Preenchimento malar: vetores, volume e plano
Preenchimento com ácido hialurônico

Preenchimento malar: vetores, volume e plano

A malar é a região em que o mesmo mililitro pode levantar o terço médio ou só deixá-lo mais largo. A diferença está na ordem das decisões: primeiro o vetor — para onde o tecido deve ir —, depois o plano em que o gel trabalha e, só então, o volume que a bula do produto declara. Esta página percorre as três decisões com os estudos que as sustentam.

A pergunta antes da seringa: para onde o tecido precisa ir

Preencher a malar é decidir três coisas na ordem certa: o vetor (em que direção o tecido deve se mover), o plano (em que camada o gel vai trabalhar) e o volume (quanto, dentro do que a bula do produto declara). Quem começa pelo volume costuma acertar a quantidade e errar o resultado.

Vetor, aqui, não é desenho de marketing. É a direção em que a superfície da pele se desloca quando o depósito empurra o tecido de baixo. Um depósito sobre o corpo do zigoma desloca a pele para cima e para fora; um depósito na bochecha anteromedial desloca para a frente. Os dois aumentam “a maçã do rosto”, mas resolvem queixas diferentes: o primeiro trata o terço médio que desceu; o segundo, o terço médio que achatou. A anatomia camada por camada da região está em anatomia da região malar para preenchimento; esta página parte dela e vai para a decisão de técnica.

Vetor de elevação: o que o depósito lateral faz no resto da face

O efeito de um depósito malar bem colocado aparece longe dele — no sulco nasolabial e na comissura. Gatherwright et al. (2015, Aesthet Surg J) injetaram hidroxiapatita de cálcio no plano supraperiosteal da malar em 16 hemifaces de cadáver fresco e mediram o resultado por fotografia tridimensional. A projeção máxima ficou centrada no ponto de injeção, com redução de projeção e de volume nas áreas inferomediais. Depois de 1,5 cc, a junção entre o sulco e a prega nasolabial se deslocou lateralmente 2,7 mm na altura da soleira nasal, 2,5 mm nas colunas filtrais e 1,9 mm na comissura oral. Os autores descrevem um efeito de elevação mensurável, com recrutamento de tecido ptótico.

O modelo é de cadáver e o produto é hidroxiapatita de cálcio, não ácido hialurônico. O que o estudo demonstra é o princípio mecânico: volume em contato com o osso, no ponto certo, traciona a pele vizinha — e parte do que muda no sulco nasolabial vem de tratar a malar, não o sulco.

Região malar e bochecha lateral destacadas como zonas de tratamento — Dr. Thiago Perfeito
Cabeça em três quartos com a região malar e a bochecha lateral em destaque. É nessa faixa, do corpo do zigoma para baixo e para fora, que se escolhe o vetor: depósito alto e lateral eleva; depósito anteromedial projeta para a frente.

Os pontos que trabalham a favor do vetor

Dois grupos de autores chegaram a pontos de injeção que usam a arquitetura da malar em vez de lutar contra ela.

No arco, uma ressalva: Schelke et al. (2024, Dermatol Surg), examinando por ultrassom 200 pacientes tratados na bochecha lateral, encontraram gel deslocado do zigoma para a parte baixa da têmpora, num padrão que dependia da camada da injeção. Lido junto com Schelke, o mapa de Duan favorece construir a projeção lateral sobre o corpo do zigoma — o segundo sítio — e não sobre o arco, a mesma conclusão a que chega a página de anatomia da região malar.

Ligamentos de retenção do terço médio e da mandíbula, base dos pontos de injeção malar — Dr. Thiago Perfeito
Cabeça em três quartos, sem pele, com três âncoras em destaque: a linha do ligamento retentor do orbicular ao longo do rebordo orbital inferior, o tufo do ligamento zigomático sobre o corpo do zigoma e o tufo do ligamento mandibular na mandíbula anterior. Os sítios de Duan et al. ficam dentro do alcance do sistema zigomático; os compartimentos de gordura aparecem em cinza.

Plano: profundo para estrutura, superficial para acabamento

O plano profundo é a base; o superficial é um recurso, não um substituto. Martín et al. (2023, J Cosmet Dermatol) lembram, na introdução do estudo, os três princípios por trás de vários algoritmos de injeção: face superior primeiro, face lateral primeiro, regiões profundas primeiro. O mesmo grupo testou a alternativa em 20 mulheres, com cânula, injetando o terço médio superior superficial de um lado e profundo do outro, com volume médio de 0,78 cc. Os dois lados melhoraram de forma significativa — volume do terço médio, sulco nasolabial e pés de galinha — sem diferença entre as técnicas em 7 semanas.

A leitura prática é de escolha por objetivo:

Depósito de preenchedor no plano profundo, sob gordura e músculo, sobre o osso — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de tecido em camadas: pele, gordura superficial, camada muscular, gordura profunda e, embaixo, o depósito de preenchedor em destaque, apoiado no plano mais profundo. É a posição que dá projeção à malar sem acompanhar a mímica.

Instrumento: no ensaio de Jones et al. (2021, Dermatol Surg), 60 pacientes receberam ácido hialurônico de 20 mg/mL em uma bochecha com cânula (agulha opcional na região zigomaticomalar) e na outra com agulha; a mudança média na escala de déficit de volume do terço médio no primeiro mês foi −1,8 com cânula e −1,9 com agulha, e a cânula foi não inferior. A comparação ponto a ponto entre os dois instrumentos está em cânula ou agulha no preenchimento. Qualquer que seja o instrumento, a rotina do Dr. Thiago com preenchedor é aspirar antes de cada depósito — por mais tempo quando a agulha é fina, de 29 a 30G.

Volume: o que cada bula declara para a bochecha

Volume de malar se lê na bula do produto em uso, separando duas coisas: a mediana que o estudo de registro usou e o teto de segurança. Mediana diz quanto se costuma precisar; teto diz até onde a segurança foi estudada. Confundir as duas é como uma seringa a mais vira rotina. Abaixo, o que as bulas americanas e uma bula europeia declaram:

ProdutoMediana ou média no estudoTeto declarado
Juvéderm Voluma XC (Allergan/AbbVie)Mediana de 2,0 mL na região zigomaticomalar, 2,0 mL na bochecha anteromedial e 2,1 mL na submalar; total das três sub-regiões com mediana de 6,6 mL (faixa de 1,2 a 13,9 mL), sendo 4,8 mL no tratamento inicial e 1,9 mL no retoque, feito em 82% dos tratadosLimite anual de 20 mL de qualquer gel Juvéderm por 60 kg de peso; distribuição em alíquotas de 0,1 a 0,2 mL
Belotero Volume (+) (Merz)Mediana de 2,00 mL por bochecha no tratamento inicial (faixa 0,8 a 3,0 mL); retoque com mediana de 1,00 mL por bochechaNo protocolo do estudo, até 6 mL por bochecha somando inicial e retoque; na bula europeia do Belotero Volume Lidocaine, até 8 mL nas bochechas por sessão
Restylane Lyft (Galderma)A bula americana declara o teto, sem mediana por bochecha6,0 mL por tratamento para aumento da bochecha e déficit de volume do terço médio, acima de 21 anos
Restylane Contour (Galderma)Mediana de 4,00 mL (agulha) e 3,80 mL (cânula com agulha) no terço médio, somando inicial e retoque6 mL por sessão em bochechas e terço médio; 12 mL por paciente e tratamento, incluindo o retoque

Três observações de quem aplica. Primeiro, a mediana do Voluma XC e a do Belotero Volume (+) caem na mesma ordem de grandeza — cerca de 2 mL por sub-região ou por bochecha —, o que ajuda a planejar a primeira sessão em seringas, não em promessas. Segundo, os estudos de registro trabalham com tratamento inicial mais retoque: no Voluma XC, mediana de 4,8 mL no inicial e de 1,9 mL no retoque; no Belotero Volume (+), mediana de 2,00 mL e de 1,00 mL por bochecha, respectivamente. Terceiro, a malar não é região de tudo numa sessão; a faixa do Voluma XC, de 1,2 a 13,9 mL, mostra quanto o déficit varia de paciente para paciente.

As marcas aparecem aqui pelo dado de bula, organizado por indicação — não há marca vencedora para a malar, e o Dr. Thiago não tem relação comercial com qualquer fabricante. Como escolher o gel pela reologia está em reologia do ácido hialurônico e o mapa por região em qual ácido hialurônico usar em cada região.

Quanto tempo o resultado sustenta

O estudo de registro do Restylane Lyft no terço médio (Weiss et al., 2016, Dermatol Surg) randomizou pacientes com perda de volume do terço médio na proporção de 3 para 1 entre tratamento e nenhum tratamento; o grupo tratado teve taxa de sucesso significativamente maior em todos os tempos avaliados até o 12º mês, com eventos adversos majoritariamente leves. Para a paciente entre 45 e 60 anos, que costuma chegar com perda de suporte ósseo e de gordura profunda somadas, isso desenha a conversa honesta: um ano de efeito como referência de estudo, retoque planejado e manutenção conforme a resposta dela.

Sequência de uma sessão de malar

  1. Diagnóstico do vetor. Em repouso e no sorriso, de frente, de perfil e em três quartos: o terço médio desceu (pede elevação lateral) ou achatou (pede projeção anterior)?
  2. Marcação. Margem orbital, forame infraorbital, eminência zigomática e o limite inferior da área tratada.
  3. Lateral e profundo primeiro. Corpo do zigoma, supraperiosteal, em bolus pequenos; reavaliar o sulco nasolabial antes de seguir.
  4. Anteromedial depois. Gordura profunda medial, só se ainda faltar projeção.
  5. Superficial por último e só se precisar. Gel macio, pouco volume.
  6. Ficar longe do teto da bula na primeira sessão e deixar o ajuste para o retoque, como fazem os próprios estudos de registro.

Regra de bolso · Malar

  1. Vetor antes de volume.
  2. Profundo antes de superficial.
  3. Lateral antes de medial.
  4. Mediana para planejar, teto para nunca passar.
  5. Aspiração antes de cada depósito e hialuronidase na sala.

Branqueamento, dor desproporcional ou livedo durante a aplicação mudam a sessão na hora: o protocolo está em oclusão vascular por ácido hialurônico, e a dose de enzima por cenário em dose de hialuronidase por cenário. O volume que se acumula sessão após sessão, sem vetor, é o caminho descrito em síndrome da face sobrepreenchida.

Do vetor desenhado ao vetor executado

Ler um vetor na foto é rápido; produzi-lo com a mão exige ver o tecido responder. Na formação do Dr. Thiago Perfeito, a projeção malar e zigomática faz parte do Módulo B1, Toxina e Preenchimento Essencial: o pré-work gravado traz compartimentos, reabsorção óssea e reologia; no sábado presencial, em Brasília, a parte teórica é demonstração comentada e a parte prática é execução supervisionada pelo próprio aluno em paciente modelo, numa turma de até 8 médicos. Os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre vetor e volume no preenchimento malar?

Volume é quanto gel entra; vetor é para onde a pele se move quando ele entra. Depósito no corpo do zigoma desloca o tecido para cima e para fora; depósito anteromedial projeta para a frente. Em cadáver, Gatherwright et al. (2015) mediram deslocamento lateral do sulco nasolabial de 1,9 a 2,7 mm depois de 1,5 cc de hidroxiapatita de cálcio no plano supraperiosteal da malar.

Em que plano se faz o preenchimento malar?

Para projeção e elevação, no supraperiosteal sobre o corpo do zigoma ou na gordura profunda; o subcutâneo fica para acabamento, com gel macio. Martín et al. (2023) viram melhora dos dois planos no terço médio superior em 7 semanas, sem diferença entre eles — a escolha é pelo objetivo da paciente.

Quantos mL de ácido hialurônico vão na malar?

Depende da bula do gel. No estudo de registro do Voluma XC, a mediana foi de 2,0 mL na região zigomaticomalar, 2,0 mL na bochecha anteromedial e 2,1 mL na submalar; no do Belotero Volume (+), 2,00 mL por bochecha no tratamento inicial. O Restylane Lyft tem teto de 6,0 mL por tratamento para bochecha e terço médio.

Cânula ou agulha na malar?

As duas funcionam. No ensaio de Jones et al. (2021), com 60 pacientes, a cânula foi não inferior à agulha: −1,8 e −1,9 pontos na escala de déficit de volume do terço médio no primeiro mês. A agulha é comum no bolus supraperiosteal sobre o zigoma; a cânula, na distribuição pela gordura profunda.

Preencher a malar melhora o sulco nasolabial?

Com frequência, sim, porque o depósito lateral traciona o tecido vizinho. Por isso a sequência começa pela malar e reavalia o sulco antes de tratá-lo diretamente — às vezes ele não precisa de gel próprio.

Quanto tempo dura o preenchimento malar com ácido hialurônico?

No estudo de registro do Restylane Lyft no terço médio (Weiss et al., 2016), o grupo tratado manteve taxa de sucesso significativamente maior que o controle em todas as avaliações até 12 meses. A duração real varia com o gel, o plano, o volume e o metabolismo de cada paciente.

Precisa de retoque depois do preenchimento malar?

Muitas vezes, e isso está no desenho das próprias bulas: no estudo do Voluma XC, 82% dos tratados fizeram retoque, com mediana de 1,9 mL. Planejar a primeira sessão longe do teto deixa espaço para completar no retoque, como os próprios estudos fizeram.

Referências

  1. Gatherwright JR, Brown MS, Katira KM, Rowe DJ. Three-Dimensional Changes in the Midface Following Malar Calcium Hydroxyapatite Injection in a Cadaver Model. Aesthet Surg J. 2015 — 16 hemifaces; CaHA supraperiosteal na malar; após 1,5 cc, deslocamento lateral da junção sulco/prega nasolabial de 2,7, 2,5 e 1,9 mm (soleira nasal, colunas filtrais, comissura). · PMID 25969435 · DOI 10.1093/asj/sju080
  2. Duan J, Zhao WR, Luo CE, Luo SK. Anatomical Basis for Malar Augmentation Injection With the Zygomatic Ligamentous System. Dermatol Surg. 2022 — 18 cabeças dissecadas, 66 com reconstrução vascular por TC, 5 pacientes; três sítios de injeção (arco zigomático, corpo do zigoma, anteromedial ~30 mm abaixo do canto lateral). · PMID 35834641 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003537
  3. Barone M, Salzillo R, De Bernardis R, Carruthers J, Persichetti P. Three Key Submuscular Points for Nonsurgical Rejuvenation of the Midface in Caucasian Patients. Aesthetic Plast Surg. 2024 — 567 pacientes; média de 1,5 mL de VYC-20 por região zigomática; melhora GAIS em 89,8%; vetor da pálpebra inferior invertido para positivo em todos. · PMID 38472347 · DOI 10.1007/s00266-024-03921-6
  4. Martín JM, Revelles JM, Aznar NM, et al. Superficial versus deep injections of the upper midface — A prospective interventional split-face study. J Cosmet Dermatol. 2023 — 20 mulheres, volume médio 0,78 cc, cânula; superficial e profundo melhoraram sem diferença em 7 semanas. · PMID 37594172 · DOI 10.1111/jocd.15795
  5. Jones D, Palm M, Cox SE, et al. Safety and Effectiveness of Hyaluronic Acid Filler, VYC-20L, via Cannula for Cheek Augmentation: A Randomized, Single-Blind, Controlled Study. Dermatol Surg. 2021 — 60 pacientes, intrapaciente; MFVDS −1,8 (cânula) × −1,9 (agulha) no mês 1; cânula não inferior. · PMID 34743118 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003246
  6. Schelke L, Lowrey N, Mojallal A, et al. Post-Treatment Displacement of Facial Soft Tissue Fillers — A Retrospective Ultrasound-based Investigation of 382 Zygomatic Regions. Dermatol Surg. 2024 — 200 pacientes; preenchedor do zigoma redistribuído para a têmpora em quatro padrões conforme a camada da injeção. · PMID 38833408 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004257
  7. Weiss RA, Moradi A, Bank D, et al. Effectiveness and Safety of Large Gel Particle Hyaluronic Acid With Lidocaine for Correction of Midface Volume Deficit or Contour Deficiency. Dermatol Surg. 2016 — randomização 3:1 (Restylane Lyft × sem tratamento); sucesso significativamente maior até o mês 12. · PMID 27176869 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000771
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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