Preenchimento do sulco nasogeniano: quando NÃO preencher
A resposta curta
O sulco nasogeniano é uma fronteira entre compartimentos de gordura, e não um buraco. Em muitos pacientes que chegam pedindo “preencher o bigode chinês”, ele é consequência: perda de suporte do terço médio, descida do tecido da bochecha, fossa piriforme vazia ou excesso de pele. Preencher direto a prega, nesses casos, alarga a face, pesa no sorriso e coloca gel em cima da artéria facial sem tratar a causa. Quando o sulco é a própria indicação, o preenchimento direto tem resultado medido em ensaio randomizado; quando é consequência, a prega não é o primeiro alvo e recebe o complemento depois do suporte — em volume pequeno, no plano que a bula descreve.
É a região em que a recusa mais vale. O paciente aponta para o sulco porque é o que ele vê no espelho; o injetor que aceita a queixa como diagnóstico trata o sintoma e, sessão após sessão, acumula produto onde ele menos ajuda.
Por que o sulco não se comporta como uma ruga
A prega marca o limite entre a gordura da bochecha, de um lado, e o lábio superior, do outro. Gierloff e colaboradores (2012, J Plast Reconstr Aesthet Surg) injetaram contraste nos compartimentos de gordura de 9 cabeças de cadáver, entre 72 e 89 anos, e reconstruíram o resultado em tomografia. O sulco nasogeniano, a goteira lacrimal e o sulco labiomandibular apareceram como bordas entre compartimentos vizinhos, com limites que chegam até a pele. A conclusão dos autores é a base desta página: aumentar o volume do compartimento, sozinho, tem alcance limitado nessas pregas, porque a borda continua lá; abaixo do sulco, porém, existe gordura profunda que pode ser usada para elevar a prega.

Isso muda a pergunta da consulta. Em vez de “quanto gel cabe no sulco”, a pergunta é “por que este sulco aprofundou”. As respostas mais comuns cabem em quatro grupos, e três deles pedem tratar outro lugar.
Quando NÃO preencher a prega
1. Quando a causa é o terço médio
Com a reabsorção óssea da maxila e a perda de volume da gordura profunda da bochecha, o tecido do terço médio perde apoio e desce em direção à prega. O sulco aprofunda porque a bochecha caiu sobre ele. Preencher a prega, nesse cenário, levanta o vale e deixa a bochecha no mesmo lugar — o resultado é um terço médio mais largo e mais baixo.

As diretrizes de terço médio vão nessa direção. Trévidic e colaboradores (2022, Aesthet Surg J) descrevem a estrutura de cinco camadas do terço médio e registram que tratá-lo pode melhorar, de forma indireta, a goteira infraorbital e o sulco nasogeniano. Li e colaboradores (2025, Plast Reconstr Surg Glob Open) organizaram quatro protocolos pela causa do sulco: no primeiro, a injeção vai direto na prega, na derme média a profunda ou logo abaixo dela; no segundo, em dois planos, na fossa canina e no subcutâneo; no terceiro e no quarto, o tratamento começa por injeções indiretas — gordura profunda medial da bochecha e região pré-auricular para levantar o tecido caído e, no quarto, também têmpora e mandíbula — e só depois a prega recebe o complemento direto. O estudo de ultrassom e dissecção de Li Z e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg), sobre uma sequência padronizada de pontos no terço médio, organiza o tratamento em três etapas: bolus de sustentação no arco e na eminência zigomática, linhas na gordura profunda medial da bochecha e, por fim, linhas no subcutâneo da bochecha lateral e da prega, com 0,4 mL nesta última.
Na consulta, o teste é simples: com o paciente sentado, eleve levemente o tecido da bochecha com os dedos, em direção ao malar. Se o sulco se desfaz, a causa provavelmente está acima dele. A anatomia de onde repor está em anatomia da região malar para preenchimento.
2. Quando já há gel na região
O ácido hialurônico reticulado dura mais no terço médio do que a rotina de retoque supõe. Master e colaboradores (2024, Plast Reconstr Surg Glob Open) fizeram ressonância em 33 pacientes tratados no terço médio e encontraram gel em todos, sem desaparecimento completo em 2 anos; 21 estavam sem injeção havia 2 a 5 anos, 12 havia mais de 5, e houve gel detectável até 15 anos depois. O volume residual foi leve em 9, moderado em 13 e importante em 11.
Para o sulco, a leitura é direta: o paciente que “já fez várias vezes” e voltou com a prega pesada pode não precisar de mais produto. Precisa de exame — de preferência com ultrassom —, de reposicionar o raciocínio para o suporte e, às vezes, de hialuronidase antes de qualquer nova seringa. É o caminho clássico para a face sobrepreenchida, em que o gel acumulado junto à prega aparece como volume no sorriso.
3. Quando o problema é pele e não volume
Pele com flacidez importante e excesso de tecido sobre a prega não melhora com gel na prega: o volume colocado medialmente tende a empurrar o excesso, e a dobra pode ficar maior. Nesse paciente, a conversa é sobre suporte, qualidade de pele, bioestimulador, tecnologia ou cirurgia — e o injetor que oferece só seringa arrisca entregar um resultado pior do que o que o paciente tinha.
4. Quando a anatomia do paciente põe o vaso no caminho
O sulco é uma das regiões com mais oclusão. No levantamento de Alam e colaboradores (2021, JAMA Dermatol), com 370 médicos e 1,7 milhão de seringas, sulco nasogeniano e lábio foram as regiões com maior probabilidade de oclusão. Liao e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) revisaram 12 pacientes com isquemia de pele depois de preenchimento do sulco e descreveram três padrões: sulco mais nariz inteiro (75%), sulco mais os dois terços inferiores do nariz (16,7%) e sulco mais região infraorbital (8,3%), este último atribuído a um tronco desviado da artéria facial.
A artéria facial não tem posição fixa em relação à prega. Na metanálise de Doppler de Pourani e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), ela correu medial ao sulco em 46,2% dos casos, cruzou de medial para lateral em 22,5% e ficou lateral em 12,0%; a profundidade aumentou de 6,27 mm, na borda da mandíbula, para 8,04 mm, junto à asa nasal. Trzeciak e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) mostraram que, entre a comissura e a asa nasal, a profundidade varia muito de pessoa para pessoa e sugerem ultrassom na consulta para a parte alta da prega. Os detalhes de trajeto estão em artéria facial e artéria angular.

Não é contraindicação absoluta. É motivo para não preencher às cegas o paciente com pulso palpável sobre a prega, com tronco tortuoso visível ao Doppler ou com cicatriz e fibrose de procedimentos anteriores, que mudam o plano e a sensação na ponta do instrumento.
Outros cenários em que a prega espera
- Fossa piriforme vazia com componente muscular. Ramos e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) descreveram pacientes com sulco profundo, ponta nasal que cai no sorriso e expressão de “bravo”, tratados com ácido hialurônico no espaço piriforme profundo e toxina nos músculos nasais, com suavização da prega em repouso e em movimento. Nesse perfil, gel só na prega não resolve o componente dinâmico.
- Válvula nasal. Kavasogullari e colaboradores (2025, JPRAS Open) relataram colapso da válvula nasal interna em uma paciente de 50 anos com desvio de septo leve, 3 dias depois de preenchimento do sulco; os sintomas regrediram até o 20º dia com medidas conservadoras, sem hialuronidase. Em quem já tem obstrução nasal, injeção profunda junto à abertura piriforme pede avaliação da respiração antes.
- Infecção, lesão ativa ou procedimento odontológico próximo. Os portões de seleção valem aqui como em qualquer região — ver quando não aplicar injetável.
- Expectativa de apagar a prega. A prega existe em rostos jovens. O objetivo realista é suavizar; quem quer apagá-la vai pedir volume até o rosto perder a forma.
Quando preencher, e como
Sobra a indicação real: prega que persiste depois de o suporte ter sido tratado, ou sulco isolado em quem tem terço médio preservado. Para esse paciente, o preenchimento direto tem lastro de ensaio controlado. Dayan e colaboradores (2020, Aesthet Surg J) trataram 123 pacientes com sulco moderado a grave, com Juvéderm Vollure XC num lado e preenchedor de controle no outro, em desenho randomizado: a mediana foi de 1,7 mL por tratamento inicial e retoque, e a taxa de resposta (melhora de ao menos 1 ponto na escala de gravidade do sulco, avaliada pelo investigador) foi de 93% no 6º mês, 85% no 9º e 59% no 18º; o retratamento usou cerca de um terço do volume para resultado semelhante. É estudo do programa de registro do produto, com comparação entre dois géis e não contra ausência de tratamento, e não separa o paciente cujo sulco vinha do terço médio — o que mostra é que, quando a prega é o alvo certo, ela responde. Aí a prega recebe gel, em volume pequeno e no plano que a bula do produto escolhido descreve:
- Plano. A bula europeia do Belotero Balance Lidocaine indica derme superficial a média para o sulco; a do Belotero Intense Lidocaine, derme profunda. A do Radiesse (+) indica o plano subdérmico. Abaixo da prega, perto da abertura piriforme, fica a gordura profunda descrita por Gierloff — o plano de quem quer elevar em vez de encher.
- Volume por sulco (bula). Restylane Defyne: cerca de 1,4 mL por sulco na injeção inicial. Juvéderm Vollure XC: 1,7 mL por sítio. Belotero Balance (+): média de 1,59 mL por sulco. São medianas e médias de estudo; o teto do Belotero Balance Lidocaine é de até 4,8 mL somando os dois sulcos, com retoque espaçado de pelo menos 2 semanas.
- Execução. Aspirar antes de injetar — na conduta do Dr. Thiago, com preenchedor isso é sempre feito, e por mais tempo em agulha de 29 a 30G —, depósito lento, alíquota pequena e atenção ao branqueamento da pele e à dor desproporcional. O instrumento segue a lógica de cânula ou agulha no preenchimento.
- Resgate. Hialuronidase na sala antes da primeira punção; doses em dose de hialuronidase por cenário e protocolo em oclusão vascular por ácido hialurônico.
O perfil de gel por região está em qual ácido hialurônico usar em cada região da face. A escolha de produto se faz pela indicação; o Dr. Thiago Perfeito não tem relação comercial com nenhum fabricante de preenchedor.
Checklist · Antes de tocar no sulco
- Causa: ao elevar a bochecha com os dedos, a prega some? Se sim, o tratamento começa no terço médio.
- Histórico: quanto gel já foi colocado na região, e quando? Ultrassom se houver dúvida.
- Pele: há excesso de tecido sobre a prega? Gel não trata flacidez.
- Dinâmica: o sulco piora no sorriso por músculo ou por espaço piriforme vazio?
- Vaso: pulso palpável ou trajeto tortuoso ao Doppler sobre a prega?
- Expectativa: o paciente aceita suavizar em vez de apagar?
Onde se aprende a dizer não ao sulco
Recusar a prega e propor o terço médio é uma decisão de avaliação: ler a face em repouso e em movimento, testar o suporte com as mãos e explicar ao paciente por que o tratamento vai começar em outro lugar. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o terço médio — compartimentos de gordura, reabsorção óssea, projeção malar e o sulco nasogeniano — é conteúdo do Módulo B1, Toxina e Preenchimento Essencial, com o bloco de segurança vascular. O pré-work gravado traz a anatomia; o sábado presencial, em Brasília, une demonstração comentada e execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, numa turma de até oito médicos.
Síntese
O sulco nasogeniano é borda, não vale: aprofunda quando a bochecha desce, quando o osso recua, quando a fossa piriforme esvazia ou quando sobra pele. Nesses casos, preencher a prega trata o sintoma, alarga o terço médio e põe gel sobre uma artéria de trajeto imprevisível. A prega recebe produto quando sobra depois do suporte — pouco, no plano da bula, com aspiração, depósito lento e hialuronidase à mão.
Perguntas frequentes
Por que não preencher direto o sulco nasogeniano?
Nem sempre é contraindicado: quando o sulco é isolado, o preenchimento direto tem bom resultado em ensaio randomizado (Dayan et al., 2020). O cuidado é que, em muitos casos, a prega é consequência da perda de suporte do terço médio. Gierloff et al. (2012) mostraram que o sulco é uma borda entre compartimentos de gordura, com limites que chegam à pele; encher o vale sem repor o apoio da bochecha alarga o terço médio e não reposiciona o tecido caído.
Como saber se o sulco é causado pelo terço médio?
Com o paciente sentado, eleve levemente o tecido da bochecha com os dedos em direção ao malar. Se a prega se desfaz, a causa provavelmente está acima dela e o tratamento começa no suporte do terço médio, como nos protocolos indiretos descritos por Li et al. (2025).
Paciente que já preencheu o sulco várias vezes pode receber mais gel?
Antes de qualquer seringa nova, ele precisa de exame. Na ressonância de 33 pacientes tratados no terço médio, Master et al. (2024) encontraram ácido hialurônico em todos, sem desaparecimento completo em 2 anos e com gel detectável até 15 anos depois. Prega pesada em quem já fez várias sessões pode ser acúmulo, e não falta de produto.
O sulco nasogeniano é uma região de risco de oclusão?
Sim. No levantamento de Alam et al. (2021), sulco nasogeniano e lábio foram as regiões com maior probabilidade de oclusão. A artéria facial muda de posição em relação à prega — medial em 46,2%, cruzando em 22,5% e lateral em 12,0% na metanálise de Pourani et al. (2025) —, e a isquemia após preenchimento do sulco atinge com frequência o nariz (Liao et al., 2025).
Quanto ácido hialurônico se usa por sulco nasogeniano?
Pelas bulas: cerca de 1,4 mL por sulco na injeção inicial do Restylane Defyne; 1,7 mL por sítio do Juvéderm Vollure XC; média de 1,59 mL por sulco do Belotero Balance (+). O teto do Belotero Balance Lidocaine é de até 4,8 mL somando os dois lados. Em quem teve o terço médio tratado antes, o volume necessário na prega costuma ser menor.
Flacidez no sulco se resolve com preenchedor?
Não. Quando há excesso de pele sobre a prega, o gel colocado medialmente empurra o tecido e a dobra pode ficar maior. Esse paciente se beneficia de suporte do terço médio, qualidade de pele, bioestimulador, tecnologia ou cirurgia, conforme o caso.
Ultrassom ajuda no sulco nasogeniano?
Ajuda bastante na parte alta da prega, onde a profundidade da artéria facial mais varia (Trzeciak et al., 2025). O Doppler mostra o trajeto do vaso antes da injeção e o gel antigo que ainda está na região (Vasconcelos-Berg et al., 2024).
Referências
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- Trévidic P, Kaufman-Janette J, Weinkle S, et al. Injection Guidelines for Treating Midface Volume Deficiency With Hyaluronic Acid Fillers: The ATP Approach (Anatomy, Techniques, Products). Aesthet Surg J. 2022 — terço médio em 5 camadas; tratá-lo pode melhorar indiretamente goteira infraorbital e sulco nasogeniano. · PMID 35039828 · DOI 10.1093/asj/sjac007
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- Master M, Azizeddin A, Master V. Hyaluronic Acid Filler Longevity in the Mid-face: A Review of 33 Magnetic Resonance Imaging Studies. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2024 — gel presente nos 33; sem desaparecimento completo em 2 anos; até 15 anos. · PMID 39015357 · DOI 10.1097/GOX.0000000000005934
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- Dayan S, Maas CS, Grimes PE, et al. Safety and Effectiveness of VYC-17.5L for Long-Term Correction of Nasolabial Folds. Aesthet Surg J. 2020 — 123 pacientes, randomizado, Vollure × preenchedor de controle no lado oposto; mediana 1,7 mL (inicial + retoque); resposta 93%, 85% e 59% nos meses 6, 9 e 18; retratamento com ~1/3 do volume. · PMID 31346621 · DOI 10.1093/asj/sjz200
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