Artérias supratroclear e supraorbital: glabela e testa
Anatomia e segurança

Artérias supratroclear e supraorbital: glabela e testa

Na glabela e na testa, a agulha trabalha sobre os dois ramos da artéria oftálmica que saem da órbita — e eles não ficam na mesma camada da sobrancelha até a linha do cabelo. Esta página reúne onde a supratroclear e a supraorbital emergem, em que faixas correm, a que profundidade, em que altura atravessam o músculo frontal e por que a ruga da glabela não serve de mapa.

A supratroclear e a supraorbital são ramos da artéria oftálmica que saem da órbita pelo rebordo superior — a supratroclear perto do canto medial, a supraorbital no terço médio do rebordo — e sobem pela glabela e pela testa. Junto ao rebordo, os ramos profundos correm por baixo do músculo frontal; um centímetro e pouco acima, atravessam o músculo e passam a correr no subcutâneo. É essa troca de plano com a altura, somada à ligação direta com a circulação do olho, que faz da glabela e da testa baixa o território em que um erro de plano pode custar a visão.

O mecanismo da perda visual e o volume mínimo que basta para encher a supratroclear estão em glabela e risco de cegueira no preenchimento. Esta página é a anatomia: de onde as duas artérias saem, em que faixa da testa correm, a que profundidade, em que altura mudam de plano — e o que cada um desses dados muda na técnica.

Os pontos de saída e as faixas da testa

As duas nascem da oftálmica e emergem no rebordo orbital superior: a supratroclear no ângulo medial, a supraorbital pela incisura ou pelo forame supraorbital. A partir daí, cada uma ocupa uma faixa vertical própria, e os estudos de imagem concordam bem sobre onde ficam essas faixas.

A origem é menos previsível do que o ponto de saída. Na tomografia de 56 cabeças de Liao e colaboradores (2022, Dermatol Surg), o ramo superficial da supratroclear teve três origens possíveis — arcada orbital superior superficial, oftálmica e artéria angular —, e as duas artérias se organizaram em dois padrões: conectadas entre si ou separadas. É a angular que leva a ligação até o território da facial, como está em artéria facial e artéria angular.

Artérias supratroclear e supraorbital saindo do rebordo orbital superior e subindo pela testa — Dr. Thiago Perfeito
Vista frontal do crânio com as duas artérias de cada lado em destaque: a supratroclear sai no canto medial superior da órbita e sobe junto à linha média; a supraorbital sai no meio do rebordo superior e sobe mais lateral, separada da primeira.

A profundidade muda com a altura

A dissecção de 20 hemifaces de Cong e colaboradores (2017, Plast Reconstr Surg) organizou a testa em duas camadas vasculares. Acima do frontal, a pele é suprida medialmente pelo ramo superficial da supratroclear e lateralmente pelo ramo superficial da supraorbital, às vezes com a central ou a paracentral somadas; abaixo do frontal correm os ramos profundos. No padrão mais completo, existem ramos profundos das duas artérias; num segundo padrão, o ramo profundo da supratroclear falta, e só o da supraorbital ocupa a camada profunda.

O ramo profundo não fica embaixo do músculo a testa inteira. Com ultrassom em 50 pacientes, Cotofana e colaboradores (2021, Aesthet Surg J) mediram onde ele atravessa o frontal para a superfície:

As faixas largas são o recado: em algumas pessoas, a troca de plano acontece a menos de meio centímetro do rebordo. A meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2025, Folia Morphol), com 282 supratrocleares e 201 supraorbitais, mostra o mesmo movimento por outro ângulo:

ArtériaNa glabelaAcima da sobrancelha
Supratroclear4,45 mm (IC 95% 3,43 a 5,47)3,53 mm (IC 95% 3,21 a 3,85)
Supraorbital5,68 mm (IC 95% 4,58 a 6,78)5,53 mm (IC 95% 4,79 a 6,28)

A supratroclear fica mais rasa à medida que sobe; a supraorbital mantém a profundidade. Para a testa medial, os autores sugerem agulha até 2,5 mm de profundidade ou lateral ao trajeto da artéria; para a testa lateral, até 3,5 mm — e um exame de ultrassom de alta resolução antes de injetar.

Músculo frontal em destaque sobre a testa, com corrugador, prócero e orbicular em cinza — Dr. Thiago Perfeito
Vista frontal esquemática da testa com o músculo frontal em destaque e, em cinza, o corrugador, o prócero e o orbicular do olho.

Na glabela, a ruga não marca a artéria

Uma ideia comum é que a supratroclear corre logo abaixo da linha vertical da glabela — e que, sabendo disso, dá para injetar com segurança ao lado dela. Cotofana e colaboradores (2020, Aesthet Surg J) testaram essa hipótese com ultrassom em 41 voluntários e a rejeitaram. O ramo superficial da supratroclear passou, em média, a 10,59 mm da linha vertical do mesmo lado nos homens e a 8,21 mm nas mulheres; a supraorbital, a 22,38 mm e 20,73 mm. Ao franzir, a supratroclear se deslocou 1,63 mm (homens) e 1,84 mm (mulheres) em direção à linha média, e a supraorbital, 3,9 mm. Em repouso, estavam a 3,34 mm e 3,54 mm da pele. Os autores concluíram que essa hipótese deve ser rejeitada e que a glabela e a região supraorbital precisam ser vistas como partes moles móveis, não estáticas.

A distância até o osso também é curta. No Doppler de 71 casos de Güvenç e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol), a supratroclear estava, na altura da sobrancelha, entre 1,8 e 5,9 mm da epiderme e entre 0,7 e 3,7 mm do periósteo; 1,5 cm acima, entre 1,8 e 5,1 mm da epiderme e entre 0,6 e 3,8 mm do periósteo. Não houve diferença entre os lados; a profundidade aumentou com o IMC, e a distância até a pele, com a idade. Para os autores, na glabela tanto o subcutâneo quanto o plano supraperiosteal parecem arriscados, e a opção mais segura para a ruga seria a injeção intradérmica, logo abaixo dela.

Ultrassom transversal da glabela com vasos supratrocleares e paracentral — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom transversal da glabela com sonda de 18 MHz: epiderme e derme no alto; abaixo, o subcutâneo com os vasos supratrocleares dos dois lados e o vaso paracentral perto da linha média; mais fundo, os músculos prócero e corrugador do supercílio; no alto, à esquerda, a sobrancelha. O pictograma marca a posição da sonda. Figure 7 de Sigrist R et al., Diagnostics (Basel) 2024 (PMID 39202206), reproduzida sob licença CC BY. Duas das autoras declaram vínculo com a indústria (GE Healthcare e Merz; Galderma).

Três estudos, três réguas para o plano

Os trabalhos não dão a mesma resposta para o plano da testa — e a divergência ensina mais que uma regra única:

O ponto em comum é o que importa: nos três, a profundidade segura depende da altura, da faixa e da pessoa. Cotofana e Shen chegaram às suas réguas medindo com ultrassom, e Trzeciak recomenda o exame de alta resolução antes de injetar. Na glabela, Güvenç ainda acrescenta que o plano profundo não está livre de vaso.

Por que o erro aqui chega ao olho

A supratroclear e a supraorbital são continuação da oftálmica: produto que entra nelas e é empurrado contra o fluxo pode alcançar a artéria central da retina. No estudo com Doppler de Tansatit e colaboradores (2018, J Cosmet Dermatol), a canulação acidental de qualquer uma das duas permitiu a embolização da oftálmica em todos os casos registrados. As anastomoses entre os ramos terminais das oftálmicas dos dois lados abrem ainda a possibilidade de complicação ocular bilateral a partir de um único vaso, sobretudo a supratroclear — por isso os autores consideram a lesão da supratroclear mais perigosa que a da supraorbital.

A revisão de Beleznay e colaboradores (2019, Aesthet Surg J) reuniu 48 casos novos de perda visual por preenchedor publicados entre 2015 e setembro de 2018. A glabela foi o local em 27,1% e a testa em 18,8% (um caso pode envolver mais de um local), atrás apenas do nariz; o ácido hialurônico respondeu por 81,3% dos casos, e a visão se recuperou por completo em 20,8%. A conduta diante do primeiro sinal está em sinais de alerta de oclusão, em cegueira por preenchimento e em hialuronidase em alta dose pulsada.

O que a anatomia muda na técnica

Modelo · Cinco decisões que saem da anatomia da testa

  1. Medir pela altura, não só pela faixa. Junto ao rebordo, os ramos profundos ainda estão sob o frontal; em média pouco mais de um centímetro acima, já atravessaram o músculo. O mesmo plano tem vizinhos diferentes a 5 mm e a 25 mm do rebordo.
  2. Ruga não é referência vascular. O ramo superficial da supratroclear passa, em média, a 8 a 10 mm da linha vertical da glabela, e não sob ela, e se desloca quando a paciente franze; injetar ao lado da ruga não é, por si, garantia de nada.
  3. A faixa de 1 a 2 cm da linha média pede cuidado redobrado. É onde a supratroclear corre na quase totalidade das pessoas examinadas.
  4. Mapear antes. Na série de Lee e colaboradores (2024, Dermatol Surg), 34 pacientes que receberam em média 2,85 mL de ácido hialurônico na testa foram mapeados com Doppler; supraorbital, supratroclear e ramo frontal da temporal superficial foram localizados e evitados, sem complicação arterial. O método está em ultrassom na prevenção da oclusão vascular.
  5. Volume pequeno, pressão baixa, devagar. E hialuronidase acessível antes de começar — a dose por situação está em dose de hialuronidase por cenário.

A glabela é também território da toxina, e as duas técnicas seguem regras próprias. No consultório do Dr. Thiago Perfeito, o preenchedor e o bioestimulador são sempre aplicados com aspiração antes de depositar — por mais tempo em agulha de 29 a 30G —, como uma camada de proteção entre várias. Na toxina botulínica ele não aspira: agulha de 30 a 32G, microbolus, ponto e plano certos. Os pontos e a profundidade da toxina na glabela estão em como aplicar botox na glabela; o desenho vascular do restante da face, em anatomia vascular da face para injetáveis e no mapa de zonas de risco vascular.

Onde essa anatomia vira gesto

Ler que a supratroclear muda de plano a 14 mm do rebordo é diferente de sentir, com o dedo no rebordo da paciente, onde essa altura cai na testa dela. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), trata a glabela e a testa em dois momentos: a toxina dos três terços e o bloco de segurança vascular — mapa arterial, mecanismos de oclusão, conduta em comprometimento visual e hialuronidase — estão no módulo de Toxina e Preenchimento; o mapa de zonas de perigo por região, no módulo de Face Avançada. Cada um ocupa um sábado presencial em Brasília, na INTI, depois de um pré-work gravado obrigatório. No sábado, o docente faz a demonstração comentada na parte teórica e, na parte prática, cada aluno executa sob supervisão em paciente modelo, com turma limitada a 8 médicos. A grade completa está em /cursos/.

Perguntas frequentes

Onde saem as artérias supratroclear e supraorbital?

No rebordo orbital superior: a supratroclear no ângulo medial, a supraorbital pela incisura ou forame supraorbital. Na angiotomografia de Koziej e colaboradores (2020), a supratroclear ocupou a faixa a partir de 10 mm da linha média e a supraorbital, a partir de 20 mm; no Doppler de Shen e colaboradores (2023), elas correram de 1 a 2 cm e de 2 a 4 cm da linha média.

Em que altura da testa as artérias passam a correr no subcutâneo?

No ultrassom de 50 pacientes de Cotofana e colaboradores (2021), o ramo profundo da supraorbital atravessou o frontal em média a 13 mm do rebordo nos homens e 14 mm nas mulheres, e o da supratroclear a 14 mm nos dois sexos, com faixas que começaram em 4 mm.

A que profundidade fica a supratroclear na glabela?

Na meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2025), em média a 4,45 mm na glabela e 3,53 mm acima da sobrancelha. No Doppler de Güvenç e colaboradores (2022), ficou entre 1,8 e 5,9 mm da epiderme e entre 0,7 e 3,7 mm do periósteo na altura da sobrancelha.

A artéria supratroclear passa embaixo da ruga vertical da glabela?

Não como regra. Cotofana e colaboradores (2020) mediram o ramo superficial, em média, a 10,59 mm da linha vertical do mesmo lado nos homens e a 8,21 mm nas mulheres, com deslocamento em direção à linha média ao franzir. Os autores rejeitaram a hipótese de que injetar ao lado da ruga seja seguro porque a artéria correria sob ela.

Por que o preenchimento da glabela pode causar cegueira?

Porque a supratroclear e a supraorbital são ramos da oftálmica. Tansatit e colaboradores (2018) concluíram que a canulação acidental de qualquer uma delas permitiu embolização da oftálmica em todos os casos registrados. Na revisão de Beleznay (2019), a glabela foi o local em 27,1% dos casos de perda visual por preenchedor.

Qual é o plano mais seguro para preencher a testa?

Os estudos divergem: Cotofana (2021) favorece o supraperiosteal, Shen (2023) combina supraperiosteal na faixa da supratroclear e supramuscular na da supraorbital, e Trzeciak (2025) sugere injeção rasa. Em comum, a profundidade segura muda com a altura e com a pessoa, e Trzeciak recomenda ultrassom de alta resolução antes de injetar.

Existe uma artéria central na linha média da testa?

Na angiotomografia de Koziej e colaboradores (2020), não apareceu uma artéria central distinta na linha média, e sim uma rede de vasos pequenos; a artéria paracentral, presente em 44,0% das hemifaces, ocupou uma faixa de 13 mm a partir de 2 mm da linha média. Cotofana e colaboradores (2021) recomendam evitar o plano superficial da testa baixa justamente pela presença imprevisível das artérias central e paracentral.

Referências

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  5. Cotofana S, Velthuis PJ, Alfertshofer M, et al. The Change of Plane of the Supratrochlear and Supraorbital Arteries in the Forehead-An Ultrasound-Based Investigation. Aesthet Surg J. 2021;41(11):NP1589-NP1598. · PMID 33652475 · DOI 10.1093/asj/sjaa421
  6. Trzeciak M, Gładysz T, Przybycień W, et al. Depth of arterial supply of forehead: a meta-analysis. Folia Morphol (Warsz). 2025;84(2):285-293. · PMID 39764659 · DOI 10.5603/fm.103774
  7. Cotofana S, Alfertshofer M, Frank K, et al. Relationship Between Vertical Glabellar Lines and the Supratrochlear and Supraorbital Arteries. Aesthet Surg J. 2020;40(12):1341-1348. · PMID 32469392 · DOI 10.1093/asj/sjaa138
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  10. Beleznay K, Carruthers JDA, Humphrey S, Carruthers A, Jones D. Update on Avoiding and Treating Blindness From Fillers: A Recent Review of the World Literature. Aesthet Surg J. 2019;39(6):662-674. · PMID 30805636 · DOI 10.1093/asj/sjz053
  11. Lee W, Kim TH, Yang EJ. Mapping High-Risk Arteries Using Doppler Ultrasound for Forehead Contouring in Korean Patients. Dermatol Surg. 2024;50(11):1029-1033. · PMID 39082612 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004292
  12. Sigrist R, Desyatnikova S, Chammas MC, Vasconcelos-Berg R. Best Practices for the Use of High-Frequency Ultrasound to Guide Aesthetic Filler Injections-Part 1: Upper Third of the Face. Diagnostics (Basel). 2024;14(16):1718. · PMID 39202206 · DOI 10.3390/diagnostics14161718
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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