Preenchimento de cicatriz de acne
Qual cicatriz o preenchedor resolve
A cicatriz atrófica de acne não é uma lesão só. A que responde a volume é a que o dedo consegue apagar: ao esticar a pele com dois dedos, a depressão some ou diminui muito. Esse teste de distensão, feito com o paciente sentado e luz lateral, separa em um minuto o que é candidato a injetável do que não é.
- Rolling (ondulada) — bordas suaves, depressão larga, aspecto de relevo irregular sob luz oblíqua. É a cicatriz típica do preenchedor: abaixo dela há perda de volume e, muitas vezes, uma trave fibrosa que puxa a derme para baixo.
- Boxcar rasa e larga — borda mais definida, fundo plano. Responde em parte; a borda costuma pedir remodelação de superfície (agulha, energia).
- Icepick — trajeto estreito e fundo. Volume injetado não sobe um túnel; essa cicatriz pede outra ferramenta.
Na face real, o padrão é misto. Por isso o preenchimento quase nunca é o plano inteiro: ele trata o componente de volume, enquanto microagulhamento, radiofrequência microagulhada ou laser tratam a superfície. As páginas irmãs desta biblioteca cobrem esses outros braços: microagulhamento para cicatriz de acne e radiofrequência microagulhada para cicatriz de acne.

O mecanismo: trave e falta de volume
A cicatriz ondulada tem dois componentes, e cada um pede uma resposta. O primeiro é a ancoragem: bandas fibrosas ligam a derme aos planos de baixo e mantêm a pele presa. O segundo é a perda de volume sob a área que inflamou. O preenchedor responde ao segundo — empurra a base da depressão para cima. Ele não corta trave. Quando a trave é forte, o gel injetado sem soltá-la tende a se espalhar em volta do ponto preso, e a cicatriz continua marcada no centro.
Por isso a pergunta clínica antes de abrir a seringa é dupla: há volume a repor, e há trave a soltar? A subcisão — liberação das bandas com cânula ou agulha — responde à segunda. A combinação das duas é o desenho que mais aparece nos ensaios recentes.
O que os estudos com ácido hialurônico mostraram
Contra placebo. O ensaio de hemiface de Siperstein e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) randomizou 15 pacientes para receber até 1 mL do gel VYC-17.5L em uma bochecha e até 1 mL de soro fisiológico na outra, com retoque opcional. Noventa dias depois do último tratamento, o avaliador cego registrou queda de 6,6 pontos na escala quantitativa de cicatriz do lado do gel, contra 1,7 do lado do soro (p = 0,008). O soro sozinho também melhorou um pouco — de 10,4 para 8,6 —, o que sugere que parte do ganho vem da própria injeção. Treze de 14 pacientes escolheram o lado do gel. O estudo foi financiado pela Allergan, e o primeiro autor declara ser consultor, investigador e instrutor da empresa.
Em série. Dierickx e colaboradores (2018, Dermatol Surg) trataram 12 pacientes com cicatriz moderada a grave em 3 sessões com 4 semanas de intervalo, com até 2 mL de gel de ácido hialurônico estabilizado de origem não animal por lado da face em cada sessão, e acompanharam até a semana 36. A melhora se instalou de forma gradual, com o maior ganho no fim do estudo; os eventos adversos foram leves a moderados e ligados ao procedimento. Dois dos três autores são da Galderma.
Em dois planos. Artzi e colaboradores (2020, J Cosmet Dermatol) usaram um gel à base de NAHYCO em técnica de dois planos (dual-plane), em 2 sessões com 4 semanas de intervalo, em 12 pacientes. Oito relataram melhora moderada, dois melhora marcante e dois melhora mínima. É uma série pequena, de centro único — os próprios autores listam essa limitação.
Gel reticulado ou complexo de alto e baixo peso molecular. No ensaio de hemiface duplo-cego de Mehrabi e colaboradores (2023, Dermatol Surg), 30 pacientes receberam 3 aplicações mensais na base das cicatrizes: de um lado, um AH reticulado tradicional; do outro, um complexo de AH de alto e baixo peso molecular. O reticulado reduziu o volume da cicatriz cedo; o complexo não teve mudança significativa nas primeiras sessões, mas teve melhora significativa nas visitas tardias — e, na conclusão dos autores, mais pronunciada que a do reticulado. Os autores declaram ausência de conflito de interesse. A leitura prática: o gel reticulado preenche; o complexo trabalha como estímulo de qualidade de pele e demora mais para aparecer. São objetivos diferentes, e o paciente precisa saber qual dos dois está comprando.
Preenchedor sozinho ou depois da subcisão
Abdelwahab e colaboradores (2022, Lasers Med Sci) fizeram subcisão em toda a face de 40 pacientes e, depois, somaram AH reticulado de um lado ou laser de CO2 fracionado do outro, com um grupo de subcisão isolada como controle; as sessões foram mensais, até 3. Na avaliação de dois investigadores cegos, tanto o lado do preenchedor (p = 0,015) quanto o do laser (p < 0,001) superaram a subcisão isolada, sem diferença significativa entre preenchedor e laser (p = 0,171). A subcisão com cânula romba, sozinha, também melhorou, de forma modesta. Os autores declaram ausência de conflito de interesse.

O ensaio de Dastgheib e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) testou a mesma pergunta com outro gel. Em 12 pacientes, um lado recebeu subcisão isolada e o outro subcisão mais 1 mL de Profhilo, em 2 sessões com 1 mês de intervalo. A satisfação do paciente foi maior do lado com o gel (p = 0,02), mas a redução total da cicatriz não diferiu entre os lados (p = 0,56), nem a profundidade medida ao ultrassom (p = 0,4). Nos dois braços, a cicatriz ondulada foi a que melhor respondeu. O que o estudo ensina: a subcisão bem feita carrega boa parte do resultado, e o gel acrescentado precisa ser escolhido pelo que se quer — volume ou qualidade de pele.
Bioestimulador e preenchedor permanente
A revisão sistemática de Tao e colaboradores (2026, Clin Cosmet Investig Dermatol) reuniu 24 estudos de preenchedores em cicatriz atrófica de acne — colágeno, ácido hialurônico, bioestimuladores, gordura autóloga e matriz descelularizada. Todos os tipos mostraram melhora significativa; a duração variou de 3 a 6 meses até mais de 24 meses, e hidroxiapatita de cálcio, policaprolactona e gordura/fração vascular estromal tiveram durabilidade de pelo menos 6 meses. Eritema, edema e equimose transitórios foram comuns; nódulos e hiperpigmentação, infrequentes; nenhuma complicação grave foi relatada nos estudos incluídos.
Entre os estudos citados aqui, o maior é o do preenchedor permanente. Karnik e colaboradores (2014, J Am Acad Dermatol) randomizaram 147 pacientes com pelo menos 4 cicatrizes onduladas moderadas a graves para microesferas de polimetilmetacrilato em colágeno ou soro, em até 2 sessões: o sucesso foi de 64% contra 33% (p = 0,0005). O seguimento foi de 6 meses — limitação que os autores registram —, e o primeiro autor é da Suneva Medical, fabricante do produto. Na conduta do Dr. Thiago, PMMA e biopolímero são contraindicados no rosto e nos lábios. Um argumento geral contra o permanente é a reversibilidade: o ácido hialurônico mal posicionado se dissolve com hialuronidase; o permanente, não. Bioestimulador na face tem lógica e técnica próprias, discutidas em Sculptra, Radiesse ou HArmonyCa: escolha pelo caso.
A sessão, passo a passo
Roteiro · Cicatriz ondulada de acne com ácido hialurônico
- Acne controlada antes. Lesão inflamatória ativa na área adia o preenchimento. Paciente em uso ou com uso recente de isotretinoína: a conduta está em isotretinoína e procedimentos.
- Foto padronizada com luz lateral. A cicatriz ondulada desaparece na luz frontal e aparece na oblíqua. Sem a foto de antes nessa luz, o resultado não se compara.
- Classificar e marcar sentado. Teste de distensão em cada área; marcar as depressões que apagam ao esticar. Icepick fica fora da marcação de volume.
- Decidir subcisão. Depressão que não sobe ao esticar, ou que repuxa no centro, tem trave a soltar antes do gel.
- Assepsia e anestesia. Pele limpa e campo preparado como em qualquer preenchimento; anestesia tópica ou do próprio produto com lidocaína, conforme a área.
- Injetar sob a base, em pequenas alíquotas. O alvo é logo abaixo da depressão, não a superfície. Gel colocado raso demais sobe como relevo azulado. Volume conservador por ponto, reavaliando a cada passada.
- Aspirar. Com preenchedor, o Dr. Thiago aspira sempre — e por mais tempo quando o calibre é fino. A aspiração negativa não garante que a ponta está fora do vaso; ela é uma camada de segurança entre outras.
- Revisar e programar. Cicatriz extensa se trata em sessões, como nos estudos, e não em uma só. Na revisão, foto na mesma luz e decisão sobre o próximo braço do plano.
Quando o mesmo plano soma preenchedor e aparelho de energia na área, a rotina do Dr. Thiago é deixar de 2 a 4 semanas entre um e outro; o porquê está em tecnologia e injetável: intervalo de 2 a 4 semanas.

Riscos que o injetor precisa prever
- Edema, eritema e equimose — os eventos mais frequentes nos estudos, transitórios. A subcisão aumenta a chance de hematoma.
- Efeito Tyndall — gel superficial demais, em pele fina, aparece azulado. A causa e a correção estão em efeito Tyndall.
- Nódulo — volume concentrado num ponto ou reação tardia; diferenciar inflamatório de não inflamatório segue o roteiro de nódulos após preenchimento.
- Infecção e herpes — a pele com histórico de acne é área de muitas perfurações. Preparo e profilaxia em infecção após injetáveis e herpes e procedimentos faciais.
- Oclusão vascular — bochecha, região perioral e têmpora têm vasos nomeados. Saber onde estão é pré-requisito: mapa das zonas de risco vascular da face e oclusão vascular com ácido hialurônico.
Erros comuns
- Injetar gel em icepick. O túnel não sobe; o gel se acumula em volta e cria relevo.
- Preencher cicatriz presa sem soltar a trave. O centro continua marcado e a borda fica elevada.
- Prometer que uma sessão resolve. Os estudos trataram em 2 a 3 sessões, e o ganho de alguns géis aparece tarde.
- Confundir objetivo. Gel de preenchimento e gel de qualidade de pele respondem a perguntas diferentes; escolher um pelo outro frustra o paciente.
- Tratar a face com uma ferramenta só. Cicatriz mista pede plano combinado — volume, liberação e superfície, em ordem.
Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante. Os produtos citados aparecem porque foram os estudados nos ensaios, e a escolha é pela indicação.
Onde isso vira mão
Classificar cicatriz na foto é o começo; sentir a trave ceder sob a cânula e calibrar quanto gel cabe sob uma depressão só se aprende com paciente na frente. A cicatriz de acne entra no módulo de Bioestimuladores e Skin Quality da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199) de Medicina Estética e Regenerativa. O módulo é um sábado presencial, precedido de pré-work gravado obrigatório, com turma de até 8 médicos: a demonstração comentada compõe a parte teórica, e a parte prática é execução supervisionada em paciente modelo. A grade completa está em /cursos/.
Síntese
O preenchedor é a ferramenta de volume da cicatriz de acne, e funciona melhor na cicatriz ondulada que apaga ao esticar a pele. Contra placebo, o ácido hialurônico melhorou mais que o soro; somado à subcisão, superou a subcisão isolada e ficou sem diferença significativa em relação ao laser fracionado, com menos eritema. Gel reticulado preenche cedo; complexo de alto e baixo peso molecular melhora mais tarde. Icepick fica fora, trave se solta antes, e a superfície se trata com outra ferramenta — a cicatriz mista pede plano, não seringa.
Perguntas frequentes
Qual tipo de cicatriz de acne melhora com preenchimento?
Principalmente a cicatriz ondulada (rolling), de bordas suaves, que some ou diminui muito quando se estica a pele com dois dedos. A boxcar rasa e larga responde em parte. A icepick, estreita e funda, não sobe com volume e pede outra ferramenta.
Precisa fazer subcisão antes do ácido hialurônico?
Quando a cicatriz está presa por trave fibrosa, sim — o gel não corta a trave. No ensaio de Abdelwahab (2022), subcisão com AH reticulado superou a subcisão isolada (p = 0,015). No de Dastgheib (2024), somar 1 mL de Profhilo à subcisão aumentou a satisfação, mas não a redução da cicatriz. A subcisão carrega boa parte do resultado.
Quantas sessões de preenchimento a cicatriz de acne precisa?
Os estudos trataram em séries: 2 sessões com 4 semanas de intervalo (Artzi, 2020), 3 sessões com 4 semanas (Dierickx, 2018) e 3 aplicações mensais (Mehrabi, 2023). Cicatriz extensa raramente se resolve em uma sessão só.
Preenchimento de cicatriz de acne funciona melhor que laser?
Depois da subcisão, no ensaio de Abdelwahab (2022), preenchedor e laser de CO2 fracionado tiveram resultado sem diferença significativa entre si (p = 0,171), e o lado do laser teve mais eritema (gráfico do estudo, reproduzido nesta página). Na prática, um não substitui o outro: o preenchedor trata volume, o laser trata superfície.
PMMA é opção para cicatriz de acne no rosto?
Há ensaio randomizado com microesferas de PMMA em colágeno (Karnik, 2014: sucesso de 64% contra 33% do soro, seguimento de 6 meses, primeiro autor da fabricante). Na conduta do Dr. Thiago, PMMA e biopolímero são contraindicados no rosto e nos lábios. Um argumento geral contra o permanente é a reversibilidade: o ácido hialurônico se dissolve com hialuronidase; o permanente, não.
Em que profundidade se injeta o ácido hialurônico na cicatriz?
Logo abaixo da base da depressão, não na superfície. Gel muito superficial em pele fina pode aparecer azulado (efeito Tyndall). Por isso o depósito é em pequenas alíquotas, reavaliando a cada passada.
Quanto tempo depois do preenchimento posso fazer Morpheus8 ou laser na mesma área?
Na rotina do Dr. Thiago, o intervalo entre preenchedor e aparelho de energia na mesma área é de 2 a 4 semanas.
Referências
- Siperstein R, Nestor E, Meran S, Grunebaum L. A split-face, blind, randomized placebo-controlled clinical trial investigating the efficacy and safety of hyaluronic acid filler for the correction of atrophic facial scars. J Cosmet Dermatol. 2022;21(9):3768-3778. · PMID 35689521 · DOI 10.1111/jocd.15153
- Dierickx C, Larsson MK, Blomster S. Effectiveness and Safety of Acne Scar Treatment With Nonanimal Stabilized Hyaluronic Acid Gel. Dermatol Surg. 2018;44 Suppl 1:S10-S18. · PMID 30358630 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001689
- Artzi O, Cohen S, Koren A, Niv R, Friedman O. Dual-plane hyaluronic acid treatment for atrophic acne scars. J Cosmet Dermatol. 2020;19(1):69-74. · PMID 31074185 · DOI 10.1111/jocd.12991
- Mehrabi J, Shehadeh W, Gallo ES, Artzi O, Horovitz T. Comparison of 2 Hyaluronic Acid-based Fillers for the Treatment of Acne Scars: Structural Lifting Versus Biostimulatory Effect. Dermatol Surg. 2023;49(6):581-586. · PMID 37052609 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003789
- Abdelwahab AA, Omar GAB, Hamdino M. A combined subcision approach with either fractional CO2 laser (10,600 nm) or cross-linked hyaluronic acid versus subcision alone in atrophic post-acne scar treatment. Lasers Med Sci. 2022;38(1):20. · PMID 36564573 · DOI 10.1007/s10103-022-03677-y
- Dastgheib M, Heidari S, Azizipour A, et al. Investigating the impact of added Profhilo mesogel to subcision versus subcision monotherapy in treating acne scars; a single-blinded, split-face randomized trial. J Cosmet Dermatol. 2024;23(6):1992-2000. · PMID 38429946 · DOI 10.1111/jocd.16258
- Tao A, Shu Y, Ding H, Tao G. Injectable Fillers for Atrophic Acne Scars: A Systematic Review of Mechanisms, Evidence, and Clinical Algorithms. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2026;19:602580. · PMID 41978687 · DOI 10.2147/CCID.S602580
- Karnik J, Baumann L, Bruce S, et al. A double-blind, randomized, multicenter, controlled trial of suspended polymethylmethacrylate microspheres for the correction of atrophic facial acne scars. J Am Acad Dermatol. 2014;71(1):77-83. · PMID 24725475 · DOI 10.1016/j.jaad.2014.02.034
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