Marcação dos pontos de botox: régua, lápis e anatomia
Toxina botulínica

Marcação dos pontos de botox: régua, lápis e referências anatômicas

A figura da bula mostra cinco pontos numa testa que não se mexe. O paciente na sua frente se mexe, tem uma sobrancelha mais alta que a outra e um rebordo orbital que você ainda não palpou. A marcação é o momento em que o desenho genérico vira o desenho daquele rosto — e ela é feita de referências que não mudam com a expressão.

Marcar os pontos de toxina é transferir o exame dinâmico para a pele usando referências que não mudam com a expressão: o rebordo orbital, a linha mediopupilar, a linha vertical do canto medial, a incisura supraorbital e a linha temporal. O lápis branco desenha; a régua confere as distâncias de segurança que as bulas declaram — na testa, pelo menos 2 cm acima do rebordo orbital (Xeomin); nos pés de galinha, de 1,5 a 2,0 cm temporal ao canto lateral (Botox Cosmetic) ou cerca de 1 cm lateral ao rebordo ósseo (Xeomin) —; e a ponta da agulha entra ao lado da marca, nunca através dela.

Por que marcar por referência fixa

A pele da testa e da região periorbital se desloca entre o repouso e a contração. Um ponto marcado só pela ruga muda de lugar quando o paciente relaxa; um ponto marcado a partir do osso, não. Por isso a marcação tem duas camadas: primeiro as referências fixas, depois o ventre do músculo em movimento, posicionado em relação a elas.

O consenso da SAMCEP sobre o terço superior (Braccini e colaboradores, 2023, J Cosmet Dermatol), assinado por 17 injetores de várias especialidades, recomenda sair do molde padronizado e adaptar pontos e doses ao padrão e à força de cada músculo, com avaliação em repouso e em animação, por inspeção e por palpação. A marcação é onde essa adaptação vira desenho.

Material: lápis, régua e luz

A bula do Botox terapêutico, na hiperidrose axilar, traz um alerta direto sobre a marcação: se os pontos forem marcados com tinta, não injetar através da marca, para evitar efeito de tatuagem permanente. No rosto, por prudência, vale o mesmo: a agulha entra imediatamente ao lado do ponto desenhado.

As referências, uma a uma

Músculo frontal em destaque com corrugador, prócero e orbicular em cinza — referências da marcação — Dr. Thiago Perfeito
Vista frontal do terço superior: o frontal, elevador da sobrancelha, em destaque; em cinza, os depressores — corrugadores e prócero no centro e o orbicular ao redor de cada órbita. As referências da marcação são ósseas e lineares, e o ventre de cada músculo é posicionado em relação a elas.

Rebordo orbital

É a referência mais usada nas bulas e se encontra pela palpação, com a polpa do dedo deslizando de cima para baixo até sentir a borda óssea. Três usos diretos:

Piao e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) propuseram marcar os pés de galinha com duas linhas curvas de referência: uma passando por um ponto 15 mm lateral ao canto lateral, para os pontos convencionais, e outra por um ponto 5 mm lateral à margem lateral do processo frontal do zigomático, para pontos adicionais. No ultrassom deles, na altura do canto, o orbicular se estendia 12,5 mm além dessa margem óssea.

Linha mediopupilar

Com o paciente olhando para a frente, a linha vertical que passa pelo centro da pupila marca o limite lateral útil do corrugador. Na dissecção de 36 hemifaces de Shin e colaboradores (2025, Toxins), em população do Leste Asiático, o centro da largura do corrugador ficou logo acima do ponto mais alto da sobrancelha, alinhado com essa linha, e além dela o músculo se tornava escasso. Ponto lateral de glabela marcado além da mediopupilar fica sem músculo para agir e mais perto da órbita.

A incisura ou o forame supraorbital, por onde sai o feixe supraorbital, fica nessa mesma faixa e pode ser palpado no rebordo. Em 106 crânios tailandeses, Apinhasmit e colaboradores (2006, J Med Assoc Thai) o localizaram a 25,14 mm em média da linha média nasal, 26,57 mm medial à crista temporal do frontal e 3,15 mm acima do rebordo supraorbital. Em tomografia de 137 pacientes coreanos, Lim e colaboradores (2016, Arch Craniofac Surg) mediram o forame supraorbital a 33,7 mm da linha média e o encontraram em forma de forame em 62% e de incisura em 38%. A diferença entre os dois números é a razão para palpar, e não presumir, onde ele está.

Linha vertical do canto medial

Lee e colaboradores (2020, Clin Anat) encontraram o corrugador em todos os cadáveres e voluntários no cruzamento entre a vertical do canto medial e a horizontal que passa pela glabela. É a referência mais segura para o ponto medial do corrugador; os detalhes de profundidade e de técnica da glabela estão em como aplicar botox na glabela.

Linha temporal

A crista temporal do frontal se palpa como uma borda óssea que sobe do rebordo orbital lateral. Na dissecção de 40 hemicabeças, Knize (1996, Plastic and Reconstructive Surgery) mostrou que o tônus de repouso do frontal sustenta a sobrancelha medialmente à linha de fusão temporal, que o tecido lateral a ela desliza sobre a fáscia temporal e que o eixo das forças sobre a cauda da sobrancelha fica nessa linha, perto do rebordo orbital superior. Marcar a linha temporal mostra onde termina o suporte do frontal — e por que a cauda da sobrancelha tem menos sustentação que a cabeça, o que pesa na decisão de até onde bloquear a testa lateral. A distribuição dos pontos por padrão de testa está em padrões de rugas da testa e distribuição da dose.

Onde, dentro do músculo, a marca deve cair

A referência óssea diz onde o músculo está; a zona motora diz onde, dentro dele, a toxina rende mais. A revisão narrativa de Magacho-Vieira (2026, J Cosmet Dermatol), de um único autor, sintetizou os estudos de microinervação do terço superior:

O autor descreve esses territórios como campos de probabilidade, a usar junto com a avaliação dinâmica — não como substitutos dela. Para a marcação, a consequência é concreta: no corrugador, a marca fica na porção medial; no prócero, embaixo, perto do násio; no orbicular, que não tem zona preferencial, o que manda é a distância de segurança do olho e dos músculos do sorriso.

Mapa esquemático das zonas de junção neuromuscular do terço superior com profundidade — Dr. Thiago Perfeito
Mapa esquemático dos territórios mais prováveis de junção neuromuscular no frontal, corrugador, orbicular do olho, depressor do supercílio e prócero; a escala de cinza indica a profundidade aproximada, do superficial (branco) ao profundo (preto). No detalhe, o corrugador medial profundo sob o depressor do supercílio, mais superficial. FIGURE 1 de Magacho-Vieira FN, J Cosmet Dermatol 2026 (PMID 42130073), reproduzida sob licença CC BY.

No terço inferior, a referência é a boca

Abaixo do nariz, as referências passam a ser a linha média e a linha que une as comissuras. No queixo, Choi e colaboradores (2021, Toxins) dissecaram 44 hemifaces e encontraram o mentual, na maioria dos casos, de 5 a 10 mm da linha média sagital e de 20 a 30 mm abaixo da horizontal das comissuras. Mais para fora, além da borda lateral do mentual, fica o forame mentual (círculo azul na figura abaixo). Medir a partir da comissura evita o ponto alto demais, perto do depressor do lábio inferior. A técnica do queixo e do canto da boca está em botox no queixo, mentual e DAO.

Desenho do mentual com as linhas de referência da linha média e das comissuras e o forame mentual — Dr. Thiago Perfeito
Desenho anatômico do queixo com as duas linhas de referência do estudo: a vertical da linha média e a horizontal que passa pelas comissuras. Sobre o mentual, os pontos de origem medial e lateral (MO, LO) e de inserção medial e lateral (MI, LI); a seta azul marca o comprimento do músculo, a laranja a largura, e a rosa a distância entre a borda lateral do mentual e o forame mentual (círculo azul). Figure 6 de Choi DY et al., Toxins (Basel) 2021 (PMID 33514053), reproduzida sob licença CC BY.

Passo a passo da marcação

  1. Posicione. Paciente sentado, cabeça neutra, luz de frente. Pele limpa e seca, sem maquiagem.
  2. Desenhe as referências em repouso. Palpe e marque com traço leve o rebordo orbital superior e lateral, a incisura supraorbital, a linha temporal; trace a mediopupilar com o paciente olhando para a frente e, no terço inferior, a linha média e a horizontal das comissuras.
  3. Peça a contração e marque os ventres. Franzir, elevar as sobrancelhas, fechar os olhos com força, sorrir. O ponto vai sobre o ventre visível ou palpável, dentro dos limites desenhados.
  4. Meça com a régua. Confira as distâncias de bula: pelo menos 2 cm acima do rebordo para a testa (Xeomin); nos pés de galinha, 1,5 a 2,0 cm temporal ao canto lateral (Botox Cosmetic) ou cerca de 1 cm lateral ao rebordo ósseo (Xeomin).
  5. Confira a simetria pela medida, não pelo olho. Meça cada ponto a partir da linha média e do rebordo dos dois lados. Assimetria muscular verdadeira justifica ponto assimétrico; marca torta, não.
  6. Fotografe a marcação. A foto com os pontos desenhados vai para o prontuário junto com a dose de cada ponto, e é ela que permite repetir — ou corrigir — o desenho na próxima sessão.
  7. Antissepsia sem apagar. Limpe ao redor dos pontos com gesto de dentro para fora, ou refaça a marca se ela sair. A agulha entra ao lado da marca, não através dela.

Erros de marcação

  1. Marcar a ruga, não o músculo. A ruga mais funda nem sempre está sobre o ventre mais ativo.
  2. Ponto do frontal a menos de 2 cm do rebordo. É a distância mínima que a bula do Xeomin declara para a testa.
  3. Ponto lateral do corrugador além da mediopupilar. Ali o músculo é escasso e a órbita está perto.
  4. Pés de galinha baixos demais. A bula do Xeomin alerta para não chegar perto do zigomático maior, para não derrubar o lábio.
  5. Molde copiado de uma figura. O consenso de Braccini recomenda adaptar os pontos ao padrão de cada paciente; a figura de bula é ponto de partida.
  6. Injetar através do ponto de tinta. A bula do Botox terapêutico alerta para o efeito de tatuagem permanente.

O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde a marcação se treina

Marcar bem é rápido para quem já palpou centenas de rebordos e devagar para quem ainda procura a incisura supraorbital com os olhos. O módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática, conduzido pelo Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), cobre anatomia funcional dos três terços e o mapa de pontos. O pré-work gravado traz a anatomia antes do sábado; no dia presencial, na clínica INTI, em Brasília, a parte teórica é a demonstração comentada e a parte prática é a execução supervisionada pelo aluno, em paciente modelo, da marcação à aplicação, em turma de até oito médicos. As demais formações estão em /cursos/.

Síntese

A marcação começa pelo osso e termina no músculo: rebordo orbital, mediopupilar, canto medial, incisura supraorbital e linha temporal em repouso; ventres em contração; distâncias de bula conferidas na régua; simetria por medida; foto; e a agulha ao lado do ponto. A técnica de cada região continua nas páginas de testa e pés de galinha da Biblioteca.

Perguntas frequentes

Como marcar os pontos de botox?

Com o paciente sentado e a cabeça neutra, desenhe primeiro as referências fixas — rebordo orbital, linha mediopupilar, incisura supraorbital, linha temporal — e depois, com o paciente contraindo, marque o ventre de cada músculo dentro desses limites. Confira na régua as distâncias de bula e fotografe a marcação antes de aplicar.

Qual lápis usar para marcar botox?

Lápis dermográfico branco, com ponto pequeno, só o suficiente para guiar a agulha. A bula do Botox terapêutico, na hiperidrose axilar, alerta que não se deve injetar através da marca de tinta, para evitar efeito de tatuagem permanente; a agulha entra ao lado do ponto.

A que distância da sobrancelha fica o botox na testa?

A referência de bula é o osso, não a sobrancelha: a bula do Xeomin distribui os 5 pontos do frontal a pelo menos 2 cm acima do rebordo orbital, sempre tratados junto com a glabela. Como a sobrancelha tem altura variável, medir a partir do rebordo palpado é mais reprodutível.

Até onde vai o ponto lateral da glabela?

Até a linha mediopupilar. Na dissecção de Shin e colaboradores (2025), o centro do corrugador ficava alinhado com essa linha, e além dela o músculo se tornava escasso. Ponto marcado mais para fora fica sem músculo para agir e mais perto da órbita.

Onde fica o primeiro ponto dos pés de galinha?

Na bula do Botox Cosmetic, a cerca de 1,5 a 2,0 cm temporal ao canto lateral, logo por fora do rebordo orbital; na do Xeomin, a cerca de 1 cm lateral ao rebordo ósseo, na linha do canto, com mais dois pontos cerca de 1 cm acima e abaixo. As duas pedem a agulha voltada para longe do olho.

Precisa fotografar a marcação do botox?

Sim. A foto com os pontos desenhados, somada à dose de cada ponto no prontuário, permite repetir o desenho que funcionou ou corrigir o que não funcionou na sessão seguinte. Luz, distância e posição da cabeça devem ser as mesmas do exame.

Referências

  1. Shin HJ, Choi YJ, Shin KJ, Song WC. Topography of the Corrugator Supercilii Muscle Relative to the Eyebrow and Its Clinical Application in Botulinum Toxin Injections. Toxins (Basel). 2025;17(2):85. · PMID 39998102 · DOI 10.3390/toxins17020085
  2. Lee HJ, Lee KW, Tansatit T, Kim HJ. Three-Dimensional Territory and Depth of the Corrugator Supercilii: Application to Botulinum Neurotoxin Injection. Clin Anat. 2020;33(5):795-803. · PMID 31637771 · DOI 10.1002/ca.23507
  3. Piao JZ, Oh W, Choi YJ, et al. Ultrasonographic analyses of Crow's feet and novel guideline for botulinum toxin injection. J Cosmet Dermatol. 2022;21(9):3787-3793. · PMID 35716350 · DOI 10.1111/jocd.15167
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  5. Lim JS, Min KH, Lee JH, Lee HK, Hong SH. Anthropometric Analysis of Facial Foramina in Korean Population: A Three-Dimensional Computed Tomographic Study. Arch Craniofac Surg. 2016;17(1):9-13. · PMID 28913245 · DOI 10.7181/acfs.2016.17.1.9
  6. Knize DM. An anatomically based study of the mechanism of eyebrow ptosis. Plast Reconstr Surg. 1996;97(7):1321-1333. · PMID 8643714 · DOI 10.1097/00006534-199606000-00001
  7. Magacho-Vieira FN. The Neuromuscular Junction Distribution in the Upper Face: An Anatomy-to-Practice Review to Inform Botulinum Toxin Type A Treatment Planning. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70921. · PMID 42130073 · DOI 10.1111/jocd.70921
  8. Choi DY, Bae H, Bae JH, Kim HJ, Hu KS. Effective Locations for Injecting Botulinum Toxin into the Mentalis Muscle; Cadaveric and Ultrasonographic Study. Toxins (Basel). 2021;13(2):96. · PMID 33514053 · DOI 10.3390/toxins13020096
  9. Braccini F, Catoni I, Belfkira F, et al. SAMCEP Society consensus on the treatment of upper facial lines with botulinum neurotoxin type A: A tailored approach. J Cosmet Dermatol. 2023;22(10):2692-2704. · PMID 37408173 · DOI 10.1111/jocd.15768
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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