Dayan S, Kim W, Chawla S, Schumacher A. Safe and Effective Chin Augmentation With the Hyaluronic Acid Injectable Filler, VYC-20L. Dermatol Surg. 2021;47(1):80-85 · PMID 33347003 · DOI 10.1097/DSS.0000000000002795
  2. Marcus K, Moradi A, Kaufman-Janette J, et al. A Randomized Trial to Assess Effectiveness and Safety of a Hyaluronic Acid Filler for Chin Augmentation and Correction of Chin Retrusion. Plast Reconstr Surg. 2022;150(6):1240e-1248e · PMID 36126213 · DOI 10.1097/PRS.0000000000009733
  3. Xie Y, Li Q, Zhao H, et al. VYC-25L Is Safe and Effective for Enhancing the Chin and Jawline by Correcting Chin Retrusion in Chinese Adults. Aesthet Surg J. 2025;45(7):699-708 · PMID 40246546 · DOI 10.1093/asj/sjaf033
  4. Tansatit T, Phumyoo T, Sawatwong W, McCabe H, Jitaree B. Implication of Location of the Ascending Mental Artery at the Chin Injection Point. Plast Reconstr Surg. 2020;145(1):51e-57e · PMID 31881605 · DOI 10.1097/PRS.0000000000006394
  5. Li XR, Hong WJ, Li ZH, Luo CE, Jiang XY, Luo SK. Clinical Anatomy of the Chin Evaluated by 3-Dimensional Tomography and Cadaveric Dissection: Implications for Safety and Optimal Injection Techniques in Chinese. Dermatol Surg. 2023;49(3):237-241 · PMID 36728222 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003684
  6. Wang Q, Zhao Y, Li H, Li P, Wang J. Vascular Complications After Chin Augmentation Using Hyaluronic Acid. Aesthetic Plast Surg. 2018;42(2):553-559 · PMID 29260270 · DOI 10.1007/s00266-017-1036-3
  7. Guo Y, Wang J, Wei W, et al. Treatment of Chin Retrusion With Botulinum Toxin Plus Hyaluronic Acid Filler in Comparison With Hyaluronic Acid Filler Alone: A Randomized, Evaluator-Blinded, Controlled Study. Aesthet Surg J. 2024;44(5):537-544 · PMID 38036752 · DOI 10.1093/asj/sjad358
  8. Guo X, Zong X, Song G, et al. Would hyaluronic acid-induced mental bone resorption be a concern? A prospective controlled cohort study and an updated retrospective cohort study. Int J Surg. 2024;110(3):1502-1510 · PMID 38181116 · DOI 10.1097/JS9.0000000000000955
  9. Voytik M, Khan S, Broach RB, Percec I. Three-Dimensional Volumetric Analysis of Chin Augmentation Using Hyaluronic Acid Filler: A Prospective Study. Plast Reconstr Surg. 2026 · PMID 42485070 · DOI 10.1097/PRS.0000000000013346
  10. Mariwalla K, Fabi S, Belkin D, et al. Assessing the Lower Face: Lips, Chin, and Jawline. Dermatol Surg. 2025;51(12S):S23-S30 · PMID 41325036 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004936
  11. Vasconcelos-Berg R, Desyatnikova S, Bonavia P, Navarini A, Chammas MC, Sigrist R. Best Practices for the Use of High-Frequency Ultrasound to Guide Esthetic Filler Injections-Part 3: Lower Third of the Face. Diagnostics (Basel). 2025;15(7):921 · PMID 40218271 · DOI 10.3390/diagnostics15070921
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

Pós Prática em Medicina Estética Avançada

Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.

Conhecer a formação →