Botox nas bunny lines (nariz): técnica
Toxina botulínica

Botox nas bunny lines (nariz): técnica

As bunny lines parecem a área mais simples do rosto: dois pontos, poucas unidades. Mas debaixo da ruga muitas vezes não há músculo, parte das rugas do nariz não vem do nasal, e a poucos milímetros do ponto corre o músculo que levanta o lábio superior. Esta página mostra onde a toxina precisa cair — e onde não pode chegar.

As bunny lines são as rugas oblíquas que aparecem na parede lateral do nariz, logo abaixo da raiz, quando o paciente sorri ou franze; o alvo principal da toxina é a porção transversa do músculo nasal, com um ponto superficial de cada lado, alto na parede lateral, e dose pequena. O que define o resultado é menos o número de pontos e mais duas decisões: injetar sobre músculo — e não sobre a prega, onde muitas vezes há só tecido conjuntivo — e manter a toxina longe do levantador do lábio superior e da asa do nariz, o músculo vizinho que, atingido, mexe no lábio.

Antes da técnica, um enquadramento: o nariz não está entre as áreas aprovadas nas bulas das toxinas usadas em estética. Tratar bunny lines é uso fora da bula (off-label), e as doses citadas nesta página vêm de estudos clínicos e consensos, não de bula.

Os músculos por trás das bunny lines

Quatro músculos se encontram no espaço entre o canto medial do olho e o dorso nasal, e cada um muda o desenho da ruga:

Músculo nasal transverso cruzando o dorso e depressor do septo — anatomia para toxina no nariz — Dr. Thiago Perfeito
Nariz em três quartos: a porção transversa do músculo nasal cruza o dorso (em destaque, no alto), sobre a cartilagem lateral superior; é ela que enruga a parede lateral nas bunny lines. Embaixo, também em destaque, o depressor do septo, alvo de outra indicação — a ponta que desce ao sorrir.

O triângulo sem músculo: por que mirar a borda, não a prega

Um achado anatômico recente, que muda a forma de mirar o ponto, é de Ahn e colaboradores (2025, Clinical Anatomy). Eles examinaram a área entre o canto medial e o dorso nasal por ultrassom em 13 voluntários adultos e por dissecção em 39 cadáveres, e encontraram de forma consistente uma área sem músculo — que chamaram de triângulo das bunny lines — entre as bordas do prócero, do nasal, do orbicular do olho e do LLSAN. O tamanho e a forma desse triângulo variam com a largura do prócero e do nasal, e a pele que o cobre é fina.

A consequência prática que os autores tiram é direta: a injeção convencional, feita exatamente sobre a ruga, tende a cair em tecido conjuntivo, e não em músculo, o que pode render resultado abaixo do esperado. A recomendação é mirar as bordas dos quatro músculos que cercam o triângulo. Para quem está começando, isso se traduz num gesto: pedir ao paciente para enrugar o nariz, palpar onde o músculo engrossa na parede lateral e marcar ali — não no fundo da prega.

Esquema do prócero, músculo nasal e levantador do lábio superior e da asa do nariz — Dr. Thiago Perfeito
Esquema dos músculos da região: prócero (P) subindo para a glabela, porção transversa do nasal (N) sobre o dorso e levantador do lábio superior e da asa do nariz (LLSAN) descendo pela parede lateral. A proximidade entre N e LLSAN é o que exige ponto alto e dose pequena. Figure 3 de Yi KH et al., Toxins (Basel) 2022 (PMID 35622589), reproduzida sob licença CC BY.

Avaliação: qual ruga do nariz o paciente tem

Nem toda ruga do nariz é bunny line, e esse é o ponto que mais explica retorno insatisfeito. Tamura e colaboradores (2005, Dermatol Surg) trataram 250 pacientes com rugas nasais com 3 U de toxina tipo A de cada lado no músculo nasal e reavaliaram em 1 mês:

Os pontos adicionais, escolhidos de acordo com a anatomia de cada paciente, resolveram as rugas residuais sem complicações. A lição para a consulta: peça ao paciente para enrugar o nariz, sorrir largo e franzir, e anote separadamente o que aparece na parede lateral (nasal), na raiz (prócero e orbicular medial) e entre os olhos. Quem planeja só os dois pontos clássicos promete um resultado que, nessa série, veio para menos da metade.

A avaliação também precisa olhar o lábio. Peça um sorriso amplo e veja quanto o lábio superior sobe e quanto de gengiva aparece. Um paciente com sorriso que já expõe pouco o lábio superior tem menos margem para qualquer difusão em direção ao LLSAN; um paciente com sorriso gengival talvez precise de outro plano, discutido em botox no sorriso gengival.

Onde marcar e como injetar

Yi e colaboradores (2022, Toxins) propuseram pontos para as rugas da região nasal a partir de referências externas fixas, sem depender do desenho da ruga. Para as bunny lines, o ponto fica no cruzamento de duas linhas: a horizontal que passa pelo rínion (a junção do osso com a cartilagem no dorso) e a vertical que desce do canto medial do olho. O mesmo trabalho propõe um ponto para a ruga horizontal da raiz, entre a glabela e o sélion, e outro para as rugas que franzem a parede lateral mais baixo, a meio caminho entre o rínion e a extremidade medial do sulco supra-alar.

Mapa de pontos de toxina botulínica para bunny lines e rugas do nariz sobre esquema — Dr. Thiago Perfeito
Mapa de pontos proposto pelos autores sobre esquema: verde, ruga horizontal da raiz (entre glabela G e sélion S); roxo, bunny lines (cruzamento da horizontal do rínion R com a vertical do canto medial MC); vermelho, rugas baixas da parede lateral (a meio caminho entre o rínion e a extremidade medial do sulco supra-alar, ESAC). No esquema, os autores indicam 2 U por ponto — dose da proposta deles, sem marca definida, e não de bula: o nariz é uso off-label. Figure 5 de Yi KH et al., Toxins (Basel) 2022 (PMID 35622589), reproduzida sob licença CC BY.

A sequência de aplicação, em ordem:

  1. Paciente sentado, nariz enrugado. Com a contração, o ventre do nasal fica mais fácil de palpar na parede lateral; o ponto vai sobre ele, e não no fundo da prega.
  2. Marque um ponto de cada lado, alto na parede lateral, sobre o músculo, na referência do cruzamento rínion × canto medial. Marque à parte qualquer ponto de raiz que a avaliação tenha pedido.
  3. Injeção superficial. O nasal é fino e está logo abaixo de uma pele fina; a toxina vai em pápula pequena, sem ir até o periósteo ou a cartilagem.
  4. Agulha fina e microbolus. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar — em toxina não é necessário — e nunca com microcânula.
  5. Agulha apontada para cima e para dentro, em direção ao dorso, nunca para baixo e para fora, em direção ao sulco nasogeniano.
  6. Registro. Produto, lote, diluição, pontos e unidades por ponto, com foto do nariz enrugado antes e na revisão.

Dose: o que os estudos usaram

Na série de Tamura, a dose foi de 3 U de toxina tipo A por lado no nasal — o resumo não informa a marca —, e os autores registram que doses entre 2 e 5 U eram as de uso comum nesse músculo. Os consensos internacionais tratam a região como indicação de dose baixa: o consenso de Carruthers e colaboradores (2004, Plast Reconstr Surg) incluiu as bunny lines entre as áreas além da glabela com doses iniciais por ponto, e o consenso de Ascher e colaboradores (2010, J Eur Acad Dermatol Venereol) fez o mesmo para a toxina em unidades Speywood, recomendando reconstituição final de 200 U Speywood por mL.

Esses números foram descritos para produtos específicos, e as bulas das três marcas declaram que suas unidades não são intercambiáveis. Na troca de marca, a formação do Dr. Thiago ensina uma conversão de referência — 1:2,5 entre Botox e Dysport e 1:1 entre Botox e Xeomin —, como ponto de partida que se confirma pela resposta na revisão. A reconstituição de cada produto está em diluição do Botox, diluição do Dysport e diluição do Xeomin. Uma concentração mais alta deixa o volume por ponto menor — e, no nariz, volume pequeno é segurança.

A migração para o LLSAN: o erro que mexe no lábio

O LLSAN corre pela parede lateral do nariz, logo abaixo e ao lado do nasal, e termina na asa e no lábio superior. Ele eleva o lábio. Que a toxina nesse músculo abaixa o lábio é justamente o que a literatura do sorriso gengival mostra: na meta-análise de Rojo-Sanchis e colaboradores (2023, J Clin Med), os músculos escolhidos para reduzir a exposição de gengiva foram o levantador do lábio superior, o LLSAN e o zigomático menor, e a redução média em relação ao grupo de comparação foi de 2,51 mm em duas semanas.

No paciente que veio tratar uma ruga do nariz, esse mesmo efeito é indesejado: toxina que desce até o LLSAN pode alongar o lábio superior ao sorrir ou deixar o sorriso assimétrico, por semanas. Ramos e colaboradores (2024, Aesthetic Plast Surg), numa série retrospectiva de 227 pacientes tratados com um padrão que inclui os músculos nasais, relatam encurtamento do filtro labial ao sorrir e o atribuem ao bloqueio da porção nasal do LLSAN — sinal de que a toxina nessa região muda a dinâmica do lábio, para o bem ou para o mal, conforme o plano.

O que mantém a toxina no lugar:

Se acontecer, a assimetria do lábio é temporária e acompanha a duração do efeito da toxina. O papel do injetor é registrar, explicar ao paciente que o efeito regride e rever o ponto e o volume daquele lado na próxima sessão.

Erros comuns

  1. Injetar no fundo da prega. No triângulo de Ahn não há músculo; a toxina ali rende pouco. O alvo é a borda do músculo que forma a ruga.
  2. Ponto baixo na parede lateral. Quanto mais perto da asa e do sulco nasogeniano, mais perto do LLSAN.
  3. Tratar como bunny line o que é ruga de raiz. Na série de Tamura, 30% tinham rugas persistentes na raiz do nariz e outros 30%, na raiz e entre os olhos; o prócero e a glabela entram no plano quando participam — a técnica da glabela está em como aplicar botox na glabela.
  4. Dose de glabela no nariz. O nasal é um músculo fino; os estudos trabalham com poucas unidades por lado.
  5. Trocar de marca sem recalcular. Unidades de produtos diferentes não são intercambiáveis em bula; a conversão de referência dá a primeira dose, a revisão confirma.

Revisão e duração

No consultório do Dr. Thiago, a revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias após a aplicação; se ficou atividade em algum ponto, o retoque é pontual, de dose pequena, só onde ela ficou. O efeito na face dura, em média, de 3 a 4 meses, e o intervalo mínimo entre aplicações é o das bulas: 3 meses. A sequência completa de uma primeira sessão de toxina, da recepção ao retorno, está em como aplicar botox no rosto: guia para o primeiro paciente.

Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde a mão aprende a altura do ponto

A diferença entre um ponto na borda do nasal e um ponto que escorre para o LLSAN é de poucos milímetros, e isso se calibra palpando o músculo contraído, não lendo. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, cada módulo ocupa um sábado presencial em Brasília, depois de um pré-work gravado obrigatório, com no máximo 8 médicos por turma: a parte teórica é a demonstração comentada pelo docente, e a parte prática é a execução supervisionada pelo próprio aluno em paciente modelo. O módulo de Toxina e Preenchimento cobre a anatomia funcional dos três terços, o mapa de pontos com doses de referência e a conversão entre marcas. Os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Quantas unidades de botox vão nas bunny lines?

Não há dose em bula, porque o nariz é uso off-label. Na série de Tamura e colaboradores (2005), com 250 pacientes, foram 3 U de toxina tipo A de cada lado no músculo nasal, e os autores registram que doses entre 2 e 5 U eram as de uso comum nesse músculo. Como as unidades não são intercambiáveis entre marcas, a dose de outro produto parte da conversão de referência e se confirma na revisão.

Qual músculo forma as bunny lines?

Principalmente a porção transversa do músculo nasal, que cruza o dorso sobre a cartilagem lateral superior. Prócero, orbicular do olho e levantador do lábio superior e da asa do nariz cercam a região e mudam o desenho da ruga.

Por que o botox nas bunny lines às vezes não funciona?

Por dois motivos frequentes. Ahn e colaboradores (2025) mostraram que, sob a ruga, existe uma área sem músculo entre as bordas do prócero, do nasal, do orbicular e do LLSAN — a injeção feita no fundo da prega cai em tecido conjuntivo. E parte das rugas do nariz não é do nasal: na série de Tamura, 30% tinham rugas persistentes na raiz do nariz e outros 30% na raiz e entre os olhos, e pediram pontos adicionais.

O botox no nariz pode deixar o lábio caído?

Pode, se a toxina chegar ao levantador do lábio superior e da asa do nariz, que corre pela parede lateral e eleva o lábio. O efeito é temporário e acompanha a duração da toxina. Ponto alto, perto do dorso, volume pequeno, injeção superficial e agulha apontada para cima reduzem esse risco.

Bunny lines é indicação de bula?

Não. O nariz não está entre as áreas aprovadas nas bulas das toxinas de uso estético; tratar bunny lines é uso fora da bula, com doses vindas de estudos e consensos.

Quando fazer a revisão depois do botox no nariz?

Entre 15 e 30 dias. Se alguma ruga residual aparecer, o retoque é pontual, de dose pequena, só onde ficou atividade. O efeito dura em média de 3 a 4 meses, e o intervalo mínimo entre aplicações é de 3 meses.

Referências

  1. Ahn H, Hu H, Kim SB, et al. Anatomical etiology of bunny lines based on cadaveric dissection and ultrasonographic evaluation. Clin Anat. 2025;38(6):686-691. · PMID 39711041 · DOI 10.1002/ca.24249
  2. Tamura BM, Odo MY, Chang B, Cucé LC, Flynn TC. Treatment of nasal wrinkles with botulinum toxin. Dermatol Surg. 2005;31(3):271-275. · PMID 15841625 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2005.31072
  3. Yi KH, Lee JH, Hu HW, Kim HJ. Novel Anatomical Guidelines on Botulinum Neurotoxin Injection for Wrinkles in the Nose Region. Toxins (Basel). 2022;14(5):342. · PMID 35622589 · DOI 10.3390/toxins14050342
  4. Hur MS. Anatomical relationships of the procerus with the nasal ala and the nasal muscles: transverse part of the nasalis and levator labii superioris alaeque nasi. Surg Radiol Anat. 2017;39(8):865-869. · PMID 28132092 · DOI 10.1007/s00276-017-1817-z
  5. Rojo-Sanchis C, Montiel-Company JM, Tarazona-Álvarez B, et al. Non-Surgical Management of the Gingival Smile with Botulinum Toxin A — A Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med. 2023;12(4):1433. · PMID 36835971 · DOI 10.3390/jcm12041433
  6. Ramos HHA, Amaral V, de Oliveira Afonso LP, et al. Advanced Injection of Botulinum Toxin in the Nasal Muscles: A Novel Dynamic Change in Facial Expression. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(8):1511-1521. · PMID 38191864 · DOI 10.1007/s00266-023-03751-y
  7. Carruthers J, Fagien S, Matarasso SL; Botox Consensus Group. Consensus recommendations on the use of botulinum toxin type A in facial aesthetics. Plast Reconstr Surg. 2004;114(6 Suppl):1S-22S. · PMID 15507786 · DOI 10.1097/01.PRS.0000144795.76040.D3
  8. Ascher B, Talarico S, Cassuto D, et al. International consensus recommendations on the aesthetic usage of botulinum toxin type A (Speywood Unit) — Part II: Wrinkles on the middle and lower face, neck and chest. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2010;24(11):1285-1295. · PMID 20569284 · DOI 10.1111/j.1468-3083.2010.03728.x
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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