Preenchimento de sobrancelha (supercílio)
O preenchimento de sobrancelha devolve projeção e apoio ao supercílio que esvaziou com a idade, sobretudo no terço lateral: o gel vai no plano preperiosteal, sob a gordura retro-orbicular (ROOF), junto ao rebordo orbital superior, em alíquotas pequenas, devagar e com aspiração antes de depositar. O ganho é de contorno e de sustentação da cauda, não de lifting cirúrgico; a paciente com excesso real de pele e queda acentuada continua sendo candidata a cirurgia. O que decide a segurança é saber, camada por camada, o que existe entre a pele e o osso nessa faixa do rebordo.
O que o preenchimento trata no supercílio
Com o envelhecimento, o supercílio perde volume, o rebordo orbital fica mais aparente e o terço lateral achata e desce. A pele da região é grossa, a anatomia é tridimensional e a gordura tende a atrofiar, deixando a sobrancelha com aspecto esqueletizado — é assim que Mustak e colaboradores (2018, J Clin Aesthet Dermatol) descrevem o desafio de preencher essa área. O preenchedor age em três frentes:
- Projeção anterior do supercílio sobre o rebordo, que devolve sombra à pálpebra superior e tira o ar de olhar cansado.
- Apoio à cauda, que sobe um pouco porque ganha estrutura embaixo, não porque foi puxada.
- Transição suave entre a sobrancelha, a têmpora e o sulco palpebral superior.
Cada ferramenta faz uma coisa diferente na mesma região. A toxina eleva a cauda enfraquecendo o orbicular lateral — está em botox na sobrancelha. O fio espiculado reposiciona por tração — está em fios na sobrancelha. O preenchedor repõe o suporte que sumiu. Na face madura, as três costumam se somar.
As camadas do supercílio
Da superfície ao osso, o injetor atravessa pele, subcutâneo, músculo (orbicular do olho embaixo, frontal em cima, interdigitados), a gordura retro-orbicular e o periósteo do rebordo. A ROOF é a camada que mais importa para o preenchimento, e três estudos de imagem e dissecção ajudam a dimensioná-la:
- Blandford e colaboradores (2019, Ophthalmic Plast Reconstr Surg) dissecaram 14 hemifaces de cadáveres frescos e mostraram que a gordura profunda que nasce na ROOF se estende para cima e para fora, por baixo do frontal, separada por septos dos compartimentos profundos central, lateral e temporal. Essa lâmina contínua teve, em média, 3,09 cm de altura e 5,37 cm de extensão horizontal; os autores propõem chamá-la de gordura retro-orbicular e retrofrontal.
- Na ressonância de alta resolução de 30 adultos feita por Manta e colaboradores (2025, Ophthalmic Plast Reconstr Surg), a ROOF mediu em média 4,5 a 4,7 mm de espessura na altura do rebordo — 63% a 66% da espessura somada de subcutâneo, orbicular e ROOF à frente do septo — e 1,7 a 1,8 mm cinco milímetros acima dele. Em caucasianos, ela se concentrou em torno do rebordo; em 12 de 13 deles não havia ROOF mensurável cinco milímetros abaixo do rebordo, enquanto nos asiáticos do leste ela continuava para a pálpebra superior.
- Ahn e colaboradores (2021, Facial Plast Surg Aesthet Med), com ultrassom em 109 voluntários, histologia e dissecção, mostraram que a ROOF continua, sem interrupção, na gordura sub-SMAS da têmpora, passando pela linha temporal superior. Como a gordura sub-SMAS é considerada pouco vascularizada, os autores propõem alcançá-la com cânula a partir de uma injeção na ROOF.
Há ainda o nervo. Na dissecção de 29 hemifaces de Singh e colaboradores (2011, Aesthet Surg J), o ramo temporal do nervo facial correu na face profunda da fáscia temporal superficial e, na região supraorbital, ficou diretamente superficial à ROOF. Para quem preenche, a leitura é anatômica: o plano preperiosteal, abaixo da ROOF, fica do lado de baixo desse ramo. O trajeto completo dos ramos está em nervo facial: ramos e zonas de perigo.

Os vasos do rebordo superior
As artérias supratroclear e supraorbital emergem no rebordo orbital superior e sobem pela testa; onde saem, em que faixas correm e em que altura trocam de plano está detalhado em artérias supratroclear e supraorbital. Para o supercílio, interessa um dado a mais: perto do rebordo existe também uma camada profunda de vasos, não só a superficial.
Na angiotomografia de 51 cabeças de cadáver de Liao e colaboradores (2021, J Am Acad Dermatol), os vasos orbitais superiores se organizaram em duas camadas, profunda e superficial. Em 59,3% das 86 hemifaces analisadas havia vasos orbitais superiores profundos perto do rebordo — arcadas profundas em 44,2% e artérias profundas em 15,1%, nascidas da oftálmica. Arcadas superficiais apareceram em 97,7%, com quatro origens possíveis: oftálmica, palpebral medial superior, angular e anastomose entre angular e oftálmica. Os autores registram que a profundidade estimada pela tomografia ainda precisa ser confirmada em dissecção. A consequência prática é direta: o plano preperiosteal da sobrancelha é o plano de escolha, mas a região tem vasos profundos perto do rebordo, e a ligação com a oftálmica é o caminho pelo qual um erro nessa região chega ao olho — o mecanismo está em glabela e risco de cegueira.

Seleção da paciente
A avaliação começa com a paciente sentada, em repouso e com a testa relaxada. Olhar de frente e de perfil, palpar o rebordo e pedir que ela feche os olhos devagar mostra o que é falta de volume e o que é queda.
- Boa indicação: supercílio esvaziado, rebordo aparente, terço lateral achatado ou com descida leve da cauda, pálpebra superior com sulco escavado na porção lateral.
- Indicação fraca: queda acentuada com excesso de pele sobre a pálpebra. O preenchedor dá apoio; não remove pele. Volume demais para compensar queda acaba pesando a sobrancelha.
- Frontal compensando: a paciente que mantém a sobrancelha no lugar contraindo a testa precisa ser vista com o frontal relaxado. É o mesmo raciocínio que evita a queda da sobrancelha após botox.
- Supercílio já cheio: sobrancelha volumosa, pele espessa e edema palpebral de repetição pedem cautela, porque o excesso aparece como peso.
Fotografia padronizada de frente, oblíqua e perfil, com a mesma luz, antes de começar. É ela que mostra, no retorno, quanto a cauda subiu.
Técnica passo a passo
- Marcação. Com a paciente sentada, marque o rebordo orbital superior pela palpação e a área de déficit, em geral o terço lateral. Marque também as saídas da supratroclear e da supraorbital como referência do que fica medial à área de trabalho.
- Plano. O alvo é o preperiosteal, sob a ROOF, sobre o rebordo. No estudo histológico de Griepentrog e Lucarelli (2013, Ophthalmic Plast Reconstr Surg), o gel injetado nesse plano em cinco hemifaces de cadáver fresco ficou no plano pretendido em todas elas, e os septos densos da ROOF pareceram impedir o deslocamento do produto para a frente. Os autores contrastam essa consistência com a variabilidade do gel injetado na olheira.
- Instrumento. Agulha com depósito sobre o osso ou cânula de ponta romba entrando lateralmente e correndo ao longo do rebordo; a escolha de calibre e comprimento está em como escolher a cânula. A mão de apoio protege o rebordo e a pálpebra.
- Aspiração. No consultório do Dr. Thiago Perfeito, todo preenchedor é aplicado com aspiração antes de depositar — e por mais tempo quando a agulha é de 29 a 30G. É uma camada de proteção entre várias, não garantia; os limites dela estão em aspiração antes de injetar.
- Depósito. Retroinjeção linear lenta ao longo do rebordo ou microbolus sobre o osso, com pressão baixa, conferindo o contorno entre uma passada e outra. As técnicas estão em bolus, retroinjeção, leque e linear.
- Volume. No supercílio, o volume se decide pela clínica: alíquota pequena até o efeito aparecer, reavaliação com a paciente sentada e retoque em outra sessão, se faltar.
- Produto. A escolha segue a função: projeção sobre o osso pede gel de sustentação; transição para a pálpebra pede gel mais maleável. A lógica de G' e coesividade está em reologia do ácido hialurônico.

O que as séries clínicas mostram
Mustak e colaboradores (2018) acompanharam 20 casos de preenchimento de sobrancelha com ácido hialurônico ao longo de cinco anos, com fotografia padronizada. O gel foi bem tolerado; não houve descoloração azul-acinzentada nem edema prolongado, os dois problemas que os autores associam à pálpebra inferior. A sobrancelha ganhou volume logo após a aplicação. Em três casos apareceu, no seguimento longo, um volume excessivo da sobrancelha, que os autores supõem ser gel acumulado pesando o supercílio. Na impressão deles, o preenchedor dura mais nessa região por causa da anatomia própria.
Scarano e colaboradores (2022, Aesthetic Plast Surg) trataram 15 pacientes com ácido hialurônico enriquecido com glicina e prolina e mediram a posição da sobrancelha a partir do ponto médio entre as pupilas, relatando o arco como um ângulo. O ângulo passou de 9,32° antes para 11,21° logo após o tratamento; no seguimento de seis meses descrito pelos autores, caiu para 10,66°, ainda diferente do início, e depois para 10,02°, este já sem diferença significativa em relação ao valor inicial. Não houve inflamação nem edema relatados. É uma série de 15 pacientes, com nível de evidência IV declarado pelos autores: o ganho maior foi o imediato, e a medida recuou ao longo do seguimento.
Fora do ácido hialurônico, Van Loghem (2018, J Cosmet Dermatol) revisou 70 pacientes tratados com hidroxiapatita de cálcio no terço superior; 13 tratamentos foram na sobrancelha, a maioria com cânula e depósito em mais de um nível, sem complicação grave registrada na série. O próprio autor trata o ácido hialurônico como o padrão para o terço superior. A hidroxiapatita não é reversível com hialuronidase — no supercílio, isso pesa na escolha.
Complicações e prevenção
- Sobrancelha pesada ou volumosa. É a complicação que a série de Mustak registrou no seguimento longo. Prevenção: volume pequeno por sessão, retoque espaçado e reavaliação antes de cada nova aplicação. Correção: hialuronidase em dose baixa, conforme dose de hialuronidase por cenário.
- Efeito Tyndall e irregularidade. Vêm de gel superficial demais. O plano sob a ROOF protege; a conduta está em efeito Tyndall.
- Edema palpebral. Produto que migra para a pálpebra ou volume excessivo junto ao rebordo. Ver edema tardio intermitente.
- Oclusão vascular. Rara, mas com acesso à circulação da oftálmica. Dor desproporcional, branqueamento ou livedo param a injeção na hora — os sinais estão em sinais de alerta de oclusão e o protocolo, em oclusão vascular por ácido hialurônico.
Modelo · Cinco regras do supercílio
- Apoio, não tração. O preenchedor dá estrutura; quem puxa é fio ou cirurgia.
- Terço lateral primeiro. É onde o achatamento aparece e onde as saídas das artérias ficam mediais.
- Sob a ROOF, sobre o osso. O plano em que o gel fica parado e longe da superfície.
- Pouco, devagar, aspirando. Alíquota pequena, pressão baixa, reavaliação sentada.
- Pensar na unidade. Sobrancelha, têmpora e pálpebra superior se leem juntas; a têmpora tem página própria em preenchimento de têmporas.
Onde a sobrancelha entra na formação
Ler a ROOF numa ressonância é diferente de sentir, com o dedo sobre o rebordo, onde ela começa na paciente da cadeira. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o supercílio está entre as unidades estéticas do módulo de Toxina e Preenchimento, que também concentra o bloco de segurança vascular — mapa arterial, oclusão e hialuronidase. A têmpora e o mapa de zonas de perigo por região ficam no módulo de Face Avançada. Cada módulo é um sábado presencial na INTI, em Brasília, depois de pré-work gravado obrigatório: o docente faz a demonstração comentada na parte teórica, e na parte prática o aluno executa sob supervisão em paciente modelo, em turma de até 8 médicos. A grade completa está em /cursos/.
Perguntas frequentes
Em qual plano se aplica o preenchimento de sobrancelha?
No plano preperiosteal, sob a gordura retro-orbicular (ROOF), sobre o rebordo orbital superior. No estudo histológico de Griepentrog e Lucarelli (2013), o gel injetado nesse plano ficou no lugar pretendido nas cinco hemifaces examinadas, contido pelos septos densos da ROOF.
O preenchimento levanta a sobrancelha?
Dá apoio e projeção, o que eleva um pouco a cauda, mas não substitui fio nem cirurgia. Na série de Scarano e colaboradores (2022), com 15 pacientes, o ângulo da sobrancelha subiu de 9,32° para 11,21° logo após a aplicação e, ao fim do seguimento de seis meses, estava em 10,02°, já sem diferença significativa em relação ao início.
Quanto ácido hialurônico se usa na sobrancelha?
No supercílio, o volume se decide pela clínica: alíquota pequena até o efeito aparecer, reavaliação com a paciente sentada e retoque em outra sessão, se necessário — volume demais aparece como sobrancelha pesada.
Quais são os riscos do preenchimento de sobrancelha?
Sobrancelha volumosa ou pesada por acúmulo de gel (registrada em três de 20 casos na série de cinco anos de Mustak e colaboradores), efeito Tyndall com gel superficial, edema palpebral e, mais raramente, oclusão vascular, que nessa região tem ligação com a circulação da artéria oftálmica.
Existem vasos profundos perto do rebordo da sobrancelha?
Sim. Na angiotomografia de Liao e colaboradores (2021), 59,3% das hemifaces tinham vasos orbitais superiores profundos perto do rebordo — profundidade que os autores pedem para confirmar em dissecção. Por isso a técnica segue de volume pequeno, pressão baixa e aspiração antes de depositar.
Agulha ou cânula na sobrancelha?
As duas são usadas. A agulha deposita sobre o osso; a cânula de ponta romba entra lateralmente e corre ao longo do rebordo. Ahn e colaboradores (2021) mostraram que a ROOF continua na gordura sub-SMAS da têmpora e propõem alcançar com cânula, a partir da ROOF, a gordura sub-SMAS da têmpora, considerada pouco vascularizada.
Toxina, fio ou preenchedor na sobrancelha caída?
Depende do que falta. A toxina eleva a cauda enfraquecendo o orbicular lateral, o fio reposiciona por tração e o preenchedor repõe suporte e projeção. Na face madura, é comum combinar; queda acentuada com excesso de pele é indicação cirúrgica.
Referências
- Griepentrog GJ, Lucarelli MJ. Anatomical position of hyaluronic acid gel following injection to the eyebrow. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2013;29(5):364-366. · PMID 23880972 · DOI 10.1097/IOP.0b013e31829a72bd
- Mustak H, Fiaschetti D, Gupta A, Goldberg R. Eyebrow Contouring with Hyaluronic Acid Gel Filler Injections. J Clin Aesthet Dermatol. 2018;11(2):38-40. · PMID 29552274
- Scarano A, Rapone B, Amuso D, Inchingolo F, Lorusso F. Hyaluronic Acid Fillers Enriched with Glycine and Proline in Eyebrow Augmentation Procedure. Aesthetic Plast Surg. 2022;46(1):419-428. · PMID 34231022 · DOI 10.1007/s00266-021-02412-2
- Blandford AD, Bachour SP, Chen R, Xu LT, Hwang CJ, Perry JD. Dimensions and Morphologic Variability of the Retro-Orbicularis Oculi and Frontalis Muscle Fat Pad. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2019;35(5):447-450. · PMID 30844916 · DOI 10.1097/IOP.0000000000001314
- Manta AI, Demer JL, Goldberg RA. Magnetic Resonance Imaging Demonstrates Differences in Brow and Upper Eyelid Fat and Muscle Layers Between East Asians and Caucasians. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2025;41(5):535-538. · PMID 40919988 · DOI 10.1097/IOP.0000000000002904
- Ahn HS, Kim JS, Lee HJ, Lee JH, Kim HM, Kim HJ. Anatomical Continuation Between the Sub-Superficial Musculoaponeurotic System Fat and Retro-Orbicularis Oculi Fat: The True Nature of the Retro-Orbicularis Oculi Fat. Facial Plast Surg Aesthet Med. 2021;23(5):362-367. · PMID 33074722 · DOI 10.1089/fpsam.2020.0398
- Singh DP, Forte AJ, Apostolides JG, et al. The sentinel fat pads: the relationship of the ROOF and SOOF to the temporal nerve in facial rejuvenation. Aesthet Surg J. 2011;31(1):11-20. · PMID 21239668 · DOI 10.1177/1090820X10391395
- Liao ZF, Hong WJ, Cong LY, et al. A case series: 3-dimensional computed tomographic study of the superior orbital vessels: Superior orbital arcades and their relationships with the supratrochlear artery and supraorbital artery. J Am Acad Dermatol. 2021;84(5):1364-1370. · PMID 32592875 · DOI 10.1016/j.jaad.2020.06.082
- Van Loghem JAJ. Use of calcium hydroxylapatite in the upper third of the face: Retrospective analysis of techniques, dilutions and adverse events. J Cosmet Dermatol. 2018;17(6):1025-1030. · PMID 30362225 · DOI 10.1111/jocd.12733
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