Botox full face: como planejar os três terços
Toxina botulínica

Botox full face: como planejar terço superior, médio e inferior

Glabela, testa, pés de galinha, nariz, sorriso, canto da boca, queixo, masseter e pescoço: cada região tem sua técnica. O que transforma essas técnicas num tratamento full face é o plano — que músculo entra, em que ordem, com que dose total e em quantas sessões.

Planejar toxina full face é decidir, antes do primeiro ponto, quais músculos de cada terço entram, em que ordem de prioridade, com que dose total e em quantas sessões — sempre olhando o par elevador–depressor de cada região, porque enfraquecer um lado do par muda o que o outro faz. A técnica de cada região já tem página própria nesta Biblioteca; aqui o assunto é o plano que junta as regiões num rosto só.

De pontos isolados a unidades estéticas

O consenso global de Sundaram e colaboradores (2016, Plast Reconstr Surg) resume a mudança que tornou o full face possível: a toxina saiu do terço superior para o inferior, o pescoço e o terço médio, e a dose e o ponto passaram a ser definidos pela análise do músculo-alvo no contexto dos músculos vizinhos e dos tecidos moles e ósseos ao redor. O mesmo grupo, no consenso sobre tratamento combinado, recomenda olhar unidades estéticas, e não rugas isoladas, e usar dose menor de toxina, para modular e não paralisar, quando a perda de volume interfere na atividade muscular.

Na prática, isso significa trocar a pergunta "quantas unidades vão na testa?" por três outras: que músculos estão dando forma a esse rosto, quais deles trabalham contra quais, e o que acontece com o vizinho quando eu enfraqueço este.

O mapa dos pares, terço por terço

Cada terço tem músculos que levantam e músculos que abaixam. A toxina enfraquece o que recebe; o que não recebe passa a dominar. É esse desequilíbrio, planejado ou acidental, que define o resultado.

Terço superior

Frontal em destaque e depressores da sobrancelha em cinza no terço superior — Dr. Thiago Perfeito
Terço superior: o frontal (em destaque) é o elevador; corrugadores, prócero e orbicular do olho (em cinza) são os depressores. O plano do terço superior é o equilíbrio entre esses dois grupos, e a altura final da sobrancelha depende dele.

A técnica de cada área está em glabela, testa e pés de galinha; a leitura do desenho de contração, em padrões da glabela e padrões da testa.

Terço médio

Técnica: bunny lines, ponta nasal caída e sorriso gengival.

Terço inferior e pescoço

Músculos periorais com depressor do ângulo da boca e mentual em destaque — Dr. Thiago Perfeito
Terço inferior de frente: orbicular da boca e elevadores em cinza; DAO (triângulos laterais) e mentual (no queixo) em destaque. Os depressores em destaque são os alvos habituais; o orbicular e os elevadores são as estruturas cuja função o plano protege.

Fundarò e colaboradores (2026, Toxins), num consenso de um painel italiano de 14 injetores, complementado pela revisão de 16 consensos internacionais publicados entre 2004 e 2024, abrem o texto exatamente por esse ponto: o terço inferior é o mais delicado porque seus músculos têm papéis funcionais importantes, o que aumenta o risco de eventos adversos — e destacam o ultrassom para identificar as variações anatômicas de cada paciente. Técnica: DAO e mentual, queixo em casca de laranja, lip flip, código de barras, masseter, temporal e platisma.

Platisma em destaque no pescoço com as bandas mediais — Dr. Thiago Perfeito
Pescoço em três quartos: o platisma em destaque, da borda da mandíbula à clavícula, com as bordas mediais formando as bandas; esternocleidomastóideo e laringe em cinza. No plano full face, ele é o depressor que fecha o terço inferior e entra quando o contorno da mandíbula ou as bandas fazem parte da queixa.

Prioridade: o que entra primeiro

Com o mapa pronto, a ordem de prioridade sai de três filtros, nesta sequência:

  1. A queixa do paciente. O que ele vê no espelho e quer mudar vem primeiro. Full face é uma possibilidade de plano, não uma obrigação de tratar tudo.
  2. Previsibilidade. O terço superior tem as indicações aprovadas nas bulas, doses declaradas e a resposta mais estudada; nos terços médio e inferior, o uso é fora do rótulo (a exceção é o platisma, que tem dose na bula do Botox Cosmetic), e os pontos caem em músculos do sorriso, da fala e da deglutição, em que uma pequena difusão aparece como perda de função. Num paciente novo, o terço superior abre o plano e informa como aquele rosto responde.
  3. Efeito sobre o vizinho. Um tratamento pode reduzir a necessidade de outro. Tratar o DAO, por exemplo, muda a leitura do canto da boca antes de qualquer decisão de preenchimento no sulco; tratar a glabela muda o quanto o frontal precisa trabalhar.

O consenso de tratamento combinado de Sundaram e colaboradores trata esse encadeamento como padrão de cuidado: toxina e preenchedor aplicados juntos em indicações antes tratadas só com toxina, e um plano longitudinal que acompanha o paciente ao longo dos anos.

Sessão única ou escalonada

As duas formas são legítimas; o que decide é o paciente e a experiência de quem injeta.

O que a literatura mostra sobre a sessão única. Hexsel e colaboradores (2013, J Drugs Dermatol) randomizaram 90 participantes, quase todas mulheres (96,5%), com pelo menos duas indicações em cada terço da face para três faixas de dose total de abobotulinumtoxinA, de 120 a 250 U de Dysport, aplicadas no rosto inteiro na mesma sessão. A melhora significativa durou mais de 24 semanas na glabela e mais de 16 semanas na testa e nos pés de galinha, sem diferença entre os grupos de dose. O evento adverso mais frequente foi a fraqueza perioral excessiva, ligada à dose alta na região perioral. A conclusão dos autores: respeitadas as doses recomendadas, a aplicação simultânea nos três terços foi segura e eficaz, sem aumento de eventos adversos. As bulas também preveem tratamento simultâneo no terço superior: o Botox Cosmetic declara 44 U para glabela e pés de galinha juntos e 40 U para testa com glabela, e o Xeomin, um máximo de 64 U para glabela, testa e pés de galinha na mesma sessão.

Quando escalonar. A sessão em etapas é a escolha mais segura em quatro situações:

O escalonamento usa a própria revisão como degrau. A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias, na rotina do Dr. Thiago; se ficou atividade numa área tratada, o retoque é pontual, de dose pequena, só onde o músculo ainda se mexe. A área nova do plano entra como primeira aplicação daquela região, com a dose dela, e não como reforço da sessão anterior. Nova aplicação na mesma área respeita o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.

A dose total e a marca

No full face, a soma importa tanto quanto a dose de cada ponto. Três hábitos tornam essa soma controlável:

Masseter e temporal em destaque em vista lateral — Dr. Thiago Perfeito
Vista lateral com masseter e temporal em destaque. Quando entram no plano full face, os músculos da mastigação somam unidades à conta total da sessão e mudam o contorno lateral do rosto — por isso vão para a ficha como terço próprio, com indicação própria.

A ficha de um plano full face

Um plano integrado cabe numa folha:

  1. Queixa principal, nas palavras do paciente.
  2. Exame dinâmico por terço: o que cada músculo faz, assimetrias, ptose compensada, linhas em repouso.
  3. Pares a equilibrar: quais depressores entram, quais elevadores ficam livres e por quê.
  4. Prioridade e etapas: o que entra hoje, o que entra na revisão, o que fica para outra ferramenta (preenchedor, bioestimulador, tecnologia).
  5. Marca, diluição e unidades por ponto, com o total por terço.
  6. Fotos em repouso e em cada expressão, para comparar na revisão.

Para a paciente de 45 a 60 anos, que costuma chegar com queixas nos três terços ao mesmo tempo — glabela marcada, canto da boca descendo, bandas no pescoço —, essa ficha é o que transforma uma lista de pedidos num plano com começo, meio e revisão.

Erros de planejamento

  1. Tratar regiões, e não o rosto. Somar as receitas de cada página de técnica sem olhar os pares.
  2. Enfraquecer o elevador sem tratar o depressor. O exemplo clássico é a testa sem a glabela.
  3. Começar pelo terço inferior num paciente novo. É o terço em que um erro aparece como função.
  4. Transformar a revisão em reforço. Retoque é pontual; área nova é primeira aplicação.
  5. Perder a conta. Sem o total por terço na ficha, a próxima sessão começa sem referência.

Onde o plano full face se treina

Decidir o que entra hoje e o que fica para a revisão depende de ter acompanhado muitos rostos de uma sessão à seguinte. Esse raciocínio faz parte do módulo B1 (Toxina e Preenchimento) da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), cujo bloco de toxina vai da anatomia funcional dos três terços ao mapa de pontos, às doses de referência, ao masseter e à plataforma cervical. O aluno chega ao sábado na clínica INTI, em Brasília, com o pré-work gravado assistido; ali, a demonstração comentada cobre a teoria e a prática é dele, executada sob supervisão em paciente modelo, em grupo de no máximo oito médicos. Quem compara formações avançadas encontra os critérios em curso de toxina avançada: full face, masseter e platisma; os módulos estão em Cursos. O Dr. Thiago não mantém relação comercial com fabricante de toxina.

Síntese

O plano full face começa pelo mapa dos pares em cada terço, ordena as áreas pela queixa, pela previsibilidade e pelo efeito sobre o vizinho, decide entre sessão única e escalonada pelo paciente e pela experiência de quem injeta, e controla a dose total na unidade da marca em uso. A técnica de cada região está nas páginas da Biblioteca; o que esta página acrescenta é a ordem em que elas se encaixam.

Perguntas frequentes

O que é botox full face?

É o plano de toxina que considera os três terços da face e o pescoço como um conjunto. Em vez de tratar rugas isoladas, o médico define quais músculos de cada terço entram, a prioridade, a dose total e se a aplicação será feita numa sessão ou em etapas.

Pode aplicar botox no rosto inteiro na mesma sessão?

Pode, respeitando as doses recomendadas. Num ensaio randomizado com 90 participantes, a abobotulinumtoxinA aplicada nos três terços na mesma sessão foi segura e eficaz; o evento adverso mais frequente foi fraqueza perioral ligada à dose alta nessa região. As bulas do Botox Cosmetic e do Xeomin também preveem tratamento simultâneo das áreas do terço superior.

Quando é melhor fazer o full face em etapas?

No primeiro tratamento do paciente, quando o injetor está no início da curva, quando o terço inferior envolve função importante para aquele paciente ou quando a dose total fica alta. O terço superior entra primeiro e o inferior na revisão, como primeira aplicação daquela região.

Por que tratar a testa junto com a glabela?

Porque o frontal é o único elevador da sobrancelha. Enfraquecê-lo sem tratar os depressores — corrugadores e prócero — deixa a sobrancelha sem sustentação. As bulas do Botox Cosmetic e do Xeomin pedem o tratamento conjunto para reduzir o risco de queda da sobrancelha.

Qual terço é mais arriscado na toxina full face?

O terço inferior. Seus músculos participam da fala, do sorriso, da alimentação e da deglutição, o que aumenta o risco de eventos adversos, como destaca o consenso italiano de 2026 sobre o terço inferior. No ensaio de full face com abobotulinumtoxinA, o evento adverso mais frequente foi a fraqueza perioral com dose alta.

Como converter a dose total quando o plano muda de marca?

As bulas declaram que as unidades não são intercambiáveis entre as marcas. Como referência de partida, a formação do Dr. Thiago usa 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport e 1 U de Botox para 1 U de Xeomin, começando na dose equivalente ou um pouco abaixo e ajustando pela resposta — margem que pesa mais no full face, em que o total é grande.

O que fazer na revisão de um full face?

Comparar as fotos com as do dia da aplicação, terço por terço. Se ficou atividade numa área tratada, o retoque é pontual e de dose pequena; se o plano é escalonado, a área nova entra como primeira aplicação daquela região. A revisão, na rotina do Dr. Thiago, acontece entre 15 e 30 dias.

Referências

  1. Sundaram H, Signorini M, Liew S, et al. Global Aesthetics Consensus: Botulinum Toxin Type A — Evidence-Based Review, Emerging Concepts, and Consensus Recommendations for Aesthetic Use, Including Updates on Complications. Plast Reconstr Surg. 2016;137(3):518e-529e. · PMID 26910696 · DOI 10.1097/01.prs.0000475758.63709.23
  2. Sundaram H, Liew S, Signorini M, et al. Global Aesthetics Consensus: Hyaluronic Acid Fillers and Botulinum Toxin Type A — Recommendations for Combined Treatment and Optimizing Outcomes in Diverse Patient Populations. Plast Reconstr Surg. 2016;137(5):1410-1423. · PMID 27119917 · DOI 10.1097/PRS.0000000000002119
  3. Hexsel D, Brum C, Porto MD, et al. Full-face injections of variable total doses of abobotulinum toxin type A: A randomized, phase IV clinical trial of safety and efficacy. J Drugs Dermatol. 2013;12(12):1356-1362. · PMID 24301236
  4. Fundarò S, Molinari P, Brunelli G, et al. Italian Consensus and Review in Lower Face Mimetic Muscle Treatment with Botulinum Toxin-A. Toxins (Basel). 2026;18(8):332. · PMID 42646760 · DOI 10.3390/toxins18080332
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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