Botox nas rugas do decote: seleção, técnica e limites
Toxina botulínica

Botox nas rugas do decote

As linhas do colo incomodam muitas pacientes tanto quanto as da testa, e a toxina resolve parte delas — a parte que é músculo. Separar, no exame, a dobra que nasce da contração do platisma da ruga que já está gravada na pele é o que decide se a aplicação vai render resultado ou só frustração.

A toxina botulínica no decote trata a parte das rugas que vem de músculo: a extensão inferior do platisma, que em parte das mulheres desce além da clavícula e enruga a pele do tórax a cada contração. A seleção se faz com o platisma contraído, a injeção é rasa e de dose distribuída, e a linha que não muda com a contração — dano solar, pele fina, flacidez — pede outra ferramenta. Por isso a pergunta útil diante da paciente não é “dá para fazer botox no colo?”, e sim “quanto destas linhas é movimento?”.

De onde vêm as rugas do decote

O decote acumula dois processos diferentes, e a toxina só alcança um deles.

O primeiro é muscular. O platisma não termina no pescoço: nasce da fáscia que cobre o peitoral maior e o deltoide anterior e sobe até se misturar à musculatura do terço inferior da face, como mostra o guia anatômico de Hu e colaboradores (2024, Archives of Plastic Surgery). Becker-Wegerich, Rauch e Ruzicka (2002, Dermatol Surg) observaram que, em um número considerável de mulheres, as rugas do decote parecem associadas a uma inserção do platisma que ultrapassa o segundo espaço intercostal. Nas cinco pacientes que trataram com toxina, o músculo se inseria ainda mais baixo, abaixo do quarto espaço intercostal.

O segundo processo é da pele. A revisão de Peterson e Goldman (2011, Dermatol Surg), que percorreu a literatura do Medline de 1960 a 2010 sobre rejuvenescimento do tórax, descreve a pele fotodanificada dessa região com flacidez, linhas e rugas, hiperpigmentação, eritema, aspereza, atrofia e telangiectasias. Os autores lembram que a derme e a epiderme do tórax são mais finas e têm menos unidades pilossebáceas que as da face, o que explica parte dos eventos adversos quando um tratamento facial é transposto para o colo sem adaptação.

O tempo também conta. No mesmo trabalho de Becker-Wegerich, as rugas do decote aparecem como transitórias nas mulheres acima dos 35 anos e tendem a se tornar permanentes por volta dos 50. É exatamente a faixa da paciente que mais procura o tratamento: entre os 45 e os 60 anos, a mesma linha costuma ter um componente que ainda se apaga quando o músculo relaxa e outro que já ficou marcado na pele.

O que dizem a bula e os consensos

As indicações estéticas das bulas americanas de toxina se concentram na face — glabela, periorbital e testa — e, no caso do Botox Cosmetic, nas bandas platismais. O decote fica fora das três bulas (Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin), de modo que o tratamento é uso fora de bula e se apoia em séries clínicas e em recomendações de consenso.

A primeira descrição específica é a série de Becker-Wegerich (2002): cinco mulheres com linhas de decote e platisma de inserção baixa, pontos marcados durante a contração do músculo e melhora significativa da região duas semanas depois da aplicação. Os autores concluíram que a toxina pode ser um método eficaz e seguro no manejo temporário dessas rugas e a propuseram como tratamento adjuvante no rejuvenescimento do decote.

Gassia e colaboradores (2009, Ann Dermatol Venereol), numa revisão de técnicas para os terços médio e inferior, o pescoço e o decote, incluem as linhas diagonais do pescoço e do decote entre o que a toxina consegue atenuar, com o alerta de que essas regiões pedem operador experiente, que conheça os músculos da área e as ações antagonistas que eles exercem uns sobre os outros.

Para a abobotulinumtoxinA, o consenso internacional de Ascher e colaboradores (2010, J Eur Acad Dermatol Venereol) — elaborado por um painel reunido em torno do Azzalure, marca da Galderma derivada do Dysport, como o próprio resumo informa — inclui as rugas do decote entre nove indicações dos terços médio e inferior, do pescoço e do tórax. O documento recomenda reconstituir a toxina na concentração final de 200 unidades Speywood por mL e traz, para cada indicação, a anatomia, os efeitos colaterais possíveis, o número e a localização dos pontos e a faixa de dose.

Unidades: o que a bula diz e como a formação ensina

Como o consenso foi escrito em unidades Speywood, transpor a dose para outra marca exige cuidado. As bulas de Botox, Dysport e Xeomin afirmam que as unidades de um produto não podem ser trocadas pelas de outro. A formação do Dr. Thiago trata essa regra junto com a prática do consultório: ensina uma conversão de referência — cada unidade de Botox corresponde a 2,5 unidades de Dysport e a 1 unidade de Xeomin — e orienta, na troca de marca, partir da dose equivalente ou de um valor um pouco menor e corrigir pela resposta da paciente no retorno. No decote, onde a dose se espalha por muitos pontos rasos, anotar a marca e a concentração no prontuário é o que permite repetir ou ajustar o plano na sessão seguinte. A diferença entre as duas marcas mais usadas está detalhada em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor, e a reconstituição em diluição do Botox.

Reconstituição da toxina botulínica com diluente injetado no frasco — Dr. Thiago Perfeito
Seringa levando o diluente ao frasco de toxina liofilizada. O volume de diluente define quantas unidades cabem em cada 0,1 mL, e é essa concentração, junto com a marca, que vai para o prontuário do decote.

Seleção: a contração separa músculo de pele

O exame é dinâmico e começa com a paciente sentada, colo descoberto e boa luz lateral. Em repouso, observe a direção das linhas — verticais, oblíquas ou em leque a partir do esterno — e o quanto já estão gravadas na pele. Depois peça a contração máxima do platisma, com a careta de mostrar os dentes inferiores e o pescoço tenso, e veja o que acontece abaixo da clavícula.

Na mesma avaliação, observe as bandas do pescoço. A paciente que contrai o platisma com força no decote costuma ter bandas visíveis acima da clavícula, e tratar só uma das regiões pode deixar o resultado desigual. O roteiro completo de exame está em avaliação dinâmica antes do botox.

Platisma em destaque no pescoço da borda da mandíbula à clavícula — Dr. Thiago Perfeito
O platisma em destaque, em vista de três quartos, da borda da mandíbula até a clavícula, com as bordas mediais que formam as bandas; o esternocleidomastóideo e a laringe aparecem em cinza. No exame do decote, a contração desse músculo mostra se as linhas do tórax acompanham o movimento.

Antes de marcar, confirme o que pesa contra a aplicação — hipersensibilidade ao produto e infecção no local, que as bulas listam como contraindicação, e as situações de cautela, como doença da junção neuromuscular, gestação e amamentação —, revisadas em contraindicações da toxina botulínica. Pergunte também sobre dificuldade para engolir ou fraqueza cervical: se a dose do decote vier somada à do pescoço, a paciente recebe toxina numa área ampla, e isso pesa na decisão.

Técnica: marcação em contração, injeção rasa

  1. Delimite a área. A bula americana do Radiesse para o decote — produto diferente, mas o mesmo território — descreve a região de tratamento como cerca de 100 cm², limitada acima pela fúrcula esternal, dos lados pela linha hemiclavicular e abaixo pelo ponto mais alto do sulco entre as mamas, sem injeção sobre o tecido mamário. É um mapa útil para a toxina também: o alvo é a pele do tórax alto que se move com o platisma, não a mama.
  2. Marque com o músculo contraído. Becker-Wegerich marcaram os pontos durante a contração do platisma. Desenhe sobre as linhas que se formam no movimento, com distribuição regular, e só então peça que a paciente relaxe.
  3. Injete no plano superficial. Abaixo do platisma fica o peitoral maior. O guia de Hu recomenda, para os pontos no corpo do platisma, injeção intradérmica ou subdérmica, para não alcançar a musculatura da deglutição nem o esternocleidomastóideo; no tórax, o mesmo princípio mantém a toxina na lâmina fina do platisma e longe do músculo de baixo. Pele fina pede agulha rasa e pápula pequena.
  4. Agulha fina, sem cânula. O Dr. Thiago trabalha a toxina com agulha 30 a 32 G e depósitos em microbolus; microcânula não entra, e aspirar antes de cada ponto é dispensável com esse produto.
  5. Prefira mais pontos com menos dose em cada um. Volume grande num ponto só aumenta a área de difusão; a dose distribuída em pontos rasos trata a lâmina muscular de forma homogênea. Quando a queixa é de textura fina sobre todo o colo, a técnica intradérmica em microgotas é outra abordagem, descrita em microbotox.
  6. Registre. Marca, lote, concentração, mapa de pontos e unidades por ponto, com fotos do colo em repouso e em contração, sempre na mesma distância e com a mesma luz. O consentimento é por escrito.
Corte transversal da pele com epiderme, derme em destaque, gordura e músculo — Dr. Thiago Perfeito
Corte da pele em camadas: epiderme, derme em destaque, tecido gorduroso e músculo abaixo. É um corte genérico de pele: no decote, a derme é mais fina que a da face e o platisma é uma lâmina logo sob o subcutâneo, por isso a agulha fica rasa.

Combinar com bioestimulador, preenchedor e tecnologia

Como a maioria das pacientes chega com o quadro misto, a toxina raramente trata o decote sozinha. O consenso de Fabi e colaboradores (2016, Dermatol Surg), elaborado por um painel de 15 médicos, com consenso definido como aprovação de 75% a 94% e consenso forte como aprovação de pelo menos 95%, traz recomendações para pescoço, decote e mãos sobre combinar toxina, ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio e ultrassom microfocado, incluindo a ordem e o tempo entre os procedimentos quando feitos juntos ou em sessões separadas.

Um exemplo brasileiro de combinação é a técnica “Diamond”, de Teodoro e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol): hidroxiapatita de cálcio, ácido hialurônico e incobotulinumtoxinA aplicados com um guia de acetato em forma de losango para padronizar os pontos no pescoço e no decote. Os autores apresentaram a técnica em quatro mulheres de 55 a 63 anos, com flacidez cervical de grau II ou III na escala da Merz em repouso; duas relataram “bons resultados” e duas, resultados “além das expectativas”. Dois dos três autores declaram ser palestrantes da Merz, fabricante do Xeomin e do Radiesse.

Na prática, a ordem que faz sentido é tratar a pele que não se move com bioestimulador ou skinbooster e deixar a toxina para a dobra que ainda é dinâmica. Os protocolos de bioestimulador para essa região estão em bioestimulador no pescoço e colo, a diluição da hidroxiapatita em Radiesse hiperdiluído, e o ácido hialurônico de qualidade de pele em skinbooster no pescoço e colo.

Segurança, retorno e repetição

A advertência em destaque das bulas americanas vale para qualquer região: o efeito da toxina pode se espalhar a partir do local da injeção e produzir sintomas compatíveis com o efeito da toxina botulínica, entre eles dificuldade para engolir e respirar, horas a semanas depois da aplicação. No decote, a atenção maior vai para a soma de doses quando colo e pescoço são tratados na mesma sessão, porque a musculatura da deglutição fica logo abaixo do platisma cervical. Os dados de disfagia e fraqueza cervical no tratamento do pescoço estão em botox no platisma.

A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias depois da aplicação. Com as fotos do colo em contração lado a lado, decide-se se alguma faixa ainda enruga; havendo, o retoque é pontual, de dose pequena, restrito a ela. Como o resultado é temporário, a reaplicação obedece ao intervalo mínimo de 3 meses pedido pelas bulas americanas. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante.

Onde esse treino acontece na formação do Dr. Thiago

O decote junta duas competências que costumam ser ensinadas separadas: ler o platisma em movimento para dosar a toxina e reconhecer o que é pele, que pede outro produto. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a toxina — com microbotox e a plataforma cervical — está no módulo de Toxina e Preenchimento, e os bioestimuladores para pescoço, colo e mãos, no módulo de Bioestimuladores e Qualidade de Pele. Cada módulo é um sábado presencial em Brasília, com turma de até oito médicos e pré-work gravado obrigatório: a demonstração comentada é a parte teórica, e a parte prática é a execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo. Os quatro módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Botox funciona nas rugas do decote?

Funciona na parte das rugas que vem de músculo: a extensão inferior do platisma sobre o tórax. Na série de Becker-Wegerich e colaboradores (2002), cinco mulheres com platisma de inserção baixa tiveram melhora significativa duas semanas depois da aplicação. Linhas que não mudam com a contração são da pele e respondem melhor a bioestimulador, skinbooster ou tecnologia.

A toxina botulínica tem indicação de bula para o colo?

Não. As bulas americanas de Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin concentram as indicações estéticas na face e, no caso do Botox Cosmetic, nas bandas platismais. O decote é uso fora de bula, apoiado em séries clínicas e em consensos, como o de Ascher e colaboradores (2010) para a abobotulinumtoxinA.

Como saber se a paciente é boa candidata ao botox no decote?

Pelo exame dinâmico: com a paciente sentada, compare o colo em repouso e com o platisma contraído. Linhas que surgem ou se aprofundam na contração e somem no relaxamento indicam componente muscular e boa resposta à toxina. Linhas iguais nas duas situações são da pele.

Em que profundidade se aplica a toxina no decote?

No plano superficial. O platisma é uma lâmina fina logo abaixo do subcutâneo, com o peitoral maior por baixo; injeção intradérmica ou subdérmica, com agulha de 30 a 32 G e pápula pequena, mantém a toxina no músculo certo. A dose é distribuída em vários pontos rasos, marcados com o músculo contraído.

Dá para converter a dose do consenso em unidades Speywood para Botox?

As bulas declaram que as unidades de Botox, Dysport e Xeomin não são intercambiáveis. A formação do Dr. Thiago ensina uma referência de partida — 1 unidade de Botox para 2,5 de Dysport e para 1 de Xeomin —, começando na dose equivalente ou um pouco abaixo e ajustando pela resposta no retorno.

Pode combinar botox no decote com bioestimulador?

Pode, e no quadro misto costuma ser o plano mais completo: o bioestimulador cuida da pele fina e flácida, e a toxina, da dobra que ainda é dinâmica. O consenso de Fabi e colaboradores (2016) traz recomendações de ordem e intervalo para combinar toxina, ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio e ultrassom microfocado no decote.

Quando reaplicar a toxina no colo?

A revisão acontece entre 15 e 30 dias, com retoque pontual de dose pequena só onde ficou atividade. O efeito é temporário, e a nova aplicação respeita o intervalo mínimo de 3 meses que as bulas americanas pedem entre tratamentos.

Referências

  1. Becker-Wegerich PM, Rauch L, Ruzicka T. Botulinum toxin A: successful décolleté rejuvenation. Dermatol Surg. 2002;28(2):168-171. · PMID 11860430 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2002.01116.x
  2. Hu H, Kim SB, Wan J, et al. Anatomical Guidelines and Technical Tips for Neck Aesthetics with Botulinum Toxin. Arch Plast Surg. 2024;51(5):447-458. · PMID 39346003 · DOI 10.1055/s-0044-1788284
  3. Ascher B, Talarico S, Cassuto D, et al. International consensus recommendations on the aesthetic usage of botulinum toxin type A (Speywood Unit) — Part II: Wrinkles on the middle and lower face, neck and chest. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2010;24(11):1285-1295. · PMID 20569284 · DOI 10.1111/j.1468-3083.2010.03728.x
  4. Gassia V, Beylot C, Béchaux S, Michaud T. Botulinum toxin injection techniques in the lower third and middle of the face, the neck and the décolleté: the “Nefertiti lift”. Ann Dermatol Venereol. 2009;136 Suppl 4:S111-S118. · PMID 19576476 · DOI 10.1016/S0151-9638(09)74537-5
  5. Peterson JD, Goldman MP. Rejuvenation of the aging chest: a review and our experience. Dermatol Surg. 2011;37(5):555-571. · PMID 21463389 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2011.01972.x
  6. Fabi SG, Burgess C, Carruthers A, et al. Consensus Recommendations for Combined Aesthetic Interventions Using Botulinum Toxin, Fillers, and Microfocused Ultrasound in the Neck, Décolletage, Hands, and Other Areas of the Body. Dermatol Surg. 2016;42(10):1199-1208. · PMID 27668925 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000869
  7. Dos Santos Teodoro M, da Fonseca Armada Barros JH, da Cunha ALG. Diamond Technique: A Triple Treatment for Neck and Décolletage Rejuvenation. J Cosmet Dermatol. 2025;24(2):e16667. · PMID 39632500 · DOI 10.1111/jocd.16667
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

Pós Prática em Medicina Estética Avançada

Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.

Conhecer a formação →