Microfat ou nanofat: qual dos dois o seu caso pede
Microfat e nanofat saem da mesma colheita de gordura autóloga, mas o processamento decide o que cada um faz depois de injetado — um repõe volume, o outro não repõe. Veja a diferença por queixa e quando os dois entram na mesma sessão.
Agendar ConsultaMesma gordura, dois processamentos
Microfat e nanofat vêm da mesma colheita de gordura autóloga por lipoaspiração — a diferença nasce depois, no processamento. Microfat preserva a célula de gordura e é usado para repor volume; nanofat quebra essa célula por emulsificação e é usado para tratar a qualidade da pele, sem repor volume.
A gordura colhida do próprio paciente pode virar produtos bem diferentes conforme o processamento aplicado depois da colheita. Uma revisão da abordagem do próprio grupo, publicada em Aesthetic Surgery Journal por Cohen et al. (2017), classifica os enxertos de gordura em três categorias por tamanho de parcela e grau de emulsificação: millifat, microfat e nanofat — este último definido na faixa de 400 a 600 micrômetros de parcela. Cada categoria tem uma classificação própria de "injetabilidade" e de conteúdo de células da fração estromal vascular (SVF), a fração de células regenerativas presente no tecido adiposo.
O trabalho que descreveu tecnicamente o nanofat, de Tonnard et al. (2013) em Plastic and Reconstructive Surgery, detalha o processo: o lipoaspirado é primeiro colhido como microfat, com uma cânula de múltiplos orifícios pequenos, e depois submetido a emulsificação e filtragem para virar nanofat — o que permite injetá-lo com agulhas bem mais finas, de até 27G segundo os autores. É essa etapa extra de emulsificação, ausente no microfat, que separa os dois produtos. Os mesmos autores relatam a aplicação do nanofat em 67 casos, para corrigir rugas superficiais, cicatrizes e pálpebra inferior escurecida, além de um estudo laboratorial complementar, feito com três amostras de gordura obtidas ou processadas de formas diferentes.
Menkes et al. (2020), em Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, descrevem uma sequência semelhante numa série de 50 pacientes: gordura aspirada da coxa medial, face interna do joelho ou abdome inferior, lavada para virar microfat e só então emulsificada em suspensão de nanofat, à qual os autores acrescentaram 20% de plasma rico em plaquetas (PRP) antes de injetar com cânula 25G no plano subcutâneo da face. O calibre e a técnica de injeção descritos nesses dois trabalhos pertencem aos estudos citados — não descrevem, aqui, uma conduta específica de consultório.
No consultório, a enxertia de gordura própria é feita pelo Lipocube, sistema que permite preparar a gordura como microfat ou nanofat conforme o objetivo ; o sistema é apresentado na página dedicada a ele.
Microfat: volume com célula viva
Microfat é a gordura preparada sem passar pela etapa de emulsificação que caracteriza o nanofat — por isso preserva a estrutura da célula de gordura, e é essa integridade que sustenta seu uso para repor volume em sulcos e depressões.
Na descrição de Menkes et al. (2020), o microfat é obtido logo após a aspiração e a lavagem com solução salina, antes de qualquer etapa de emulsificação. Na classificação da revisão de Cohen et al. (2017), millifat e microfat são as categorias de parcela maior que a do nanofat; usar o microfat para repor volume é a leitura desta página a partir dessa diferença de parcela. A mesma revisão lista a enxertia em compartimento de gordura profundo e a enxertia de gordura superficial entre os componentes que vêm ganhando importância no rejuvenescimento facial contemporâneo.
Essa é a diferença prática em relação ao nanofat: como o microfat não passa pela emulsificação, ele chega à área receptora como tecido adiposo estruturalmente intacto, com potencial de se comportar como um enxerto de gordura convencional — a lógica de reposição de volume tratada na página sobre enxertia de gordura no rosto deste site, que aborda a lipoenxertia para repor volume na face. Esta página não repete o detalhamento de planos e técnica de aplicação daquela — o que importa aqui é a categoria de processamento, não o protocolo de um procedimento específico.
Essa lógica de repor volume por compartimento tem base anatômica num estudo de dissecção facial em cadáver, que descreve a gordura subcutânea da face organizada em compartimentos independentes — um ponto retomado adiante, quando o assunto é o que nenhum dos dois processamentos resolve sozinho.
Nanofat: sem volume, e é essa a proposta
Nanofat é a mesma gordura emulsificada e filtrada até restar pouca ou nenhuma célula de gordura intacta — por isso não repõe volume. O que ele mantém é uma população rica de células-tronco derivadas do tecido adiposo, a que a discussão de Menkes et al. (2020) atribui papel importante no rejuvenescimento da pele.
No estudo laboratorial de Tonnard et al. (2013), três amostras de gordura foram analisadas lado a lado — lipoaspirado clássico, microfat e o mesmo microfat processado em nanofat —, e o achado central foi que nenhum adipócito viável foi observado na amostra de nanofat, enquanto as células-tronco derivadas do tecido adiposo seguiam ricamente presentes, com capacidade de proliferação equivalente à das outras duas amostras. Sem célula de gordura íntegra para ocupar espaço, a leitura que esta página faz desse achado é que o nanofat não tem como funcionar como preenchedor. A conclusão publicada no resumo do artigo é que, em situações clínicas, o nanofat "parece adequado" para rejuvenescimento de pele.
A série de casos de Menkes et al. (2020), com 50 pacientes tratados com nanofat acrescido de 20% de PRP, traz dados clínicos sobre qualidade de pele: todos os pacientes relataram melhora, com resultado aparente entre 2 e 4 semanas e melhora observada continuamente até o 6º mês; biópsias de pele do antebraço, feitas após injeção de nanofat sem PRP, mostraram aumento de celularidade dérmica, densidade vascular e densidade de fibras elásticas e colágenas. Pela análise das fotografias antes e depois, os autores relatam também um efeito lifting da face e escrevem, na discussão, em frase acompanhada de remissão a Tonnard et al. (2013), que a técnica melhorou a aparência facial "sem mudança de volume". São achados de uma série de casos sem grupo controle; os próprios autores pedem estudos adicionais, inclusive com grupo controle, e registram que a duração do efeito ainda não está clara.
A explicação completa do que é o nanofat, de onde vem esse vocabulário e o que ele não faz está detalhada na página Nanofat: o que é e por que ele não preenche — aqui o recorte é outro: decidir entre os dois processamentos para o seu caso.
Tabela: qual escolher por queixa
A tabela reúne o que a queixa costuma pedir, sem substituir a avaliação clínica — a combinação de camadas e a indicação final dependem do exame presencial.
| Queixa | Processamento indicado | Por quê |
|---|---|---|
| Sulco ou depressão por perda de volume (ex.: sulco nasolabial, têmpora vazia) | Microfat | Preserva a célula de gordura íntegra, com potencial de repor o volume perdido no compartimento |
| Rugas superficiais | Nanofat | Estão entre as três queixas da série de 67 casos em que Tonnard et al. (2013) aplicaram nanofat |
| Cicatriz, quando a queixa é a qualidade da pele e não uma depressão | Nanofat | Cicatrizes estão entre as queixas para as quais Tonnard et al. (2013) aplicaram nanofat; separar a cicatriz de textura da cicatriz deprimida é leitura desta página |
| Olheira escurecida sem sulco (coloração ou pele fina) | Nanofat | Tonnard et al. (2013) incluíram a pálpebra inferior escurecida entre as queixas tratadas com nanofat; sem sulco, a leitura desta página é que a queixa é de qualidade de pele, e não de volume ausente |
| Olheira por sulco ou perda de volume na transição pálpebra-bochecha | Microfat | Aqui falta volume no compartimento, não qualidade de pele — o nanofat não tem célula de gordura viável para repor esse espaço; a indicação e a técnica nessa região exigem avaliação cuidadosa |
| Sulco raso associado a pele com textura comprometida na mesma área | Os dois, em planos diferentes | Uma necessidade estrutural e uma de qualidade de pele coexistindo na mesma região |
Quando os dois entram na mesma sessão
Quando a avaliação encontra as duas necessidades na mesma área — falta de volume num plano e comprometimento de qualidade de pele no plano mais superficial —, os dois processamentos podem ser usados na mesma sessão, cada um na camada correspondente.
Na revisão de Cohen et al. (2017), a enxertia em compartimento de gordura profundo, a enxertia de gordura superficial, o nanofat e a SVF são listados como componentes que vêm ganhando importância no rejuvenescimento facial contemporâneo. Combinar microfat e nanofat na mesma sessão, cada um numa camada, é raciocínio desta página e decisão da avaliação. A mesma revisão apresenta os enxertos compostos, o "biofilling" e o "biocontouring" como conceitos novos.
Isso não significa que toda sessão combine os dois. A revisão de Cohen et al. (2017) também registra que os efeitos regenerativos observados com o uso da SVF em cirurgia estética parecem modestos, embora pareça haver achados histológicos definidos de regeneração — melhoras que podem não ser clinicamente aparentes para o paciente quando enxertos enriquecidos com células são comparados a enxertos de gordura sozinhos. Esse achado se refere a essa comparação específica; esta página o usa como lembrete de que acrescentar um componente regenerativo nem sempre produz diferença perceptível para o paciente. A decisão de combinar ou não os dois processamentos, e em que proporção, é da avaliação — não uma regra fixa aplicável a qualquer caso.
O que nenhum dos dois resolve
Nem microfat nem nanofat resolvem flacidez com excesso de pele — excesso de pele costuma ser indicação cirúrgica, e flacidez leve, sem excesso de pele, pode ser avaliada para tecnologias de estímulo de colágeno.
A gordura, seja microfat ou nanofat, atua sobre volume ausente ou qualidade de pele — nenhuma das duas formas remove o excesso de pele que já perdeu a elasticidade para se retrair sozinha. Rohrich e Pessa (2007), em dissecções de 30 hemifaces em cadáver publicadas em Plastic and Reconstructive Surgery, descreveram que a gordura subcutânea da face é organizada em compartimentos anatômicos independentes, e que o envelhecimento facial é, em parte, caracterizado por como esses compartimentos mudam ao longo do tempo. Trata-se de um estudo de dissecção em cadáver; esta página usa esse achado anatômico como base para pensar a reposição de volume por compartimento, e não apenas pelo volume total.
Quando a queixa central é pele solta e sem tônus, a avaliação pode direcionar para outras abordagens do próprio site, como tecnologias de estímulo de colágeno ou procedimentos cirúrgicos — o que está fora do escopo desta página, que trata da escolha entre dois processamentos de gordura autóloga.
Também vale a ressalva inversa: nem toda queixa de volume vira indicação de microfat, e nem toda queixa de textura vira indicação de nanofat automaticamente. A avaliação presencial examina o compartimento envolvido, o histórico do paciente e a extensão da perda antes de indicar um processamento, o outro, ou os dois combinados.
Perguntas frequentes sobre microfat e nanofat
Microfat e nanofat são a mesma coisa?
Não. As duas vêm da mesma gordura colhida por lipoaspiração, mas o processamento depois da colheita é diferente. Microfat não passa pela emulsificação e mantém a célula de gordura íntegra. Nanofat passa por uma etapa extra de emulsificação e filtragem, que rompe essa célula. É esse processamento a mais que muda o que cada um faz depois de injetado.
Nanofat preenche olheira?
Depende do tipo de olheira. Tonnard et al. (2013) incluíram a pálpebra inferior escurecida entre as queixas tratadas com nanofat; quando a olheira escurecida não tem sulco e vem de coloração ou pele fina, a leitura desta página é que a queixa é de qualidade de pele. Se a olheira vem de um sulco ou de perda de volume na transição entre pálpebra e bochecha, o que falta é volume — e nanofat não tem célula de gordura viável para repor esse espaço.
Microfat serve para tratar textura de pele?
Nesta página, o microfat aparece como a opção para repor volume, porque não passa pela emulsificação e mantém a célula de gordura. Tonnard et al. (2013) aplicaram nanofat em rugas superficiais, cicatrizes e pálpebra inferior escurecida, e a série de Menkes et al. (2020), com nanofat acrescido de PRP, relata melhora de qualidade de pele. A escolha para uma queixa de textura é feita na avaliação.
Dá para usar os dois na mesma sessão?
Sim, quando a avaliação encontra as duas necessidades na mesma área, cada processamento na camada correspondente. Cohen et al. (2017) listam a enxertia em compartimento de gordura profundo, a enxertia de gordura superficial e o nanofat entre os componentes que vêm ganhando importância no rejuvenescimento facial contemporâneo. Combinar os dois na mesma sessão, cada um numa camada, é raciocínio desta página. A decisão de combinar, e em que proporção, depende do exame presencial.
Microfat e nanofat resolvem flacidez com excesso de pele?
Não. Os dois atuam sobre volume ausente ou qualidade de pele, mas nenhum remove pele em excesso que perdeu a capacidade de se retrair. Excesso de pele costuma ser indicação cirúrgica; flacidez leve, sem excesso de pele, pode ser avaliada para tecnologias de estímulo de colágeno — temas fora do escopo desta página.
Como é feita a colheita da gordura para os dois processamentos?
Nos dois casos, a gordura é retirada de uma área doadora do próprio paciente por lipoaspiração. A diferença acontece depois da colheita, no processamento: o microfat não passa pela emulsificação, e o nanofat resulta de uma etapa adicional de emulsificação e filtragem desse material.
Em quanto tempo aparece resultado com nanofat?
Na série de casos de Menkes et al. (2020), com 50 pacientes tratados com nanofat acrescido de 20% de PRP, o resultado ficou aparente entre 2 e 4 semanas após a injeção, com melhora observada continuamente até o 6º mês; os autores registram que a duração do efeito ainda não está clara. É o dado de uma série de casos sem grupo controle, não uma garantia individual de resultado.
A colheita da gordura precisa de anestesia?
Sim. Por envolver lipoaspiração de uma área doadora, o procedimento tem anestesia e uma área doadora com seu próprio período de recuperação — não é um procedimento sem anestesia e sem tempo de recuperação. A conduta anestésica específica é definida na avaliação.
Referências bibliográficas
- Tonnard P, Verpaele A, Peeters G et al. Nanofat grafting: basic research and clinical applications. Plast Reconstr Surg. 2013;132(4):1017-1026. PMID: 23783059 · doi:10.1097/PRS.0b013e31829fe1b0
- Cohen SR, Hewett S, Ross L et al. Regenerative Cells For Facial Surgery: Biofilling and Biocontouring. Aesthet Surg J. 2017;37(suppl_3):S16-S32. PMID: 29025218 · doi:10.1093/asj/sjx078
- Menkes S, Luca M, Soldati G et al. Subcutaneous Injections of Nanofat Adipose-derived Stem Cell Grafting in Facial Rejuvenation. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2020;8(1):e2550. PMID: 32095390 · doi:10.1097/GOX.0000000000002550
- Rohrich RJ, Pessa JE. The fat compartments of the face: anatomy and clinical implications for cosmetic surgery. Plast Reconstr Surg. 2007;119(7):2219-2227. PMID: 17519724 · doi:10.1097/01.prs.0000265403.66886.54
Conteúdo revisado por Dr. Thiago Perfeito — Medicina Estética e Regenerativa, CRM-DF 23199. Atualizado em .
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A avaliação identifica se a queixa é de volume, de qualidade de pele, ou as duas juntas, e direciona o processamento e o plano adequados ao seu caso.