Botox em homens: massa muscular, dose e planejamento
Toxina botulínica

Botox em homens: diferenças de massa muscular e planejamento

Mais músculo, crânio maior, sobrancelha com outro desenho, mais vasos e uma preferência frequente por manter algum movimento: o paciente masculino muda o plano de toxina em pontos específicos. Os estudos que separaram os homens dizem onde a dose precisa subir — e onde a dose de bula basta.

O homem chega ao consultório com mais músculo para bloquear, uma sobrancelha que não deve ser arqueada e uma expectativa diferente de resultado — e os estudos de dose mostram que a dose desenhada para a mulher costuma ficar curta nele. O planejamento masculino muda três coisas: quanto se aplica nos depressores, como se trata o frontal sem feminizar o olhar e quanto movimento se preserva. Este texto organiza o que a literatura mediu em homens e como isso vira plano na maca.

Quanto os homens pesam nos ensaios

Os ensaios que sustentam as bulas recrutaram sobretudo mulheres. Keaney e Alster (2013, Dermatol Surg) revisaram 17 estudos clínicos de toxina botulínica com 5.646 participantes: 629 eram homens (11,1%), e só dois estudos levaram o sexo em conta no desenho ou numa análise de subgrupo. Nos ensaios de registro do Botox Cosmetic para a testa, a análise agrupada de Keaney e colaboradores (2020) contou 140 homens entre 1.178 participantes (12%).

Consequência prática: a dose impressa na bula é a dose que funcionou num grupo majoritariamente feminino. Ela continua sendo o ponto de partida — no Botox Cosmetic, 20 U na glabela, 20 U na testa tratada junto com a glabela e 24 U nos pés de galinha; no Dysport, 50 U na glabela, única área estética do rótulo americano —, mas o injetor que trata homem precisa saber o que acontece quando ele aplica esse número num músculo maior.

A anatomia que pesa na dose

A mesma revisão de Keaney e Alster descreve as diferenças que importam para quem injeta: crânio maior e de formato próprio, mais massa muscular esquelética, maior densidade de vasos na face e rugas, em média, mais graves. Na prática, cada uma delas tem um efeito na sessão:

A diferença de espessura foi medida. Jaguś e colaboradores (2025, Toxins) examinaram por ultrassom de alta frequência os músculos do terço superior de 127 adultos de 21 a 40 anos — 103 mulheres e 24 homens. Os homens tinham frontal e prócero mais espessos, e a assimetria entre os lados chegou a 40% em espessura e em profundidade, nos dois sexos.

Gráfico de espessura dos músculos do terço superior por ultrassom em mulheres e homens — Dr. Thiago Perfeito
Espessura medida por ultrassom de cada músculo do terço superior, com a distribuição das mulheres à esquerda e a dos homens à direita de cada gráfico: frontal (mOF), prócero (mP), corrugador (mCS) e as porções do orbicular do olho. Os autores encontraram frontal e prócero mais espessos nos homens. Figura 5 de Jaguś D et al., Toxins (Basel) 2025 (PMID 41441630), reproduzida sob licença CC BY.

O que os estudos de dose mostraram em homens

Três linhas de evidência apontam na mesma direção.

Botox na glabela, dose crescente. Carruthers e Carruthers (2005, Dermatol Surg) randomizaram 80 homens com rugas glabelares para 20, 40, 60 ou 80 U de onabotulinumtoxinA. As doses de 40, 60 e 80 U foram consistentemente mais eficazes que a de 20 U em duração, taxa de pico de resposta e melhora em relação à linha de base; resposta e duração subiram com a dose, e os eventos adversos não aumentaram com as doses maiores. A conclusão dos autores: homens se beneficiam de doses iniciais de pelo menos 40 U na glabela — o dobro da dose de bula. Dose acima da bula é uso fora do rótulo: a decisão é clínica, explicada ao paciente e registrada no prontuário.

Dysport com dose ajustada. No ensaio de fase III de dose variável de Kane e colaboradores (2009, Plast Reconstr Surg), a dose foi escolhida pela massa do prócero e dos corrugadores: 50, 60 ou 70 U nas mulheres e 60, 70 ou 80 U nos homens. O rótulo americano aprovado depois fixou a glabela em 50 U, de modo que as doses maiores do ensaio também ficam fora da bula. Aos 30 dias, 85% dos tratados responderam pela avaliação cega, com duração mediana de 109 dias. Na análise dos quatro estudos de fase III do produto, Baumann e colaboradores (2009) registram que a eficácia foi semelhante com as doses ajustadas por sexo e massa muscular, e que os homens precisaram de doses maiores que as mulheres.

Dose de bula, resposta menor. Quando o homem recebe a dose padrão, a taxa de resposta cai. Na análise post hoc de Jones e colaboradores (2017, Dermatol Surg) com incobotulinumtoxinA na glabela, 55,9% dos homens e 81,4% das mulheres responderam aos 30 dias nos ensaios americanos; no ensaio europeu de terço superior, 54,5% e 88,0%. Os autores notam que a resposta menor nos homens se repete com as três toxinas e a atribuem, em parte, à massa muscular. A revisão de Keaney e Alster também encontrou os dois estudos com abobotulinumtoxinA que separaram os sexos mostrando eficácia menor nos homens — e nenhum estudo com mais eventos adversos neles.

A testa é a exceção que confirma a regra do planejamento. Na análise agrupada de Keaney e colaboradores (2020), os homens tratados com a dose padrão de Botox Cosmetic (20 U no frontal e 20 U na glabela, com ou sem 24 U nos pés de galinha) tiveram 98,2% de resposta aos 30 dias em elevação máxima e 93,3% em repouso, apesar de chegarem com rugas proporcionalmente mais graves. Ou seja: o frontal masculino respondeu à dose de bula, e é na glabela que a dose costuma precisar subir.

Unidade de uma marca, unidade de outra

Os números de Carruthers estão em unidades de Botox; os de Kane, em unidades Speywood de Dysport; os de Jones, em unidades de Xeomin. As bulas das três marcas declaram que suas unidades não são intercambiáveis com as de outra toxina, e cada estudo vale para o produto que testou. Para transportar o raciocínio de um produto para outro, a formação do Dr. Thiago ensina uma referência de partida — 2,5 U de Dysport ou 1 U de Xeomin para cada unidade de Botox — aplicada na dose equivalente ou levemente abaixo e corrigida pela resposta do paciente. No homem, em que a dose já vem acima da bula, essa prudência na troca de marca pesa ainda mais.

A sobrancelha masculina e o frontal

O estudo morfométrico de Kraus e colaboradores (2019, J Plast Reconstr Aesthet Surg), com fotografias padronizadas de 244 adultos brancos, encontrou formatos diferentes de sobrancelha entre mulheres e homens jovens, sobretudo na posição do ponto mais alto, que nas mulheres jovens fica mais medial; com o envelhecimento, a sobrancelha feminina se aproxima do formato masculino. Os autores observam ainda que elevar a sobrancelha pode produzir um ar surpreso indesejado. No consultório, isso se traduz num princípio de desenho: no rosto masculino, um pico lateral criado pela toxina tende a ser lido como surpresa ou como traço feminino, e o plano procura preservar o formato que o paciente já tem.

Músculo frontal em destaque com corrugadores, prócero e orbicular do olho em cinza — Dr. Thiago Perfeito
O frontal (em destaque) é o único elevador da sobrancelha; corrugadores, prócero e orbicular do olho (em cinza) puxam para baixo. No homem, os estudos de dose apontam para mais unidades na glabela, e o frontal é tratado de modo a preservar o formato da sobrancelha, sem pico lateral.

Daí três cuidados no frontal masculino:

  1. Não derrubar. A revisão de Minokadeh e colaboradores (2024, Dermatol Surg) destaca que o frontal do homem exige dose e posição precisas para evitar a ptose de sobrancelha. Uma sobrancelha que já é baixa tem pouca margem antes de pesar sobre a pálpebra.
  2. Não arquear. Poupar a faixa lateral do frontal levanta a cauda e cria pico; no homem, a distribuição dos pontos acompanha a largura da testa até a lateral, com dose menor nos pontos laterais, para não criar pico.
  3. Tratar junto com a glabela. As bulas do Botox Cosmetic e do Xeomin pedem que a testa seja tratada com a glabela para reduzir o risco de queda da sobrancelha — e no homem, em que a glabela recebe mais, esse equilíbrio entre elevador e depressores é o que segura o olhar no lugar.

A leitura do frontal por padrões de contração está em padrões de rugas da testa e distribuição da dose, e a técnica passo a passo em como aplicar botox na testa sem baixar a sobrancelha.

O plano, área por área

Com esses dados, o plano masculino se organiza assim:

Masseter e temporal em vista lateral do crânio — Dr. Thiago Perfeito
Crânio em perfil com o masseter, do arco zigomático ao ângulo da mandíbula, e o temporal, em leque na fossa temporal, em destaque. No paciente masculino com bruxismo ou masseter volumoso, esses dois músculos entram no plano com avaliação própria.

Quanto movimento preservar

Dose maior não significa testa congelada. O objetivo, na maioria dos homens, é suavizar a ruga e o ar de cansaço ou de bravo sem tirar a expressão. O consenso global de Sundaram e colaboradores (2016) descreve a mudança de paradigma da paralisia para a neuromodulação, incluindo dose mais baixa no terço superior. Os dois dados convivem: modular é o objetivo, e quantas unidades isso exige depende da massa do músculo — na glabela masculina, em geral, mais.

Esse acordo se fecha na consulta, antes da agulha: mostrar no espelho o que vai parar e o que vai continuar se mexendo. Muitos homens preferem manter algum movimento na testa e ter a glabela bem tratada — e o plano se escreve nessa ordem.

Retorno, retoque e registro

A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias, na rotina do Dr. Thiago. Se ficou atividade, o retoque é pontual, de dose pequena, só onde o músculo ainda se mexe. No homem, essa revisão é especialmente útil porque a primeira dose é a mais incerta: a resposta registrada — unidades por ponto, marca, diluição e foto em contração — vira a dose de partida da sessão seguinte. A duração média na face, na prática dele, é de 3 a 4 meses, e a nova aplicação respeita o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.

Uma ressalva ligada ao reforço: a revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025, JMIR Dermatol) lista entre os fatores de perda secundária de resposta as aplicações com menos de 3 meses de intervalo, as doses cumulativas mais altas e os reforços nas 3 semanas seguintes à aplicação. No homem, que já recebe mais unidades, o caminho é acertar a primeira dose pela avaliação muscular, e não corrigir por reforços sucessivos.

Erros comuns no paciente masculino

  1. Usar a ficha da paciente feminina. A mesma dose na glabela tende a durar menos e responder menos no homem.
  2. Subir a dose da testa junto com a da glabela. Os dados de dose maior são da glabela; o frontal masculino respondeu à dose de bula.
  3. Criar arco lateral. Pico de sobrancelha produzido pela toxina, no rosto masculino, costuma ser lido como surpresa.
  4. Esquecer a equimose. A densidade vascular maior entra na conversa de consentimento, não na mensagem do dia seguinte.
  5. Prometer testa parada sem perguntar. Muitos homens querem menos ruga, não menos expressão.

Onde esse plano se treina

Calibrar a dose pela massa muscular é uma habilidade de mão e de olho: palpar o corrugador de um homem e o de uma mulher, ver os dois contraírem e perceber a diferença. O Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) ensina isso no módulo B1 da Pós Prática, de Toxina e Preenchimento: no bloco de toxina, anatomia funcional dos três terços, mapa de pontos e doses de referência; no bloco de preenchimento de contorno (mandíbula, mento, ângulo goníaco), a abordagem masculina e feminina. Antes do sábado presencial em Brasília vem o pré-work gravado; no sábado, a demonstração comentada responde pela teoria, e cada aluno executa, supervisionado, em paciente modelo — são no máximo oito médicos por turma. Os demais módulos estão em Cursos. O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina.

Síntese

No homem, a glabela costuma pedir mais do que a bula oferece, o frontal responde à dose padrão e a sobrancelha deve sair da sessão com o desenho que tinha. O plano parte da avaliação da massa muscular, escreve a dose na unidade da marca em uso e usa a revisão de 15 a 30 dias para calibrar a próxima sessão. Mais textos técnicos na Biblioteca.

Perguntas frequentes

Homem precisa de mais unidades de botox que mulher?

Na glabela, os estudos dizem que com frequência sim. No ensaio de Carruthers (2005) com 80 homens, as doses de 40, 60 e 80 U de Botox na glabela foram mais eficazes que a de 20 U, sem mais eventos adversos. No ensaio de dose variável do Dysport, os homens receberam 60 a 80 U, conforme a massa muscular. Na testa, a dose padrão de Botox Cosmetic deu resposta alta nos homens.

Por que o botox dura menos no homem?

Principalmente porque a dose pensada para a mulher fica curta para um músculo maior. Homens têm frontal e prócero mais espessos ao ultrassom e mais massa muscular; com a mesma dose, a taxa de resposta nos estudos com as três toxinas foi menor neles. No estudo de Carruthers, a duração aumentou com a dose.

Como evitar que a sobrancelha do homem fique arqueada?

Distribuindo os pontos do frontal pela largura real da testa, sem poupar a faixa lateral a ponto de levantar a cauda. O objetivo é preservar o desenho que a sobrancelha já tem, tratando a testa junto com a glabela para equilibrar elevador e depressores.

A dose maior em homem aumenta o risco de efeito adverso?

Nos estudos revisados, não. No ensaio de dose de Carruthers, os eventos adversos não aumentaram com as doses maiores, e a revisão de Keaney e Alster não encontrou mais eventos adversos nos homens em nenhum estudo. A atenção extra é com a equimose, pela maior densidade de vasos, e com a sobrancelha baixa.

Dá para usar o estudo de dose do Botox para planejar Dysport ou Xeomin?

Como raciocínio, sim; como número, só com conversão e ajuste. As bulas declaram que as unidades das marcas não são intercambiáveis. A formação do Dr. Thiago ensina como referência de partida 2,5 U de Dysport ou 1 U de Xeomin para cada unidade de Botox, começando no equivalente ou um pouco abaixo e corrigindo pela resposta.

Quando o homem volta depois da aplicação?

Entre 15 e 30 dias, para revisão. Se ficou atividade, o retoque é pontual e de dose pequena. A dose que funcionou fica registrada e vira o ponto de partida da próxima sessão, respeitando o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.

Referências

  1. Keaney TC, Alster TS. Botulinum toxin in men: review of relevant anatomy and clinical trial data. Dermatol Surg. 2013;39(10):1434-1443. · PMID 24090254 · DOI 10.1111/dsu.12302
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  6. Baumann L, Brandt FS, Kane MA, Donofrio LM. An analysis of efficacy data from four phase III studies of botulinum neurotoxin type A-ABO for the treatment of glabellar lines. Aesthet Surg J. 2009;29(6 Suppl):S57-S65. · PMID 19945006 · DOI 10.1016/j.asj.2009.09.012
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  10. Sundaram H, Signorini M, Liew S, et al. Global Aesthetics Consensus: Botulinum Toxin Type A — Evidence-Based Review, Emerging Concepts, and Consensus Recommendations for Aesthetic Use, Including Updates on Complications. Plast Reconstr Surg. 2016;137(3):518e-529e. · PMID 26910696 · DOI 10.1097/01.prs.0000475758.63709.23
  11. Kroumpouzos G, Silikovich F. Exploring Nonresponse to Botulinum Toxin in Aesthetics: Narrative Review of Key Trigger Factors and Effective Management Strategies. JMIR Dermatol. 2025;8:e69960. · PMID 40273416 · DOI 10.2196/69960
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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