Botox ou Dysport: qual é melhor para cada área?
Nenhum dos dois é superior ao outro. Botox e Dysport são a mesma toxina botulínica tipo A em formulações diferentes: as unidades não são intercambiáveis — a conversão gira em torno de 1 para 2,5–2,8 e varia por região da face — e o que determina difusão, início e duração do resultado é a dose calculada e a técnica, não a marca impressa no frasco.
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A diferença molecular entre Botox e Dysport
Botox (onabotulinumtoxinA, da Allergan) e Dysport (abobotulinumtoxinA, da Galderma) são formulações distintas da mesma molécula ativa — a toxina botulínica tipo A, de 150 kDa. O que difere entre os frascos são as proteínas que acompanham a toxina no complexo e os excipientes: o Botox é apresentado como um complexo de cerca de 900 kDa; o Dysport, como um complexo de peso molecular menor, com albumina humana e lactose.
A diferença com consequência clínica mais bem documentada não é o espalhamento — é a potência por unidade. Em comparação in vivo dos três principais produtos, a onabotulinumtoxinA mostrou-se cerca de duas vezes mais potente por unidade que a abobotulinumtoxinA3. É por isso que 10 unidades de um não significam a mesma coisa que 10 unidades do outro, e é daí que nasce quase toda a confusão do paciente que compara orçamentos por número de unidades.
Sobre a conversão entre os dois, é preciso ser honesto quanto ao que se sabe e ao que não se sabe. A revisão que comparou nove consensos clínicos dos Estados Unidos, da Rússia e da Europa encontrou a maioria das diretrizes trabalhando em torno de 1 unidade de Botox para 2,5 de Dysport, com média de 1:2,8 nos documentos norte-americanos — e registrou que a razão sobe e desce conforme a zona da face, sem uniformidade internacional4. Uma modelagem de dose-resposta publicada em 2026 foi além e mostrou que a razão nem sequer é estável no tempo: para a abobotulinumtoxinA ela se desloca de cerca de 2,0 a 2,7 ao longo do intervalo entre aplicações5. Ou seja: essa faixa é referência de literatura, não regra de dose — a dose de cada paciente é calculada na avaliação presencial, não por conta de conversão lida na internet.
Já a fama de que o Dysport "espalha mais" merece um parágrafo próprio, porque é o ponto onde convenção de mercado virou dado técnico repetido sem lastro. Um ensaio randomizado duplo-cego testou exatamente isso: aplicou a mesma dose rotulada dos dois produtos, em volumes iguais, em lados opostos da fronte da mesma paciente, e mediu os campos de efeito anidrótico e muscular. O campo de efeito foi significativamente maior para o Botox — o oposto do que se costuma afirmar — e os autores concluíram que a difusão é dependente da dose, não do produto: difunde mais a dose mais potente1.
Na minha leitura de consultório, esse achado é libertador, não confuso. Ele desloca a variável de controle do rótulo para a mão de quem aplica: quem define o raio de ação é a dose por ponto, a diluição, o volume injetado e o mapeamento do músculo. O produto entra na conta, mas entra depois — e bem depois — dessas quatro decisões. Quando um paciente chega dizendo que "prefere Dysport porque distribui melhor na testa", o que ele está descrevendo, quase sempre, é a experiência de ter recebido uma dose melhor calculada naquela vez.
Qual escolher para cada área — o critério que realmente decide
Tabelas que distribuem marcas por região do rosto circulam muito, mas partem de uma premissa que o ensaio de campo de efeito não sustenta. Como a difusão acompanha a dose e não o rótulo1, o que muda o resultado por área não é qual frasco foi aberto: é o que se decide sobre aquele músculo. A tabela abaixo é organizada por indicação, e a coluna que importa é a do critério — não a da marca.
| Área tratada | O que de fato decide o resultado | Risco a controlar |
|---|---|---|
| Fronte (linhas horizontais) | Número de pontos e distribuição ao longo do ventre do frontal; dose reduzida na porção inferior. | Queda de sobrancelha em quem já usa o frontal para abrir o olhar. Avaliar antes, não depois. |
| Glabela (linhas verticais entre sobrancelhas) | Dose por ponto no corrugador e no prócero; é a região com mais evidência de eficácia para os dois produtos. | Ptose palpebral por difusão para o levantador da pálpebra — função de volume e profundidade da injeção. |
| Canto dos olhos (pés de galinha) | Injeção superficial, volume pequeno por ponto, distância adequada da borda orbitária. | Alcance do zigomático maior, que altera o sorriso. Controlado por volume e ponto, não por marca. |
| Masséter (hipertrofia / bruxismo) | Dose total alta e distribuída em profundidade, com sessões seriadas para afinar o contorno. | Perda de força mastigatória e assimetria por dose desigual entre os lados. |
| Platisma / bandas cervicais | Mapeamento das bandas com o músculo em contração e dose fracionada ao longo de cada banda. | Dose cervical elevada em músculo longo — área que pede parcimônia e reavaliação. |
| Aplicação antes de um evento | Antecedência: o início de efeito é semelhante entre os dois (cerca de 5 dias) e o pico vem por volta do 14º dia2. | Marcar em cima da data esperando que uma marca "aja mais rápido". Não age. |
Contraindicações valem igualmente para os dois: gestação, lactação, doenças neuromusculares (miastenia gravis, síndrome de Lambert-Eaton) e hipersensibilidade conhecida a qualquer componente da formulação. O paciente com histórico consistente de resposta reduzida a um produto específico é a situação em que a troca de marca tem justificativa clínica objetiva — e mesmo aí a decisão vem depois de rever dose e mapeamento, não antes.
O Dr. Thiago Perfeito não mantém relação comercial, patrocínio, contrato de consultoria ou vínculo de qualquer natureza com os fabricantes citados nesta página. Os dois produtos são utilizados na prática clínica e a comparação aqui apresentada se baseia exclusivamente na literatura referenciada ao final.
Duração, resistência e mito dos anticorpos
A duração média é similar entre os dois produtos — 4 a 6 meses no rosto para a maioria dos pacientes — com variação dependendo de dose, músculo tratado, metabolismo e força contráctil individual. Não há evidência robusta de que um dure consistentemente mais que o outro quando usados em doses biologicamente equivalentes: em comparação in vivo, doses equipotentes de onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA produzem não só a mesma intensidade de efeito, mas a mesma duração3. O ensaio randomizado que acompanhou pacientes por 180 dias depois de uma única aplicação na glabela chegou ao mesmo lugar: entre Botox e Dysport, o tempo até o início do efeito não previu quanto tempo o efeito duraria2. Ou seja: o que define quanto tempo o resultado dura é a dose certa para a sua musculatura, não a marca impressa no frasco.
O tema dos anticorpos neutralizantes merece clareza, porque é onde mais se inventa explicação. Pacientes que relatam "perda de efeito com o tempo" raramente desenvolvem anticorpos — esse fenômeno existe, mas é incomum, especialmente com as formulações modernas de alta pureza. A causa mais frequente de efeito curto é, de longe, dose subdimensionada. Médico que aplica dose conservadora "pra parecer natural" produz resultado que dura menos — não porque o paciente ficou resistente, mas porque a dose foi insuficiente desde o início.
Por isso, quando alguém chega ao consultório dizendo que "o Botox parou de funcionar" e que quer trocar de marca, eu raramente troco a marca de cara. Na maior parte das vezes o problema não está no produto — está na dose e no mapeamento dos músculos. Trocar de Botox para Dysport (ou o contrário) não resolve nada se a dose continuar baixa: o resultado vai durar pouco do mesmo jeito, só com outro rótulo. Antes de mudar de produto, eu revejo a dose e os pontos. A troca de marca, isoladamente, quase nunca é a resposta certa.
A troca de produto (Botox para Dysport ou vice-versa) é clinicamente justificável quando há suspeita real de resposta reduzida a um deles ou quando o objetivo é reajustar o padrão de dose de uma área. Trocar produto como estratégia de marketing ou por demanda do paciente sem justificativa clínica não é prática baseada em evidência.
A literatura comparativa entre onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA aponta toda na mesma direção: as unidades não são intercambiáveis e a relação de conversão varia conforme a área do rosto4, mas, ajustada essa equivalência, nenhum dos dois se mostra clinicamente superior para rugas dinâmicas — no ensaio de campo de efeito, inclusive, os escores de gravidade da ruga não diferiram entre os lados tratados com um e com outro1. A modelagem de dose-resposta de 2026 reforça o mesmo ponto por outro caminho: tratar as marcas como se houvesse um fator de conversão fixo é simplificar demais, porque a razão se desloca ao longo do intervalo entre aplicações5. Traduzindo para o que importa ao paciente: a escolha entre Botox e Dysport deve ser guiada pela área tratada e pelo critério do médico — não por hierarquia de marca.
Vale ainda desfazer uma comparação que aparece muito na consulta: a de orçamentos "por unidade". Como uma unidade de Dysport não é equivalente a uma unidade de Botox, comparar dois orçamentos pelo número de unidades é comparar grandezas diferentes — o mesmo tratamento aparece com um número de unidades naturalmente maior quando feito com Dysport. O que interessa avaliar é o plano completo: quais músculos serão tratados, com que objetivo, e qual a previsão de reavaliação. Peça isso por escrito em qualquer clínica, aqui inclusive.
Dr. Thiago Perfeito
CRM-DF 23199 · Medicina Estética e Regenerativa
Médico com mais de 10 anos de prática em medicina estética e regenerativa. Mestre em Medicina Estética (2024). Formação internacional em Harvard Medical School e Mayo Clinic. Membro da ASLMS, A4M, AMS e NYAS. Atendimento em Brasília, Lago Sul.
Conheça o Dr. Thiago →Resultados — Antes e Depois
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.
Perguntas frequentes sobre Toxina botulínica — Botox vs Dysport
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Qual a diferença entre Botox e Dysport?
Botox (Allergan) contém onabotulinumtoxinA, apresentada como complexo de cerca de 900 kDa; Dysport (Galderma) contém abobotulinumtoxinA, um complexo de peso molecular menor, com albumina humana e lactose como excipientes. A toxina ativa é a mesma molécula de 150 kDa nos dois. A diferença que tem consequência clínica comprovada é de potência por unidade: em comparação in vivo, a onabotulinumtoxinA foi cerca de duas vezes mais potente por unidade que a abobotulinumtoxinA3. Por isso as unidades não são intercambiáveis.
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Dysport age mais rápido que o Botox?
Essa é uma convenção de mercado que o único ensaio randomizado duplo-cego a comparar os produtos cabeça a cabeça na glabela não confirmou: o tempo até o início do efeito foi praticamente idêntico — 5,29 dias para onabotulinumtoxinA e 5,32 dias para abobotulinumtoxinA em mulheres, com as doses ajustadas pela equivalência2. Nesse mesmo estudo, o sexo do paciente pesou mais no tempo de início do que a marca usada. Na prática: planeje qualquer aplicação com pelo menos duas semanas de antecedência do evento, porque o pico de efeito ocorre por volta do 14º dia com os dois produtos.
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Botox ou Dysport dura mais tempo?
Nenhum dos dois dura mais que o outro quando aplicados em doses biologicamente equivalentes: em comparação in vivo, doses equipotentes de onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA produziram não só a mesma intensidade de efeito, mas também a mesma duração3. A faixa clínica esperada é de 4 a 6 meses no rosto, com variação por músculo tratado, dose aplicada e metabolismo individual. Quem relata duração curta quase sempre recebeu dose subdimensionada, não desenvolveu resistência.
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É verdade que o Dysport espalha mais que o Botox?
Não como regra de produto. Em ensaio randomizado duplo-cego que aplicou a mesma dose rotulada dos dois produtos, em volumes iguais, em lados opostos da fronte da mesma paciente, o campo de efeito foi significativamente maior para a onabotulinumtoxinA — o contrário do que se costuma afirmar. A conclusão dos autores é que a difusão acompanha a dose e a potência injetada, não a marca1. Quem controla o raio de ação é o médico: dose, diluição, volume por ponto e mapeamento muscular.
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Quantas unidades de Dysport equivalem a uma de Botox?
Não existe fator de conversão fixo, e esta informação não substitui prescrição médica. A maioria dos consensos internacionais trabalha em torno de 1 unidade de onabotulinumtoxinA para 2,5 unidades de abobotulinumtoxinA, com média de 1:2,8 nos consensos norte-americanos — e a própria revisão que compilou esses documentos mostra que a razão varia conforme a zona da face, sem uniformidade internacional4. Modelagem de dose-resposta publicada em 2026 acrescenta que a razão também se desloca ao longo do tempo após a aplicação, variando de cerca de 2,0 a 2,7 para a abobotulinumtoxinA5. Tratar a conversão como número fixo é simplificação — a dose de cada paciente é definida na avaliação presencial.
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Qual dos dois é melhor para cada área do rosto?
Não há marca vencedora por área. As duas toxinas tratam as mesmas indicações — fronte, glabela, pés de galinha, masséter, platisma — e o que muda o resultado é o cálculo de dose para aquele músculo, o número de pontos, o volume por ponto e a leitura da anatomia. A troca de marca tem justificativa clínica objetiva em duas situações: suspeita real de resposta reduzida a um produto específico e necessidade de reajustar o padrão de dose em uma área. Fora disso, trocar de rótulo sem rever a dose costuma reproduzir o mesmo resultado.
Referências bibliográficas
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- Kutschenko A, Manig A, Reinert MC, Mönnich A, Liebetanz D. In-vivo comparison of the neurotoxic potencies of incobotulinumtoxinA, onabotulinumtoxinA, and abobotulinumtoxinA. Neuroscience Letters. 2016;627:216-221. PMID: 27268041 · doi:10.1016/j.neulet.2016.06.001
- Sharova AA. Comparison of different consensuses of BTXA in different countries. Journal of Cosmetic Dermatology. 2016;15(4):540-548. PMID: 27699964 · doi:10.1111/jocd.12287
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