Fios no pescoço e papada
Fio no pescoço funciona quando a queixa é tecido mole que desceu e ainda tem para onde voltar: o contorno da borda mandibular que se apagou, a papada leve de pele e gordura pré-platismal que perdeu sustentação. Ele não trata banda platismal ativa, não derrete gordura e não remove excesso de pele. Antes de escolher o fio, o pescoço precisa ser separado em três camadas — pele, gordura e músculo — porque cada uma delas tem a sua ferramenta, e o fio só responde por uma parte do problema.
Por que o pescoço engana
No terço médio, a descida do tecido é quase sempre a história principal. No pescoço, a mesma imagem — "papada", "pescoço pesado", "perdi a linha do queixo" — pode nascer de quatro mecanismos diferentes: pele fina e frouxa, gordura acumulada acima do platisma, gordura e glândula abaixo dele, ou um platisma que se contrai em cordões verticais. O paciente descreve o resultado; o médico precisa achar a causa.
O platisma é o ponto de partida. Ele é uma lâmina fina que nasce no tórax, cruza a clavícula e sobe até a borda da mandíbula, onde se mistura ao SMAS. As duas bordas mediais é que formam as bandas visíveis quando o músculo contrai. A forma como os dois lados se encontram na linha média varia: Hong e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), numa revisão que juntou dissecção, ultrassom e experiência clínica para planejar o fio submentoniano, registraram decussação platismal em 85% dos pacientes coreanos. Esse cruzamento das fibras abaixo do mento muda o quanto a região central tem de sustentação própria e o que um fio consegue tracionar ali.

A contração também não é igual em todo mundo. Alcalá e Bravo (2019, Dermatol Surg) fotografaram 360 pacientes em contração padronizada e descreveram três padrões de banda platismal: contração completa em 64,53%, lateral em 19,83% e central em 11,73%; 3,91% contraíam de forma assimétrica. Para o planejamento do fio, o padrão importa menos pela banda em si do que pelo que ele revela: um pescoço que forma cordões fortes ao contrair é um pescoço em que o músculo, e não a falta de sustentação, domina a queixa.
Pele, gordura ou músculo: o exame que decide
O exame é feito com a paciente sentada, cabeça em posição neutra, primeiro em repouso e depois com o platisma contraído (pedir para mostrar os dentes inferiores com força). Três perguntas organizam a decisão.
- A pele está frouxa e fina, ou espessa e com excesso? Pinçar a pele abaixo da borda mandibular: frouxidão discreta, com pele que ainda retrai, é território de fio e de estímulo de colágeno; excesso de pele que dobra é território de cirurgia.
- A gordura está acima ou abaixo do platisma? Com o músculo contraído, a gordura pré-platismal continua pinçável entre os dedos; a que some ou fica firme está abaixo dele, onde nenhum fio e nenhum injetável de superfície chega.
- O músculo forma bandas em repouso ou só na contração? Banda que aparece só na contração costuma responder à toxina; banda presente em repouso, com pele fina, costuma pedir mais do que injetável.
| Achado dominante | O que o fio faz | Ferramenta que costuma responder melhor |
|---|---|---|
| Borda mandibular apagada por tecido que desceu, pele com retração | Reposiciona e redesenha a linha | Fio espiculado, com ou sem preenchedor de suporte na mandíbula |
| Papada leve de pele e gordura pré-platismal | Traciona o centro em direção à ancoragem lateral | Fio submentoniano; gordura localizada pode pedir tratamento próprio antes |
| Gordura pré-platismal em volume | Pouco: traciona um peso que continua lá | Redução de gordura (ácido deoxicólico, tecnologia) e só depois avaliar sustentação |
| Bandas platismais em contração | Nada sobre a banda | Toxina no platisma |
| Pele fina, com aspecto de papel crepom, sem queda | Pouco como sustentação | Bioestimulador, skinbooster ou aparelho de energia |
| Excesso de pele, bandas em repouso, gordura subplatismal | Não substitui | Cirurgia do pescoço |
As alternativas da tabela têm páginas próprias: toxina no platisma, bioestimulador no pescoço e colo, skinbooster no pescoço e Morpheus8 na papada e no pescoço.
O que o fio entrega no terço inferior
O dado clínico mais organizado para fio na linha da mandíbula vem de um estudo prospectivo com avaliador cego. Wanitphakdeedecha e colaboradores (2021, Dermatol Ther (Heidelb)) implantaram fios absorvíveis farpados (Definisse) ao longo do ângulo da mandíbula, em desenho de "J", em 27 pacientes tailandeses com flacidez leve a moderada; 25 completaram todo o seguimento de 12 meses. A melhora da flacidez apareceu logo após o implante; as medidas objetivas de volume da linha da mandíbula, do sulco nasogeniano e da região submentoniana mostraram melhora significativa em quase todas as visitas de seguimento, e 51,9% dos pacientes já descreviam o efeito de sustentação como excelente na visita de 1 semana. Os fios de 23 cm tiveram leve superioridade sobre os de 12 cm. Todas as reações adversas foram leves e resolveram sem intervenção. Os próprios autores registram o limite: o efeito visível de sustentação do fio absorvível dura menos que o do não absorvível, porque a reabsorção começa a partir de 6 meses. Segundo o texto completo, o grupo Menarini, fabricante do fio, forneceu os produtos do estudo e pagou a taxa de publicação acelerada da revista.
A leitura para o pescoço é direta: o fio entrega reposicionamento imediato da linha mandibular e da região submentoniana em quem tem tecido móvel e flacidez leve a moderada, e esse efeito mecânico tem prazo. O que permanece depois é o colágeno formado ao redor do fio, não a tração.
Vetores e ancoragem: onde o fio do pescoço segura
No terço médio, a ancoragem natural é a têmpora. No pescoço, a pergunta é para onde puxar o centro da papada sem atravessar estruturas que não perdoam. Por anos, o desenho clássico foi levar o fio em U do submento até a fáscia mastoide, atrás da orelha. Esse trajeto longo passa pela cauda da parótida e pela região do nervo auricular magno.
Hong e colaboradores (2025) propõem outra ancoragem: a fáscia profunda subangular, perto do ângulo da mandíbula. Ancorar ali, segundo os autores, evita o nervo auricular magno e a parótida e é mais seguro que a fixação mastoide tradicional. A mesma revisão descreve a inserção do medial para o lateral com espículas em sentido reverso, que melhora a tração central do submento, e recomenda o ultrassom para aumentar a precisão.

O estudo em cadáver de Hong e Yi (2026, JPRAS Open) mostra por que essa mudança importa. Ao simular os trajetos em U mais comuns, o fio dirigido à fixação mastoide tendia a aprofundar perto do ângulo da mandíbula, aproximando-se dos vasos faciais que sobem verticalmente na região da incisura antegonial; num espécime, houve penetração direta da artéria. Abaixo do platisma, perto do ângulo, os autores encontraram de forma consistente uma camada fibrosa espessa e resistente — a que chamam de fáscia profunda subangular, uma condensação regional e não uma estrutura anatômica nomeada — que serviu como ponto alternativo de fixação. Com ela, o fio pode ficar predominantemente pré-platismal e não precisa atravessar a região entre a parótida e o esternocleidomastóideo.
Três estruturas para desenhar antes da primeira punção
- Ramo marginal da mandíbula do nervo facial, junto à borda mandibular: o fio que desce do plano pré-platismal para baixo do músculo nessa altura entra no território dele.
- Artéria e veia faciais na incisura antegonial, à frente do masseter: é aí que a trajetória mastoide aprofunda.
- Parótida e nervo auricular magno, atrás do ângulo: são o motivo para preferir a ancoragem subangular.

Plano e técnica: o que muda em relação à face
A sequência técnica geral — marcação sentada, antissepsia ampla, anestesia do trajeto, cânula ou agulha guia no plano, liberação do fio, ajuste da tensão — está na página sobre como aplicar fios de PDO na face. No pescoço, três detalhes pesam mais.
Modelo · Pontos de controle do fio cervical
- Marcar o vetor com a cabeça em posição neutra, nunca em extensão: o pescoço estendido estica a pele e esconde a papada que se quer tratar.
- Escolher a ancoragem antes da entrada: com a fixação lateral definida (subangular), marca-se o trajeto inteiro entre ela e a entrada no submento; na técnica descrita por Hong e colaboradores, a inserção vai do medial para o lateral.
- Manter o fio pré-platismal em todo o trajeto: a resistência deve ser uniforme; mudança brusca de resistência perto do ângulo é sinal para parar e reavaliar o plano antes de avançar.
- Não cruzar a borda mandibular em profundidade: é onde o marginal da mandíbula e os vasos faciais estão mais próximos.
- Tensionar com a paciente sentada e conferir a simetria de frente e de perfil; a tração excessiva no submento aparece como depressão linear ao longo do fio.
- Usar ultrassom quando disponível, sobretudo perto do ângulo, para confirmar plano e vasos.
Dimpling, fio palpável, extrusão e infecção no pescoço seguem a mesma lógica da face e estão em complicações dos fios de sustentação. Para o fio que trata o contorno do terço médio, veja fios espiculados no terço médio.
Quando a resposta é outro método
O fio é ferramenta de reposicionamento. Toda queixa de pescoço que não for, principalmente, tecido que desceu tem resposta melhor em outro lugar.
- Banda platismal ativa: o fio não age sobre o músculo. A toxina enfraquece esse vetor depressor e é a ferramenta que age sobre a banda que aparece na contração.
- Gordura pré-platismal em volume: fio sobre gordura acumulada traciona um peso que continua no mesmo lugar. A gordura se trata primeiro — ácido deoxicólico ou tecnologia — e a sustentação se reavalia depois.
- Pele fina sem queda: o problema é qualidade de pele, não posição. Bioestimulador, skinbooster ou aparelho de energia respondem melhor.
- Excesso de pele, bandas em repouso, gordura e glândula abaixo do platisma: não existe injetável nem fio que alcance esse plano. É indicação cirúrgica.
Há um dado para levar à consulta de quem já tem indicação cirúrgica e pede uma alternativa. O'Daniel e Patton (2026, Aesthet Surg J) revisaram 180 cirurgias de pescoço feitas por um mesmo cirurgião em 2023; 123 pacientes (68%) tinham tratamento prévio do pescoço, entre eles cirurgia anterior e procedimentos não cirúrgicos como lipólise química, criolipólise, aparelhos de radiofrequência e ultrassom e suspensão por fio, incluindo fios de PDO. Nos operados após tratamento não cirúrgico, os autores encontraram fibrose, perda dos planos normais, rigidez do platisma e da fáscia profunda e distribuição imprevisível da gordura. No conjunto das 180 cirurgias, 94% exigiram cervicoplastia profunda com abordagem das estruturas subplatismais; não houve complicação maior, mas quase todos os pacientes tiveram irregularidade de contorno no pós-operatório, que os autores atribuem à destruição da gordura supraplatismal e do platisma. O estudo agrupa todos os tratamentos não cirúrgicos e não isola o efeito do fio — mas é um argumento honesto para não empilhar procedimentos num pescoço que já é cirúrgico.
Na papada que tem um pouco de cada mecanismo, a ordem costuma ser: reduzir gordura, tratar o músculo, melhorar a pele e, por último, reposicionar com fio o que ainda estiver baixo. Magacho-Vieira e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) organizaram o tratamento do jowl justamente assim: um roteiro de perguntas diagnósticas simples, a partir dos processos de envelhecimento envolvidos, que leva à escolha entre bioestimulador de colágeno, aparelho de energia, injetável lipolítico, fio de PDO e preenchedor de ácido hialurônico.
O que combinar com a paciente
- O fio redesenha a linha, não emagrece o pescoço. Se a queixa é gordura, ela é tratada antes.
- O efeito mecânico tem prazo. A sustentação do fio absorvível diminui conforme o polímero é reabsorvido; o colágeno formado ao redor fica.
- Repuxamento e sensação de corda ao virar a cabeça são esperados nos primeiros dias e diminuem.
- Banda que aparece ao falar não é falha do fio: é o músculo, e tem tratamento próprio.
Onde o pescoço vira prática
O pescoço é a região em que o diagnóstico decide mais do que a técnica: errar a camada é colocar fio onde a queixa era gordura ou músculo. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), os fios estão no Módulo A1, Face Avançada, separados por produto e por região — o PDO espiculado é ensinado para supercílio, jowl e região cervical —, ao lado de PLA/PCL e Aptos, com a anatomia de risco do marginal da mandíbula e do ducto parotídeo e a anestesia própria dos fios dentro do bloco. O médico assiste ao pré-work gravado antes e vai a Brasília para um sábado presencial com turma de até oito: a parte teórica é demonstração comentada, a parte prática é execução supervisionada em paciente modelo. As outras formações estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Fio de PDO resolve papada?
Resolve a papada leve de pele e gordura pré-platismal que perdeu sustentação. Quando a papada é gordura em volume, gordura abaixo do platisma ou excesso de pele, o fio traciona um problema que continua no lugar; a gordura se trata antes e o excesso de pele é cirúrgico.
Fio trata banda do platisma?
Não. A banda é o músculo contraindo, e o fio corre acima dele, no plano pré-platismal. A banda que aparece na contração é tratada com toxina no platisma; o fio entra, se for o caso, para o contorno da borda mandibular.
Onde se ancora o fio da papada?
Cada vez mais na fáscia profunda subangular, perto do ângulo da mandíbula, e não na fáscia mastoide. Hong e colaboradores (2025) descrevem essa ancoragem como mais segura por evitar o nervo auricular magno e a parótida; em cadáver, Hong e Yi (2026) mostraram que o trajeto até a mastoide tende a aprofundar perto dos vasos faciais na incisura antegonial.
Em que plano fica o fio no pescoço?
No subcutâneo, acima do platisma (plano pré-platismal), em todo o trajeto. Abaixo do músculo, perto da borda da mandíbula, ficam o ramo marginal da mandíbula do nervo facial e os vasos faciais.
Quanto tempo dura o fio na linha da mandíbula?
O efeito mecânico do fio absorvível diminui conforme ele é reabsorvido. No estudo de Wanitphakdeedecha e colaboradores (2021), com fios farpados absorvíveis ao longo do ângulo da mandíbula, os autores registram que a reabsorção começa a partir de 6 meses e que o efeito visível de sustentação dura menos que o do fio não absorvível. O colágeno formado ao redor do fio permanece.
Fio no pescoço atrapalha uma cirurgia futura?
Pode tornar a cirurgia mais trabalhosa. Na revisão de O'Daniel e Patton (2026), de 180 cirurgias de pescoço, os operados após tratamentos não cirúrgicos — incluindo fios de PDO, sem que o estudo isole o efeito do fio — tinham fibrose e perda dos planos; no conjunto das 180 cirurgias, 94% exigiram cervicoplastia profunda. Em pescoço que já tem indicação cirúrgica, vale discutir isso antes.
Referências
- Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Anatomical Consideration for Double Chin Thread Lifting. J Cosmet Dermatol. 2025;24(6):e70238. · PMID 40511636 · DOI 10.1111/jocd.70238
- Hong GW, Yi KH. Subangular Deep Fascia Fixation for Submental U-Shaped Cogged Thread Lifting. JPRAS Open. 2026;50:579-584. · PMID 42326045 · DOI 10.1016/j.jpra.2026.04.028
- Alcalá BE, Bravo BSF. Novel Classifications for Muscular Contraction of the Lower Face and Neck. Dermatol Surg. 2019;45(8):1080-1084. · PMID 30720498 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001813
- Wanitphakdeedecha R, Yan C, Ng JNC, Fundarò S. Absorbable Barbed Threads for Lower Facial Soft-Tissue Repositioning in Asians. Dermatol Ther (Heidelb). 2021;11(4):1395-1408. · PMID 34218425 · DOI 10.1007/s13555-021-00569-x
- O'Daniel TG, Patton S. Neck Lift After Nonsurgical Treatments: Fibrosis, Fat Loss, and Surgical Complexity. Aesthet Surg J. 2026;46(4):372-383. · PMID 40712094 · DOI 10.1093/asj/sjaf149
- Magacho-Vieira FN, Bezerra LJR, Boro D, Santos FA. Revitalizing the lower face: Therapeutic insights and an innovative treatment guideline for jowl rejuvenation. J Cosmet Dermatol. 2024;23(6):1969-1972. · PMID 38450900 · DOI 10.1111/jocd.16263
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