Toxina reconstituída: armazenamento e validade
Toxina botulínica

Armazenamento e validade do frasco depois de reconstituído

Depois que o soro entra no frasco, Botox, Dysport e Xeomin seguem praticamente a mesma regra de bula: geladeira e 24 horas. A diferença entre as marcas está no frasco fechado — e a literatura que testou guardar a toxina por semanas é informação útil, não licença para mudar o prazo.

Três frascos na mesma geladeira, três bulas diferentes — e, depois que o soro entra, quase a mesma regra. Pelas bulas americanas, Botox, Dysport e Xeomin reconstituídos ficam entre 2 e 8 °C e devem ser usados em até 24 horas; os três são frascos de dose única, com descarte da sobra. A diferença real entre as marcas está antes da abertura, não depois. Esta página põe as três bulas lado a lado, mostra o que a literatura mediu quando o frasco ficou guardado por dias, semanas ou meses, e separa com cuidado as duas coisas: a bula é a regra do consultório; o estudo é informação para entender o produto e investigar um resultado fraco.

De onde vêm os números desta página

No Brasil, prazo e condição de guarda são os da bula brasileira vigente do frasco que está na sua mão. Os valores abaixo foram transcritos das bulas americanas (Prescribing Information) do Botox Cosmetic (AbbVie), do Dysport (revisão de 2017) e do Xeomin (Merz, revisão de 2026). Elas mostram a lógica de cada fabricante; se a bula brasileira da sua apresentação disser outra coisa, vale a brasileira.

Os três produtos são toxina botulínica tipo A, com formulações diferentes: o Botox (onabotulinumtoxinA, Allergan/AbbVie) tem albumina humana e cloreto de sódio como excipientes; o Dysport (abobotulinumtoxinA, fabricado pela Ipsen e comercializado no Brasil pela Galderma) traz albumina humana e lactose; o Xeomin (incobotulinumtoxinA, Merz) é isento de complexos proteicos e tem sacarose e albumina humana. Na guarda, as bulas divergem sobretudo no frasco fechado, como mostra a tabela.

As três bulas lado a lado

Botox CosmeticDysportXeomin
Frasco fechadoGeladeira, 2 a 8 °CGeladeira, 2 a 8 °C, protegido da luzAté 25 °C; refrigeração não exigida
Depois de reconstituídoGeladeira, 2 a 8 °CNo frasco original, geladeira, 2 a 8 °C, protegido da luzGeladeira, 2 a 8 °C
Prazo após o soroAplicar em até 24 horasAté 24 horas; descartar se não usado nesse prazoAté 24 horas
Congelar o reconstituídoNãoNão—
Uso do frascoDose única; descartar a sobraUso únicoDose única; descartar a porção não usada
Registro no rótuloData e hora da reconstituição, no espaço do rótulo——

A leitura da tabela é rápida. Depois do soro, as três convergem para geladeira e 24 horas. A pergunta “qual marca dura mais aberta?” não tem resposta na bula, porque as três dão o mesmo prazo. O Xeomin dispensa a geladeira só enquanto o frasco está fechado; aberto, entra na mesma regra das outras duas. O Dysport acrescenta duas exigências que vale cumprir à risca: ficar no frasco original e longe da luz. Sobre a logística do frasco fechado e o que muda no recebimento do produto, a comparação está em Botox ou Xeomin: formulação, armazenamento e escolha.

Por que a bula diz 24 horas

As bulas fixam o prazo sem explicar o porquê, mas o raciocínio por trás dele envolve duas variáveis: a atividade da proteína e a esterilidade de um frasco já perfurado. A dose de toxina é medida em unidades de atividade biológica, e perda de atividade não muda o aspecto da solução. E uma rolha atravessada deixa de ser um sistema fechado. O consultório não tem como medir nenhuma das duas coisas; o prazo de bula dispensa essa medida.

Alguns autores que testaram armazenamento prolongado lembram que a recomendação antiga do fabricante era ainda mais curta: usar o Botox em até 4 horas após a reconstituição — é o que registram, nos resumos, Lizarralde e colaboradores (2007) e Parsa e colaboradores (2007). A bula atual do Botox Cosmetic fala em 24 horas sob refrigeração.

O que os estudos mediram depois de dias, semanas e meses

A literatura sobre guarda prolongada existe há mais de 30 anos e não aponta toda para o mesmo lado. Vale olhar separado o que foi medido em laboratório e o que foi medido em paciente.

Em laboratório: ensaio de potência

O ensaio mais antigo é também o mais pessimista. Gartlan e Hoffman (1993, Otolaryngol Head Neck Surg), com a preparação cristalina de Botox da época, mediram a potência pelo ensaio de dose letal em camundongos: o frasco reconstituído, congelado de imediato e testado duas semanas depois perdeu 69,8% da potência; na geladeira, a queda já era estatisticamente significativa com 12 horas de guarda, mas não com 6 horas.

Com a incobotulinumtoxinA, o resultado foi oposto. Dressler e Bigalke (2017, J Neural Transm) guardaram Xeomin reconstituído entre 4 e 8 °C e testaram a potência 18 vezes ao longo de 52,1 semanas, pelo ensaio de hemidiafragma: o tempo de paralisia foi de 67,5 minutos em média nas primeiras 10 semanas e de 67,1 minutos nas últimas 10, sem redução de potência no período. Dois detalhes pesam na leitura: um dos autores é da Toxogen, o laboratório do ensaio, e os próprios autores registram que a esterilidade do frasco guardado ainda precisava ser demonstrada além de 6 semanas.

O calor é outra história. Kim e colaboradores (2026, Aesthet Surg J Open Forum) expuseram toxinas reconstituídas a 60 °C para simular o calor de aparelhos de energia. As três formulações em pó testadas — onabotulinumtoxinA, incobotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA — perderam potência de forma marcada; a onabotulinumtoxinA caiu 32% com 25 minutos de exposição e ficou sem potência mensurável com 40 minutos. Só a formulação líquida de outro fabricante, incluída no estudo, manteve a potência. Para o consultório, a lição é de bancada: frasco aberto longe de fonte de calor.

Gráfico de potência da toxina botulínica reconstituída após exposição a 60 °C — Dr. Thiago Perfeito
Potência normalizada (100% = antes da exposição) de duas formulações de toxina botulínica tipo A mantidas a 60 °C por até 40 minutos. A linha pontilhada é a onabotulinumtoxinA reconstituída, que perde potência ao longo do tempo e deixa de ter potência mensurável aos 40 minutos (N/A); a linha contínua é uma formulação líquida de outro fabricante. Figure 1 de Kim HM et al., Aesthet Surg J Open Forum 2026 (PMID 41835802), reproduzida sob licença CC BY.

Em pacientes: hemiface, glabela e pés de galinha

Os ensaios clínicos, com amostras pequenas e desfechos estéticos, tenderam a não encontrar diferença entre frasco fresco e frasco guardado:

Em sentido contrário, Paik, Seo e Eun (2006, Mov Disord) mediram o potencial de ação no músculo extensor curto dos dedos de 32 voluntários e encontraram efeito menor do lado que recebeu toxina guardada na geladeira por uma semana ou mais. Os autores concluíram que o uso após armazenamento refrigerado não é recomendado. O desfecho ali não foi fotografia de ruga, e sim o potencial de ação de um músculo do pé, com 2,5 U por lado — medida neurofisiológica, não estética.

Esterilidade: o que foi medido

Os dados abaixo descrevem o produto; não autorizam guardar além de 24 horas nem dividir o frasco entre pacientes — a bula manda dose única e descarte da sobra. Osaki e colaboradores (2015, Aesthet Surg J), em São Paulo, cultivaram o conteúdo de 88 frascos de 100 U de Botox mantidos 4 semanas na geladeira depois da aplicação e não detectaram bactéria nem fungo. Nos Estados Unidos, um consenso de especialistas (Alam e colaboradores, 2015, Dermatol Surg) descreveu como prática corrente de lá a guarda por semanas e o uso do frasco em mais de um paciente. É uma opinião de especialistas sobre a prática americana, não a regra do produto: o que vale no consultório brasileiro é a bula vigente.

Como ler esses estudos sem trocar a bula

O que os estudos oferecem é informação sobre o produto; a regra de guarda continua sendo a da bula. Há razões concretas para essa separação:

Onde os estudos ajudam de verdade é no raciocínio clínico. Diante de um paciente com efeito abaixo do esperado, a guarda do frasco entra na lista de hipóteses — atrás de dose subdimensionada, que é a primeira hipótese na conduta do Dr. Thiago Perfeito, e de ponto ou plano fora do músculo. E diante de um frasco esquecido fora da geladeira, eles explicam por que a perda pode não ser total; a decisão de usar ou descartar, porém, segue a bula.

Junção neuromuscular com vesículas e bloqueio da liberação do sinal pela toxina botulínica — Dr. Thiago Perfeito
Corte esquemático da junção neuromuscular: o terminal nervoso cheio de vesículas sobre as dobras da placa motora, com o ponto de bloqueio em destaque. A unidade de toxina mede a capacidade de produzir esse bloqueio — é ela que a guarda inadequada reduz, sem mudar o aspecto da solução no frasco.

Prazo igual não quer dizer unidade igual

Comparar as três bulas na mesma tabela compara guarda, não dose. As bulas declaram que as unidades de cada produto são específicas da preparação e não podem ser convertidas em unidades de outra toxina. Na prática, quando o paciente troca de marca, a formação do Dr. Thiago ensina uma conversão de referência — 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport e 1 U de Botox para 1 U de Xeomin — começando na dose equivalente ou um pouco abaixo e ajustando pela resposta no retorno. A diluição e o prazo de guarda do frasco novo seguem a bula do produto novo: veja diluição do Botox, diluição do Dysport e diluição do Xeomin.

A rotina de guarda do frasco aberto

Na prática, armazenar bem um frasco reconstituído se resume a saber, a qualquer momento, quando ele foi aberto, onde ficou e quanto falta para o descarte.

  1. Escreva no rótulo, na hora, a data e o horário da reconstituição — o espaço existe no rótulo do Botox e o hábito vale para os três. As 24 horas começam ali, não na primeira aplicação.
  2. Volte o frasco para a geladeira entre um paciente e outro, sem deixá-lo na bancada sob o foco de luz ou ao lado de aparelho que aquece.
  3. Dysport no frasco original e protegido da luz, como pede a bula — não transferir para outro recipiente.
  4. Nada de congelar o reconstituído de Botox e Dysport: a bula proíbe.
  5. Uma solução turva, com flocos ou partículas não vai para o paciente — a bula do Botox descreve a solução correta como límpida, incolor a levemente amarelada.
  6. Prazo vencido, frasco descartado — com registro no prontuário de lote, hora da reconstituição e destino da sobra.

A estrutura que sustenta essa rotina — geladeira exclusiva, termômetro e registro diário — está em como montar o consultório para injetáveis, e a conferência de fim de dia dos frascos abertos aparece na tabela de materiais para preenchimento e toxina. Para que o frasco renda as unidades pagas sem depender de prazo estendido, o ponto de atenção é a perda na seringa: agulha e seringa para Botox.

Sala de procedimentos da clínica INTI com maca e bancada — Dr. Thiago Perfeito
Sala de procedimentos da clínica INTI, em Brasília: maca, bancada de apoio e equipamentos. O frasco de toxina aberto passa pela bancada só durante a aplicação; entre um paciente e outro, o lugar dele é a geladeira.

Nenhum fabricante de toxina botulínica tem relação comercial com o Dr. Thiago Perfeito.

Guarda de frasco se aprende junto com a dose

Ler três bulas e organizar a geladeira é trabalho de uma tarde; o que leva tempo é integrar isso à sessão — reconstituir, rotular, carregar a seringa, aplicar e devolver o frasco ao frio sem quebrar o ritmo do atendimento. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o módulo de Toxina e Preenchimento trata de farmacologia e das marcas do mercado brasileiro, incluindo conversão, início de ação, duração e diluição. O pré-work gravado é obrigatório, e no sábado presencial, em turma de até 8 médicos, o docente faz a demonstração comentada e o aluno executa, sob supervisão, em paciente modelo. A visão geral dos módulos está em /cursos/; os demais textos para médicos, em /cursos/blog/.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o Botox depois de reconstituído?

Pela bula americana do Botox Cosmetic, o frasco reconstituído é guardado na geladeira, entre 2 e 8 °C, e aplicado em até 24 horas. No Brasil, vale o prazo da bula vigente da sua apresentação.

O Dysport e o Xeomin reconstituídos têm prazo diferente do Botox?

Não pelas bulas americanas: os dois também ficam entre 2 e 8 °C por até 24 horas. O Dysport acrescenta que deve permanecer no frasco original, protegido da luz, e ser descartado se não for usado nesse prazo.

O Xeomin precisa de geladeira?

Fechado, não: a bula americana permite guardar até 25 °C. Depois de reconstituído, vai para a geladeira, entre 2 e 8 °C, por até 24 horas, como os outros dois.

Posso congelar a toxina que sobrou no frasco?

As bulas americanas do Botox Cosmetic e do Dysport proíbem congelar o produto reconstituído. Há estudos com toxina congelada e descongelada, mas eles não substituem a regra da bula.

Toxina reconstituída há uma ou duas semanas perde efeito?

Os estudos divergem. Ensaios em hemiface com 1 a 2 semanas de geladeira não encontraram diferença, mas um ensaio de laboratório antigo mediu perda importante e um estudo com eletroneuromiografia achou efeito menor após 1 semana. A conduta segue a bula: 24 horas e descarte.

Frasco de toxina pode ser usado em mais de um paciente?

Não. As bulas americanas de Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin declaram o frasco como de dose única ou uso único, com descarte da sobra. Estudos de cultura e um consenso americano sobre frascos guardados falam de esterilidade e potência; não mudam a regra da bula vigente.

O paciente teve pouco efeito: pode ter sido o frasco?

Pode entrar na lista de hipóteses, mas não é a primeira. Na conduta do Dr. Thiago Perfeito, a primeira hipótese é dose subdimensionada; depois vêm ponto ou plano fora do músculo. A hora da reconstituição anotada no rótulo e no prontuário é o que permite checar a guarda.

Referências

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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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